domingo, 9 de agosto de 2026

Tesouraço de Flávio fica entre a vassourinha de Jânio e a motosserra de Milei, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Em público, Bolsonaro filho promete só demagogias e tesourinha em gastos e impostos

Promessas de campanha ou são estelionato eleitoral ou ameaçam crise como a de 2015

Na semana passada, Flávio Bolsonaro (PL) pôs na lapela um broche em forma de tesoura. É um símbolo do "tesouraço", que pode vir a ser um mote da campanha dele, promessa de corte de gasto público, de imposto e de burocracias e intervenções do governo.

A tesoura seria inspirada na motosserra de Javier Milei. Até agora, lembra mais a vassourinha de Jânio Quadros, presidente eleito em 1960 com a promessa de varrer a corrupção, a bandalheira. Jânio renunciou em 1961, em tentativa canhestra de autogolpe. O broche da vassourinha era material de campanha desse outro demagogo de direita.

Milei fez ajuste bárbaro na Argentina. Cortou despesas também reduzindo o valor real de salários de servidores e de benefícios sociais (a inflação comeu o valor desses e de outros pagamentos). No final do primeiro ano inteiro de governo, o corte foi de 15% em Previdência e assistências sociais; nos salários, de 22%.

Flávio anunciou-se candidato em 5 de dezembro do ano passado. Juros e dólar saltaram, o Ibovespa afundou. Donos do dinheiro grosso diziam assim que passavam a esperar derrota da direita para Luiz Inácio Lula da Silva.

O desgosto diminuiu, até porque "não tem tu, vai tu mesmo", como disse alguém que esteve na primeira reunião do candidato com a finança, menos de uma semana depois de Flávio ter sido ungido pelo pai. O candidato então começou a prometer "tesouraço". Mas nega até tesourinha.

Daniella Marques parece ser a principal porta-voz econômica de Flávio, que pensou nela como vice. Na campanha de 2018 e no governo, foi a mais próxima assessora de Paulo Guedes, ministro da Economia de Jair Bolsonaro.

Marques tem dito que Flávio cortaria a despesa em 1,5% do PIB, entre outras medidas. O que quer dizer esse número? Suponha-se a hipótese seguinte (não é o plano de Marques, é apenas aritmética elementar do gasto federal).

Imagine-se que, por quatro anos, o governo reajuste apenas pela inflação despesas com Previdência, servidores, BPC, Bolsa Família, saúde, educação, abono salarial e seguro-desemprego (equivalem a 85,2% do gasto federal e a 16,7% do PIB). Isso exige também que o reajuste do salário mínimo se limite à variação do IPCA ou que benefícios previdenciários sejam desvinculados do mínimo.

Chute-se ainda que o PIB cresça 2,5% ao ano. Assim, daria para arrumar 1,5% do PIB. Isto é, caso o número de beneficiários de Previdência etc. ficasse na mesma —não vai ficar, nem com nova reforma da Previdência.

Para dar certo, de resto, não poderia haver redução da receita (por meio de corte de impostos ou outro motivo). É possível atenuar o arrocho por meio de aumento de receita: com corte de gasto tributário (o que o governo deixa de arrecadar por causa da redução de impostos para certos setores, empresas e pessoas). Mas é aumento de imposto.

A vida é mais complicada do que essa aritmética. Trata-se apenas de exercício para mostrar o tamanho da encrenca (porém incontornável). O que diz Flávio? Que vai manter o reajuste do mínimo e indexações. Que vai cortar impostos. Que vai arrumar R$ 1 trilhão com imóveis da União (como dizia Jair). Não dá.

Continua a dizer em público o que disse em abril, quando chamou de "fake" reportagem da Folha sobre planos de seus assessores. Sem novidade aí, pois, e "o fiscal" é apenas um dos problemas graves do país. Mas agora temos dois meses para espremer os candidatos a fim de evitar o estelionato ou o risco de crise como a de 2015.

 

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