Valor Econômico
Lula e Flávio não passarão incólumes ao
desfecho do conflito no STF
O presidente do Supremo Tribunal Federal conseguiu adiar o conflito ao dizer que tomará as medidas ‘cabíveis e necessárias’ tanto sobre o envolvimento do ministro Alexandre de Moraes com o Master quanto sobre os procedimentos do relator, André Mendonça, na condução do inquérito.
Com o feriado de 7/9, o relatório com o qual Mendonça pedirá que o plenário do STF abra o inquérito só deverá chegar à mesa de Edson Fachin na terça. A sessão deliberativa pode acontecer no dia seguinte.
O relatório da Polícia Federal foi o fato de maior volume de menções nas redes sociais, em suas primeiras 24 horas, registrado este ano, de acordo com o Democracia em Xeque. O tema deve se manter aquecido até o feriado, quando uma manifestação bolsonarista vai martelar o tema até para retomar as chances de eleger, ao Senado, uma maioria pró-impeachment. É sob o impacto da véspera que os ministros vão deliberar.
A gravidade dos indícios do envolvimento de
Moraes com Daniel Vorcaro não se restringe ao escopo dos serviços prestados
pelo ministro. Passam também por um segundo contrato relativo a cotas de um
jatinho e um helicóptero aos quais o banqueiro se refere como ativos que “já
são deles” e abre uma nova avenida de suspeitas.
Não se trata apenas de mais um crime passível
de investigação, mas um indício de envolvimento com aquela que parece ter sido
a âncora das atividades de Vorcaro. Não é apenas mais um banqueiro que
corrompia autoridades para traficar interesses.
A hipótese aqui é a de que Vorcaro, por
manejar grandes somas, virou um ‘hub’ de lavagem de dinheiro. Se a exorbitância
do valor inicial do contrato do escritório Barci de Moraes já levantava esta
suspeita, o repasse adicional de ativos de R$ 50 milhões, a reforça.
A nota de Fachin sugere que a gravidade dos
indícios em tela não justifica os procedimentos usados pelo relator. Seus
problemas foram resumidos por um procurador-geral da República que fumou, bebeu
e viajou às expensas de Vorcaro.
Se Fachin aceitar a nulidade da investigação
tal como foi pedida por um suspeito estenderá a suspeição para toda a Corte,
mas a nota sugere que o presidente do STF compartilha as impressões sobre o
direcionamento da investigação.
O depoimento prestado por Vorcaro ao gabinete
de Mendonça, revelado por Bela Megale, em O Globo, reforça a heterodoxia da
condução do inquérito. Colhido por um juiz auxiliar do relator, teve a presença
do MPF mas não da PF. O gabinete, em nota, informou que as ‘graves
intimidações’ reportadas pelo ex-banqueiro, justificavam a não convocação de
agentes policiais.
O depoimento reforça a hipótese de que
estaria em curso uma delação sem a PF. Se a intenção da defesa foi a de
emplacar a tese da intimidação para tirá-lo da cadeia e, assim, fechar uma
delação sem o constrangimento da privação da liberdade, o desfecho não parece
ter sido o esperado.
Ao vazamento das mensagens seguiu-se o
levantamento do sigilo do relatório da PF, que acabou por expor muito mais
Moraes do que o diretor-geral da PF. Ao abrir as mensagens, André Mendonça
também acabou suscitando a demanda para que faça o mesmo em relação a outros de
seus investigados.
Entre os alvos das buscas e apreensões
conduzidas pelo ministro do STF no INSS está, por exemplo, Willer Tomaz,
advogado e amigo do senador e candidato do PL, Flávio Bolsonaro. Tomaz foi
apontado pela PF como pivô da ocultação de valores desviados dos aposentados.
Tomaz também é o representante da Rio Pag,
empresa que processa pagamentos da Loterj e é investigada pela
Procuradoria-Geral do Estado pelo sumiço de valores da loteria fluminense sob a
gestão Claudio de Castro, aliado bolsonarista.
A onipresença do deputado Cezinha da
Madureira (PSD-SP) nos contatos que envolvem a relação de advogados ligados a
Daniel Vorcaro com André Mendonça, e no encontro do ex-banqueiro com o próprio
ministro, como revelou o jornalista Paulo Motoryn, também arrisca trazer dores
de cabeça inesperadas à condução do inquérito do Master.
Entre os sigilos a serem levantados se cobra
ainda aquele que se refere aos repasses de Vorcaro para o filme ‘Dark Horse’
por meio de Flávio Bolsonaro, cujos valores o jornalista Breno Pires mostrou
serem R$ 8,5 milhões a mais do que já revelado. Quem engrossou o coro foi o
presidente do Senado Davi Alcolumbre (União-AP).
No dia seguinte ao encontro que teve com o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva na casa de Moraes, o presidente do Senado
ficou a contar, a quem passasse pela porta de seu gabinete, detalhes da
reconciliação. Nesta quarta, foi além. Disse que o pedido para o “Dark Horse”
ficou esquecido, e “o culpado só é o ministro Alexandre de Moraes”.
Pra quem não havia entendido, desenhou: Lula
precisa que o Senado vote projetos para sua reeleição (fim da escala 6x1 e PEC
da segurança) e faz um acordo com Alcolumbre e Moraes que têm um pacto de
proteção mútua. Em latim, quis dizer: cutucamos Mendonça com a vara curta.
Em vídeo, o presidente do PT, Edinho Silva,
defendeu um código de ética no Judiciário que ponha fim à “promiscuidade entre
interesses públicos e privados”. Abriu caminho para um pronunciamento de Lula
capaz de convencer o eleitor de que é o adulto na sala nesta briga - e não a
parte interessada do desenho de Alcolumbre.

Um comentário:
Disse tudo: "Se Fachin aceitar a nulidade da investigação tal como foi pedida por um suspeito estenderá a suspeição para toda a Corte"!
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