Valor Econômico
Diversas fontes inflacionárias além da
demanda podem ter peso muito maior na alta dos preços e tornar o regime
ineficaz
O Regime de Metas de Inflação (RMI), bastante
utilizado no mundo para o controle da inflação, é hoje quase um dogma no
Brasil. Poucos economistas ousam contestá-lo. Um trabalho dos economistas André
Luis Campedelli, da Unifesp, e Antonio Corrêa de Lacerda, professor-doutor da
PUC-SP, lança luzes até para não acadêmicos enxergarem o alcance e as
limitações desse regime no Brasil.
O RMI foi instituído no país em 1º de julho
de 1999. Estabeleceu-se que o Conselho Monetário Nacional fixaria a meta,
cabendo ao Banco Central cumpri-la - atualmente é 3% ao ano, com tolerância de
1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
O regime parte do pressuposto de que a inflação é explicada, na maior parte do tempo, por uma demanda econômica aquecida. Portanto, choques de oferta seriam casuais e não deveriam preocupar, pois seus efeitos se dariam apenas no curto prazo.
Assim, sempre que houver percepção de que a
demanda está acima do produto potencial da economia, o BC deve aumentar a taxa
básica de juros, reduzindo o ritmo de crescimento e levando a economia a um
ponto em que os produtos real e potencial se igualem.
Há no Brasil, porém, observam Campedelli e
Lacerda, diversas fontes inflacionárias além da demanda, que podem ter peso
muito maior na alta dos preços e tornar o regime ineficaz. Quando a inflação
tem origem em choques de oferta, como a redução do fornecimento de petróleo, o
aumento da Selic pouco pode fazer. No mundo atual, após a pandemia e com os
conflitos geopolíticos, os choques de oferta se destacam. Ocorrem
frequentemente no caso dos bens in natura, cuja produção depende de fatores
climáticos, da sazonalidade e até da demanda internacional.
Segundo os autores, os grandes problemas
atuais da inflação brasileira são combustíveis e alimentos. O primeiro é um
preço administrado, determinado pela política da Petrobras. O segundo é volátil
e depende das condições climáticas. Em nenhum dos dois casos, argumentam, a
Selic tem efetividade no controle inflacionário. Ou seja, a taxa de juros é
incapaz de resolver os dois principais problemas inflacionários atuais.
O regime pode ter certa eficácia indireta no
controle da inflação porque as elevações da Selic provocam valorização do
câmbio nominal, reduzindo custos de produção. Esses ganhos, porém, na maioria
das vezes, são revertidos em lucros e pouco repassados ao preço final dos bens.
O trabalho mostra que o custo-salário é fator
relevante para explicar a inflação brasileira, tornando o conflito distributivo
parte importante da explicação e reduzindo a eficácia do RMI. Outro fator é a
elevada indexação de preços administrados, com efeitos diretos e indiretos
sobre a inflação, seja qual for a Selic.
O RMI tem efeito maior sobre os preços dos
serviços, que vêm desacelerando nos últimos anos.
A formação de preços no Brasil, resumem
Campedelli e Lacerda, é ampla e vai muito além da questão de uma demanda
demasiadamente aquecida, como pressupõe o RMI. Envolve conflito distributivo
(salários) e disputa pelo excedente entre trabalhadores e capitalistas, custos
de câmbio, peculiaridades dos preços administrados (indexação) e bens
produzidos in natura.
Os fatores estruturais da inflação
brasileira, como a indexação de preços e contratos, as características de
mercados oligopolizados e monopolizados e os choques de oferta, mostram-se cada
vez mais determinantes do nível da inflação, o que denota a inadequação do RMI
como instrumento de controle, especialmente diante de uma meta de inflação
irrealista, como tem sido o caso.
Uma pergunta
Sendo o RMI atualmente limitado e ineficaz, poderíamos dizer que ele funcionou
no longo prazo, uma vez que a inflação praticamente se manteve em um dígito
durante os últimos 25 anos?
Após ler o trabalho dos dois economistas, o
colunista fez a eles a pergunta acima. As respostas, resumidas, estão abaixo:
Lacerda: Vou me ater à
década de 20. De fato, apesar das incongruências do RMI, o Brasil tem uma
inflação relativamente sob controle. A pandemia e os efeitos da crise climática
e das guerras têm impactado as cadeias internacionais de suprimentos e gerado
choques de oferta. São desafios para o controle inflacionário mundo afora. No
Brasil, agregue-se a estrutura de mercado oligopolizada, que gera capacidade de
formação de preços, e a indexação prevalente.
Assim, o desafio para os policy makers é
preservar o RMI de forma que responda aos desafios. Houve avanços, como o
estabelecimento da meta contínua.
O regime é um ganho, mas, como tudo, para
fazer frente aos desafios precisa sempre ser aperfeiçoado para obter os
resultados almejados com o menor custo possível, referindo-me à calibragem da
política monetária.
Campedelli: Estamos
tratando a inflação de modo errado, mas o efeito acaba se observando de
qualquer forma, atuando não no objetivo do BC, mas em outro. Quando usamos a
Selic para controlar a inflação, buscamos reduzir o ritmo da demanda, ainda que
a inflação não tenha origem na demanda. Então, mesmo com a inflação não sendo
corrigida em seu real problema, como a elevação do preço dos alimentos ou de
bens atrelados ao câmbio, o efeito da Selic [estratosférica] é tão forte sobre
a demanda que faz com que ela caia a tal ponto que os demais preços diminuam e
segurem a inflação. Mas o problema continua lá, com os preços dos alimentos e
itens atrelados ao dólar ainda se elevando. Ou seja, sacrifica-se crescimento e
desenvolvimento para segurar a inflação, mas não se vai à causa do problema
como um todo. Seria o mesmo que tratar uma perna quebrada fazendo o paciente
tomar morfina. A dor vai sumir, mas a perna continuará quebrada.”

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