O Globo
Será uma vergonha se, mais uma vez, o STF
tentar proteger um de seus integrantes, como fez com o ministro Dias Toffoli.
Não há possibilidade de o ministro Alexandre de Moraes continuar no Supremo Tribunal Federal (STF). Pelo menos ele deveria se afastar enquanto as investigações acontecerem. Será uma vergonha se, mais uma vez, o STF tentar proteger um de seus integrantes, como fez com o ministro Dias Toffoli, diante de tantas evidências. Não é possível nem ter vergonha alheia, porque ela é nossa também, de fatos assim acontecerem na mais alta Corte do país. Ninguém acredita mais que o STF seja capaz de cortar na própria carne, de fazer mea-culpa, de punir quem merece. O presidente Edson Fachin, que vende a ideia de um código de ética, tinha de ser muito mais contundente, mais afirmativo. Soltou uma nota muito bem escrita, mas que no fundo não diz nada, apenas que analisará o caso com calma.
Os casos de corrupção envolvendo autoridades
atuam diretamente na disputa presidencial em curso. Tudo o que acontece contra
o Supremo prejudica a tentativa de reeleição do presidente Lula. Isso dá a
dimensão política da ligação com ministros do STF. Há algum tempo Lula se
escora no Supremo para enfrentar o Legislativo oposicionista. A foto do
encontro entre ele e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, intermediado pelo
ministro Alexandre de Moraes, é exemplar dessa situação. Esse “acordão” tem o
objetivo de garantir a parte de cada um no latifúndio político brasileiro: Lula
reeleito, Alcolumbre também, e Moraes assumindo ano que vem a presidência do
STF pelo sistema de rodízio. Estaria tudo dominado.
O senador Flávio Bolsonaro, principal
adversário de Lula na disputa presidencial, sangra a cada nova notícia de
pagamento do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o filme “Dark Horse”, sobre seu
pai. A cada mentira, Flávio perde credibilidade junto a eleitores que levam
isso a sério. Ele bem que tenta “virar a página”, só que não consegue, pois
falta-lhe o que falta a Moraes: capacidade para desmentir as acusações. Se o
dinheiro do filme tivesse sido gasto apenas na produção, bastaria que fizesse
uma prestação de contas detalhada dos gastos e dos investimentos. Não fez,
embora prometesse, porque não tem como.
Se Moraes não fosse o interlocutor de
Vorcaro, bastaria que tivesse dado, desde o primeiro momento, seu telefone
celular para ser analisado pela Polícia Federal. Não fez, e agora será
impossível verificar, pois o ministro, em meio às investigações, trocou de
operadora, trocou de número. Não sabemos qual foi a necessidade, mas, por muito
menos, o relator do inquérito das fake news mandou muita gente para a cadeia.
No caso da Débora do Batom, ele afirmou que
“apagar deliberadamente os dados do celular representa forte indício de
tentativa de obstrução da Justiça, haja vista que, em investigações criminais,
dispositivos eletrônicos frequentemente contêm provas essenciais, como
mensagens, registros de chamadas, localização e interações em redes sociais”. O
que dizer, então, do próprio Moraes, que usou mensagens de visualização única e
deu sumiço no seu celular?
O procurador-geral da República, Paulo Gonet,
está na mesma situação. Tem a seu favor o fato de não haver mensagens de sua
autoria direta. Toda conversa é intermediada pelo advogado Ciro Soares, que
relata a Vorcaro seus contatos com Gonet e também com o ministro André
Mendonça, que diz ter levado a um alfaiate. É Soares quem diz a Vorcaro que
Gonet o ama, que anseia por uma nova rodada de uísque Macallan e charutos e que
pediu para que o filho Pedrinho fosse também convidado ao regabofe londrino de
Vorcaro. Nada está escrito por Gonet, que, se não fosse verdade, poderia desde
já ter negado todos esses recados. Por que não negou?
O outro vértice desse triângulo é Alcolumbre.
Atolado por dezenas de pedidos de impeachment de Moraes, seu companheiro de
“acordão”, tenta fugir da responsabilidade, apostando que no próximo governo
tudo será diferente. O lado escuro da política continuará prevalecendo?

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