domingo, 9 de agosto de 2026

No país da emenda pix, basta um clique para desviar dinheiro público, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Flávio Dino apontou "estado de inconstitucionalidade" ao ordenar novas investigações

O apelido surgiu em 2021. A transferência especial virou emenda pix, um atalho criado por parlamentares para despejar dinheiro em seus redutos eleitorais. O instrumento abriu uma via rápida do cofre da União para estados e municípios. Os recursos passaram a ser transferidos num clique, sem exigência de projeto, convênio ou licitação.

Em julho, uma operação da Polícia Federal expôs o funcionamento da engrenagem. Os agentes cumpriram mandados em quatro estados. Apreenderam R$ 320 mil em espécie, além de anotações sobre desvios e favorecimentos.

Um dos focos da ação foi a pequena São Luiz do Anauá, em Roraima. Com 7 mil habitantes, o município está entre os dez que mais receberam recursos de emendas individuais entre 2020 e 2024. Os repasses somaram R$ 89,4 milhões.

Em vistoria, a Controladoria-Geral da União constatou que todas as obras foram destinadas à mesma empresa e estavam paralisadas. A fiscalização encontrou sinais de fraude na pavimentação de ruas, na construção de casas populares e na execução de um pórtico na entrada da cidade.

Ao pedir aval às diligências, a PF descreveu um cenário “absolutamente alarmante” e classificou as emendas pix como “terreno fértil para desvios de grande monta”. A Procuradoria-Geral da República disse enxergar um “panorama de irregularidades generalizadas”.

Nesta sexta, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, mandou a PF abrir novas frentes de investigação. Ele citou auditoria do Tribunal de Contas da União que fiscalizou uma centena de emendas, somando R$ 198,1 milhões. Os técnicos identificaram prejuízos de R$ 55,4 milhões, mais de um quarto do valor total.

Apesar dos esforços para impor padrões mínimos de rastreabilidade e transparência nas emendas, Dino apontou a “persistência de um estado de inconstitucionalidade”. A farra deveria estar na mira de todos os candidatos ao Planalto.

No lançamento da campanha à reeleição, Lula prometeu reagir ao sequestro do Orçamento. “Minha quarta presidência é para mudar muita coisa neste país. Vai ter briga com emenda parlamentar”, disse o presidente. Faltou explicar por que ele não quis fazer o enfrentamento no mandato atual.

O segundo colocado nas pesquisas parece ainda menos interessado em mudanças. Em maio, Flávio Bolsonaro reclamou que as emendas estariam sendo “demonizadas”. “Os recursos não podem ficar tão concentrados nas mãos da União”, discursou. Foi aplaudido pela plateia de prefeitos, público-alvo das emendas pix.

Dois amigos de Roberta

Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, virou alvo de três inquéritos da PF por suspeitas de tráfico de influência. Mais uma vez, suas andanças vão fornecer munição eleitoral contra o pai.

Em Brasília, muitos petistas já conheciam a proximidade do filho do presidente com Roberta Luchsinger. Poucos sabiam que a lobista também fazia favores a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. Chefe de gabinete de Lula, ele detinha uma das mercadorias mais valorizada na capital: acesso ao poder.

As investigações reanimaram a oposição. O candidato Ronaldo Caiado cunhou uma frase que conecta os dois amigos de Roberta: “O escândalo do príncipe chegou à antessala do rei”.

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