Valor Econômico
O ataque mais eficaz contra Lula não são
denúncias de corrupção, mas a associação entre carga tributária e custo de vida
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou
na campanha eleitoral como um ligeiro favorito, favorecido pela vantagem de
estar no governo. Mas, com os modelos de previsão eleitoral apontando em
direções opostas, a qualidade das campanhas e a capacidade dos candidatos de se
conectarem aos temas que realmente preocupam o eleitorado podem ter um peso
incomum no resultado das urnas.
Campanhas presidenciais raramente decidem eleições. Comentaristas políticos e marqueteiros dispendem uma energia enorme para analisar discursos, debates, estratégias e mensagens - que, de modo geral, têm pouco impacto no resultado. A maioria das eleições é decidida por um desejo difuso de mudança ou de continuidade, ou pela credibilidade que um candidato projeta em torno de um tema central para o eleitor.
Ao longo do último ano, a Eurasia Group tem
mantido as chances de reeleição de Lula entre 55% e 60%. Mas esta eleição é
difícil de prever: a aprovação de Lula, em 46%, é associada a uma taxa de
reeleição próxima de 75%, segundo um banco de dados com mais de 500 eleições;
ao mesmo tempo, um segundo modelo de previsão eleitoral, que se concentra nos
temas mais relevantes para os eleitores, aponta para uma vitória da oposição.
Corrupção e violência, que estão no topo das preocupações, são pontos fracos
para Lula, que também sofre com o sentimento dominante de estagnação entre os
eleitores.
Nesse cenário, a qualidade das campanhas
poderá ser o fiel da balança.
Embora venham dominando o noticiário, as
denúncias de corrupção dificilmente vão definir os resultados, porque tanto
Lula quanto seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro, têm pouca
credibilidade no tema. As pesquisas mais recentes mostraram um segundo turno
mais acirrado (com a vantagem do presidente caindo de 4 para 3 pontos na média
de todas as pesquisas), após as denúncias envolvendo o filho de Lula - e o
presidente pode sofrer mais se a cobertura do escândalo se intensificar nessas
próximas semanas.
Mas o PT também deve explorar a ligação entre
Flávio e o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, durante o horário eleitoral
gratuito. Com ataques de parte a parte, é mais provável que o eleitor conclua
que ambos são corruptos, e que o tema não diferencie os candidatos.
Mais relevante poderá ser a habilidade dos
candidatos para conversar com o eleitorado sobre a sensação geral de
estagnação, diante de um desemprego baixo, mas do custo de vida pesando sobre
os orçamentos e do endividamento das famílias. Pesquisas qualitativas apontam
para esse pessimismo, o que fica claro na pesquisa da Quaest: 69% dos
entrevistados acham que perderam poder de compra no último ano e 53% acham que
o Brasil está no caminho errado. A campanha do PT sabe que não será um caminho fácil:
pesquisas internas registram esse mau humor dos eleitores, e outros
levantamentos mostram pessimismo quanto ao futuro.
Tarefa mais difícil da campanha de Lula é
oferecer um lampejo de otimismo a um eleitor cético
O desafio de Lula não é convencer o
eleitorado de que tudo vai bem, mas sim reconhecer o momento difícil e mostrar
que seu governo está tomando decisões que vão na direção correta. A estratégia
passa por conectar programas concretos, como a isenção do Imposto de Renda para
a classe média, o Gás do Povo, o Pé-de-Meia, o Desenrola 2.0 e a promessa de
fim da escala 6x1, a uma narrativa de esperança. Oferecer um lampejo de
otimismo a um eleitor cético será a tarefa mais difícil da campanha.
Na segurança pública, a campanha de Lula
precisará reduzir seu passivo, destacando as grandes operações da Polícia
Federal contra o crime organizado, especialmente as que visam o PCC no âmbito
financeiro. O objetivo não é vencer o debate sobre segurança, mas torná-lo
menos devastador.
A campanha de Flávio Bolsonaro, por sua vez,
terá que, primeiro, focar em apresentar o candidato: projetar a imagem de um
homem de família, demonstrar competência e construir uma estatura presidencial.
Hoje, o eleitor conhece o sobrenome Bolsonaro, mas não o candidato. Seu trunfo
está na segurança pública, onde ele tem vantagem clara sobre Lula.
Flávio precisará, também, construir uma
narrativa de ascensão social que apele ao sentimento de estagnação dos
eleitores. Seu programa de governo, ancorado no uso da tecnologia, aponta nessa
direção, mas a campanha precisará insistir nesse ponto. O ataque mais eficaz
contra Lula não são denúncias de corrupção, mas a associação entre carga
tributária e custo de vida. Flávio deve evitar gastar energia excessiva pedindo
a soltura do pai ou acusando Lula de ser antidemocrático: nenhum desses temas
está entre as prioridades do eleitorado.
Já os demais candidatos têm um único objetivo
nas próximas semanas: tornarem-se conhecidos. Eles precisarão evitar a
armadilha de partir para o ataque contra Flávio cedo demais, desperdiçando o
tempo na TV e no rádio que deveriam dedicar a se apresentar.
Lula tem uma vantagem por estar no governo.
Mas o resultado de outubro dependerá, em boa medida, de quão bem cada candidato
executar essas tarefas nas próximas semanas - aproveitando uma campanha que
promete ser incomumente relevante este ano.

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