domingo, 9 de agosto de 2026

O verdadeiro ponto fraco dos democratas, por Fareed Zakaria

Washington Post /O Estado de S. Paulo

Esquerda tem a paixão, mas centro detém os votos de que o partido precisa para vencer as eleições

Fragilidades estão nas questões sociais e culturais como criminalidade e a agenda ‘woke’

Os democratas estão diante de um dilema, e as primárias para o Senado no Estado de Michigan ilustraram isso perfeitamente. Abdul El-Sayed, o carismático progressista, derrotou a deputada Haley Stevens, a moderada apoiada pela cúpula do partido. A energia estava, sem dúvida, do lado de El-Sayed. Mas uma análise do Washington Post revela que seu apoio se concentrou nos condados com maior nível de escolaridade e nas cidades universitárias do Estado; Stevens teve melhor desempenho em muitas áreas rurais e de baixa renda. O dilema: a esquerda tem a paixão, mas o centro ainda detém os votos de que os democratas precisam para vencer nas eleições gerais.

A resposta progressista é que os democratas podem resolver isso tornando-se mais populistas economicamente – atacando bilionários, ampliando benefícios e, assim, atraindo a classe trabalhadora. Mas essas ideias não atraem a própria classe trabalhadora. Entre os democratas, uma pesquisa do Pew mostra que 41% dos graduados universitários afirmam gostar de políticos que se autodenominam socialistas democráticos, em comparação com apenas 26% daqueles sem diploma. Os democratas de renda mais alta também são muito mais favoráveis aos socialistas democráticos do que os de renda mais baixa: 40% ante 24%.

Os democratas passaram anos sonhando com uma recuperação da classe trabalhadora. O presidente Joe Biden empreendeu o maior esforço das últimas décadas para conquistá-la por meio de políticas econômicas. Seu governo injetou centenas de bilhões de dólares em infraestrutura, fábricas, energia limpa e semicondutores, sendo que grande parte desses recursos foi direcionada a condados republicanos. No entanto, na eleição seguinte, em 2024, Donald Trump conquistou os eleitores sem diploma universitário e aqueles com renda inferior a US$ 50 mil (ao ano), ao mesmo tempo em que obteve ganhos entre os eleitores hispânicos e negros da classe trabalhadora. Nos últimos 30 anos, os democratas se deslocaram para a esquerda em questões econômicas – Obama estava à esquerda de Clinton, e Biden estava à esquerda de Obama – e, nesse mesmo período, a classe trabalhadora abandonou o partido de forma constante.

A lição não é que as questões econômicas não importem. Mas o problema do Partido Democrata não é ser visto como excessivamente centrista em questões econômicas. Os democratas costumam superar os republicanos em questões como saúde e, mesmo agora, custo de vida. Seus pontos fracos são as questões culturais e sociais – criminalidade, imigração, a fronteira e a agenda “woke”. Um exemplo: de acordo com uma pesquisa do The Argument, entre os eleitores que desaprovavam Trump, mas ainda assim tendiam a votar em sua legenda, o Partido Republicano liderava em confiança em relação à criminalidade por 47% a 1%.

Quando os democratas ficam sob pressão, é muito mais fácil para eles se posicionar mais à esquerda em questões econômicas do que se aproximar do centro em questões culturais. Se falarem abertamente e afirmarem que a fronteira deve ser controlada, que reincidentes devem ser punidos, que os padrões de mérito devem ser defendidos ou que o sexo biológico é importante, correm o risco de enfrentar revoltas por parte de ativistas, grupos de defesa de causas e assessores com alto nível de escolaridade. Assim, em vez disso, os democratas oferecem um subsídio maior, um novo benefício ou um ataque mais contundente aos bilionários, enquanto deixam intocadas as atitudes culturais que afastam muitos eleitores.

As evidências sugerem que essa abordagem é equivocada. Um estudo analisou as mudanças de posição dos democratas em 29 questões políticas e constatou que os maiores ganhos eleitorais tendiam a vir de uma aproximação ao centro em questões sociais e culturais. Outro relatório constatou que os eleitores da classe trabalhadora davam muito mais ênfase do que os graduados universitários liberais à segurança nas fronteiras, à redução da criminalidade e ao aumento do efetivo policial. Os graduados universitários liberais, por sua vez, davam muito mais ênfase à resistência ao autoritarismo, à proteção dos direitos das pessoas trans e ao acesso ao aborto, além do combate às mudanças climáticas.

A divisão se ampliou não porque os eleitores da classe trabalhadora simplesmente tenham se inclinado para a direita, mas porque os democratas com formação superior se deslocaram mais para a esquerda e de forma mais rápida. De acordo com uma análise do especialista em política americana Nicholas Jacobs, em 2000, apenas cerca de 8% tanto dos democratas quanto dos eleitores da classe trabalhadora eram a favor do aumento da imigração. Em 2020, 48% dos democratas eram a favor, em comparação com 24% dos eleitores da classe trabalhadora.

Uma diferença de três pontos sobre o aborto em 1980 tornou-se uma diferença de 30 pontos em 2024. Grandes diferenças também surgiram em relação à religião, à família e à confiança no governo para não desperdiçar o dinheiro dos contribuintes.

Trump compreende a força política desse distanciamento. Ouça contra o que ele critica em seus comícios de campanha: atletas transgêneros, burocracias de diversidade, equidade e inclusão (DEI), universidades de elite, criminalidade e uma fronteira fora de controle. Ele sabe que essas questões atingem os eleitores em cheio.

A resposta não é que os democratas imitem Trump, abandonem as minorias ou se tornem reacionários. É deixar de imaginar que o “Medicare para todos” e os impostos sobre a riqueza irão restaurar a coalizão do New Deal. Esse mundo e essa coalizão já não existem mais.

A boa notícia é que o partido já possui uma coalizão moderna formidável: eleitores com formação superior, mulheres, minorias, jovens americanos e muitos eleitores da classe trabalhadora e da classe média nas áreas metropolitanas dos Estados Unidos. Esses eleitores não querem uma revolução socialista, mas um governo liberal eficaz que cumpra suas promessas – moradia acessível, boas escolas, assistência médica acessível, ruas seguras, fronteiras controladas, imigração legal e crescimento econômico. E talvez isso ajude os democratas a reconquistarem também o restante da classe trabalhadora.

Os democratas precisam mostrar aos eleitores culturalmente moderados que o liberalismo sabe distinguir compaixão de permissividade, abertura de desordem e igualdade de conformidade ideológica. Michigan mostrou onde reside a energia do partido para sua base, a parcela de americanos que vota nas primárias. O teste é se os democratas conseguirão transformar essa energia em uma política de bom senso que agrade ao restante do país.

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