segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Cacoete populista. Por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Lula mira nas mentes evangélicas com arsenal pífio e parece não saber como alcançar seus corações

O presidente Lula tem razão em querer conquistar os evangélicos para a sua tentativa de reeleição este ano. Essa heterogênea fatia da população não morre de amores pelo petista. Mesmo com todo o esforço de marketing e de articulação social dispensado nos últimos três anos de governo, a desaprovação da gestão de Lula entre os evangélicos, que já são um em cada quatro brasileiros com mais de 10 anos, só cresceu.

Mas o que significa “conquistar” esse público? Quando fala sobre o assunto, Lula dá a entender que acredita em uma estratégia de convencimento. Essa foi a mensagem contida em um trecho do seu discurso em uma festa do PT em Salvador (BA), neste sábado.

Ao conclamar a militância a ir até as periferias, ele disse que “90% dos evangélicos ganham benefícios do governo” e que é preciso conversar com eles sobre isso, em vez de ficar esperando que falem bem da gestão petista.

Lula gosta de simplificar as coisas, o que muitas vezes gera erros ou ruídos. Para começar, a não ser que o Ministério do Desenvolvimento disponha de números muito surpreendentes, ainda não divulgados, a afirmação de que nove em cada dez evangélicos estão em programas sociais não condiz com dados demográficos sobre renda desse grupo religioso.

Ainda que fosse verdade, é um cacoete populista acreditar que receber ajuda do Estado é um argumento infalível para garantir o voto de um cidadão. O PT não tem o monopólio dos programas sociais e quem os recebe costuma ter duas certezas: a primeira é que os benefícios tornaramse políticas de Estado (dificilmente serão encerrados por novos governos) e a segunda é não querer depender deles para sempre.

Por isso, enviar militantes para as periferias com a missão de atribuir a Lula o crédito pelos benefícios sociais não apenas pode ser inócuo para o esforço de convencimento do eleitorado evangélico, como não aborda o ponto central da rejeição ao presidente e ao PT: a percepção de valores incompatíveis.

Quando se fala em conquistar corações e mentes, trata-se de obter apoio emocional tanto quanto racional. Lula mira nas mentes evangélicas com arsenal pífio e parece não saber como alcançar seus corações.

Se o presidente não tem uma boa resposta para esse desafio eleitoral, não é por falta de pesquisas ou cartilhas feitas por seu próprio partido e organizações de esquerda com o intuito de orientar o “trabalho de base” na aproximação com os evangélicos. Uma abordagem equivocada – forçada ou eleitoreira demais – pode acabar tendo o efeito oposto. •

 

Nenhum comentário: