terça-feira, 8 de setembro de 2026

Alexandre de Moraes: admiração e indignação - que a Justiça seja feita, por Elias Gomes*

É inegável o papel desempenhado pelo ministro Alexandre de Moraes na investigação e responsabilização daqueles que atentaram contra a democracia brasileira. Com firmeza e rigor, conduziu processos que expuseram uma articulação política e institucional que buscava romper a ordem democrática conquistada com tanto sacrifício pela sociedade brasileira.

O processo chegou a um momento histórico: a condenação de generais e integrantes do alto oficialato das Forças Armadas. Um fato inédito que demonstra que, em uma democracia, farda, cargo, mandato ou poder não podem colocar ninguém acima da Constituição.

Mas existe sempre um “mas”. Se ninguém está acima da lei, ninguém pode estar acima dela - absolutamente ninguém. Nem presidente da República, nem parlamentar, nem empresário, nem general e, muito menos, ministro do Supremo Tribunal Federal.

A mesma régua que mede os atos de quem tentou destruir a democracia precisa medir os atos daqueles que têm a responsabilidade de protegê-la.

Isso não significa defender o fechamento do STF, do Congresso ou de qualquer instituição. Muito pelo contrário. Instituições democráticas não se destroem porque falham; reformam-se, fiscalizam-se e fortalecem-se. É justamente nos momentos de crise que a democracia precisa mostrar sua capacidade de corrigir seus próprios erros.

Foi justamente esse o grande equívoco daqueles que, sob o pretexto de defender a pátria, pediam intervenção militar, fechamento do Supremo e do Congresso Nacional. Quem pede o fim das instituições para resolver os problemas destas mesmas instituições não está defendendo a democracia. Está flertando com o autoritarismo.

Mas também é autoritário imaginar que criticar o Judiciário significa atacar a democracia. Não significa.

Defender o STF não é defender cegamente cada ministro. Defender a democracia não é conceder salvo-conduto a quem ocupa uma cadeira na mais alta Corte do país.

Ao contrário: quanto maior o poder, maior deve ser a responsabilidade; quanto maior a autoridade, maior deve ser a transparência; quanto mais alta a Corte, mais alto deve ser o padrão ético exigido de seus integrantes.

Por isso, reconhecer o mérito de Alexandre de Moraes na defesa da democracia não pode significar ignorar ou relativizar denúncias e questionamentos que envolvam sua atuação. Se existem acusações, indícios ou dúvidas relevantes, que sejam rigorosamente apurados, com transparência e com pleno direito de defesa.

E a mesma regra precisa valer para todos. Alexandre de Moraes: rigor.

Dias Toffoli: rigor. André Mendonça: rigor. Qualquer ministro do STF: rigor.

Não se trata de condenar previamente ninguém. Trata-se de exigir aquilo que a própria Justiça deve exigir de todos: investigação séria, contraditório, ampla defesa, transparência e respeito absoluto à lei.

O STF não pode exigir da sociedade confiança enquanto permitir que paire sobre seus integrantes a percepção de que existem diferentes pesos e diferentes medidas.

A Justiça não pode ser seletiva. A Constituição não pode ser interpretada conforme a conveniência. E a autoridade não pode se transformar em imunidade moral.

O Brasil não precisa de instituições perfeitas. Precisa de instituições fortes o suficiente para enfrentar os poderosos e humildes o suficiente para aceitar fiscalização, críticas e correções.

É assim que uma democracia amadurece. É assim que as instituições se fortalecem. É assim que se combate o autoritarismo - inclusive quando ele tenta se esconder atrás do poder institucional.

Maquiavel escreveu, em uma reflexão que permanece atual: “Se os tempos mudam e os comportamentos não se alteram, então é a ruína.”

Pois bem, senhores ministros: os tempos mudaram. A sociedade mudou. O Brasil mudou.

E talvez tenha chegado a hora de o STF também compreender que ser guardião da Constituição significa, antes de tudo, submeter-se a ela.

Ninguém acima da lei. Ninguém acima da Constituição. Nem mesmo quem tem o poder de interpretá-la.

Que a Justiça seja feita. Para todos. Sem medo, sem ódio e sem privilégios.

*Ex-prefeito do Cabo e de Jaboatão, ex-secretário de Justiça e Direitos Humanos de PE

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