Folha de S. Paulo
Ausência dos favoritos põe em xeque a
utilidade dos embates entre candidatos a presidente
Quando recusam a controvérsia, Lula e Flávio
deixam rastro de desdém ao discernimento do eleitor
Os candidatos a presidente da República mais
visados, prediletos e, ao mesmo tempo, mais rejeitados nas pesquisas fizeram
"forfait" no primeiro
debate de televisão desta campanha. Não compareceram, alegadamente
por razões estratégicas de proteção mútua.
Por óbvio, as ausências foram exploradas livremente com variações entre críticas e grosserias, com a desvantagem de os alvos não estarem ali para exigir direito de resposta a ofensas pessoais que claramente feriam as regras do embate.
A resposta à clássica pergunta sobre quem
ganhou o debate depende do ponto de vista. Sob o prisma da captura de atenção e
produção de cortes para a internet, Renan Santos (Missão)
se deu bem. Há público para espetáculo de
insultos.
Já no aspecto da apresentação de credenciais
para o papel de estadista, nenhum dos três pareceu apto a despertar no
eleitorado a motivação para ultrapassar a barreira das torcidas organizadas por
afeições e aversões.
É possível que Santos ganhe pontos nas
pesquisas pelo viés recreativo. Ronaldo
Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante)
não estiveram à altura da empreitada presidencial nem da tarefa de sacudir o
cenário sedimentado. Mostraram-se medianos na forma e no conteúdo.
Luiz Inácio da Silva (PT) e Flávio
Bolsonaro (PL) não quiseram se expor
aos ataques dos adversários e ao risco de perder pontos no topo das
preferências. Evitaram se enfrentar, fugiram da raia. Subtraíram do eleitorado
a chance da comparação sem o filtro da propaganda, mas isso talvez não mexa na
conta do custo-benefício.
Collor, FHC e Lula eram
favoritos quando escolheram não ir a debates iniciais e, ainda assim,
ganharam eleições seguidas.
Agora que há mais fanáticos que convictos, um abalo por causa de ausências e
desempenho dos presentes soa improvável.
Aguardemos as pesquisas para ver qual foi a
percepção do público. Mas fica a impressão de que, ao fugir do contraditório,
os preferidos não confiam nos respectivos tacos, têm medo dos nanicos e
menosprezam o discernimento do eleitor.

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