sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Fernando Abrucio* - Derrotas e legados do bolsonarismo

Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

Mudar o quadro atual será um processo lento e com várias frentes, necessitando da ajuda de todos os democratas

O bolsonarismo foi derrotado em seu projeto de reeleição, mas não nos abandonou por completo ainda. O fato é que o ex-presidente Bolsonaro acumulou várias derrotas desde outubro do ano passado - e provavelmente terá várias outras na Justiça e na política nos próximos meses -, só que deixou alguns legados que estão afetando negativamente o sistema democrático brasileiro. Há armadilhas que precisam ser desarmadas para que em 2026 não haja mais a preocupação com um golpe de Estado ou com a criação de um cenário de ingovernabilidade.

À primeira vista, o plano autocrático de Bolsonaro fracassou e as tentativas de insurreição autoritária estão piorando as condições jurídicas e políticas das lideranças bolsonaristas. A proposta de usar o artigo 142 da Constituição para dar um golpe de Estado, transferindo o poder às Forças Armadas, feita formalmente no dia 28 de dezembro, foi rejeitada pela cúpula militar. Como fato ou como lenda, ficou para a história a frase do comandante do Exército: “Não vou trocar 20 dias de glória por 20 anos de incômodo”.

A rejeição ao golpe não acabou com as movimentações autoritárias e golpistas, inclusive por parte de integrantes das Forças Armadas. A intentona de 8 de janeiro prova cabalmente que havia articulações, insufladas e comandadas por lideranças bolsonaristas, para tentar inviabilizar o mandato do presidente Lula. Na verdade, mais do que derrubar o governo, o propósito era destruir a ordem democrática do país, pois os terroristas invadiram os palácios que sediam os três Poderes para estabelecer uma autocracia que levaria de roldão petistas, Centrão, PSDB, União Brasil, o STF e todos aqueles que fossem democratas.

José de Souza Martins* - O poder delinquente da multidão

Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

Agitação direitista transformou o Brasil num perigoso manicômio, intencionalmente para favorecer a sobrevivência e consolidação da tirania derrubada pelo voto

As ocorrências extralegais e paralelas no próprio dia da posse do novo presidente da República e a baderna insurrecional da invasão de Brasília e dos edifícios dos Três Poderes, no dia 8 de janeiro, em seus desdobramentos e consequências, fazem revelações sociológica e politicamente decisivas para conhecer os inimigos da democracia e do país. Revelam não só o conjunto de uma trama golpista, mas principalmente a estrutura social do movimento e a diferença entre agitadores, protagonistas, promotores e protetores, vários deles secretos. Não se trata de acaso, mas de poder paralelo e organizado.

A identificação dos presos em Brasília, no dia 8, faz revelações da maior importância para definir e compreender o perfil social dos envolvidos. É gente de baixa classe média, não só pelos recursos minguados da maioria visível, mas também pela ignorância sobejamente demonstrada no ataque aos palácios como se fosse ataque ao novo governo. Governo não é um prédio nem uma parede, assim como democracia não é baderna.

Luiz Carlos Azedo - A invenção do malandro e as milícias

Correio Braziliense

Muito do que estamos vivendo na política tem raízes antropológicas. É o caso das milícias, que nunca tiveram uma relação tão promíscua com os órgãos de coerção do Estado como no governo Bolsonaro

Entre os anos de 1852 e 1853, Manoel Antônio de Almeida publicou folhetins que se tornariam, mais tarde, a obra Memórias de um sargento de milícias, um clássico do nosso romantismo. Órfão de pai aos 11 anos, era filho de portugueses: o tenente Antônio de Almeida e Josefina Maria de Almeida. Sua infância muito carente o fez cronista da baixa classe média carioca. Jornalista e escritor, com muitas dificuldades financeiras formou-se em medicina, em 1855, mas nunca exerceu a profissão. Morreu aos 31 anos, no naufrágio do navio Hermes, em 1861. Escreveu apenas mais um livro, Dois amores, além de ensaios, contos e poesias.

Ao ignorar a classe média alta e o maniqueísmo elitista com que era retratada à época, Manoel Antônio de Almeida descreveu a vida real do povo e a figura do malandro — pobre, sem ideal, vivendo da sorte e de oportunidades que surgiam. O cenário do romance é o Rio de Janeiro da corte de Dom João VI, que permaneceu no Brasil de 1808 a 1821. O grande protagonista da história é um anti-herói, Leonardo, filho de imigrantes portugueses — Leonardo Pataca e Maria da Hortaliça —, que se conheceram no navio que os trouxe ao Brasil “após uma pisadela e um beliscão”.

Vera Magalhães – Três pra lá, um pra cá

O Globo

A diretriz de política econômica do governo começou como um bolero descompassado: três pra lá, um pra cá. Enquanto Fernando Haddad, Simone Tebet e Geraldo Alckmin tentam coordenar um discurso de responsabilidade fiscal, o presidente Lula insiste em ficar no palanque fazendo falsas contraposições entre o necessário rigor com as contas públicas e sua promessa, também urgente, de promover a reparação da desigualdade social. A pergunta é: o que um governo já acossado pelo extremismo golpista tem a ganhar com esse diversionismo num tema tão sensível? Absolutamente nada.

Lula parece fazer um cálculo semelhante ao que levou Jair Bolsonaro a falar para convertidos durante os quatro anos de seu mandato: que é preciso manter uma base fiel, o lulopetismo raiz, mobilizada e evitar que ela se decepcione com os rumos do governo. Acontece que esse eleitor não deixará de fazer o L se o governo buscar coadunar as promessas de reduzir o fosso social com uma política fiscal que mostre disposição de reduzir a dívida e, consequentemente, os juros futuros, esses que Lula contrapôs de forma equivocada aos investimentos sociais, como se fossem gastos da mesma natureza, ditados apenas pela vontade do governo de turno.

Bernardo Mello Franco - Etchegoyen quer outra anistia

O Globo

Chefe do GSI no governo Temer, general ataca STF, reclama da imprensa e faz ameaça velada a Lula

O general Sérgio Etchegoyen está enfezado. Acha que os golpistas do 8 de Janeiro viraram vítimas de injustiça. Em entrevista à TV Pampa, o ex-ministro esbravejou contra os tribunais, o governo e a imprensa. Ao comentar os ataques à democracia, usou eufemismos como “acidente” e “triste episódio”.

O militar chefiou o Gabinete de Segurança Institucional no governo Temer. De volta à planície, foi contratado por uma agência de comunicação corporativa. Pendurou a farda, mas continuou a ser lido e requisitado como porta-voz da caserna.

Flávia Oliveira - Civilizar o governo

O Globo

Discretamente após a vitória nas urnas, intensamente após a gravíssima tentativa de golpe bolsonarista, o presidente da República vem agindo para civilizar o governo, desmilitarizar a política, despolitizar as Forças Armadas. Tomara seja essa a santíssima trindade do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva na missão de fortalecer a democracia, para a qual foi eleito tanto quanto para enfrentar as desigualdades e, mais uma vez, superar a fome, que ora acossa 33 milhões de brasileiros.

Civilizar o governo é, ao mesmo tempo, admitir civis e banir a brutalidade. Seja nas indicações para cargos da administração pública, seja na recomposição das vias de diálogo entre governo e sociedade, é visível a intenção de convidar à mesa um Brasil que o ex-presidente execrou. Já na noite da posse, em 1º de janeiro, Lula assinou resoluções que reaproximam o Executivo federal de organizações da sociedade civil. Num decreto, revogou a extinção de órgãos colegiados determinada por Jair Bolsonaro; noutro, incluiu representantes de ONGs no Conselho Deliberativo do Fundo Nacional do Meio Ambiente. Por Medida Provisória, restabeleceu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), cuja dissolução fora denunciada ao Supremo Tribunal Federal em arguição da OAB a pedido da Ação da Cidadania.

Ruth de Aquino- Montagem de Lula como alvo é fotojornalismo?

O Globo

Admiro a Folha de S Paulo por seu jornalismo combativo. Assino, leio, tenho afeto por seus editores, colunistas, repórteres. Acho ousada e criativa a seleção de imagens nacionais e internacionais. Mas me incomodou a fotomontagem na capa do jornal de hoje. Lula sorrindo, cabeça baixa, ajeitando a gravata, e um vidro estilhaçado na frente, como se um tiro ou um projétil se dirigisse a seu coração.

A legenda explica que a foto foi feita com “múltipla exposição”. Ou seja, uma foto de dois ângulos diferentes, em dois tempos quase simultâneos. Minha primeira reação: foi um equívoco, num Brasil machucado pela violência, assolado por tantas fake news, em texto e imagem. Pode-se dizer, em defesa da Folha, que o jornal quis criar uma narrativa: a de que os golpistas de Bolsonaro miram mesmo em Lula. A foto construída alertaria para o real perigo que a vida de Lula corre. E o sorriso provaria que o presidente, símbolo do Poder maior e da democracia, resistiu. Mas...

Eliane Cantanhêde - Pacto de convivência

O Estado de S. Paulo

Militares prometem agir contra bolsonarização e golpistas; Lula vai estudar reivindicações

Quem é covarde? O presidente Lula, que admite “desconfiança” em relação a militares, depois da tentativa de golpe contra sua eleição, as instituições e a democracia? Ou os civis e militares que participaram, ou não viram, não ouviram e não sabiam da invasão de Planalto, Congresso e Supremo?

Se Lula precisa equilibrar sua justa indignação e a premência de normalização das Forças Armadas, é preciso mais ainda que militares relevantes como o general da reserva Sérgio Etchegoyen não joguem mais lenha na fogueira. Quem lucra? O País, o governo constituído e as Forças Armadas.

Fernando Gabeira -O clima de tensão para os novos governos

O Estado de S. Paulo

A partir de Bolsonaro, o clima ficou tenso e não se abrandará tão cedo. Mas sucesso de Lula pode neutralizar a oposição radical

Tenho escrito artigos sobre a possível trajetória do novo governo, de um lado, e do outro sobre as perspectivas da oposição de extrema direita.

Como os dois temas são entrelaçados – o sucesso do governo pode neutralizar a oposição mais radical –, tentarei abordar tudo num mesmo espaço.

Existem medidas já tomadas pelo governo que são difíceis de combater. Uma delas é a política social, sobretudo a garantia do pagamento do Bolsa Família no valor de R$ 600.

Jair Bolsonaro já pagava, por razões eleitorais, o Auxílio Brasil de R$ 600, além disso, anunciou várias vezes que o manteria, caso eleito.

Vinicius Torres Freire - O trabalho no país dos golpes

Folha de S. Paulo

Apesar do tumulto, indicadores crescem bem, mas desaceleração virá

A vida anda tão apinhada de golpes que a gente se esqueceu de assuntos elementares da existência. Por exemplo, do andamento da economia e, mais essencial de tudo, do trabalho. Tem golpe em Brasília, golpe nas calçadas e nos tuítes dos quarteis, golpe de bilionário na praça, golpe de intrigas na Fiespgolpe na formatura de médicos da USP.

O assunto é mais chato, decerto, mas acabam de sair as estatísticas de emprego do IBGE, as de novembro. Há indícios diversos de que a economia está esfriando, de fato. Mas os números do mundo do trabalho sugerem até agora apenas uma desaceleração ligeira —ou nem isso.

Bruno Boghossian – Lula, os ricos e o mercado

Folha de S. Paulo

Antagonismo não é só resgate ideológico petista e cumpre funções de curto, médio e longo prazo

O mercado não tem coração, os ricos devem pagar mais impostos, e os empresários só ganham dinheiro porque seus empregados trabalharam. As três declarações foram dadas por Lula em eventos e entrevistas nos últimos sete dias. Nenhuma é inédita ou foge à cartilha tradicional do PT, mas a escolha das palavras oferece um termômetro das motivações políticas do presidente.

Lula fez campanha em 2022 com uma plataforma voltada para a população mais pobre. Vitorioso, ele reforçou o compromisso com essa agenda e acentuou em seu discurso uma dose de antagonismo em relação ao empresariado e o mercado financeiro. Agora, ele agrega essa retórica à sua rotina como presidente.

Hélio Schwartsman - Tempero sádico

Folha de S. Paulo

Prisões poderiam ser colônias de férias?

"Não achem esses terroristas [...] que a prisão seja uma colônia de férias", disse o ministro do STF Alexandre de Moraes a respeito de bolsonaristas detidos após o 8 de janeiro que reclamavam das condições do encarceramento. Objetivamente, Moraes tem razão. Prisão é uma coisa, colônia de férias, outra. Nas entrelinhas, porém, penso que o ministro esteja sugerindo que a cadeia deve mesmo ser um lugar pouco agradável ou até terrível. É um convite a uma reflexão sobre a natureza da pena.

Ruy Castro - Opções para me mandar do Brasil

Folha de S. Paulo

O problema de certos lugares é que, agora, estão cheios de malucos que vivem numa realidade paralela

Nos últimos quatro anos, asfixiado pela presença pestífera de Bolsonaro, pensei em me mandar do Brasil. O problema era para onde. Conheço uma quantidade de cidades lá fora e tenho amor por muitas, mas não gostaria de morar nelas. Quando adotamos um país estrangeiro, tendemos a nos envolver com seus problemas como se fôssemos cidadãos. É um erro. Um lugar, para ser perfeito, teria de ser imaginário.

Fernando de la Cuadra* - Los principales escollos del gobierno Lula


No existe una opinión consensual con relación a la respuesta dada por el actual gobierno a los actos de vandalismo y destrucción ocurridos el pasado domingo 8 de enero. Hay quienes sostienen que la reacción de las autoridades ha sido la adecuada, deteniendo a una parte de los invasores de la Plaza de los Tres Poderes, fichando a sus principales líderes y tratando de descubrir la trama de conexiones y articulaciones que fueron montadas hasta desembocar en los actos de barbarie difundidos profusamente por los medios de comunicación y las redes sociales.

Sin embargo, hay quienes plantean que lo realizado hasta el momento por la administración del Presidente Lula da Silva es insuficiente para desmontar el proyecto insurgente de la extrema derecha brasileña, que además ha contado con el apoyo de movimientos con perfil neofascista que existen en otras latitudes del planeta. De hecho, a pesar de algunas diferencias, la ocupación de los edificios públicos de Brasilia, trajeron a la memoria, casi inmediatamente, los luctuosos acontecimientos producidos el 6 de enero de 2021, con el asalto al Capitolio en la capital de los Estados Unidos.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Lula continua a derrapar quando fala de economia

O Globo

Na primeira entrevista depois da posse, o presidente repetiu ideias do manual do populismo de esquerda

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou sua primeira entrevista após a posse para criticar o sistema de inteligência do governo, incapaz de deter a barbárie do 8 de janeiro, e pedir a punição dos responsáveis. É também o desejo da maioria da população brasileira. Infelizmente, Lula deixou transparecer na entrevista à GloboNews sua visão turva sobre temas cruciais para a economia. Não custa lembrar: o fracasso econômico de seu governo teria como efeito nefasto a realimentação da descrença na democracia e do golpismo.

Questionado se acredita haver antagonismo entre as responsabilidades fiscal e social, Lula respondeu que sim, em razão da “ganância” dos mais ricos, resposta extraída do manual do populismo de esquerda. Os fatos: um governo que gasta mais do que arrecada aumenta a dívida pública; quanto maior ela fica, maior a percepção de risco e mais altos os juros pagos para atrair compradores de títulos da União; quanto mais se gasta com isso, menos dinheiro sobra para programas sociais.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Os Pacifistas

Música | Canção Amiga - André Mehmari e Monica Salmaso

 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Opinião do dia – Theodoro W. Adorno*

"A imagem do líder satisfaz o duplo desejo do seguidor de se submeter à autoridade e de ser ele próprio a autoridade. Isso corresponde a um mundo no qual o controle irracional é exercido, apesar de ter perdido sua convicção interna em função do esclarecimento universal. As pessoas que obedecem aos ditadores sentem que eles são supérfluos. Elas se reconciliam com essa contradição por meio da presunção de que elas próprias são o opressor cruel."

*Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno (1903-1969) foi um filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor alemão. É um dos expoentes da chamada Escola de Frankfurt, juntamente com Max Horkheimer, Walter Benjamin, Herbert Marcuse, Jürgen Habermas, entre outros/
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Merval Pereira - Acertando os ponteiros

O Globo

E sensata a reunião do presidente Lula com os comandantes militares

A crise latente entre as Forças Armadas e o governo recém-eleito é consequência da politização dos militares levada a cabo pelo ex-presidente Bolsonaro, com a intenção de que apoiassem o golpe militar que articulava desde mesmo a campanha presidencial de 2018. Mas também do descaso da sociedade e dos políticos em discutir o papel dos militares num governo democrático, dando importância a suas demandas e projetos.

O apoio das Forças Armadas ao golpe de Estado tentado no dia 8 de janeiro não aconteceu de maneira formal, mas setores militares aderiram, participando como ativistas ou facilitadores do vandalismo. Segundo Adriano de Freixo, professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense, num estudo sobre os militares e o governo Bolsonaro que já abordei aqui na coluna antes dos acontecimentos recentes, as Forças Armadas têm dificuldade para lidar com o controle civil desde quando foi criado o Ministério da Defesa, que deveria ter sido comandado sempre por um civil.

William Waack - Falta respeito

O Estado de S. Paulo

A relação entre Lula e os militares está num ponto crítico

O princípio da autoridade depende do respeito entre quem manda e quem obedece. Inversamente, desconfiança mútua corrói a capacidade de dar ordens e dificulta que sejam cumpridas.

É o ponto em que está no momento a relação entre Lula e os militares.

Os resultados que isto produz estão em Command, mais uma obra monumental de Sir Lawrence Freedman (do clássico Strategy), do King’s College de Londres, que acaba de ser publicada. O foco é entender como a relação entre autoridades civis e militares condiciona decisões de todo tipo, sobretudo em guerras.

“Os que dão as ordens deveriam ter a autoridade que traz o respeito de subordinados”, escreve Freedman. “Autoridade é algo a ser conquistado, não para ser dada como certa – e isso vale para os civis e para os generais.”

Luiz Carlos Azedo - Uma reforma militar será inevitável

Correio Braziliense

Reforma militar pode ganhar apoio da sociedade, principalmente da juventude, em razão dos últimos acontecimentos envolvendo as Forças Armadas

Recém-eleito, com 288 mil votos, o jovem deputado Amom Mandel (Cidadania), de 21 anos, o mais votado no Amazonas para Câmara dos Deputados, antes mesmo de tomar posse, iniciou uma campanha para acabar com o serviço militar obrigatório, um verdadeiro tabu para as Forças Armadas. “Estou preparando um projeto para propor o fim do alistamento militar obrigatório. Qual a sua opinião?” — anunciou no Twitter, a sua principal ferramenta de intervenção política. A proposta provocou 3.567 comentários e teve 1.538 compartilhamentos, o que já é suficiente para se tornar uma causa com ressonância na sociedade e posicionar seu mandato junto à opinião pública.

Maria Hermínia Tavares* - Sem fórmulas fáceis

Folha de S. Paulo

Frente de batalha contra extremistas também é cultural, no plano dos valores

A democracia convive mal com a radicalização política. Por isso, desradicalizar, verbo que arranha os ouvidos, é uma das tantas urgências que o governo e a sociedade brasileira têm diante de si.

Na sequência das imagens panorâmicas do ataque da extrema direita que a TV transmitiu ao vivo, no domingo (8), as emissoras vêm mostrando, a cada dia, os detalhes da destruição. Ela foi gestada pela pregação de Bolsonaro contra as eleições e as instituições democráticas; facilitada pela omissão do governo do Distrito Federal; e executada por indivíduos que se consideram em guerra contra um imaginário perigo comunista, contra o qual pensavam desencadear o golpe final.

Bruno Boghossian - Quem procura acha

Folha de S. Paulo

Vice-procurador que alertou para risco de desinformação sobre urnas foi demitido em 2021

No dia 3 de maio de 2020, Jair Bolsonaro foi à rampa do Palácio do Planalto para saudar uma manifestação a favor de um golpe de Estado. O então presidente foi até o grupo, que pedia uma intervenção militar no país e o fechamento do STF, para fazer um ataque ao tribunal. "Não vamos admitir mais interferência. Acabou a paciência", afirmou.

A Procuradoria-Geral da República não viu problema no episódio daquele domingo. Meses depois do ato, a equipe de Augusto Aras se recusou a abrir uma investigação contra o presidente, com o argumento de que o comportamento de Bolsonaro não representava um "risco real" ao regime democrático.

Thiago Amparo - Bolsonaro, o (quase) fugitivo

Folha de S. Paulo

Biden precisa avaliar se quer bancar custo político cada vez mais elevado de abrigá-lo

Imbróglios convergem para tornar a presença de Jair Bolsonaro em solo estadunidense difícil de engolir para a diplomacia americana.

Não cabe bem à autoimagem dos Estados Unidos de parceiro estratégico do Brasil abrigar, em seu solo, um ex-presidente agitador de um golpe de Estado pior do que a invasão do Capitólio. Com a condenação do vandalismo em Brasília por Rússia e Itália, possíveis locais de asilo para Bolsonaro, o ex-presidente possui agora poucas cartas na manga que não viver na Flórida à custa de empresários brasileiros apoiadores do golpe.

Ruy Castro - Tiros no pé - ou no casco

Folha de S. Paulo

Sem as ferraduras presidenciais, Bolsonaro está com a lei nos calcanhares: todos os quatro

Bolsonaro dá um tiro no pé. Bolsonaro dá outro tiro no pé. Os cinco maiores tiros de Bolsonaro no pé. Os dez maiores tiros de Bolsonaro no pé. Os maiores tiros de Bolsonaro no pé antes, durante ou depois das eleições. Etc. É o que o Google nos dá às palavras "Bolsonaro" e "tiro no pé". Referem-se às inúmeras vezes em que, desde a sua posse, Bolsonaro tentou fulminar as instituições e acabou fuzilando o próprio pé.

O tiro no pé é a consequência de uma aposta. Resulta de um lance alto, que pode dar certo ou não. O sensato seria primeiro calcular as probabilidades. Mas o verdadeiro apostador não faz isto. Ele joga às cegas, certo de que vai ganhar. O 7 de Setembro de 2021, por exemplo, foi um tiro no pé: Bolsonaro tentou o golpe, não encontrou respaldo e, brochíssimo, teve de se humilhar diante do STF.

Vinicius Torres Freire - Bancos na jugular da Americanas

Folha de S. Paulo

Instituições financeiras querem forçar acionistas a entrar com dinheiro e vender ativos

Um representante de um dos bancos que vão tomar um espeto da Americanas diz que "agora, é preciso apertar a empresa e fazer com que seus acionistas maiores assumam responsabilidades, o bastante para que a companhia não fuja com o dinheiro [sic], mas nem tanto, a ponto de que a empresa deixe de ser operacional".

É público que os bancos maiores, pelo menos, querem evitar que a Americanas saque das suas contas bancárias sem supervisão e controle, sem que explique o que vai fazer do dinheiro (a quem vai pagar, se vai, por qual motivo etc.). O BTG Pactual, por exemplo, conseguiu nesta quarta-feira uma decisão judicial provisória nesse sentido.

Celso Ming - Um bom momento para o Brasil

O Estado de S. Paulo

O crescimento do PIB da China de apenas 3% em 2022, o mais baixo desde 1976, levantou apreensões e parece ter acentuado temores com o agravamento da recessão global. Mas é preciso pensar fora dessa caixa e pensar do ponto de vista do Brasil.

A principal causa da desaceleração da segunda usina produtiva mais importante do mundo foi a chamada política “covid zero”, que obrigou a população dos maiores centros do país a permanecer em casa. A menos que ocorra um recrudescimento da pandemia, hoje improvável, essa quebra não vai se repetir neste ano. Ao contrário, não há por que duvidar de que se cumpra a meta do governo Xi, de um crescimento entre 5,0% e 5,5%, número que atenua a perspectiva de recessão global.

Adriana Fernandes - A estratégia de Lula para o salário mínimo

O Estado de S. Paulo

É assim que a banda toca nas negociações sindicais; pede-se sempre mais

O presidente Lula quer aumentar o valor do salário mínimo dos atuais R$ 1.302 para R$ 1.320 a partir de 1.º de maio.

Isso é certo. O presidente deu tempo, no entanto, ao seu ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para que sua equipe acompanhe com lupa a evolução dos gastos da Previdência Social, que sofrem impacto na veia com a alta do salário mínimo – já que ele é usado como referência na concessão da maioria dos benefícios.

Lula até queria anunciar na reunião de ontem com sindicalistas que estava no radar do governo a possibilidade desse aumento acontecer no Dia do Trabalhador, a depender da evolução das contas públicas.

O governo decidiu, porém, esperar o monitoramento da área econômica porque não se tem certeza de como será o crescimento vegetativo da folha do INSS depois que o governo Bolsonaro acelerou a concessão de novos benefícios na antessala das eleições presidenciais.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Instituições têm de punir os golpistas infiltrados no Estado

O Globo

Parlamentares, policiais e militares envolvidos no 8 de janeiro não devem ser protegidos por corporativismo

Não há dúvida de que os Poderes da República reagiram com rapidez, firmeza e união aos ataques golpistas perpetrados por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro em Brasília no dia 8 de janeiro. Mas a necessária condenação ao terrorismo é o mínimo que se espera das autoridades. É preciso ir além do simples repúdio traduzido em frases de efeito. É fundamental agir para que barbárie semelhante não se repita nem se propague, investigando e punindo não só seus executores, mas também seus financiadores, autores intelectuais e incentivadores. Em particular aqueles que, detentores de mandatos populares conquistados nas urnas, usam as redes sociais para chancelar vândalos que conspiram contra a democracia.

No Congresso Nacional, uma das instituições depredadas pelos golpistas durante a infâmia brasiliense, os presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), deram demonstrações inequívocas no apoio à democracia. Precisam agora dizer o que farão em relação aos parlamentares que desonram a Casa com acenos aos vândalos ou disseminam mentiras que confundem a opinião pública e fazem o jogo do golpismo.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade -- Canto do Rio em Sol

 

Música | Choronas - Brasileirinho (Waldir Azevedo)

 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Opinião do dia - Jürgen Habermas*

A ideia básica é a seguinte: o princípio da democracia resulta da interligação que existe entre o princípio do discurso e a forma jurídica. Eu vejo esse entrelaçamento com uma gênese lógica de direitos, a qual pode ser reconstruída passo a passo. [...] o princípio da democracia só pode aparecer como núcleo de um sistema de direitos. A gênese lógica desses direitos forma um processo circular, no qual, o código do direito e o mecanismo para a produção de direito legítimo, portanto o princípio da democracia, se constituem de modo co-originário.”

*Jürgen Habermas. Direito e Democracia entre facticidade e validade, p.158, 2ª Edição. Editora Tempos Brasileiros, 1997

 

Vera Magalhães - 'Argentina, 1985' e o Brasil de 2023

O Globo

Discussão sobre punir ou não militares é reeditada diante da atuação das Forças Armadas nos atos de 8 de janeiro

Se o Brasil impede qualquer jornalista de se desligar da política nas férias, o entretenimento também não contribui. Assistir ao maravilhoso “Argentina, 1985”, vencedor do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, permite transpor para o Brasil pós-8 de janeiro uma série de dilemas vividos na redemocratização dos países da América do Sul, que nossos vizinhos resolveram de forma muito distinta da nossa.

O filme revisita a controvérsia, havida lá e cá, a respeito da conveniência de julgar os militares pelos crimes de tortura, desaparecimento e morte de cidadãos durante a ditadura, contra a ideia, que as Forças Armadas de lá tentaram emplacar sem sucesso, de que se tratava de uma “guerra” e, portanto, caberia uma anistia ampla em nome da pacificação do país.

Por lá prevaleceu a ideia da necessidade de acertar contas com a História. “Para que nunca repitamos”, insistem os responsáveis por acusar Jorge Videla e os demais comandantes das juntas militares.

Aqui, depois de abraçarmos a tese da anistia ampla, geral e irrestrita, ensaiamos reabrir o assunto com a Comissão da Verdade, as pensões a anistiados e no Supremo Tribunal Federal, mas nunca fizemos um julgamento como aquele, aberto ao público, expondo a realidade dos porões.

Bernardo Mello Franco - Bolsonaristas em fuga

O Globo

De olho em 2026, Tarcísio e Zema se distanciam após fracasso de intentona fascista

Jair Bolsonaro não está morto, mas suas ações despencaram no mercado futuro. O capitão saiu das urnas com 58 milhões de votos e uma tropa reforçada no Congresso. Três meses depois, amarga um cerco judicial e começa a ser abandonado por aliados.

O Supremo incluiu o ex-presidente no inquérito que investiga os ataques golpistas do 8 de Janeiro. Em outra frente, o TSE acrescentou novas provas aos processos a que ele responde por crimes eleitorais.

Com o fracasso da intentona fascista, Bolsonaro pode ser preso e ficar inelegível — não necessariamente nesta ordem. Isso precipitou a disputa por seu possível espólio em 2026.

Elio Gaspari - A direita de Bolsonaro

O Globo

O 8 de janeiro expôs um golpismo inédito

No dia 1º de novembro, logo depois da derrota eleitoral, Jair Bolsonaro gabou-se:

— A direita surgiu de verdade em nosso país.

Na tarde de 8 de janeiro, viu-se em Brasília o que é a direita de Bolsonaro. Direita, o Pindorama sempre teve, mas a de Bolsonaro tem características próprias e inéditas. É uma direita com bases populares, mobilizável para atos de delinquência. Noves fora George Washington de Oliveira Sousa, gerente de um posto de gasolina no Pará que está preso, 23 dos 1.500 presos de Brasília tinham antecedentes criminais. O George Washington bolsonarista planejava um Riocentro 2.0, explodindo um caminhão de combustível no pátio do Aeroporto de Brasília, sincronizado com um corte de energia. Esse é o braço terrorista dessa direita.

No braço dos atentados de 8 de janeiro estavam duas figuras singulares.

Uma é Maria de Fátima Mendonça Jacinto Souza, a “Fátima de Tubarão” (SC), de 67 anos. Ela invadiu o Palácio do Planalto, avisando:

— Vamos para a guerra, é guerra agora. Vamos pegar o Xandão agora.

Xandão é o ministro Alexandre de Moraes.

Luiz Carlos Azedo - Zema, Leite e Tarcísio já disputam a liderança da direita

Correio Braziliense  

Essas são as peças que estão se movendo no tabuleiro, no lusco-fusco do isolamento da extrema direita; a polarização Bolsonaro versus Lula se mantém na base do “hay gobierno, soy contra”

O ex-presidente Jair Bolsonaro não morreu, mas a possibilidade de que venha a se tornar inelegível, em razão de seu envolvimento na tentativa de golpe contra a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, precipitou uma corrida entre os governadores de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo); do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB); e de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Cada um, ao seu estilo, busca liderança das forças conservadoras do país para a formação de uma nova direita, mais moderada e comprometida com a democracia.

Essas são as peças que estão se movendo no tabuleiro, no lusco-fusco do isolamento da extrema direita, num ambiente político em que a polarização Bolsonaro versus Lula se mantém na base do “hay gobierno, soy contra”. A expressão criada pelos anarquistas espanhóis é a tradução popular de uma filosofia que vê todas as formas de autoridade governamental como desnecessárias e indesejáveis. Uma utopia irrealizável, o anarquismo defende uma sociedade baseada em cooperação voluntária e livre associação de indivíduos e grupos. No Brasil, o bolsonarismo incorporou a violência anárquica como forma de luta.

Bruno Boghossian - Bolsonaro, o TSE e o avestruz

Folha de S. Paulo

Tribunal colheu impressões digitais do ex-presidente em processos que pedem sua inelegibilidade

Quando livrou Jair Bolsonaro de um processo pelo disparo de mensagens em massa na eleição de 2018, o TSE lançou uma advertência. O ministro Alexandre de Moraes disse que conhecia o mecanismo usado para espalhar desinformação e avisou que o tribunal cassaria quem repetisse aquela conduta em 2022. "Não podemos criar de forma alguma um precedente avestruz. Todo mundo sabe o que ocorreu", declarou.

Naquele julgamento, os integrantes do TSE reconheceram as irregularidades da campanha, mas não conseguiram provar a participação direta de Bolsonaro na divulgação de notícias falsas. Sem essa conexão, segundo os ministros, não houve elementos suficientes para cassar o mandato do então presidente. O avestruz enterrou a cabeça no chão.

Mariliz Pereira Jorge - A radicalização dos idosos

Folha de S. Paulo

Ao abraçarem seita bolsonarista, encontram novo propósito de vida e senso de pertencimento

É fácil desdenhar e afirmar que entre os golpistas há um bando de velhos que deveria voltar para o bingo. Falamos em delírio coletivo, saudosismo ou demência sobre gente que acampou em frente aos quartéis e participou da quebradeira, mas a radicalização dos idosos precisa ser olhada com lupa.

Manipulação, abuso e controle emocional são ingredientes usados pela extrema direita para cooptar seguidores, e os idosos foram alvo fácil da seita bolsonarista. Os não ativos digitais têm ainda mais dificuldade de lidar com notícias falsas, teorias da conspiração, trolls e deep fakes.

Hélio Schwartsman - 'Memento mori'

Folha de S. Paulo

Herança tóxica de Bolsonaro amplia desamparo dos que perdem o poder

Que o poder sobe à cabeça não é novidade para ninguém. Os romanos já sabiam disso e, na tentativa de minorar os efeitos da "hýbris", cada vez que um general vitorioso desfilava em triunfo pela cidade eterna, punham um escravo em sua carruagem para cochichar-lhe "memento mori" ao pé do ouvido. "Memento mori" significa "lembra-te de que vais morrer". Não sei se essa prática instilou humildade em algum césar, mas serve para fazer com que os romanos posem de povo sábio.

Marcelo Godoy - O terrorismo e o ex-presidente

O Estado de S. Paulo

O fracasso do projeto de Bolsonaro de alterar a lei antiterror salvou seus apoiadores

Em 2019, o deputado federal Vitor Hugo (PL-GO), então líder do governo, apresentou um projeto de lei que criava a Autoridade Nacional Contraterrorista. O deputado bolsonarista queria superpoderes para esse órgão, subordinado diretamente ao presidente da República.

O plano antiterror formulado pelo major, um ex-oficial das Forças Especiais (FE) do Exército, dizia que a lei poderia ser aplicada “também para prevenir e reprimir a execução de ato que, embora não tipificado como crime de terrorismo”, fosse “perigoso para a vida humana ou potencialmente destrutivo em relação a alguma infraestrutura crítica, serviço público essencial ou recurso-chave”. Também afirmava que a norma podia ser usada para reprimir atos que tivessem a “aparente intenção de intimidar ou coagir a população civil ou de afetar a definição de políticas públicas por meio de intimidação, coerção, destruição em massa, assassinatos, sequestros ou qualquer outra forma de violência”