segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Trump, a Groenlândia e a Amazônia. Por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Se qualquer país quiser defender os seus territórios e interesses, deve preparar-se militarmente e diplomaticamente, sob risco de perder relevância

O mundo definitiv a ment e mudou, não cabendo mais nos parâmetros mediante os quais o concebíamos. O mundo, tal como emergiu depois da 2.ª Guerra Mundial, com a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e várias agências internacionais, cessa progressivamente de existir. Agências como a ONU perderam a sua neutralidade, adotando posturas ideológicas e partidárias, contribuindo para a sua própria crise. Conselhos internacionais de direitos humanos são controlados por ditadores e violadores sistemáticos dos direitos humanos. Os valores de pretensão universal, os ocidentais, se enfraqueceram, sendo instrumentalizados por grupos esquerdistas e islamistas radicais. A bússola internacional perdeu-se.

Concomitantemente com esse processo de degradação moral, ressurgiu a doutrina da “lei do mais forte” a reger as relações internacionais. A invasão da Ucrânia pela Rússia, movida pela mais elementar vontade de poder, e a doutrina Trump, advogando pelos mais i mediatos interesses americanos, relegando valores como democracia e liberdade que norteavam a diplomacia americana, completam esse quadro de reconfiguração mundial. Nele, questões de geopolítica, baseadas no uso da força, graças às Forças Armadas altamente qualificadas, à ciência e à tecnologia, e à diplomacia, ganham especial proeminência.

Sob esta ótica, não deveria surpreender o projeto de Trump de apropriar-se da Groenlândia. Sua pretensão faz sentido geopoliticamente, embora contradiga o Direito Internacional tal como o conhecemos, e afaste aliados tradicionais, mostrando que nem países amigos estão ao abrigo de nova (des)ordem internacional. Afinal, a Groenlândia pertence à Dinamarca, um país da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que é aliado tradicional dos americanos. Há mesmo um tratado internacional de defesa entre esses dois países, que poderia ser eventualmente aprimorado e renegociado.

Acontece que a Groenlândia é a maior ilha do planeta, sendo praticamente despovoada. Sua população total é de 55 mil pessoas, menor do que a média dos municípios brasileiros. Seu PIB é de US$ 3,2 bilhões, valor insignificante, por exemplo, em relação aos gastos exorbitantes e privilégios da elite do Estado brasileiro. A população da Dinamarca é estimada em 6 milhões de pessoas e seu PIB é de pouco mais de US$ 400 bilhões. Em contraste, o orçamento militar americano foi de US$ 1 trilhão em 2025 e está estimado em US$ 1,5 trilhão em 2026.

Nesse contexto, está em curso o derretimento do Ártico, abrindo novas rotas navegáveis no Polo Norte e tornando mais viável a exploração da Groenlândia, rica em terras raras e outros minérios. Tornase essa ilha motivo de cobiça de russos e chineses, sobretudo dos primeiros, que possuem há muito essa pretensão geopolítica. E os europeus, até agora, nunca deram maior atenção a essa realidade, preferindo desconhecê-la. Só os britânicos, durante a 2.ª Guerra, estimaram o real valor estratégico da navegação nessa região. De lá para cá, porém, o Reino Unido deixou de ser um império e uma força militar. E as potências atuais lá medem forças.

Trata-se, aqui, da realidade tal como ela é, gostemos dela ou não. Podemos criticar – com razão – tais pretensões, mas nada altera o quadro geral, baseado doravante na “lei do mais forte”. Discursos baseados na defesa abstrata da soberania nacional, utilizados a partir do século passado, válidos naquele cenário, cessaram de sê-los, visto que a realidade geopolítica mudou. Se qualquer país quiser defender os seus territórios e interesses, deve preparar-se militarmente e diplomaticamente, sob risco de perder relevância.

Coloca-se, nesta perspectiva, a questão da Amazônia, que é e pode tornar-se ainda mais objeto de cobiça de outros países. As razões podem ser várias, desde problemas de desmatamento que prejudicariam o clima mundial, sendo considerada o pulmão planetário da humanidade, até petróleo, gás, terras raras e minérios, passando pelo fato de ser uma região em muito despovoada e cada vez mais refém do narcotráfico, tomando conta de suas vias pluviais. Não faltam motivos para que outros países ou grupo de países elevem pretensões ditas climáticas, humanitárias, econômicas ou diretamente militares sobre essa região.

O Brasil deveria, sim, preocupar-se cada vez mais com o reordenamento geopolítico, sendo a Groenlândia uma sinalização do que pode acontecer. O País deveria ter um projeto claro para a Amazônia, sob pena de perdê-la no futuro. O narcotráfico deveria ser combatido militar e policialmente, com todos os meios tecnológicos e de defesa mais avançados. Ademais, pouco valem discursos grandiloquentes em defesa do clima, se questões fundiárias não forem abordadas e enfrentadas seriamente, tais como a regularização fundiária e a modernização e avaliação de cartórios e registros de imóveis.

E todas essas questões são hoje geopoliticamente da maior relevância. A propósito: o que têm a dizer a respeito os diferentes candidatos à Presidência da República? •

 

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