O Estado de S. Paulo
Lula preferiu recolher a bandeira de defesa
da democracia contra a ameaça golpista materializada pelos Bolsonaro – aquela
com que se elegera em 2022 e pela qual terá ido a todos os debates. Imagina-se
que considere já inexistente a ameaça, motivo em função do qual terá renunciado
à chance de falar ao País e defender a continuidade de seu governo. A outra
hipótese é a de que o empunhar desse estandarte fosse conveniência superada
pela condição confortável de presidente.
O debate – na TV, como o conhecemos – talvez já não exista mais, transtornado pelo discurso franco-atirador marçalista. Caso em que candidaturas favoritas, como as de Lula e Flávio Bolsonaro, teriam razões adicionais para considerar que as consequências negativas de lhe faltar seriam menores do que os riscos da exposição em ambientes não controlados.
Lula não pode falar – não sob a certeza de
réplica – sobre segurança pública. Governa o País pela terceira vez, sem
realização na matéria, e transita pelos palanques prometendo como se
concorresse ao primeiro mandato. Em 2022, prometera criar o Ministério da
Segurança Pública, sem qualquer emenda à Constituição que condicionasse o
advento, e não o fez. Diz agora que o fará, a depender da aprovação de PEC que
remeteu ao Congresso somente em 2025.
Flávio não pode falar – não sob a certeza de
réplica – sobre segurança pública. Ou será confrontado com o colapso do Estado
do Rio de Janeiro, cujo governo do PL desmoronou em decorrência de
investigações segundo as quais aquele que lhe seria candidato a governador
trabalhava para o Comando Vermelho. Em vez de retomar territórios, a gestão
bolsonarista franqueou terrenos nos poderes estaduais à infiltração das
narcomilícias.
Flávio Bolsonaro e Lula não podem falar em
ambientes não controlados, em que poderiam ser confrontados com vorcaros e
lulinhas (“Dark Horse” e “Dark Lobby”, segundo Caiado), e apostam – com boas
chances de sucesso – em que suas ausências serão percebidas como decisão de
elite: eles, os candidatos de primeira divisão, que não dariam palco a
desesperados concorrentes de patamares inferiores.
Seriam, como foram, os objetos do debate, em
função de quem os discursos se organizaram. Objeto do debate – travado entre
candidatos da direita – sendo sobretudo Flávio, de cujos votos precisam tanto
Ronaldo
Caiado quanto Renan Santos, ambos dedicados a
se distinguir do filho de Jair e tendo cumprido bem os papéis a que se
lançaram, estreita a margem para que cresçam, margem que os ausentes presentes
administram.
Incompreensível, mesmo, apenas a escolha de
Romeu Zema, o ausente-ausente, o sem votos e sem tempo de propaganda na TV que
prescindiu de hora e meia de visibilidade numa noite de domingo. A não ser que,
sendo o Partido Novo linha auxiliar bolsonarista, tenha prestado serviços pelo
esvaziamento do debate.

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