Valor Econômico
Para Murilo Medeiros, da UnB, esquerda e direita enfrentam dificuldades na região
Com a esquerda enfrentando fadiga de material
e a direita limitada a um teto eleitoral, as disputas estaduais no Nordeste
convergem para o centro. A avaliação é do cientista político Murilo Medeiros,
da Universidade de Brasília (UnB), para quem o eleitor nordestino hoje está
mais sensível ao aumento da criminalidade - e menos aos programas de
transferência de renda.
As eleições na região, com 40 milhões de
eleitores, podem antecipar o Brasil de 2030, sem o protagonismo da polarização
Lula x Bolsonaro. “O Nordeste talvez esteja na vanguarda”, diz.
A seguir, trechos da entrevista:
Valor: Nos três principais colégios eleitorais do
Nordeste (Bahia, Pernambuco e Ceará), os candidatos de Lula enfrentam desafios.
Como você classificaria esse momento da esquerda na região?
Murilo Medeiros: Lula continua
sendo um importante cabo eleitoral no Nordeste, mas a transferência de votos
não é tão automática como em outras eleições. Há uma mudança no comportamento
do nordestino, que está muito mais sensível a temas como segurança pública e
custo de vida. Ao mesmo tempo, há menos aquele voto de gratidão em relação aos
programas sociais. É um eleitor mais independente, menos previsível e menos
refém de lideranças individuais, principalmente nas grandes cidades. Os
eleitores de baixa renda desses locais são as que mais sofrem com violência
para pegar transporte, abrir seu comércio, e tráfico de droga. Essa faixa do
eleitorado que vai ser um campo de batalha e candidaturas com discursos mais
duros na área penal, de enfrentamento as facções criminosas tendem a lograr
sucesso na eleição.
Valor: Por que o aumento da criminalidade contamina os
candidatos a governador mais do que a Lula, que ainda tem mais de 60% dos votos
Nordeste?
Medeiros: O tema da
segurança pública é muito ligado a agenda dos governadores, até
constitucionalmente, por isso Lula consegue manter certa distância do desgaste.
O PT governa a Bahia desde 2007 e, nesse período, os índices de criminalidade
cresceram muito no Estado. Isso acaba impactando a preferência do eleitor na
renovação do mandato do incumbente. Mesma situação do Ceará, que convive com
grande avanço das facções criminosas, homicídios e furtos de celular.
Faltou uma agenda própria da direita no
Nordeste, que concentrou agenda na polarização”
Valor: Os programas sociais não surtem tanto efeito
mais na região?
Medeiros: A memória
afetiva em relação aos programas sociais já não é a mesma. A nova classe C do
Nordeste almeja avançar crescer para além da ajuda do Estado. Essa parcela do
eleitorado já consegue perceber que programas sociais que deram certo como
programas do Estado brasileiro, que não serão interrompidos independentemente
de quem esteja no poder.
Valor: Esse momento desafiador da esquerda significa
um bom momento para a direita no Nordeste?
Medeiros: Faltou uma
agenda própria da direita no Nordeste. Esse campo político concentrou sua
agenda programática em embates institucionais, na polarização, na discussão
ideológica acalorada, e não nos problemas reais do Nordeste, como a questão do
desenvolvimento regional, do semiárido, da irrigação, da agricultura familiar,
da industrialização. Essa lacuna ajuda a explicar o teto eleitoral da direita
no Nordeste.
Valor: Se os dois campos estão em dificuldade, o que
esperar do resultado eleitoral na região?
Medeiros: Uma mudança de
eixo para o centro, movimento que já percebemos na última eleição municipal.
Nas grandes capitais e nas cidades importantes do interior, os vitoriosos foram
de legendas de centro como PSD, União Brasil, MDB. As lideranças que venceram
em Caruaru (PE), Petrolina (PE), Feira de Santana (BA), Vitória da Conquista
(BA), Mossoró (RN), Imperatriz (MA) não pertenciam à base de Lula, nem ao campo
bolsonarista.
Valor: O eleitor Nordestino é mais pragmático do que
ideológico?
Medeiros: É um erro
crasso de alguns analistas classificar o eleitor do Nordeste como de esquerda.
Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, os principais governos do
Nordeste eram do PFL, que dava sustentação às reformas liberalizantes. Com a
ascensão de Lula, houve essa mudança de comportamento, porque Lula de fato
levou muitos investimentos para a região. Mas o nordestino é muito pragmático,
vai naquele candidato que está mais atento aos problemas e aponta soluções
concretas, pensando no maior potencial econômico da região. Nessas eleições, o
eleitor nordestino tende a ser menos fiel a lideranças que se coloquem como
salvadores da pátria.
"Nessas eleições, o eleitor nordestino tende a
ser menos fiel a lideranças que se coloquem como salvadores da pátria”
Valor: No Ceará, Ciro se uniu com parte da direita
para tentar derrotar o PT. O que esperar dessa disputa?
Medeiros: O Ceará promete
ser um dos maiores laboratórios da eleição de 2026, capaz de refletir a
polarização nacional e a disputa presidencial. Há uma fadiga de material em
relação ao tempo que o PT dominou o Ceará. A disputa é uma das principais
apostas do PL para tentar reverter o favoritismo do PT no Nordeste. Na última
eleição, Fortaleza, capital nordestina mais populosa, o PT venceu a eleição por
muito pouco. O eleitorado está muito polarizado e há uma onda antipetista.
Valor: A eleição vai ser polarizada, mas Ciro Gomes já
disse que não dará palanque a Flávio Bolsonaro...
Medeiros: Há uma
desnacionalização de muitas campanhas de oposição com objetivo de não perder
musculatura. Ciro não necessariamente vai dar palanque a Flávio, assim como ACM
Neto na Bahia também não. No Rio Grande do Norte, Cadu Xavier, também não, nem
Raquel Lyra em Pernambuco. O eleitor de hoje consegue separar com mais
facilidade o voto para presidente da República do voto para governador.
Valor: Em Pernambuco, João Campos tem dobrado a aposta
na parceria com Lula. Seria um erro?
Medeiros: É um risco
eleitoral grande achar que uma dobradinha com Lula vai ser suficiente. A chapa
de Campos acabou ficando muito vermelha com Marília Arraes (Solidariedade) e
Humberto Costa (PT) para o Senado, e ele se deslocou do centro, o que pode
impactar a decisão dos eleitores independentes. Tendo em vista o seu
perfil pragmático, Raquel tende a manter o pé nas duas canoas para não
desperdiçar votos. Ela tem uma força grande no interior e, caso Campos
nacionalize muito a campanha, pode ficar restrito ao eleitor metropolitano.
Valor: O que esperar para a eleição ao Senado?
Medeiros: Em eleição de
duas cadeiras, há tendência de abstenção maior do segundo voto, e nisso algumas
surpresas podem sair. De modo geral, há uma tendência de retorno de lideranças
mais experientes, e o Nordeste deve replicar esse modelo, com ex-governadores e
ex-ministros tendo maior competitividade. E avanço de lideranças de perfil
centrista.
Valor: Por que essa tendência de migração para o
centro não se reflete na eleição presidencial?
Medeiros: O Nordeste talvez esteja na vanguarda, antecipando um Brasil que a gente pode vivenciar em 2030, quando as figuras de Lula e Bolsonaro não devem estar nas urnas. O nordestino mostra cansaço dessa disputa entre dois campos ideológicos ancorada em discussões abstratas. E esse movimento de centro que deve se refletir muito na composição do Congresso, com o centro conservador crescendo suas bancadas e se tornando indispensável para governabilidade do próximo presidente.

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