Folha de S. Paulo
Cidade não é pensada para seus moradores e
sim para o turismo de massa
Livro em torno de Fernando Sabino mostra as
transformações de Copacabana ao longo do tempo
Mestre e doutora em Letras pela PUC-Rio, a
professora e atriz Teresa Montero conduz, desde 2008, passeios culturais que
exploram a presença da literatura nas ruas do Rio de Janeiro. Uma espécie de
pequeno turismo na cidade que, hoje, é pensada e planejada não mais para os
seus moradores —e sim para o turismo de massa, para os megaeventos.
Os passeios idealizados por Teresa já renderam os livros "O Rio de Clarice" (2018) e o recém-lançado "O Rio de Fernando Sabino", ambos publicados pela Autêntica. São dois guias íntimos e afetivos, que recomendo não só aos visitantes da cidade como àqueles que se interessam pela sua transformação ao longo do tempo.
A viagem em torno de Fernando
Sabino mostra que o romancista e cronista mineiro –que viveu no
Rio durante 56 de seus 80 anos– virou um carioca da zona sul, com a típica
aversão a vestir terno e engravatar-se para ir ao centro. Mais especificamente,
um homem de Copacabana,
bairro que se tornara uma obsessão e um ideal de vida desde os tempos de
adolescente em Belo Horizonte.
Nas últimas páginas do romance "O
Encontro Marcado", o protagonista Marciano –que não esconde as tintas
autobiográficas– retrata a atmosfera copacabanense nos anos 1940: "ônibus,
cheiro de óleo queimado, maresia".
Nas crônicas, são citados o edifício
Elizabeth, na avenida Nossa Senhora de Copacabana, onde o escritor morou; o
apartamento de Carlos Drummond de Andrade; o "quartinho" de Paulo
Mendes Campos; a paróquia São Paulo Apóstolo; o clube dos Marimbás. O cronista
atual que seguir os passos de Sabino não terá dificuldade para achar o bar Bico
(o cafezinho continua excelente) nem os restaurantes Alcazar e Lucas, com os
nomes infelizmente trocados para Meiuca e Garota de Copacabana.
O ambiente, no entanto, é outro: nas areias
da praia, megashows para
2 milhões de pessoas; os céus tomados por helicópteros de turismo desviando-se
para não colidir; um apartamento de dois quartos na rua Siqueira Campos com
aluguel por temporada ao custo surreal de R$ 23 mil.
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