O Globo
Flávio Dino apontou "estado de
inconstitucionalidade" ao ordenar novas investigações
O apelido surgiu em 2021. A transferência
especial virou emenda pix, um atalho criado por parlamentares para despejar
dinheiro em seus redutos eleitorais. O instrumento abriu uma via rápida do
cofre da União para estados e municípios. Os recursos passaram a ser
transferidos num clique, sem exigência de projeto, convênio ou licitação.
Em julho, uma operação da Polícia Federal expôs o funcionamento da engrenagem. Os agentes cumpriram mandados em quatro estados. Apreenderam R$ 320 mil em espécie, além de anotações sobre desvios e favorecimentos.
Um dos focos da ação foi a pequena São Luiz
do Anauá, em Roraima. Com 7 mil habitantes, o município está entre os dez que
mais receberam recursos de emendas individuais entre 2020 e 2024. Os repasses
somaram R$ 89,4 milhões.
Em vistoria, a Controladoria-Geral da União
constatou que todas as obras foram destinadas à mesma empresa e estavam
paralisadas. A fiscalização encontrou sinais de fraude na pavimentação de ruas,
na construção de casas populares e na execução de um pórtico na entrada da
cidade.
Ao pedir aval às diligências, a PF descreveu
um cenário “absolutamente alarmante” e classificou as emendas pix como “terreno
fértil para desvios de grande monta”. A Procuradoria-Geral da República disse
enxergar um “panorama de irregularidades generalizadas”.
Nesta sexta, o ministro Flávio Dino, do
Supremo Tribunal Federal, mandou a PF abrir novas frentes de investigação. Ele
citou auditoria do Tribunal de Contas da União que fiscalizou uma centena de
emendas, somando R$ 198,1 milhões. Os técnicos identificaram prejuízos de R$
55,4 milhões, mais de um quarto do valor total.
Apesar dos esforços para impor padrões
mínimos de rastreabilidade e transparência nas emendas, Dino apontou a
“persistência de um estado de inconstitucionalidade”. A farra deveria estar na
mira de todos os candidatos ao Planalto.
No lançamento da campanha à reeleição, Lula
prometeu reagir ao sequestro do Orçamento. “Minha quarta presidência é para
mudar muita coisa neste país. Vai ter briga com emenda parlamentar”, disse o
presidente. Faltou explicar por que ele não quis fazer o enfrentamento no
mandato atual.
O segundo colocado nas pesquisas parece ainda
menos interessado em mudanças. Em maio, Flávio Bolsonaro reclamou que as
emendas estariam sendo “demonizadas”. “Os recursos não podem ficar tão
concentrados nas mãos da União”, discursou. Foi aplaudido pela plateia de
prefeitos, público-alvo das emendas pix.
Dois amigos de Roberta
Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, virou
alvo de três inquéritos da PF por suspeitas de tráfico de influência. Mais uma
vez, suas andanças vão fornecer munição eleitoral contra o pai.
Em Brasília, muitos petistas já conheciam a
proximidade do filho do presidente com Roberta Luchsinger. Poucos sabiam que a
lobista também fazia favores a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. Chefe
de gabinete de Lula, ele detinha uma das mercadorias mais valorizada na
capital: acesso ao poder.
As investigações reanimaram a oposição. O candidato Ronaldo Caiado cunhou uma frase que conecta os dois amigos de Roberta: “O escândalo do príncipe chegou à antessala do rei”.

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