domingo, 9 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Candidatos não podem continuar a ignorar crise fiscal

Por O Globo

Em atitude irresponsável e acintosa, Lula e Flávio agem como avestruzes fingindo que nada de grave acontece

O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem sido um desastre para os cofres públicos. Em junho, a dívida pública chegou a 81,9% do PIB, maior patamar desde a pandemia. Ao longo dos quatro anos de governo, deverá crescer 10 pontos percentuais. Quanto mais aumenta, maior a insegurança sobre a capacidade do Tesouro de pagá-la e maiores as taxas exigidas para que tome no mercado novos empréstimos e consiga honrar seus compromissos. Sem mudança de rumo, a dívida continuará a aumentar em ritmo insustentável e poderá em breve levar o país à situação trágica que mistura estagnação econômica e inflação alta. Diante disso, seria de esperar que a iminência do abismo fiscal fosse um dos principais temas da campanha eleitoral. Mas não. Até agora, os dois líderes nas pesquisas — Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — agem como avestruzes, fingindo que nada de muito grave acontece. É uma atitude irresponsável perante o risco e acintosa diante do eleitor.

Dentro do PT, é palpável o desconforto com o tema. Em julho, Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de governo de Lula, mostrou total despreparo em encontro com representantes do mercado financeiro. Entre as propostas econômicas para um novo mandato, afirmou, estavam aumento do salário mínimo e controle de capitais. São duas medidas sem cabimento. A primeira acabaria com as contas da Previdência. A segunda, com o mercado financeiro. Gabrielli reconheceu que a dívida está alta, mas defendeu que a solução da questão fiscal passa por cortar emendas parlamentares, sem necessidade de rever os pisos constitucionais de saúde e educação que engessam o Orçamento ou o vínculo dos benefícios previdenciários ao salário mínimo. Ora, as emendas são um disparate, mas reduzi-las está longe de bastar para resolver o desequilíbrio fiscal.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, tem tentado dissipar o mal-estar criado por Gabrielli, mas sem se sair muito melhor. “Desde 2024, o resultado do governo não é responsável pelo aumento do endividamento público, e sim a taxa de juros”, disse em entrevista à GloboNews. De acordo com Durigan, no quarto mandato Lula terá de fazer um ajuste fiscal reduzindo gastos obrigatórios, combatendo benefícios tributários, aperfeiçoando os pisos constitucionais e reduzindo o teto de gastos do arcabouço fiscal. Nada disso, porém, conta com aval de Lula, muito menos do PT, que sempre foi contrário a tais ideias e não cessa de torpedeá-las.

No campo bolsonarista, a situação é apenas marginalmente melhor. Reservadamente, Flávio tem reconhecido a necessidade de ajuste. Publicamente, porém, já fez promessas fiscalmente suicidas. A coordenadora de sua agenda econômica, Daniella Marques, deu uma entrevista sensata à GloboNews. Anunciou corte de gastos equivalente a 1,5% do PIB, a revisão do arcabouço fiscal e o enxugamento da máquina do governo. Mas deixou no ar dúvidas sobre o caminho para isso, sobretudo em razão da recusa de Flávio em se comprometer com a desvinculação de benefícios previdenciários do mínimo e dos gastos obrigatórios no Orçamento.

Os candidatos têm o dever de apresentar na campanha eleitoral, de forma clara e didática, planos detalhados e exequíveis sobre o que pretendem fazer a respeito da crise fiscal em curso. Poucos assuntos são tão relevantes para o futuro do próximo governo e merecem mais atenção dos eleitores.

Porto Seguro ilustra flagelo da expansão do crime organizado

Por O Globo

Cidade baiana se tornou uma das mais violentas ao abrigar facção cujo chefe se esconde em favela no Rio

O aumento da violência em regiões além do eixo Rio-São Paulo é reflexo da ampliação geográfica do tráfico de drogas. Um exemplo é o Sul da Bahia, ponto de forte atração turística que se tornou uma das áreas mais violentas do país. O caso ressalta a necessidade de as autoridades ligadas à segurança, nos três níveis da administração pública, planejarem e executarem planos integrados de repressão aos traficantes.

O país como um todo tem registrado queda na violência, medida pelas mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes. Em 2015, esse índice era de 28,6. Atingiu o pico de 30,9 em 2017 e no ano passado foi de 19,1 — queda de 33,2% em dez anos, pelos dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). A análise dos dados regionais, porém, revela situações preocupantes. Das dez cidades mais violentas do país, cinco ficam na Bahia.

Porto Seguro (segunda colocada no ranking) e a vizinha Eunápolis (quarta) se converteram em referência negativa na segurança pública. De acordo com David Marques, gerente de programas do FBSP, os motivos transcendem a falta de policiamento. Com o turismo, a região de praias passou a atrair o varejo de drogas. Porto Seguro também ocupa um ponto logístico estratégico, perto do entroncamento de rodovias importantes (BR-101 e BR-367) e não muito distante do Porto de Ilhéus. Dispõe ainda de um aeroporto internacional, que recebe voos fretados. Viajantes de poder aquisitivo elevado fecham o pacote que atrai o tráfico — e, com ele, a violência. Houve no ano passado 130 homicídios em Porto Seguro, ou 71,2 por 100 mil habitantes, quase o quádruplo da média nacional. A letalidade das polícias da Bahia, as que mais matam no país, é outro ingrediente que contribui para as estatísticas funestas.

Depois do surgimento do Comando Vermelho (CV) no Rio e do Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo, grupos locais procuraram reproduzir a estrutura dessas facções noutros estados. Na região de Porto Seguro atua o Primeiro Comando de Eunápolis (PCE), chefiado por Ednaldo Pereira Souza, o Dada, ligado ao CV. Foi esse vínculo que lhe garantiu esconderijo no Rio, depois de fugir da penitenciária local em dezembro de 2024, com ajuda da então diretora, a pedido do ex-deputado federal Uldurico Júnior, preso em abril. Dada conseguiu escapar de uma operação no Morro do Vidigal e passou a se esconder na favela da Rocinha. Do Rio, comanda o PCE, enquanto na Justiça da Bahia é alvo de processos sobre desaparecimentos e homicídios relacionados ao controle do tráfico na região.

Tal situação expõe os limites das políticas estaduais no combate a organizações criminosas que se espalham por todo o país. De nada adianta a polícia baiana disparar tiros, se o cérebro da organização continua no Rio de Janeiro. Sem integração das forças de segurança sob coordenação federal e um plano de asfixia financeira das facções, a violência não será contida. O primeiro passo para isso é a aprovação da PEC da Segurança, que infelizmente ainda repousa em alguma gaveta do Senado.

Transparência no Judiciário precisa sair do discurso

Por Folha de S. Paulo

Proposta de novas regras para prevenir conflitos de interesse, apresentada por Fachin no CNJ, merece apoio

Embora não se apliquem ao STF, as normas sugeridas se somam ao maior controle sobre emendas e ao endurecimento das punições a magistrados

A iniciativa do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Edson Fachin, de estabelecer regras para prevenir conflitos de interesse na magistratura merece apoio.

Ela não resolverá todos os problemas de imagem do Judiciário, mas enfrenta questões que há muito tempo exigem normas mais claras.

A proposta amplia a transparência sobre atividades privadas dos magistrados, participação em eventos de empresas, recebimento de presentes, hospitalidades e outras vantagens.

Também prevê mecanismos para identificar relações econômicas e profissionais que possam comprometer a independência dos juízes, além da criação de instrumentos para orientar condutas e prevenir situações de risco.

Como o STF não se submete a normas do CNJ, outro texto poderá ser apresentado mais à frente aos ministros da alta corte, onde há considerável resistência à submissão a um código de ética.

Mesmo integrantes do Supremo próximos a Fachin questionam ideias como a obrigatoriedade de informar processos em que familiares dos ministros atuam como advogados e a divulgação da agenda de compromissos.

Seria desejável, contudo, que, a partir da experiência do CNJ, o STF viesse a adotar também normas de transparência.

Fachin deu prazo de 60 dias para que tribunais apresentem sugestões antes da votação da resolução pelo CNJ. A consulta é bem-vinda e pode aperfeiçoar o texto. O importante é que a iniciativa não se perca em discussões intermináveis nem seja esquecida.

A proposta faz parte de um movimento mais amplo de fortalecimento da integridade no Judiciário. Nesse contexto, o Supremo também merece reconhecimento pela tentativa de controlar abusos nas emendas parlamentares.

As decisões do ministro Flávio Dino, ao exigir mais visibilidade e rastreabilidade na destinação desses recursos, representam ação importante em área historicamente marcada por distorções.

Constitui também avanço a regulamentação, pelo CNJ, do fim da aposentadoria compulsória como punição máxima a magistrados que cometam infrações graves. A possibilidade de perda definitiva do cargo, após o devido processo legal, elimina uma anomalia que transmitia a impressão de que juízes punidos permaneciam amparados por um privilégio incompatível com a gravidade de certas condutas.

Isso não resolve o desgaste da reputação do Judiciário, também provocado pelos supersalários inflados por penduricalhos que desrespeitam o teto constitucional. O tema continua a cobrar respostas das instituições e não pode ficar à margem da modernização do sistema de Justiça.

Transparência, combate aos conflitos de interesse, responsabilização e fiscalização de recursos fortalecem o Poder Judiciário e a democracia. A agenda iniciada por Fachin vai na direção correta e deveria chegar ao Supremo.

A educação perde de goleada

Por Folha de S. Paulo

Lei que determina férias escolares durante a Copa do Mundo Feminina bagunça organograma escolar

Há arranjos informais que permitem torcer pela seleção; ninguém precisou estar em férias para assistir ao 7 a 1 da Alemanha contra o Brasil

Já se tornou uma tradição brasileira: candidatos comprometem-se a dar prioridade total à educação, mas, uma vez empossados, não só esquecem a promessa como às vezes adotam medidas que a prejudicam. É o caso de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Na campanha de 2022, seu plano de governo afirmava que o investimento em educação seria o pilar central do desenvolvimento, mensagem reforçada em comícios e na propaganda eleitoral.

No poder, não fez muito para efetivar tal discurso. Sua principal iniciativa, o Pé-de-Meia, é um programa de transferência de renda, não propriamente pedagógico. O PT parece acreditar que os problemas do país podem ser resolvidos com a concessão de algum tipo de bolsa.

Agora, incapaz de resistir ao populismo em questões de gênero, afeta a organização escolar.
Em maio, o Congresso Nacional aprovou a lei 15.421 de 2026, uma proposta do governo federal relativa à Copa do Mundo Feminina da Fifa.

Seu artigo 67 determina que todas as escolas do país, públicas e privadas, decretem recesso durante o evento, que ocorrerá entre junho e julho de 2027. A ideia é mostrar que o Brasil atribui importância tanto ao futebol feminino quanto ao masculino —ainda que, na Copa de 2014, o dispositivo que estabelecia as férias obrigatórias tenha caído.

Não se trata de questão menor. Estruturar o calendário escolar é tarefa complexa. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) exige um mínimo de 200 dias letivos com 800 horas-aula anuais. Escolas também precisam se adequar aos acordos coletivos de professores e funcionários, sem mencionar demandas específicas de alunos e pais. Em 2027, haverá dez feriados nacionais, além dos locais.

A resposta das redes de ensino a tantas condicionantes tem sido reduzir as férias de julho, que, por vezes, não ultrapassam dez dias. São os gestores, e não legisladores ou burocratas, os mais qualificados para decidir sobre o tema.

Se o sucesso da Copa feminina dependesse só da paralisação compulsória, ainda seria possível discutir sua oportunidade. Esse, porém, está longe de ser o caso.

Há décadas, brasileiros e outros povos não têm nenhuma dificuldade em produzir arranjos informais de horários que permitem a todos torcer por suas seleções, masculinas ou femininas —as pessoas não precisaram estar em férias para assistir ao 7 a 1 da Alemanha contra o Brasil em 2014.

É lamentável constatar que governantes, quando submetidos a testes reais, não hesitam em sacrificar o alegado apreço pela educação em prol do populismo.

O ‘pas de deux’ de Lula e Flávio na lama

Por O Estado de S. Paulo

Escândalos de ambos os lados sequestram o debate eleitoral, transformam a PF no Grande Eleitor e empurram para segundo plano a discussão sobre os desafios e o futuro do País

A Polícia Federal (PF) tornou-se o Grande Eleitor da disputa presidencial deste ano. São as investigações da PF nos escândalos que se multiplicam ao redor dos dois principais candidatos, Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, que têm o potencial de decidir quem vai presidir o País a partir de 2027. A campanha parece ter sido definitivamente capturada pelo noticiário policial, tornando secundário, quando não inexistente, o debate sobre os grandes problemas nacionais. Lula e Flávio ensaiam um pas de deux na lama, para tédio da plateia.

A mais nova frente de investigação da PF envolve um velho conhecido do anedotário lulopetista, o notório Fábio Luís Lula da Silva, vulgo “Lulinha”, e um estreante dos escândalos da turma do PT, Marco Aurélio Santana Ribeiro, vulgo “Marcola”. Aqui, nada cheira bem: um é filho do presidente, o outro era o assessor mais próximo de Lula, e ambos são suspeitos de facilitar a vida de uma lobista, a empresária Roberta Luchsinger, que tinha entre seus clientes o empresário e também lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, vulgo “Careca do INSS”, suspeito de ser o pivô do esquema que resultou no roubo do dinheiro de milhões de aposentados.

Até então, Lula estava refestelado na poltrona assistindo à desgraça de seu adversário, às voltas com o escândalo do Banco Master, igualmente investigado pela PF. Pilhado pedindo milhões de dólares ao banqueiro delinquente Daniel Vorcaro, com o qual jurava que não tinha relação, Flávio Bolsonaro mentiu para o próprio partido, enrolou-se nas explicações e ofendeu a inteligência alheia, o que lhe custou pontos preciosos nas pesquisas de intenção de voto.

Agora, porém, o caso envolvendo “Lulinha”, “Marcola” e “Careca do INSS” deu a Flávio a chance de tentar igualar o jogo. Como não consegue conquistar votos além da seita bolsonarista porque não tem nada a oferecer ao País a não ser o sobrenome que recebeu do pai, preso por tentativa de golpe, Flávio parece disposto a aproveitar o momento para investir na transformação definitiva da campanha eleitoral numa disputa sobre quem é mais emporcalhado. Tanto é assim que escolheu como companheiro de chapa o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), cuja única importância foi ter sido justamente relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou os desvios no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Nessa condição, Gaspar trabalhou com afinco para vincular o escândalo ao governo Lula e a “Lulinha”. Não foi lá muito bem-sucedido, porque seu relatório final foi rejeitado. Mas, para o bolsonarismo, isso não importa: sua missão na campanha não será a de defender propostas, dado que são inexistentes, mas a de carimbar o caso do INSS na candidatura de Lula.

Tudo isso pode excitar um eleitorado até aqui apático e desinteressado da eleição, mas certamente não resultará em uma disputa relevante de ideias e de propostas. É evidente que a integridade moral dos candidatos é um requisito indispensável para quem se dispõe a governar o Brasil, mas a eleição não pode se limitar a isso. Temos de saber o que os candidatos têm a propor para enfrentar questões relevantes e prementes, como o alto endividamento público, a asfixia financeira das famílias e dos empresários, a baixíssima produtividade, as imensas carências da educação pública, o papel do Brasil num mundo em grande transformação tecnológica e geopolítica e as mudanças drásticas no comércio internacional.

O próximo presidente, portanto, não pode ser apenas aquele que, no cotejo dos escândalos, tenha se saído menos mal. Contudo, tendo em vista que Lula não tem nada de novo a oferecer ao Brasil, depois de tantos anos de governos medíocres, e que Flávio Bolsonaro é declaradamente um figurante na sua própria campanha, sem ter a mais remota ideia do que fazer caso se torne presidente, teremos pela frente uma das campanhas eleitorais mais sofríveis da história brasileira.

É preciso fiscalizar os fiscais

Por O Estado de S. Paulo

Fachin faz bem em aperfeiçoar as regras de conduta da magistratura. Mas não restaurará a confiança pública com um CNJ corporativista, fiscalização insuficiente e um STF imune

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, propôs ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) regras para que magistrados declarem interesses, avaliem quem paga suas viagens, recusem presentes impróprios e informem vínculos familiares ou societários que ponham em dúvida sua imparcialidade. Avanço tardio, mas necessário. Parte da cúpula judicial trata essas cautelas como preciosismo de quem não compreende a vida moderna dos tribunais. O resultado está à vista: fóruns patrocinados por grandes litigantes, confraternizações com empresários e políticos, e parentes contratados por partes interessadas.

A ética judicial começa antes do crime. Um ministro pode se considerar incorruptível e, ainda assim, criar uma situação em que o jurisdicionado tenha razões objetivas para desconfiar de sua equidistância. Por isso, democracias sérias disciplinam hospitalidades, palestras, atividades privadas e conflitos familiares. A liturgia da imparcialidade protege o cidadão e o juiz íntegro. Fachin acerta ao dar concretude a deveres que hoje se escondem em expressões genéricas como “prudência”, “decoro” e “conduta irrepreensível”.

A minuta, porém, termina justamente onde sua eficácia será provada. Quem verificará as declarações? Quem requisitará documentos, investigará omissões e decidirá se houve infração? Que consequência se seguirá à violação?

Essa dificuldade põe em causa justamente o CNJ. Criado em 2004 para combinar autonomia judicial e prestação de contas, o conselho produziu avanços: expôs nepotismo, padronizou procedimentos e rompeu proteções locais. Seu desenho, contudo, conservou o controle majoritariamente dentro da própria corporação. O órgão que deveria fiscalizar a magistratura tornou-se, em temas sensíveis, permeável aos interesses que fiscaliza.

A Constituição, por exemplo, fixou um teto remuneratório. Tribunais, conselhos e carreiras jurídicas multiplicam verbas indenizatórias, reconhecem exceções e administram internamente a legalidade das próprias criações, com aval do CNJ. Até a tentativa do STF de limitar os penduricalhos acabou admitindo pagamentos acima do limite constitucional. A regra permaneceu de pé, mas seu conteúdo foi escavado por dentro. Se esse precedente não condena a política de Fachin, mostra por que a qualidade da norma vale pouco sem um fiscal disposto a contrariar os beneficiários.

Mas o verdadeiro ponto cego é o próprio Supremo. A resolução do CNJ não alcança seus ministros, que se autodeclaram imunes à Lei Orgânica e ao Código de Ética da Magistratura. Um código próprio continua travado. A Corte dispõe de regras e comitês para seus servidores, enquanto a cúpula permanece entregue aos freios da reputação pessoal e do impeachment do Senado. Entre a autocontenção informal e a possibilidade politizada e remota do impeachment – por sinal, tornada ainda mais remota por uma liminar do ministro Gilmar Mendes –, há uma lacuna colossal de fiscalização e responsabilização.

O Banco Master tornou esse vazio impossível de ignorar. Relações privadas, contratos familiares, patrocínios e decisões processuais criaram dúvidas que exigiam esclarecimento institucional. Em seu lugar, o País assistiu a sigilos, disputas sobre acesso a provas, defesas corporativas e suspeitas sem resposta verificável. Não cabe presumir crimes. Cabe exigir um processo capaz de separar fatos, aparências e acusações com autoridade suficiente para ser respeitado.

Qualquer reforma terá de proteger os juízes contra retaliações políticas. O conteúdo de uma decisão não pode ficar sujeito ao governo, ao Congresso ou ao clamor público. Presentes, viagens, contratos, impedimentos e relações econômicas pertencem a outro plano. Regras e fiscalização sobre essas condutas preservam a independência porque reduzem oportunidades de influência e suspeita.

A proposta de Fachin merece apoio. Também expõe o trabalho que continua por fazer. É preciso restaurar a vocação fiscalizadora do CNJ, e o STF terá de aceitar algum regime capaz de transformar ética em responsabilidade verificável. A Justiça cobra de todos obediência às regras. Sua autoridade depende de provar que elas também alcançam quem dá a última palavra.

O milagre de Jaques Wagner

Por O Estado de S. Paulo

Explicação para a evolução de 631% do patrimônio do senador petista está no terreno da fé

Há milagres que a fé explica. Mas há outros que clamam por uma investigação mais mundana. A evolução patrimonial do senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo no Senado, é um desses casos que devem ser analisados sob as leis da Terra. Em apenas oito anos, o sr. Wagner mais que sextuplicou seu patrimônio. De acordo com as declarações prestadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o senador baiano tinha R$ 3,3 milhões em bens em 2018. Agora, às vésperas de disputar a reeleição, ele informou ao TSE ter R$ 24,5 milhões – um crescimento de impressionantes 631%.

Reconheçamos de antemão que o sr. Wagner não é o único político a registrar aumento substancial de patrimônio entre as duas últimas eleições gerais – 2018 e 2022 – e a deste ano. Mas seu caso é digno de nota porque não há notícia de que ele tenha exercido outra atividade remunerada no período além do exercício do mandato parlamentar, pelo qual recebe R$ 46.366,19 mensais. Sem dúvida, é um salário generoso, mas insuficiente para justificar um salto patrimonial dessa magnitude.

A explicação oficial do senador baseia-se na venda de um terreno em Camaçari, vizinho, por mera coincidência, ao centro de treinamento que o Bahia Esporte Clube lá construiu – negociado por R$ 13,8 milhões com a SAF do próprio clube e com uma incorporadora. Em 2018, esse mesmo lote valia, na declaração de bens do sr. Wagner, R$ 28 mil. Que o terreno valorize é normal. Que valorize 49.185% em oito anos é um milagre que desafia até o Dicastério para as Causas dos Santos. Tanto é assim que, procurado pelo Estadão, o senador preferiu não se manifestar.

Some-se àquele negócio a venda, ao prefeito de Conceição do Coité, de um apartamento na Vitória, bairro nobre de Salvador, por R$ 10 milhões – seis vezes o valor do mesmo bem declarado ao TSE. Isso sem falar nos dólares e euros encontrados em endereços do senador durante uma recente operação da Polícia Federal (PF), que ele alega ser dinheiro de “diárias de viagem” não usado – por que não devolveu aos cofres públicos, é outro mistério. A PF apura se o senador baiano recebeu propina de um ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master para favorecer interesses do empresário no Senado.

A biografia de Wagner publicada no site do PT registra que o senador foi um sindicalista fundador do partido na Bahia, governador do Estado por dois mandatos e ministro em governos petistas, até ser eleito senador em 2018. Ou seja, é uma vida dedicada à política, um currículo que torna a riqueza do senador intrigante, para dizer o mínimo. Wagner nunca teve, fora da política, outra fonte de renda conhecida. Logo, se multiplicou o patrimônio em proporção que humilha alguns dos melhores fundos de investimento do País, foi na política que o fez.

O bloqueio de bens determinado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e a suspensão da transferência do terreno em Camaçari pelo cartório responsável sugerem que há indícios de enriquecimento ilícito. Cabe unicamente a Jaques Wagner explicar como seu patrimônio se multiplicou por seis em tão pouco tempo. Enquanto essa explicação não vem, resta ao eleitor baiano decidir se acredita nesse tipo de milagre.

As lições para a educação

Por Correio Braziliense

Políticas públicas consistentes passam necessariamente pela valorização dos professores, entre outras medidas, e uma política de ensino que estimule o aluno a adquirir conhecimento

O Ministério da Educação e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) divulgaram, na semana passada, um diagnóstico da qualidade do ensino no país. Os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) mostram avanços nos anos iniciais e finais do ensino fundamental, bem como no ensino médio. O governo federal ressaltou que o desempenho obtido na análise do biênio 2023-2025 é o melhor já registrado da série histórica, iniciada em 2007. De fato, os números indicam pontos positivos. Mas apontam ainda desafios a serem vencidos em sala de aula.   

Ressalte-se, no balanço do Ideb, a melhora significativa nos anos iniciais do ensino fundamental. Nesse período, que corresponde do 1º ao 5º ano, o índice passou de 5,7 para 6,1 na rede pública de ensino e mostrou uma clara evolução em relação a 2023. Nesse sentido, convém destacar o esforço desempenhado pelas redes municipais, responsáveis pela maior parte das escolas que atuam na alfabetização e no primeiro contato de crianças com o universo da educação.

É a partir dos anos finais (6º ao 9º) do ensino fundamental, contudo, que a equação começa a se complicar. Nessa etapa do ensino, também houve avanços, mas a média segue abaixo da meta nacional estabelecida pelo MEC. Na rede pública, o Ideb subiu de 4,7 para 5, mostrando uma evolução de 0,3 ponto. Ainda assim, o Brasil ficou abaixo do patamar previsto de 5,3. Como se vê, essa fase do ensino se encontra em nível inferior ao parâmetro considerado adequado para os países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

No ensino médio, a defasagem é ainda maior. O Ideb alcançado no ciclo 2023-2025 ficou em 4,3 na rede pública, melhor do que os 4,1 registrados anteriormente, mas muito distante do 5,2 estabelecido para esse estágio da vida escolar. Com dificuldades históricas como evasão, falta de professores e inadequação com a realidade do jovem, o ensino médio constitui seguramente o maior desafio para as autoridades em educação.   

Em um país tão desigual e diverso como o Brasil, são previsíveis as diferenças de desempenho entre as unidades da Federação. Na análise dos resultados, convém destacar o sucesso da política educacional do Paraná, que ocupou o primeiro lugar em todas as etapas do ensino, colocando-se como referência ao lado de outras ilhas de excelência, como o Ceará. Em compensação, há situações delicadas em estados como Rio Grande do Norte, Roraima, Rio de Janeiro — e o Distrito Federal. Ontem, a governadora Celina Leão anunciou a troca de titular na secretaria de Educação, após o desempenho abaixo da média registrado na capital da República.

Apesar das dificuldades, os resultados gerais do Ideb são inegavelmente positivos, principalmente considerando a calamidade provocada pela pandemia de covid-19. É o que ressaltou o ministro da Educação, Leonardo Barchini. "Os organismos internacionais apontavam que o Brasil demoraria de 10 a 13 anos para conseguir voltar aos níveis pré-pandemia. E o que os resultados do Ideb mostram é que a gente conseguiu em quatro anos", disse.

O diagnóstico indica que melhorar a aprendizagem deve ser a meta central para o futuro do ensino no Brasil. Nesse sentido, é fundamental observar as condições de ensino nos anos finais do ciclo fundamental e particularmente no ensino médio — a etapa mais vulnerável nos indicadores educacionais. Políticas públicas consistentes passam necessariamente pela valorização dos professores, entre outras medidas, e uma política de ensino que estimule o aluno a adquirir conhecimento, e não simplesmente observar uma sequência de conteúdos em sala de aula.

Educação avança no CE, mas falta ampliar

Por O Povo (CE)

É necessário celebrar que a educação no Ceará melhorou conforme o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Segundo as notas divulgadas pelo Ministério da Educação (MEC), o Estado alcançou 4,5 pontos no ensino médio e superou o recorde pré-pandemia estabelecido em 2019 (4,4). Também atingiu sua melhor pontuação em toda a série história (de 2005 a 2025). O Ideb mede o desempenho dos estudantes em avaliações externas de larga escala assim como a aprovação escolar.

É válido ressaltar que os resultados do Ideb são calculados a partir dos dados do Censo Escolar e das médias de desempenho obtidas no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). As escolas devem registrar bons indicadores de fluxo escolar e de desempenho dos estudantes para atingir a nota máxima.

Além do ensino médio, o Ideb 2025 mostra que o Ceará registrou crescimento na avaliação nos anos finais do ensino fundamental. No total, 51 escolas cearenses alcançaram a nota máxima na avaliação nos anos iniciais - no 1º ciclo de aprendizagem do ensino fundamental. O período compreende do 1º ao 5º ano, com crianças de 6 a 10 anos de idade. Além do Ceará, somente o estado de Alagoas registrou escolas com nota máxima. Foram 26 escolas alagoanas com nota 10.

De acordo com o Ideb 2025, no Ceará, cinco cidades tiveram o maior número de escolas com bons resultados nos anos iniciais: Sobral (com 9 escolas no ranking), Coreaú, Cruz e Pedra Branca (com 7 escolas cada) e Pires Ferreira (com 4 escolas no ranking). Vinte municípios do Ceará aparecem na lista.

Esse feito precisa ser celebrado porque mostra os bons resultados da educação no Estado, o que exigem um planejamento a médio e longo prazo, recursos financeiros para a estrutura e investimento na capacitação dos docentes e demais trabalhadores da educação. Não se constroem bons índices na educação a curto prazo. Apesar do crescimento, ainda deve ser percorrido um longo caminho para se chegar à situação ideal.

Mesmo com o aumento na qualidade no ensino médio, o Ceará continua abaixo da meta de 5,2 pontos que é estabelecida pelo MEC. Na verdade, todos os estados brasileiros estão abaixo do nível planejado pelo Ministério. A média nacional atual para o ensino médio no Ideb é de 4,5 pontos, ou seja, 0,7 a menos que o desejado pelo MEC.

Sabe-se que os desafios da educação persistem e são muitos. Os indicadores mostram a complexidade da realidade, mas também a possibilidade de mudá-la. A qualidade da educação passa por muitos critérios. Concentrar os esforços nas séries que precisam alavancar seu crescimento é prioridade por ora, visto que a melhoria da aprendizagem deve ser uma meta sempre buscada. Os bons resultados alcançados devem ser reconhecidos, mas a fragilidade onde ainda existe precisa ser combatida. O aumento do número de escolas com ótimo desempenho indica um bom caminho trilhado. Espera-se que esse avanço ocorra em intensidade similar nas demais instituições de ensino. 

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