domingo, 9 de agosto de 2026

Os poderosos nunca aprendem, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Risco de André Mendonça é dar com os burros n’água, como Sérgio Moro e Alexandre de Moraes

Não se espere que o ministro do STF André Mendonça se envolva em contratos de R$ 130 milhões com quem quer que seja, mas o risco dele é seguir os passos de Alexandre de Moraes na concentração de poderes, decisões autoritárias e litígios com órgãos e agentes que deveriam ser, antes de tudo, parceiros.

Moraes repetiu o tombo histórico de Sérgio Moro e agora é Mendonça quem tem de evitar sofrer o tombo de Moro e do próprio Moraes, que foram do céu ao inferno. O poder sobe à cabeça, mas é efêmero. Os poderosos nunca aprendem.

Assim como Moraes chegou a ser relator de 21 dos 37 inquéritos do STF, no início de 2025, incluindo os de maior impacto e que atingiam Jair Bolsonaro e seu governo, Mendonça é hoje responsável pelos explosivos Banco Master e INSS, resvalando para Lulinha, filho do presidente Lula.

Bom moço, pastor à moda antiga, ar sério e confiável, Mendonça foi indicado por Bolsonaro e começou bem no caso Master, até porque qualquer um seria melhor do que o relator anterior, Dias Toffoli, que aceitou a função tendo negócios com Daniel Vorcaro e agiu em interesse próprio.

Mendonça assumiu, tomou as medidas certas, ganhou o apoio da opinião pública e as investigações e suas consequências evoluíam a contento, até a política e a maldita polarização nacional contaminarem o ambiente e os trabalhos.

De um lado, André Mendonça, o escolhido de Bolsonaro. De outro, Andrei Rodrigues, diretor geral da PF, nomeado por Lula, que fez 19 viagens com o presidente, a 20 países, neste mandato. André e Andrei são respeitáveis, mas os padrinhos pairam e jogam desconfiança sobre, e entre, eles.

Como Toffoli, agora é Mendonça quem interfere no trabalho e na hierarquia da PF, ao exigir que o material bruto dos inquéritos seja enviado a seu gabinete e os delegados do caso reportem-se diretamente a ele, sem passar pela cúpula e o crivo da PF. Em que lei ou regra isso está previsto?

O petrolão e a tentativa de golpe existiram, inegavelmente, mas a Lava Jato desmoronou e as condenações do golpe estão sob risco por erros de conduta ou procedimento, como os revelados pela Vaza Jato e o contrato da família Moraes com Vorcaro. O que se exige de Mendonça é que seja impecável, não extrapole limites nem caia no jogo político.

Não faça, por exemplo, como Moraes, que ofereceu sua casa para negociações políticas entre Lula e Davi Alcolumbre. E se Mendonça recepcionasse Flávio Bolsonaro e Alcolumbre, a menos de dois meses das eleições? Pode isso, minha gente? •

 

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