Folha de S. Paulo
Em público, Bolsonaro filho promete só
demagogias e tesourinha em gastos e impostos
Promessas de campanha ou são estelionato
eleitoral ou ameaçam crise como a de 2015
Na semana passada, Flávio
Bolsonaro (PL)
pôs na lapela um broche
em forma de tesoura. É um símbolo do "tesouraço", que pode vir a
ser um mote da campanha dele, promessa de corte de gasto público, de imposto e
de burocracias e intervenções do governo.
A tesoura seria inspirada na motosserra de Javier Milei. Até agora, lembra mais a vassourinha de Jânio Quadros, presidente eleito em 1960 com a promessa de varrer a corrupção, a bandalheira. Jânio renunciou em 1961, em tentativa canhestra de autogolpe. O broche da vassourinha era material de campanha desse outro demagogo de direita.
Milei fez ajuste bárbaro na Argentina.
Cortou despesas também reduzindo o valor real de salários de servidores e de
benefícios sociais (a inflação comeu
o valor desses e de outros pagamentos). No final do primeiro ano inteiro de
governo, o corte foi de 15% em Previdência e assistências sociais; nos
salários, de 22%.
Flávio anunciou-se candidato em 5 de dezembro
do ano passado. Juros e dólar saltaram, o Ibovespa afundou. Donos do dinheiro
grosso diziam assim que passavam a esperar derrota da direita para Luiz
Inácio Lula da
Silva.
O desgosto diminuiu, até porque "não tem
tu, vai tu mesmo", como disse alguém que esteve na primeira reunião do
candidato com a finança, menos de uma semana depois de Flávio ter sido ungido
pelo pai. O candidato então começou a prometer "tesouraço". Mas nega
até tesourinha.
Daniella Marques parece ser a principal
porta-voz econômica de Flávio, que
pensou nela como vice. Na campanha de 2018 e no governo, foi a mais próxima
assessora de Paulo Guedes,
ministro da Economia de Jair
Bolsonaro.
Marques tem dito que Flávio cortaria a
despesa em 1,5% do PIB, entre outras
medidas. O que quer dizer esse número? Suponha-se a hipótese seguinte (não é o
plano de Marques, é apenas aritmética elementar do gasto federal).
Imagine-se que, por quatro anos, o governo
reajuste apenas pela inflação despesas com Previdência, servidores, BPC, Bolsa Família,
saúde, educação, abono salarial e seguro-desemprego (equivalem a 85,2% do gasto
federal e a 16,7% do PIB). Isso exige também que o reajuste do salário
mínimo se limite à variação do IPCA ou que benefícios previdenciários
sejam desvinculados do mínimo.
Chute-se ainda que o PIB cresça 2,5% ao ano.
Assim, daria para arrumar 1,5% do PIB. Isto é, caso o número de beneficiários
de Previdência etc. ficasse na mesma —não vai ficar, nem com nova reforma da
Previdência.
Para dar certo, de resto, não poderia haver
redução da receita (por meio de corte de impostos ou outro motivo). É possível
atenuar o arrocho por meio de aumento de receita: com corte de gasto tributário
(o que o governo deixa de arrecadar por causa da redução de impostos para
certos setores, empresas e pessoas). Mas é aumento de imposto.
A vida é mais complicada do que essa
aritmética. Trata-se apenas de exercício para mostrar o tamanho da encrenca
(porém incontornável). O que diz Flávio? Que vai manter o reajuste do mínimo e
indexações. Que vai cortar impostos. Que vai arrumar R$ 1 trilhão com imóveis
da União (como dizia Jair). Não dá.
Continua a dizer em público o que disse em
abril, quando chamou de "fake" reportagem da Folha sobre planos de seus
assessores. Sem novidade aí, pois, e "o fiscal" é apenas um dos
problemas graves do país. Mas agora temos dois meses para espremer os
candidatos a fim de evitar o estelionato ou o risco de crise como a de 2015.
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