O Estado de S. Paulo
Lula mira nas mentes evangélicas com arsenal
pífio e parece não saber como alcançar seus corações
O presidente Lula tem razão em querer conquistar os evangélicos para a sua tentativa de reeleição este ano. Essa heterogênea fatia da população não morre de amores pelo petista. Mesmo com todo o esforço de marketing e de articulação social dispensado nos últimos três anos de governo, a desaprovação da gestão de Lula entre os evangélicos, que já são um em cada quatro brasileiros com mais de 10 anos, só cresceu.
Mas o que significa “conquistar” esse
público? Quando fala sobre o assunto, Lula dá a entender que acredita em uma
estratégia de convencimento. Essa foi a mensagem contida em um trecho do seu
discurso em uma festa do PT em Salvador (BA), neste sábado.
Ao conclamar a militância a ir até as periferias, ele disse que “90% dos evangélicos ganham benefícios do governo” e que é preciso conversar com eles sobre isso, em vez de ficar esperando que falem bem da gestão petista.
Lula gosta de simplificar as coisas, o que
muitas vezes gera erros ou ruídos. Para começar, a não ser que o Ministério do
Desenvolvimento disponha de números muito surpreendentes, ainda não divulgados,
a afirmação de que nove em cada dez evangélicos estão em programas sociais não
condiz com dados demográficos sobre renda desse grupo religioso.
Ainda que fosse verdade, é um cacoete
populista acreditar que receber ajuda do Estado é um argumento infalível para
garantir o voto de um cidadão. O PT não tem o monopólio dos programas sociais e
quem os recebe costuma ter duas certezas: a primeira é que os benefícios
tornaramse políticas de Estado (dificilmente serão encerrados por novos
governos) e a segunda é não querer depender deles para sempre.
Por isso, enviar militantes para as
periferias com a missão de atribuir a Lula o crédito pelos benefícios sociais
não apenas pode ser inócuo para o esforço de convencimento do eleitorado
evangélico, como não aborda o ponto central da rejeição ao presidente e ao PT:
a percepção de valores incompatíveis.
Quando se fala em conquistar corações e
mentes, trata-se de obter apoio emocional tanto quanto racional. Lula mira nas
mentes evangélicas com arsenal pífio e parece não saber como alcançar seus
corações.
Se o presidente não tem uma boa resposta para
esse desafio eleitoral, não é por falta de pesquisas ou cartilhas feitas por
seu próprio partido e organizações de esquerda com o intuito de orientar o
“trabalho de base” na aproximação com os evangélicos. Uma abordagem equivocada
– forçada ou eleitoreira demais – pode acabar tendo o efeito oposto. •

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