segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A economia que não se pode adiar. Por Mônica Sodré

Valor Econômico

A inserção internacional do Brasil precisa ser mais proativa e estratégica, com uma visão mais contemporânea sobre comércio internacional

O Brasil de 2026 enfrenta uma encruzilhada silenciosa, mas decisiva. Enquanto o debate público se concentra nos indicadores de curto prazo e em escândalos, cinco transições estruturais - climática, energética, digital, geopolítica e corporativa - redefinem as regras do jogo econômico global. Nossa capacidade de antecipá-las e gerenciá-las determinará não apenas taxas de crescimento, mas nosso lugar no mundo das próximas décadas.

O primeiro desafio é garantir que um de nossos principais ativos, o agronegócio, continue a ser um pilar de riqueza diante da reconfiguração do tabuleiro global da agricultura, e da alteração do mapa da produção de alimentos, resultado de um planeta que esquenta e que teve em 2025 o terceiro ano mais quente da história, de acordo com dados do observatório climático da União Europeia, o Copernicus Climate Change Service.

Alterações no regime de chuvas e o aumento da temperatura média não são mais cenários hipotéticos e sim variáveis que impactam a produtividade do café, da soja, do cacau e definem o mapa do stress hídrico do país. As perguntas cruciais para o planejamento público e privado são: temos clareza sobre como nossa economia se comportará nos diferentes cenários de aquecimento? Temos uma estratégia para redução e gestão de riscos e vulnerabilidades? Sem um diagnóstico preciso dos impactos no emprego, na renda e no PIB regional, estamos navegando no escuro e alocando recursos de forma pouco eficiente. É estratégico que o Estado promova as respostas necessárias e propicie as trajetórias de engajamento e de adaptação do setor produtivo.

Paralelamente, a transição energética exige uma nova engenharia econômica e fiscal, capaz de responder como financiaremos a necessária transição para uma economia menos intensiva em carbono, uma vez que renováveis não geram dividendos no volume e proporção que suas alternativas fósseis. O petróleo, que hoje injeta cerca de R$ 100 bilhões anuais em tributos e sustenta orçamentos municipais e estaduais, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) de 2024, tem seu horizonte alterado pela exaustão de campos maduros e pela pressão global por descarbonização.

Como financiaremos, então, uma economia de baixo carbono sem impactar, no curto prazo, esta importante fonte de receita para o orçamento público brasileiro? Além disso, a expansão das renováveis esbarra em gargalos crônicos, como a falta de linhas de transmissão e capacidade de armazenamento e o desperdício de energia gerada. Este não é apenas um tema técnico, mas um debate geopolítico e econômico-financeiro que colocará o Nordeste, com seu potencial renovável, em novo patamar de protagonismo político nos próximos anos.

Nossa inserção internacional também precisa ser mais proativa e estratégica, com uma visão mais contemporânea sobre comércio internacional. Em um mundo fragmentado por guerras e no qual cresce a instabilidade e o protecionismo, o Brasil pode ser um fornecedor global estável de alimentos, energia limpa e minerais essenciais. Para isso, além da necessária adaptação a padrões de sustentabilidade exigidos internacionalmente, como é o caso do Acordo UE-Mercosul, é urgente superar o desconhecimento crônico sobre nossas soluções, como os biocombustíveis e as técnicas de agricultura tropical que sequestram carbono. Precisamos liderar nos fóruns onde as métricas são definidas, “tropicalizando” padrões que hoje não nos favorecem, e empreender um esforço estratégico para reconstruir nossa imagem, ainda ofuscada por velhos problemas crônicos como segurança pública e desmatamento.

Nesse mesmo tabuleiro regional, a situação da Venezuela e a instabilidade projetada sobre a América Latina e sobre todo o globo deixam de ser um tema periférico e passam a integrar a equação de soberania, energia e minerais críticos, em um momento em que o Brasil busca estruturar governança, previsibilidade e inserção competitiva nesses setores. A Venezuela concentra algumas das maiores reservas de petróleo do mundo, inseridas em um contexto de restrições operacionais, reconfiguração institucional e forte influência de dinâmicas geopolíticas externas, justamente quando o sistema global de energia e minerais passa por uma profunda reorganização. Para o Brasil, ignorar esse entorno é desistir de exercer liderança política econômica na América do Sul quando estabilidade, previsibilidade e integração regional se tornam vantagens competitivas, além de uma projeção internacional individual do país.

Ainda, a adaptação precisará ser um imperativo também corporativo. Eventos climáticos extremos já perturbam cadeias de suprimentos, afetam a produtividade do trabalho e exigem resiliência operacional. Exemplos não faltam: a refrigeração de transporte de alimentos e medicamentos precisará ser intensificada, operações de importação e exportação serão impactadas por danos a infraestrutura portuária, centros de resfriamento para pessoas precisarão ser criados. A mudança também afetará a área de seguros, demandando novas linhas de produtos, o incentivo à adoção de técnicas e ferramentas sustentáveis como critérios para acesso a coberturas e precisaremos, ainda, de novos modelos de financiamento da segurança alimentar brasileira, já que recursos públicos não serão suficientes para cobrir perdas da produção resultado desses eventos.

Por último, como nos posicionaremos diante do futuro da economia digital, que deixa de ser ferramenta comercial e passa a ser infraestrutura crítica para a segurança nacional, com implicações sobre soberania. Decisões sobre parcerias para redes inteligentes, energias renováveis e agricultura de precisão vão determinar não apenas o custo e a velocidade de nossa transição para uma economia de baixo carbono, mas também nosso grau de autonomia estratégica e competitividade futura. Essas opções implicam diferentes níveis de exposição à vigilância estrangeira, de vulnerabilidade a sanções internacionais e de dependência tecnológica. Um exemplo claro está no campo: dados sobre solo, clima e produtividade são ativos sensíveis: se concentrados em mãos estrangeiras, colocam em risco a soberania sobre nossa produção. Da mesma forma, o controle sobre redes de comunicação e satélites afeta diretamente nossa capacidade de monitorar o território e de manter comunicações vitais em crises.

A performance da nossa economia, e o bem-estar das nossas pessoas, dependem das escolhas de hoje num mundo em mudança. Há um ano novo começando, com eleições que se avizinham e, portanto, com novas oportunidades para as escolhas que não podem mais ser adiadas.

*Mônica Sodré é CEO da Meridiana, sênior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e cientista política com doutorado pela Universidade de São Paulo.


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