O Globo
O procurador-geral não deveria ter pedido a
nulidade de um caso que trata dele mesmo
O procurador-geral da República tomou uma decisão que beneficia a si próprio. No relatório em que a Polícia Federal (PF) aponta as conversas entre Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, Paulo Gonet aparece como uma das autoridades na teia do ex-banqueiro, seguindo à risca o roteiro já manjado de viagens, degustações e pedidos de favores. O procurador-geral da República, no entanto, não veio a público se explicar. Pelo contrário. Disse que as revelações da PF deveriam ser anuladas.
Gonet se manifestou sobre o caso em resposta ao ministro André Mendonça, que havia determinado à PF a identificação da figura misteriosa com quem Vorcaro mantinha diálogos. Quando a resposta chegou, Mendonça pediu à Procuradoria-Geral da República (PGR) que se manifestasse. Gonet não só defendeu a nulidade, como disse que Mendonça agiu irregularmente por investigar Moraes sem autorização do STF. Por essa lógica, se Mendonça investigou Moraes, também investigou o próprio Gonet. Portanto, ele não deveria pedir a nulidade de um caso que trata dele mesmo. Deveria ter se declarado suspeito.
Segundo o relatório da PF, há, entre 2024 e
2025, época em que a reputação de Vorcaro já era conhecida na República,
ligações entre Gonet e Vorcaro, mensagens e pedido de viagem para o filho, tudo
por meio de um advogado. “Já estou com saudades de você!” e “Oba!!! Tomara que
tenha charuto e Macallan!” são alguns dos textos encaminhados para Vorcaro a
pedido de Gonet. Pode ser que não tenha ocorrido nenhum favorecimento, mas isso
só será possível de confirmar se o relatório não for considerado nulo e se
houver investigações.
Gonet também diz que Mendonça já sabia que
era Moraes a figura que conversava com Vorcaro. Não precisaria, portanto, ter
mandado a PF fazer o relatório. Gonet reclama ainda que é papel do Ministério
Público fazer esse tipo de intervenção, não do juiz. Mas desde março, a colunista
do GLOBO Malu Gaspar revelou a questão e não se teve notícia de atitude tomada
por ele. O que fez foi pedir agora a nulidade do caso.
A decisão de Gonet torna questionáveis os
atos da PGR no caso. E o órgão presidido por ele tem a competência de denunciar
Vorcaro e de investigar ministros, se o STF autorizar. Também foram os
procuradores sob Gonet que se sentaram às mesas de negociação com o
ex-banqueiro para discutir por duas vezes um acordo delação premiada. Todas as
propostas foram descartadas pela PGR. Com o surgimento do nome do
procurador-geral no relatório da PF, torna-se ainda mais obrigatória a
divulgação das razões por que os procuradores não quiseram saber o que Vorcaro
tinha a dizer sobre os poderosos da República.
Em toda essa discussão, Gonet tem um ponto.
Mendonça deveria acionado o presidente do STF, Edson
Fachin, logo que as conversas entre Moraes e Vorcaro foram parar no
noticiário, mesmo que corresse o risco de o caso não dar em nada. É função do
juiz fazer a coisa certa, e não necessariamente garantir que um dos casos sob
sua relatoria tenha determinado desfecho. A maneira como conduziu a questão deu
margem para que as revelações sejam, de fato, anuladas.
Gonet, porém, é conhecedor das regras. Acusa
Mendonça de as ter ignorado, mas acabou por fazer o mesmo.

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