domingo, 9 de agosto de 2026

Livro traça uma radiografia da tradição anti-igualitária nos EUA, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

John Adams, o segundo presidente, liderava a ala dos aristocratas naturais

Encarnação mais recente é a dos bilionários do Vale do Silício

"Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade". Essas belas palavras estão na Declaração de Independência dos EUA, de 1776. Mas entre o que se escreve e o que se pratica pode haver um abismo. O princípio fortemente igualitário que animou a revolução americana não se aplicava a negros, por exemplo. A escravidão só foi oficialmente banida em 1865.

Em "Country of Lords", a historiadora Kim Phillips-Fein (Columbia) não chega a afirmar que o ideal de igualdade nunca passou de uma balela, mas mostra que, desde o início, ele se fez acompanhar de um discurso e uma tradição política anti-igualitários, que seguem até nossos dias.

A primeira encarnação do anti-igualitarismo aparece já entre os "founding fathers". John Adams, o segundo presidente, liderava a ala dos aristocratas naturais, para os quais havia uma hierarquia social que não poderia ser rompida sem grande perigo. Eles se esforçaram para criar os mecanismos constitucionais que diluíam a participação popular na tomada de decisões.

Aos aristocratas naturais seguiram-se darwinistas sociais, racistas utilitaristas, evangelistas da produção e meritocratas de mercado. A mais recente manifestação de anti-igualitarismo é a que vem de bilionários do Vale do Silício, como Peter Thiel e Elon Musk. Para todos esses grupos, ainda que com nuances, os talentos das pessoas variam, de sorte que a distribuição do poder político também precisa variar. Os mais capazes devem ter mais poder.

É complicado. Até acompanho a ideia de que talentos e aptidões variam. É um dado da realidade. Mas não consigo ver um argumento razoável para sustentar que a loteria cósmica das habilidades justifique tratamento legal diferenciado ou privação do poder político. Já experimentamos isso ao longo da história e não funcionou. Pelo menos não para os amplos contingentes de excluídos.

 

 

 

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