É
no detalhe, na palavra impensada, que a discriminação se revela em molde de
pílula dourada
Ainda
que por atenção à maioria, políticos precisam aprender a falar direito com o
eleitorado feminino
O machismo é
um bicho incontrolável que se agarra às mentes e, mesmo quando adormecido por
vontades conscientes, faz das suas ao acordar num repente para avisar que tem
vida própria.
Às
vezes é um detalhe, uma palavra, um ato de aparente autocrítica que, por
substituírem as grosserias explícitas, passam com suavidade pelo crivo do
alerta à discriminação. Luiz
Inácio da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) escorregam na pista do
preconceito envolto em pílula dourada e deram exemplos recentes.
Há
uma semana, em entrevista ao programa Canal Livre, o senador atribuiu seus
atritos com Michelle Bolsonaro a inseguranças dela. Na antevéspera, em café da manhã com
vereadores, havia criticado a preferência das eleitoras por Lula. Dias depois,
disse que, no primeiro caso, invalidou as razões da madrasta e, no segundo,
validou a ideia de que mulheres votam mal.
Na
confirmação de sua candidatura à reeleição, em reunião do partido, o presidente
pareceu salvar a lavoura do esquecimento do PT de
escalar uma mulher entre as candidatas presentes para discursar, ao chamar de
improviso Janja da Silva para dizer meia dúzia de palavras à
guisa de remendo. Ressaltou, assim, a própria falha de orientação na composição
do evento.
Podem
parecer sutilezas, detalhes, mas, como sabemos, é neles que o diabo se esconde.
E, pelo visto, onde o machismo se camufla. Dissimulado, mas sempre pronto à
investida explícita.
Mulheres,
somos 52,84% dos votantes, numa proporção crescente a contar pela
evolução nos últimos dez anos: de mais de 74 milhões para quase 84 milhões de
eleitoras. Mais que na hora, portanto, de os senhores candidatos, dirigentes
partidários e governantes —para ficarmos só no campo da política— aprenderem a
falar e a se comportar direito conosco, sem enfeites nem disfarces de bons
moços.

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