quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Líderes nas pesquisas precisam, às pressas, aprender a ouvir eleitores de Cury, por Elio Gaspari

O Globo

Lula e Flávio decidiram não ir ao debate da Band, má ideia

A surpresa despontou durante o debate da Band, na noite de 23 de agosto: o médico e escritor Augusto Cury era o campeão de buscas na internet. Augusto de quê? Passou uma semana, e a surpresa encorpou. As pesquisas BTG/Nexus e AtlasIntel/Bloomberg colocaram-no à frente de todos os aspirantes à terceira via. Cury saiu do nada, conseguiu 8% na BTG e 7,8% na AtlasIntel. É uma mixaria, já que Lula tem 37% e Flávio Bolsonaro 30% na BTG. Na pesquisa estimulada, quando o entrevistado recebe um cartão com os nomes dos candidatos, marcou 11%, ante 2% da pesquisa BTG anterior. Continua sendo uma mixaria. Não é mixaria o fato de ter pulado de 8,3 milhões de seguidores para 10,5 milhões em menos de uma semana, um dos maiores incrementos do mundo.

Com 35 segundos no horário gratuito de TV, ele seria um projeto de Enéas nas campanhas de 1989, 1994 e 1998. Só poderia dizer que “meu nome é Enéas”. Passados mais de 30 anos, as campanhas têm outra química e fica uma pergunta: para onde vão esses votos num segundo turno? O sonho de Ronaldo Caiado e Romeu Zema era chegar a setembro com dois dígitos nas pesquisas. Até agora, não deu.

Cury não se apresenta como portador de uma bala de prata. Ele é um reflexo de um eleitorado que não sabe precisamente o que quer, mas identifica o que não quer: PT e Bolsonaro.

Restando Lula e Flávio, o candidato com maior possibilidade de mudança pode ser Lula. Não só porque ele já se definiu como uma “metamorfose ambulante” e em 2002 assinou e cumpriu a Carta aos Brasileiros. Falta-lhe a humildade de há um quarto de século, mas essa é outra história.

Lula e Flávio decidiram não ir ao debate da Band porque a sabedoria convencional ensinava que virariam vidraça para os outros candidatos. Virariam, mas o resultado foi o aparecimento de Augusto Cury, com quem deverão aprender a lidar. Não para destruí-lo, mas para atrair seus eleitores. Vale lembrar que, no Índice de Popularidade Digital da Quaest, em que Cury dobrou seu capital, Lula e Flávio sofreram quedas.

Historicamente, o PT tem dificuldade para lidar com redes sociais. Até hoje, essa dificuldade incomodava, e só. Cury mudou essa escrita. Em menos de uma semana, incorporou mais de 2,1 milhões de seguidores nas redes sociais. Há murmúrios de que esse aumento vem da entrada de robôs no jogo. A equipe de Flávio diz que localizou máquinas indianas. Prova? Nem um fiapo.

Lula lidera em todas as pesquisas, mas não se deve perder de vista que há uma dissonância em seu favoritismo. Ele lidera as pesquisas, e seu governo é mal avaliado. Pode-se desprezar essa má notícia, mas ela sugere que um pedaço do fio está desencapado.

De certo mesmo, uma campanha que parecia tomada pela monotonia — com dois candidatos numa disputa apertada — acordou. Lula e Flávio precisam, às pressas, aprender a ouvir a turma do Cury. Até a divulgação das pesquisas, eles ficavam numa espécie de vala comum dos “indecisos”. Agora ficou claro o que boa parte dos indecisos querem.

 

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