O Estado de S. Paulo
O novo governo começará com muito trabalho para os ministérios da Fazenda, do Planejamento e das Relações Exteriores
Donald Trump é o desafio diplomático mais
duro e mais importante para o governo brasileiro neste momento. Tendo
fracassado, até agora, na ambição de ser imperador do mundo, o presidente dos
Estados Unidos tenta pelo menos comandar as Américas, desde o território dos
ursos polares até o dos pinguins, no extremo meridional. Conquistado o apoio da
Casa Rosada, falta submeter o Palácio do Planalto, sede da Presidência do maior
país sulamericano. O governo colombiano migrou para a direita, acompanhando os
vizinhos de fala castelhana, e quase toda a região combina com o azul de Javier
Milei.
Se bastasse dizer não ao governante americano, seria muito mais confortável a situação do presidente brasileiro e de sua equipe. Mas o jogo é mais complicado. O Brasil exportou para os Estados Unidos, até julho, produtos no valor de US$ 20,95 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Importou um pouco mais e acumulou um pequeno déficit, US$ 2,27 bilhões, dado incompatível com o discurso protecionista do presidente Trump.
O mercado americano aparece, nessas
estatísticas, como segundo maior destino das exportações brasileiras, superado
pela China. Essa classificação refere-se apenas a países. Se o critério
incluísse associações de países, a União Europeia estaria em segundo lugar,
como destino de produtos brasileiros no valor de US$ 31,59 bilhões.
Os Estados Unidos também se diferenciam como
compradores de manufaturados e semimanufaturados produzidos no Brasil. Também
por isso a indústria brasileira reagiu com rapidez, quando a Casa Branca elevou
as tarifas de importação, e procurou apoio dos parceiros comerciais americanos.
O apoio foi proporcionado, mas, além disso, a decisão de Trump veio com uma
grande lista de exceções, favorecendo tanto os grupos americanos quanto seus fornecedores
estrangeiros.
O reconhecimento de interesses comerciais
comuns, pelo governo americano, tem facilitado, em algumas áreas, a ação da
diplomacia brasileira. As pretensões imperiais de Trump, no entanto, tendem a
impor-se em quase todos os momentos. Isso ocorreu de novo, há poucos dias,
quando foi revogado, embora sem expulsão, o visto da embaixadora brasileira em
Washington.
Extraoficialmente, o gesto foi vinculado a
uma suposta demora no reconhecimento, pelo governo brasileiro, do embaixador
recém-nomeado pelo presidente Trump. Fontes brasileiras apontaram duas
anomalias diplomáticas do lado americano. Além de anunciar o nome do novo
embaixador antes da aceitação pelas autoridades de Brasília, o governo dos
Estados Unidos cobrou uma urgência incomum e ainda menos necessária quando o
país anfitrião está em período de eleições.
Aparentemente muito limitado, o incidente
pode ser mais importante do que talvez pareça neste momento. O indicado para a
embaixada americana em Brasília, Daniel Perez, tem carreira política na Flórida
e é filho de imigrantes cubanos, assim como o secretário de Estado, Marco
Rubio. Não está claro ainda se a sua missão será concentrada em favorecer um
relacionamento produtivo entre Estados Unidos e Brasil ou se envolverá a promoção,
em território brasileiro e na vizinhança, de interesses da ala mais
conservadora – ou mais reacionária, mesmo – da direita americana. Se a segunda
hipótese for correta, o presidente Javier Milei poderá ter um parceiro
relevante na embaixada americana em Brasília.
O presidente Lula tem conseguido, apesar de
arroubos ocasionais, controlar-se diante das provocações do governo americano,
potencialmente favoráveis aos planos bolsonaristas. Embora a concorrência
eleitoral possa ter ficado mais apertada, a maior ameaça ao candidato petista,
neste momento, pode vir dele mesmo, se cometer algum destempero político ou
administrativo. Seu principal competidor, o senador Flávio Bolsonaro, parece
ter falhado na tentativa, anunciada por ele mesmo, de se afastar de alguns
padrões herdados de seu pai.
Parte do eleitorado tem dado sinais de estar
farta de uma política dominada, há muitos anos, pelas mesmas figuras. Mas a
mudança, segundo indicaram até agora as pesquisas eleitorais, só poderá ocorrer
dentro de alguns anos, provavelmente depois do próximo mandato. O candidato
Lula tem prometido inovações, mas sem avançar em detalhes.
Por enquanto, os cenários mais otimistas
incluem crescimento moderado, com inflação contida e inovação no setor
produtivo, se o presidente eleito se dispuser ao trabalho sério. Alguns
candidatos, baseados em experiências na administração estadual, têm prometido
modernização. Mas planos e programas com razoável detalhamento são raridades.
O primeiro ano da próxima administração
poderá ser dedicado principalmente a um esforço de arrumação das contas
públicas, com algum ganho de curto prazo. Mas um ajuste sério e duradouro
dependerá de mudanças estruturais nas finanças públicas – um avanço dependente
até de mexidas na Constituição e, portanto, de mobilização de apoio
parlamentar. O novo governo começará com muito trabalho para os ministérios da
Fazenda, do Planejamento e das Relações Exteriores. •

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