segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Socialista António Seguro derrota candidato da extrema direita e vence eleição presidencial em Portugal

Por O Globo e agências internacionais 

Com 99% das urnas apuradas, ex-secretário-geral do Partido Socialista recebeu 67% dos votos em segundo turno contra André Ventura, da extrema direita

Lisboa -O candidato socialista moderado António José Seguro venceu o segundo turno da eleição presidencial em Portugal, realizado neste domingo, de maneira contundente, com 99% das urnas apuradas. Segundo os números, Seguro recebeu quase 67% votos válidos, contra 33% de André Ventura, líder do partido de extrema direita Chega, hoje a segunda força política do país. A abstenção de quase 50% foi outra protagonista da votação.

— Os vencedores da noite são os portugueses e a democracia. Os portugueses por terem, em condições muito adversas, superado mais um desafio — afirmou Seguro no discurso da vitória, em Lisboa, no qual se referiu às tempestades que causaram estragos e mortes no país nas últimas semanas. — Precisamos de um país preparado, não de um país ao improviso face aos fenômenos atmosféricos que serão mais frequentes.

Ao se referir a Ventura, que havia reconhecido a derrota pouco antes, disse que "todos os que concorreram comigo merecem o meu respeito", que e " partir desta noite deixamos de ser adversários" para "partilhar a luta por um Portugal mais desenvolvido e mais justo".

— Lembro-me que a política pode ser serviço e mudar vidas. Que as pessoas merecem sempre mais. Continuo a pensar igual, sou um de vocês — afirmou.

Os números confirmam o favoritismo de Seguro, que no primeiro turno terminou com 31,1% dos votos e foi bem-sucedido ao angariar apoios desde a esquerda até partes da direita moderada no segundo. A lista de aliados, contudo, não incluiu o primeiro-ministro, Luís Montenegro, que no mês passado afirmou que não apoiaria nenhum candidato.

— Esta vitória é de todos os democratas, dos direitos constitucionais. Dois terços do país quiseram que não fosse alguém que não prezasse a constituição a ser presidente — afirmou o secretário-geral do Partido Socialista (PS), José Luís Carneiro, destacando que "a vitória vai da esquerda do PS, ao centro e à direita democrática".

Líder da Juventude Socialista nos anos 1990, quando se aproximou do ex-premier e hoje secretário-geral da ONU, António Guterres, Seguro se elegeu deputado nacional e posteriormente eurodeputado na lista encabeçada por Mário Soares, no final do século passado. No Partido Socialista, chegou a disputar a liderança da sigla, na década de 2010, mas foi derrotado por António Costa (que se tornaria premier) nas primárias e abandonou temporariamente a vida pública.

Em 2024, começou a ventilar uma candidatura à sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa, confirmada meses depois, e agora consagrada com a vitória no segundo turno. Este foi o melhor resultado de um candidato à Presidência desde 1991, quando Mário Soares foi eleito para seu segundo mandato com 70,35%. Embora seu percentual tenha sido menor do que o de Soares, Seguro recebeu a maior votação já registrada, quase 3,5 milhões de votos.

O papel do chefe de Estado português é principalmente simbólico, mas ele atua como árbitro em momentos de crise e tem o poder de dissolver o Parlamento para convocar eleições legislativas antecipadas.

— A intensidade com que as funções e os seus poderes vão ser utilizados pode ser calibrada em função, por um lado, das circunstâncias concretas, designadamente do contexto político, e, por outro, em função da própria personalidade e do entendimento que o titular do cargo faz relativamente aos seus poderes — afirmou a constitucionalista Teresa Violante, em entrevista à CNN Portugal.

Do outro lado estava André Ventura, líder do Chega, que confirmou a força da extrema direita em Portugal, também presente nas últimas eleições legislativas, com 33% dos votos válidos, ou 1,7 milhão de votos. Na campanha, o discurso anti-imigração foi sua principal bandeira, e rendeu o apoio até de comunidades de estrangeiros, como parte dos brasileiros que vivem no país.

— Tivemos o melhor resultado da nossa história — disse Ventura, nas primeiras declarações após a derrota. — Quando o povo fala, o povo é soberano. Se o povo escolheu António José Seguro, é ele que será presidente. E eu espero que ele seja um bom presidente, porque o país precisa.

Fazendo eco a Ventura, o líder parlamentar do Chega, Pedro Pinto, disse que seu partido foi o "grande vencedor da direita", criticando os "50 anos de sistema que se uniu e se juntou contra nós".

— Esta noite não vai ter grande história — afirmou o parlamentar, citado pelo Diário de Notícias logo após a divulgação das pesquisas. — Achamos que a candidatura de André Ventura merecia mais, mas os resultados são o que são. Cabe-nos aceitá-los e dizer apenas que se perdeu uma oportunidade de mudança.

A votação foi impactada pelas fortes tempestades que atingiram o país nas últimas duas semanas, e que levaram ao adiamento de votações em várias localidades. Ventura defendia que a eleição fosse adiada nacionalmente, embra a lei não preveja essa possibilidade. Na campanha, Seguro pedia a seus eleitores que fossem às urnas apesar das dificuldades, apontando a abstenção como um rival tão poderoso quanto Ventura. Ao todo, 49.89% dos eleitores não votaram.

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