segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Uso militar da IA exige atenção de todo o planeta

Por O Globo

Mortes causadas por drone autônomo na Ucrânia expõem dilemas similares aos trazidos pela bomba atômica

É provável que o dia 6 de julho de 2026 entre para a História como o primeiro registro de morte provocada por inteligência artificial (IA) numa guerra. Naquele dia, um drone russo controlado desceu sobre a cidade de Zaporíjia, no sudeste da Ucrânia, em direção a um posto de gasolina, explodiu num muro, e seus estilhaços mataram três pessoas. Peritos concluíram que o drone estava programado para voar até o local e escolheu explodir perto do provável alvo: um tanque de combustível. Não devido a erro, mas porque decidiu fazer aquilo, sem qualquer controle humano. Foi guiado por IA.

Foi o primeiro caso documentado com morte de civis por drone do tipo, de acordo com análise do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. A perícia foi confirmada pelo resgate, dentre os destroços, de um pequeno processador da Nvidia, principal fornecedora de chips para IA. O drone foi considerado arma autônoma.

Dois juízes ‘heróis’: tudo que não precisamos, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Tudo o que o Brasil não precisava era de 2 juízes ‘heróis’ para energizar torcidas políticas

A crise do Supremo Tribunal Federal é fruto de um mal: a existência de ministros que tudo podem e, como deuses intocáveis, acreditam estar acima das leis. Esses juízes supremos não surgiram do nada. Eles foram gerados pela carência da população brasileira por heróis e cresceram (em poder, em número, em ousadia nas decisões monocráticas) porque as instituições, entre as quais o próprio STF, falharam em contê-los.

Decepcionados com os políticos, os brasileiros passaram a olhar para certos juízes como salvadores imbuídos da missão de varrer a corrupção do País ou de fazer justiça social. A tentação de encontrar tais heróis nos tribunais se nutre do desejo de acreditar que só um homem forte, sem precisar prestar contas a ninguém, pode consertar as coisas e fazer “o que precisa ser feito”.

Crise institucional, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Se o STF optar pela Justiça, poderá recuperar o seu prestígio e ganhar o reconhecimento da sociedade

O Supremo é um trem descarrilhado chocando-se com a República. Não poderá ela resistir se nada for feito, pois o que se tem visto é uma instituição na qual alguns de seus membros, além de exorbitarem de suas funções e prerrogativas, defendem prioritariamente interesses privados e corporativos. As relações promíscuas, esse é o termo mais apropriado, entre o mafioso – impropriamente denominado de banqueiro – Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, são estarrecedoras. A mulher do ministro faz um contrato de R$ 131 milhões com o mafioso, contrato esse por ele próprio revisado. Fica-se com a impressão de que o trata como um funcionário seu. A República não pode conviver com cenas desse tipo, a menos que abdique de ser a “coisa pública” para ser a “coisa privada” de alguns.

A encruzilhada política da Alemanha, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Restam 3 opções para lidar com a extrema direita alemã: isolar, proibir ou deixar governar

A Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve 44% dos votos na eleição estadual da Saxônia-Anhalt, mais que o dobro da CDU, de centro-direita, partido do chanceler, Friedrich Merz, que ficou em segundo com 17%. A AfD, classificada pelo serviço de inteligência doméstica como extremista de direita, obteve o melhor resultado de uma sigla desse campo na Alemanha desde 1945.

A eleição intensifica um dos debates já dominantes na política alemã: por que tantos cidadãos votam em um partido radical, e o que fazer? A explicação padrão para o voto na AfD, a de um leste pobre e abandonado, perdedor da modernização, resiste cada vez menos aos dados.

O poder de compra de Magdeburg ou Halle supera o de quase todo o sul e o leste da Europa; as aposentadorias de quem contribuiu por mais de 35 anos equivalem a 95% das pagas no oeste, e produtividade e salários chegam a 84% do nível ocidental, diferença que reflete sobretudo o caráter mais rural da região.

A infraestrutura não fica atrás da de regiões comparáveis do continente: por exemplo, cerca de 30 dos quase 80 teatros de ópera do país estão no leste, que abriga um quinto da população. Ainda assim, 75% dos alemães orientais dizem que o que separa as duas partes do país pesa mais que o que as une, o maior índice desde 2004.

Um novo estudo da Universidade do Sarre conclui que renda e escolaridade quase nada explicam: o que prevê o voto na AfD é a preocupação com a imigração, e ela pesa tanto para ricos quanto pobres. E isso em um Estado onde estrangeiros são apenas 8% da população, menos da metade da média nacional e bem abaixo do que se vê em Hesse ou Hamburgo. Os autores tiram a conclusão incômoda: mais transferências e políticas de igualdade não trarão os eleitores de volta.

MURO. O segundo debate é o que fazer a respeito da ascensão do partido. Desde a fundação da AfD, em 2013, todos os partidos tradicionais mantêm o Brandmauer, o “muro cortafogo” erguido para jamais cooperar com a AfD. O muro cumpriu o que prometia, como lembra Thorsten Benner, do Global Public Policy Institute, em Berlim, pois a AfD até hoje nunca chegou a governar um Estado. Mas fica cada vez mais evidente que fracassou como estratégia de contenção, e há algo paradoxal nisso: governar desgasta, e a AfD passou uma década sem governar nada.

Enquanto CDU, SPD e Verdes se consumiam em coalizões improváveis, a legenda cresceu sem nunca ter sido testada, e hoje lidera as pesquisas nacionais com quase 30%. Benner vai além e sustenta que o muro ajuda a explicar por que a AfD, ao contrário de outras siglas de extrema direita na Europa, se tornou mais radical à medida que crescia: sem perspectiva de poder, moderar-se não lhe traz nada.

Uma proposta é converter o veto absoluto em condições verificáveis, como expulsar Björn Höcke, seu dirigente mais influente no leste do país, que foi condenado duas vezes por usar, em eventos de campanha, um slogan das tropas de assalto de Hitler, cujo uso é crime na Alemanha. Romper com esse tipo de quadro e de discurso seria o preço do diálogo, e a própria AfD teria de decidir se está disposta a pagá-lo.

Outros defendem a proibição do partido. Boris Pistorius, ministro da Defesa e há anos o político mais popular do país, pediu, ao lado de Cem Özdemir, chefe de governo de Baden-Württemberg, que se abra um processo de banimento das seções da AfD no leste alemão, entre elas a da SaxôniaAnhalt.

O argumento é o mesmo do serviço de inteligência, que em 2025 classificou a AfD como “comprovadamente extremista de direita”, por defender uma concepção étnica de povo incompatível com a Constituição alemã. Os críticos respondem que um processo desses levaria anos e daria à AfD o papel que ela mais gosta de encenar, o de vítima.

SINAL VERDE. Há uma terceira via, que decorre do próprio diagnóstico de Benner: deixar a AfD governar um Estado e expor sua incapacidade. O partido defende um nacionalismo de slogans, mais definido pelo que rejeita do que pelo que propõe.

Um episódio quase cômico ilustra a aposta. Em 2021, Tino Chrupalla, hoje copresidente do partido, defendia em um programa infantil da TV pública que as escolas ensinassem mais canções populares e poesia clássica alemã. O repórter mirim quis saber, então, qual era seu poema alemão favorito. Chrupalla hesitou, disse que precisaria pensar e admitiu que nenhum lhe vinha à cabeça. Instado a citar ao menos um poeta, apontou Heinrich Heine, de origem judaica, exilado em Paris e cujos livros os nazistas queimaram em 1933.

Deixar governar foi, é verdade, o erro que a Alemanha cometeu nos anos 1930. Em 1930, juristas do governo da Prússia recomendaram por escrito a proibição do partido nazista. O chanceler Heinrich Brüning preferiu enfrentá-lo politicamente, temendo alimentar seu vitimismo, e menos de três anos depois Hitler chegava ao poder.

A comparação tem limites óbvios. Um Estado não é o país inteiro, e uma AfD obrigada a administrar escolas, hospitais e orçamentos deixaria de ser um partido de protesto para virar um governo cobrado por resultados, ofício bem menos glamouroso do que denunciar o sistema. Nenhuma das três saídas é isenta de risco. O que a eleição de ontem mostrou é que a atual estratégia de simplesmente isolar o partido deixou de ser uma opção. 

Vitória da extrema direita na Alemanha revela desejo de voltar ao passado, por João Pereira Coutinho

Folha de S. Paulo

AfD encontrou eleitorado desencantado com promessas

Partido tem programa politicamente indigno e até perigoso

A história não se repete. Às vezes, nem sequer rima. Mas é tentador olhar para 2026 com os olhos postos em 1933. No estado da Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha, a direita radical conseguiu uma vitória histórica.

Sem maioria absoluta, ainda não está claro se conseguirá governar. Mas foram incontáveis os artigos de jornal que pintaram em Ulrich Siegmund, o candidato da AfD – Alternativa para a Alemanha –, o célebre bigodinho do cabo austríaco. Antes de mais nada: o programa da AfD é politicamente indigno e, em suas simpatias russófilas, até perigoso.

Mas serei o único a achar estranho que a direita radical se imponha nas urnas porque, entre outras razões, também soube apelar à nostalgia pela antiga RDA comunista? Se dúvidas houvesse, Ulrich Siegmund fez questão de aparecer na campanha com sua moto Simson – um pedaço de "Ostalgie" sobre duas rodas, só superado pelas quatro do inevitável Trabant, o carro emblemático do antigo regime. As causas do sucesso da AfD talvez estejam mais próximas de nós do que as cervejarias de Munique de um século atrás.

STF: fora de campo, dentro do jogo, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

A menos de um mês do primeiro turno, o Supremo deixou de arbitrar o jogo eleitoral para se tornar seu principal personagem

Enquanto o STF trava uma guerra interna, debate sobre planos de governo e propostas eleitorais fica em segundo plano

Em quatro semanas estaremos nas urnas escolhendo presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. As manchetes dos jornais deveriam estar dedicadas aos planos de governo, propostas, candidatos azarões e peculiaridades do financiamento político. Mas a realidade é diferente, tudo o que discutimos foi o Supremo Tribunal Federal e seus ministros.

Que a corte é inventiva em sua função de guardiã da Constituição sabemos há tempos. Para ficarmos em exemplos recentes, o STF reinterpretou a regra constitucional que estabelece um teto para pagamentos dos servidores públicos criando um teto paralelo para o Judiciário. Outro exemplo é a manutenção do presidente do TJ-RJ como governador em exercício do estado. Que a corte atua politicamente também não é novidade. O decano da casa, ministro Gilmar Mendes, é o melhor exemplo. Em uma de suas decisões mais emblemáticas, em dezembro do ano passado restringiu, sozinho, à PGR o poder de pedir impeachment de ministros do STF, blindando a si e aos colegas.

A República à venda, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A pergunta já não é apenas quem tentou comprá-la, mas quem se dispôs a negociar com o comprador

Reformas no STF eliminam incentivos perversos, mas não substituem a responsabilização necessária

Urbem venalem et mature perituram, si emptorem invenerit (uma cidade à venda e condenada a perecer rapidamente, caso encontrasse um comprador). A frase, atribuída por Salústio a Jugurta, rei da Numídia, depois de ter corrompido senadores, diplomatas e tribunos da plebe, tornou-se a expressão máxima da corrupção política. Evoca não apenas a compra de autoridades, mas o colapso de uma República.

Jugurta concluiu que Roma estava à venda. No Brasil, a pergunta já não é apenas quem tentou comprar a República, mas quem se dispôs a negociar com o comprador —e quem utiliza o poder de julgar para impedir que saibamos a resposta. E é com isso que estamos nos deparando: contra-ataques diversionistas disparados a toque de caixa. A estratégia parece clara: criar falsas equivalências. A que ponto chegamos? E como chegamos a esse ponto?

Até quando a elite vai ignorar vidas negras? Por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Reconhecer o impacto do racismo na vida de milhões não é prioridade no país mais negro fora da África

Apenas 5 dos 13 candidatos à Presidência têm propostas para enfrentar racismo e desigualdades étnico-raciais

Na semana da independência, me pego pensando no quanto a nação brasileira é historicamente negligente com seu povo. A ruptura com Portugal, eternizada pelo simbólico grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, foi mais um dos inúmeros momentos em que somente anseios da elite (formada por latifundiários e burocratas que dependiam da mão de obra escravizada) foram contemplados.

Obra de Roberto Schwarz, 88, concebe a literatura brasileira como espelho de sociedade desigual, por Edu Teruki Otsuka*

Folha de S. Paulo

Crítico investigou a impressão de desajuste entre as ideias modernas, importadas da Europa, e a realidade do país

A partir de Machado de Assis, Schwarz reconstituiu o processo de formação do romance brasileiro

Ler extensivamente a obra de Roberto Schwarz é o melhor caminho para compreender os argumentos dos seus estudos mais conhecidos porque possibilita perceber as relações internas que dão ao conjunto dos seus textos ensaísticos um caráter muito articulado, sugerindo um ponto de vista crítico de alcance sistemático.

Os seus textos não fazem concessões ao leitor e, ao mesmo tempo que buscam o máximo de clareza e precisão, exigem dele disposição para acompanhar argumentos complexos, juntar conhecimentos de áreas que a especialização separa e se preparar para raciocínios contraintuitivos, sempre em luta contra o senso comum e em atrito com opiniões estabelecidas.

Só assim é possível apreciar a beleza dos movimentos do pensamento e da composição altamente refletida, o senso de humor e as sutilezas de inflexão que compõem a sua prosa de ensaio —um estilo literário construído e adaptado em cada caso para fazer frente à complexidade dos objetos de que trata, visando ao seu significado estético e político.

Voto em Flávio Bolsonaro expressa ideia perdida de nação, por Bernardo Carvalho

Folha de S. Paulo

Podemos estar cercados de 'amigos desleais' que, em nome de interesses aparentemente comuns, preparam armadilha fatal

Em entrevista em 1964, Hannah Arendt discutiu pertencimento a grupos organizados politicamente

A resenha de uma biografia de Hannah Arendt recentemente publicada nos Estados Unidos me remeteu à incrível entrevista que ela deu a Günter Gaus, na televisão alemã, em 1964, e que eu nunca tinha visto, embora esteja há anos disponível no YouTube.

Arendt escapou da Alemanha em 1933, aos 26 anos, quando, em suas próprias palavras, só um idiota seria incapaz de perceber que os nazistas (e muitos alemães que os apoiavam direta ou indiretamente) eram inimigos dos judeus. E isso bem antes da instalação do terror, precedida por um período de abandono e vazio.

Pronunciamento à Nação: 7 de Setembro ((6/09/2026)

 

Poesia | Pátria Minha, de Vinicius de Moraes

 

Música | Gal Costa - Aquarela do Brasil (Ary Barroso)