domingo, 9 de agosto de 2026

Eleição entre pressão externa e urgência interna, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

O novo governo começará com muito trabalho para os ministérios da Fazenda, do Planejamento e das Relações Exteriores

Donald Trump é o desafio diplomático mais duro e mais importante para o governo brasileiro neste momento. Tendo fracassado, até agora, na ambição de ser imperador do mundo, o presidente dos Estados Unidos tenta pelo menos comandar as Américas, desde o território dos ursos polares até o dos pinguins, no extremo meridional. Conquistado o apoio da Casa Rosada, falta submeter o Palácio do Planalto, sede da Presidência do maior país sulamericano. O governo colombiano migrou para a direita, acompanhando os vizinhos de fala castelhana, e quase toda a região combina com o azul de Javier Milei.

Se bastasse dizer não ao governante americano, seria muito mais confortável a situação do presidente brasileiro e de sua equipe. Mas o jogo é mais complicado. O Brasil exportou para os Estados Unidos, até julho, produtos no valor de US$ 20,95 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Importou um pouco mais e acumulou um pequeno déficit, US$ 2,27 bilhões, dado incompatível com o discurso protecionista do presidente Trump.

O mercado americano aparece, nessas estatísticas, como segundo maior destino das exportações brasileiras, superado pela China. Essa classificação refere-se apenas a países. Se o critério incluísse associações de países, a União Europeia estaria em segundo lugar, como destino de produtos brasileiros no valor de US$ 31,59 bilhões.

Os Estados Unidos também se diferenciam como compradores de manufaturados e semimanufaturados produzidos no Brasil. Também por isso a indústria brasileira reagiu com rapidez, quando a Casa Branca elevou as tarifas de importação, e procurou apoio dos parceiros comerciais americanos. O apoio foi proporcionado, mas, além disso, a decisão de Trump veio com uma grande lista de exceções, favorecendo tanto os grupos americanos quanto seus fornecedores estrangeiros.

O reconhecimento de interesses comerciais comuns, pelo governo americano, tem facilitado, em algumas áreas, a ação da diplomacia brasileira. As pretensões imperiais de Trump, no entanto, tendem a impor-se em quase todos os momentos. Isso ocorreu de novo, há poucos dias, quando foi revogado, embora sem expulsão, o visto da embaixadora brasileira em Washington.

Extraoficialmente, o gesto foi vinculado a uma suposta demora no reconhecimento, pelo governo brasileiro, do embaixador recém-nomeado pelo presidente Trump. Fontes brasileiras apontaram duas anomalias diplomáticas do lado americano. Além de anunciar o nome do novo embaixador antes da aceitação pelas autoridades de Brasília, o governo dos Estados Unidos cobrou uma urgência incomum e ainda menos necessária quando o país anfitrião está em período de eleições.

Aparentemente muito limitado, o incidente pode ser mais importante do que talvez pareça neste momento. O indicado para a embaixada americana em Brasília, Daniel Perez, tem carreira política na Flórida e é filho de imigrantes cubanos, assim como o secretário de Estado, Marco Rubio. Não está claro ainda se a sua missão será concentrada em favorecer um relacionamento produtivo entre Estados Unidos e Brasil ou se envolverá a promoção, em território brasileiro e na vizinhança, de interesses da ala mais conservadora – ou mais reacionária, mesmo – da direita americana. Se a segunda hipótese for correta, o presidente Javier Milei poderá ter um parceiro relevante na embaixada americana em Brasília.

O presidente Lula tem conseguido, apesar de arroubos ocasionais, controlar-se diante das provocações do governo americano, potencialmente favoráveis aos planos bolsonaristas. Embora a concorrência eleitoral possa ter ficado mais apertada, a maior ameaça ao candidato petista, neste momento, pode vir dele mesmo, se cometer algum destempero político ou administrativo. Seu principal competidor, o senador Flávio Bolsonaro, parece ter falhado na tentativa, anunciada por ele mesmo, de se afastar de alguns padrões herdados de seu pai.

Parte do eleitorado tem dado sinais de estar farta de uma política dominada, há muitos anos, pelas mesmas figuras. Mas a mudança, segundo indicaram até agora as pesquisas eleitorais, só poderá ocorrer dentro de alguns anos, provavelmente depois do próximo mandato. O candidato Lula tem prometido inovações, mas sem avançar em detalhes.

Por enquanto, os cenários mais otimistas incluem crescimento moderado, com inflação contida e inovação no setor produtivo, se o presidente eleito se dispuser ao trabalho sério. Alguns candidatos, baseados em experiências na administração estadual, têm prometido modernização. Mas planos e programas com razoável detalhamento são raridades.

O primeiro ano da próxima administração poderá ser dedicado principalmente a um esforço de arrumação das contas públicas, com algum ganho de curto prazo. Mas um ajuste sério e duradouro dependerá de mudanças estruturais nas finanças públicas – um avanço dependente até de mexidas na Constituição e, portanto, de mobilização de apoio parlamentar. O novo governo começará com muito trabalho para os ministérios da Fazenda, do Planejamento e das Relações Exteriores. •

 

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