quinta-feira, 3 de setembro de 2026

STF pode decidir salvar Moraes, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Apesar dos indícios de que o ministro tinha relação imprópria com Vorcaro, opção pode ser blindar a Corte

Mesmo com indícios contundentes para justificar abertura de inquérito contra Alexandre de Moraes, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem motivos para assar uma pizza em cima do relatório da Polícia Federal (PF). Se o caso desaguar no plenário, estará em julgamento não só a relação supostamente imprópria entre Moraes e Daniel Vorcaro, mas a credibilidade da Corte.

Depois da divulgação do relatório da PF, aumentou o abismo entre as alas de Moraes e de André Mendonça no Supremo. O primeiro grupo preferia que tudo continuasse sob sigilo até os ministros se reunirem para debater providências. A avaliação é que eventual punição a Moraes traria um custo alto para o tribunal. Para apoiadores de Mendonça, abafar um caso tão grave seria ainda pior para a imagem do STF. O modelo de empurrar a crise para debaixo do tapete foi adotado quando um relatório da PF mostrou o elo entre Dias Toffoli e Vorcaro. Houve uma reunião secreta entre os ministros do Supremo e o documento foi arquivado. Toffoli ficou isolado, mas se safou em nome da instituição.

A situação de Moraes é diferente, porque os indícios que pesam contra ele foram amplamente divulgados. Moraes, no entanto, tem o trunfo de somar mais aliados do que Mendonça no tribunal. E a turma não parece disposta a largar a mão dele agora. Hoje, Moraes conta com o apoio fiel de Flávio Dino, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin. Ao lado de Mendonça, a única certeza é Luiz Fux. Nos bastidores, pessoas próximas a Moraes dizem que Mendonça agiu com intenção de atacar o desafeto, não em nome da moralidade. Esse grupo concorda com o procurador-geral da República, Paulo Gonet, que pediu a nulidade das provas porque elas foram colhidas sem a anuência do plenário.

Outro ponto pesa contra Mendonça. Hoje, campanhas surfam a onda de revés de Moraes e jogam o Supremo no centro do debate eleitoral. Os indícios viraram palanque especialmente de candidatos à direita.

Um grupo na Corte acredita que a saída de Moraes em resposta ao clamor popular e político poderia insuflar nova onda de ataques ao tribunal. Gente próxima de Mendonça nega que ele tenha tido esse intuito.

A solução para o caso não será fácil nem parecida com o desfecho da crise Toffoli. Ao contrário do colega, que submergiu, Moraes deve aumentar a artilharia para cima de Mendonça.

A ala de Moraes, no entanto, nutre esperanças a partir do caso Toffoli. Quando o STF arquivou o relatório da PF em fevereiro, o clamor público era pela abertura de inquérito e renúncia do ministro. O jeitinho encontrado pelo tribunal abafou a crise e garantiu que a paz reinasse em Tayayá. Tudo em nome da institucionalidade.

 

Nenhum comentário: