sábado, 11 de setembro de 2010

Serra: Lula deixa roubar' e Dilma é 'envelope fechado'

DEU EM O GLOBO

Para tucano, continuidade da atual administração traz risco para o Brasil

O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, disse que sua principal adversária na disputa, Dilma Rousseff (PT), está perto da inexistência política" e comparou-a a Celso Pitta, eleito prefeito de São Paulo graças à popularidade do padrinho Paulo Maluf. Serra disse que, se Dilma for eleita, o presidente Lula não conseguirá se eleger nem para deputado em 2014 - tão fraco seria, segundo ele, o eventual governo da petista: Votar num envelope fechado é temeridade." Sabatinado por colunistas e leitores do GLOBO, o tucano disse que o governo Lula deixa roubar e que o atual modelo da administração federal se esgotou. "Botar lá gente que vai continuar com essa privatização do Estado, privatização do governo, que vai continuar com os abusos, com o desrespeito à democracia, é um risco muito grande para o Brasil", afirmou.

"O Brasil não vai votar num envelope fechado"

Serra ataca duramente a adversária do PT e o governo Lula e também se diz otimista com a possibilidade de haver segundo turno

MÍRIAM LEITÃO: A Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) foi divulgada esta semana. Dá para ver que, nos últimos cinco anos, houve aumento de renda, mas o melhor ano foi 1996. O acesso à telefonia, depois da privatização, aumentou 300%. E, na educação, os avanços são lentos, mas foram um pouco mais rápidos no governo Fernando Henrique. O ex-presidente não aparece em seu programa, e o presidente Lula aparece. O senhor tem vergonha do legado tucano? Gostaria de ser o candidato do presidente Lula?

SERRA: Nunca me passou pela ideia ser o candidato do Lula. Nem por vontade própria, nem por vontade provavelmente recíproca. O PT colocou na pauta que a campanha deveria se orientar pelo debate entre os governos Lula e Fernando Henrique. Muitos jornalistas, muita gente entrou nessa. De fato, esta eleição não está decidindo entre governo Fernando Henrique e governo Lula, até porque as circunstâncias são totalmente diferentes. Se você verificar as entrevistas que eu dei, discursos, verá que, a todo momento, entro em análises do que aconteceu no passado e agora. E tenho outra coisa de que, graças a Deus, eu me orgulho: não tenho que ficar, a cada momento, revisando meu passado. Nem guardo num cofre trechos da minha história, que é mais ou menos conhecida. Então, tenho muita paz em relação a essas circunstâncias do passado, comparações etc. Fui ministro do Fernando Henrique. Tudo que foi feito na Saúde, na minha época, foi com a cobertura dele. Isso é mais ou menos óbvio.

MÍRIAM: Mas não é falar do passado para ficar nessa discussão sobre o que foi melhor. É para que se possa entender quais são as ideias da candidatura, o que foi feito quando vocês estiveram no poder. Por que a pessoa do seu partido que governou o Brasil oito anos não aparece?

SERRA: Mas a todo momento ele esteve comigo. A estratégia de programa de televisão é uma. A estratégia política de falar para a mídia é outra. A estratégia de comício é uma terceira. Essa história de que eu fico pondo o Lula (no programa eleitoral) não é verdade. Apareceu num clipe que era para comparar, mostrar até que a candidata Dilma não tem história. Quem são as duas pessoas que estão aí? Eu sou candidato, e o Lula é o patrono (de Dilma), praticamente o candidato de novo. Lula está se candidatando por meio dela. Então, sublinhamos: o Lula tem história? Tem. Alguma experiência? Tem. Eu também. E ela, nenhuma. Ao contrário, (o uso do Lula) foi numa perspectiva crítica. Então, a partir daí, fixou-se jurisprudência. Acho que é muito folclore isso.

ILIMAR FRANCO: Existe uma crise da representação política. Se for eleito, o senhor colocaria como uma das prioridades promover uma reforma política? E que reforma política, que ideia defenderia?

SERRA: A questão essencial é a eleitoral neste momento. Tenho uma proposta concreta que acho que começaria a mudar o sistema político brasileiro. É de implantar o voto distrital em municípios que têm segundo turno, onde há mais de 200 mil habitantes. Por exemplo: o Rio tem quantos vereadores? Cinquenta? Você dividiria o Rio em 50 distritos e elegeria um vereador para cada distrito. Por que esse voto distrital puro? Porque a população se sentiria muito mais representada e cobraria de quem fosse eleito. Você introduziria no Brasil o vírus benigno do voto distrital e da melhor representação. Se depois vai fazer distrital misto ou voto de lista, é outra história. Começaria por aí. A questão é melhorar a representação, o controle sobre aquele em quem o eleitor votou. Outra coisa que eu mexeria é na história do horário, que não é gratuito. É tudo, menos gratuito. Primeiro, porque as empresas de comunicação descontam no Imposto de Renda. Segundo, porque é uma fortuna fazer uma campanha em que se acaba vendendo candidato, em alguns casos - no meu nunca aconteceu -, como se fosse iogurte, sabonete, sapato de praia. Fantasiando inteiramente. No meu ver, tem que ter a câmera e o candidato. Programa político eleitoral não é de entretenimento. Se a política é chata, é chata. Eu também limitaria, pela legislação, a questão dos nanicos, de partidos de aluguel.

RICARDO NOBLAT: O senhor disse que comentou com o Lula, em janeiro, a respeito da eventual quebra de sigilo de sua filha, Verônica. Estavam surgindo dados, em blogs e em sites, que indicavam que poderia ter havido quebra de sigilo da Verônica. Em outubro do ano passado, que, aliás, foi quando houve a quebra de sigilo, o "Jornal do SBT" publicou reportagem sobre venda de dados sigilosos em SP. E até ouviram o senhor porque havia ali elementos que mostravam a quebra de sigilo de pessoas importantes, o senhor, a sua família, o presidente Lula. Quando foi exatamente que o senhor começou a ter maior segurança de que isso tinha acontecido?

SERRA: Eu nunca dei declaração sobre essa conversa (com Lula). Eu fiz um comentário numa emissora de TV, onde eu ia dar uma entrevista, e alguém ouviu e passou para o jornal. Então, ficou uma história mal explicada. No dia 25 de janeiro, teve o aniversário de São Paulo, e o Kassab convidou o Lula. E, depois da reunião, nós conversamos. Eu disse ao Lula que ia ser candidato a presidente. Estava aquela onda na imprensa de sai ou não sai (candidato a presidente). Eu já tinha tomado a decisão de sair, e transmiti ao Lula. Ele nunca passou isso para fora. Foi discreto a esse respeito. A conversa girou em torno disso. No final, eu passei a ele cópias de blog de amigos dele e do blog de amigos da Dilma. E o blog tinha coisas sujas a respeito da minha filha, da minha família. Então, eu dei a ele. Falei: "Olha, se puder parar isso". Minha filha me disse que deviam estar quebrando sigilos porque existiam dados, segundo ela, que só estavam no IR. Mas ela também não tinha certeza. Foi isso. Ocupou 5% do tempo da conversa. Isso foi tudo. Agora, essa questão de outubro, eu não sabia. Foi a Verônica que começou a me dizer que achava estranho, ela e meu genro... Há uma indústria de blogs mantida pelo PT. Ou mantém pagando no bolso direto, ou mantém através de terceirização. A TV Brasil paga a gente que tem blog sujo. É uma remuneração indireta. E que se dedicam (os blogs) à difamação. No caso do Eduardo Jorge, dos outros (tucanos), foi em função de campanha eleitoral. Desde 2006, havia "dossiês" com coisas delirantes de quando ela (a filha) morava nos Estados Unidos. Vocês não imaginam a sujeira que é isso. Quebrou (o sigilo) de mais gente, então, não é o PT. Claro que foi. Agora, pode ter usado um pé de chulé qualquer que chega lá e pega? Pode.

NOBLAT: Essa reportagem de outubro era sobre quebra de sigilo, sobre venda na Rua Santa Efigênia de dados sigilosos... Sobre um site que falava de dados sigilosos. Mostrava os de Lula, do filho do Lula, do senhor, de pessoas da sua família. E lá, nessa reportagem, o senhor já comenta isso. Diz que é um crime, que tem que ser combatido. O que eu pergunto é: isso já acontecia há mais tempo, não é o fato de acontecer agora... (Serra interrompe Noblat)

SERRA: Mas eu não tinha essa consciência. E também teria que se comprovar. Vou ser bem franco: vejo gente aí escrevendo que eu quis aproveitar, divulgar, me fazer de vítima e etc. Sabe qual foi a minha primeira reação quando soube da (quebra de sigilo) da Verônica? Não foi a de divulgar. Você não quer ver nome de seus familiares exibidos. Depois, ela trabalha, uma pessoa que não tem nada a ver com política. Por mim, não teria divulgado para não trazer amolação para ela. Sempre tive essa preocupação.

NOBLAT: Mas uma crítica que se faz é que o senhor deu muita importância a esse assunto - não que ele não merecesse - e está, com isso, tentando recuperar, eventualmente... (Serra interrompe)

SERRA: É uma crítica imbecil, primeiro, de quem não quer gastar neurônios para pensar no que está acontecendo. Segundo, é tipicamente de um comitê petista. Ou o sujeito que tem medo de patrulhamento. Não tem pé nem cabeça isso.

JORGE BASTOS MORENO: O senhor acredita que, após esta eleição, vai haver uma mexida partidária, independente de uma reforma política? O nível que está a campanha eleitoral para presidente adia um pouco um projeto, que é o sonho de muitos tucanos e de muitos petistas, não sei se é o seu também, de, no futuro, esses dois partidos (PT e PSDB) se unirem através de projetos comuns, já que eles nasceram, praticamente, afinados um com o outro?

SERRA: Não conheço esses tucanos. Devem ser mais exóticos ainda do que o tucano natural. Tem uma diferença PSDB-PT com relação à concepção do que é partido, do que é democracia, liberdade. Isso é antagônico. Não significa que não tem gente dentro do PT, gente dentro do outro lado que não tenha mais afinidade. Estou dizendo como partido, como instituição. Agora, eu eleito presidente, a parte política, pode está certo, será bem conduzida. Eu, no Ministério da Saúde, consegui aprovar seis leis importantes, que marcaram o sistema de saúde no Brasil. Mais uma emenda constitucional com o apoio da oposição. Sempre atendi todos. Eu conheço. Sei como são, como funciona a vida parlamentar. Eu creio que o governo Lula foi e tem sido um dos mais fracos da História em matéria de Congresso Nacional. Do que eu me lembro, realmente, só não foi mais fraco do que o do Collor. Estou me referindo ao período da democratização. Tudo lá, cada voto, tem que recompor a maioria e tem que ceder mais cargos porque, como começou assim, cria um círculo vicioso.

MERVAL PEREIRA: O PSDB tem a tradição de vencer em São Paulo. O senhor foi eleito prefeito e governador. No entanto, nas duas campanhas presidenciais, em 2002, o senhor perdeu para o Lula em São Paulo; agora está perdendo para a Dilma em São Paulo, enquanto Alckmin, em 2006, ganhou com uma diferença de quase 4 milhões de votos e Fernando Henrique ganhou, em 94 e 98, com cinco milhões de votos de diferença. Como o senhor explica esse insucesso no momento em São Paulo, estado que o senhor governou, e como o senhor imagina ganhar uma eleição perdendo no estado que governou?

SERRA: Não imagino; nós vamos ganhar em São Paulo. Não estou perdendo. Eleição não é uma partida de futebol. Eleição só tem um lance, um gol, que é no final. Então não considero que estou perdendo. O fato é que eu fiquei mais distante de São Paulo, a campanha só começou em agosto, tem o peso em relação a Dilma, da popularidade do Lula...

ELIO GASPARI: O que o senhor pretende fazer para colocar em funcionamento, de maneira eficaz, duas iniciativas nascidas no governo FH que atravessaram a atual administração sem resultados significativos. Primeiro, o ressarcimento ao SUS pelos planos de saúde de despesas feitas na rede pública para atendimento de seus clientes. Segundo, a generalização do cartão do SUS, pelo qual cada cidadão poderá ter, num só plástico, os dados relativos ao seu atendimento médico na rede pública.

SERRA: Essas foram iniciativas minhas no governo Fernando Henrique. Foram ideias minhas. E não tivemos tempo de concluir ou de implantar efetivamente. Por exemplo, o cartão SUS, eu comecei, consegui financiamento, e a gente pensava que o próximo governo desse sequência, e eles deixaram para trás.

ANCELMO: E essa questão do ressarcimento?

SERRA: Lógico, não tem nada mais justo. Estávamos nessa batalha, era uma batalha jurídica. Aprovou-se uma lei, as pessoas reagiram contra, com bons advogados, com a experiência que eles têm no setor, e nesse contexto é que mudou o governo e foi tudo deixado de lado. Até porque a ANS passou a ser loteada. Porque uma coisa gravíssima no Brasil foi o loteamento dessas agências de Estado, porque não são de governo, são de Estado. Isso é uma aberração. Isso é uma coisa que vai ter que se consertar no Brasil.

ZUENIR VENTURA: Quando foi que a sua campanha errou, se é que errou?

SERRA: Eu estou muito no calor da campanha para fazer uma análise a esse respeito. Não vejo erro. Às vezes as circunstâncias são mais fortes... Eu nunca na vida fiz passa-moleque. Aqui se diz isso (risos)? Quando você engana o outro, você faz um passa-moleque. É uma uma rasteira, combina uma coisa e faz outra. Posso ser chato, duro (...) Eu sou muito atento, mas eu tive um que foi o maior da minha vida, que foi o do Osmar Dias. Estava tudo combinado e de repente... Eu tenho um defeito em política, acredito que, quando a gente combina uma coisa, o outro vai cumprir. Se você disser, isso foi um erro? Pode ter sido, mas...

ZUENIR: Eu vi uma declaração atribuída ao ex-presidente Fernando Henrique que parece uma tentativa de explicar isso. Ele teria dito que o senhor não está sintonizado com o país, mas que há condições de mudar isso. O senhor concorda?

SERRA: Eu não vi essa declaração, sinceramente.

ARTUR XEXÉO: As pesquisas eleitorais, de certa forma, antecipam o resultado da eleição. Conheço eleitores seus que não têm mais esperança na sua vitória. Quando o senhor acorda e tem uma agenda enorme de campanha pela frente, o senhor acha que ainda vale a pena? O senhor acredita numa virada?

SERRA: Acho que vai ter uma virada. Se você me acompanhasse todo o período em que estou acordado, veria que estou com uma energia que não tive na minha vida. Essa energia provém de uma convicção de que vou ganhar. Do que provém essa convicção? O Brasil não vai votar num envelope fechado. É demais isso. Eu acredito que as pessoas vão se dando conta, sobretudo nessa reta final. Sobre pesquisas, posso dar exemplos de viradas e não viradas.

VERISSIMO: Entre várias semelhanças, numa coisa os governos Fernando Henrique Cardoso e Lula são diferentes: na política externa. Se eleito, voltará a política antiga, menos terceiro-mundista e mais alinhada com os Estados Unidos?

SERRA: Farei outra política. No caso da família Verissimo, houve uma alternância. Leiam o livro "O senhor embaixador", do Erico Verissimo. Vocês vão ver que ele era admirador do Foster Dulles (ex-secretário de Estado americano na Guerra Fria, opositor do comunismo). Tem lá uma apologia porque o personagem está andando pelas ruas de Washington, quando o grande estadista Foster Dulles morreu. O filho passou para o lado contrário em matéria de questão externa. Vou ter uma política própria. Pega a política do Lula: primeiro teve muita promoção política, na época do Fernando Henrique também. Eu acho bom. Em geral, eu vou viajar menos pelo mundo. Na parte comercial, houve pouca agressividade comercial. No Lula menos ainda que no Fernando Henrique. No governo Fernando Henrique, investiu-se muito tempo no Mercosul. Não é aquela coisa simplificadora de que sou contra o Mercosul. O que tinha que ter sido feito era uma zona de livre comércio. Depois se faria uma união alfandegária. Mas isso é fruto de um amadurecimento, de décadas. Quiseram fazer logo de cara. Resultado: não funcionou. Na questão externa, de tarifas com o resto do mundo, de políticas comerciais, não se avançou como se devia na zona de livre comércio. O governo Lula fez más del mismo. E aí usando só para frufru. Para festival, chefes de Estado. A Venezuela entrar no Mercosul é uma piada. Acho que o governo Lula, em matéria de promoção comercial, não avançou nada. Teve um dado que eu levantei: houve cem tratados de livre comércio no mundo desde 2003, e o Brasil assinou apenas um. Com Israel, ainda com as restrições de que não pode ser das áreas contestadas dos assentamentos em terras palestinas. O Brasil vai ser o quinto PIB do mundo e, de cem tratados, só fez esse? O que foi feito é que, para entrar no Conselho de Segurança, ficaram-se abrindo embaixadas. A fatia do Brasil no comércio exterior mundial é a mesma. Apesar do boom de preços das exportações brasileiras, ficamos com a mesma fatia. O que me leva a desconfiar que, em termos físicos, se fosse possível calcular, nós diminuímos a participação no comércio mundial. Vamos fazer uma política agressiva de comércio exterior, de defesa comercial. Reconhecemos a China como uma economia de mercado a troco de quê? É uma medida cucaracha de política externa. Qualquer economia moderna, eficiente, competitiva tem mecanismos de defesa comercial. Finalmente, o Brasil não vai mais ter carinho e amizade por ditadores, por fascistas do século XXI.

FERNANDO CALAZANS: O Brasil será sede nos próximos anos dos dois maiores eventos esportivos do planeta: a Copa e os Jogos Olímpicos. Como o senhor pretende controlar os gastos públicos, que, nesses casos, sempre superam o que estava previsto - ou por superfaturamento ou por atraso nas obras. E segundo, no plano da segurança, o que pode ser feito?

SERRA: A base do crime organizado no Brasil é o contrabando de armas e drogas. Entre tudo o que a Dilma disse, o maior absurdo foi num debate de televisão, quando disse que as nossas fronteiras são as mais bem guardadas do mundo. É exatamente o oposto. Carro roubado entra no Paraguai em troca de armas. Até jornais fizeram reportagens comprando arma na Bolívia. Isso é a base do crime organizado. O preço da cocaína no Brasil caiu 50 vezes nos últimos 15 anos. Então, você tem aí um problema de oferta que é anterior e superior a todos os outros problemas, por incrível que pareça, porque é a base do crime organizado, e por isso que eu quero criar o Ministério da Segurança Pública. O governo federal não tirar o corpo fora como faz hoje. Você vê, a única proposta que o PT está fazendo, que a Dilma está fazendo, é criar UPP em todo Brasil, como se isso fosse a fórmula mágica. Uma medida que funciona no Rio restritamente. A solução para o Brasil é essa? Imagine. Com toda droga, essa coca, e essas armas que entram. Então, esse é um ponto. Como tem Copa e Olimpíada, naturalmente vai ter uma segurança muito reforçada, e isso não me inquieta. Quanto à questão de fazer, tudo ficou para o próximo governo. Tudo. Vai ter fazer isso direito, tem que sair. É um compromisso que um governo assumiu festivamente para o outro cumprir, e vai ter cumprir mesmo até porque são boas oportunidades. Para não ter superfaturamento precisa ter planejamento e, segundo, não deixar roubar. Negócio de roubar é não deixar. Não deixar, e dar o exemplo de cima. Isso é muito importante. Quando você tem uma autoridade que começa errado, a coisa vai para baixo com uma legitimidade que não tem tamanho.

NOBLAT: O senhor acha que o governo deixou roubar?

CANDIDATO: Eu acho que deixou. Não estou dizendo no caso da Copa, porque nem começou.

JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS: As atuais leis de incentivo à cultura têm, entre outros vícios, o de incentivar artistas e produtores poderosos que, a rigor, não precisariam de incentivo algum. Como o senhor vai mudar isso?

SERRA: O exemplo clássico é o Circo de Soleil, que teve incentivo. Acho que isso não deve acontecer. Isso foi decidido e aprovado por um conselho. Então não é erro da lei, mas da aplicação da lei.

CORA RÓNAI: Outro dia, o senhor falou que Índia e China seriam países com projeto de nação. Eu queria saber o que isso significa e saber o que falta ao Brasil para que possa ser considerado um país com projeto de nação?

SERRA: A China e a Índia têm mais ou menos claro para onde querem ir em matéria de desenvolvimento, defendem seus interesses na política internacional, de economia, política-política, não são exibidos. Defesa de interesse não é exibição, são discretos. No fundo, (o que acontece hoje), é o seguinte: estamos caminhando para voltar ao modelo hasta fuera de crescimento de antigamente, diante dos anos 30. Ou vamos ser um país industrial aberto mas competitivo. Hoje está caminhando para trás. Acho que a minha eleição representará no sentido do Brasil perseguir um modelo de crescimento sustentado com indústria da vanguarda junto com a agricultura.

ARNALDO JABOR: Agora que o Lula está atacando frontalmente sua campanha: quando o senhor vai defender o governo anterior? Quando vai mostrar à população que, sem o Plano Real, sem as leis que o governo anterior criou, como responsabilidade fiscal, privatizações, consolidação da dívida interna, telefonia, o governo Lula seria apenas um populismo virtual?

SERRA: Vou mostrar ao Jabor o estoque de debates, discursos, gravações, para ele poder ter uma ideia mais realista sobre o que a campanha está fazendo.

ARNALDO BLOCH: Em abril, Chico Buarque confessou a uma revista francesa que vai votar na Dilma porque é a candidata do Lula e disse: "eu gosto do Lula". Em seguida, acrescentou que não vê grande diferença se o Serra ganhar: "A Dilma ou o Serra, não haveria muita diferença." Meses depois, Cacá Diegues, numa entrevista em que não declarou seu voto, disse a mesma coisa: "Em linhas gerais, não vejo grande diferença." Ontem (anteontem), a candidata Marina, aqui neste auditório, também disse isso: "Não vejo muita diferença entre Serra e Dilma." De onde vem essa noção de que o senhor é parecido com a Dilma? E como é sua relação hoje com a classe cultural?

SERRA: Vindo da parte do Chico esse comentário, acho até uma colher de chá. Vindo da parte do Cacá, que é meu colega da UNE, fiquei curioso. Acho que há uma diferença imensa. Mas acho que, apesar de tudo, ele (Cacá) vai votar em mim. Mesmo achando que dá na mesma. Acho que é mais uma posição política com relação a uma certa insatisfação, que eu não sabia, de condução da campanha do que propriamente em relação à minha pessoa. Quero dizer que respeito, o Cacá é muito inteligente. Ainda bem que não li isso antes. Na campanha, não posso ter estresse. Você falou da cultura. Eu tenho amigos na área da cultura, mas nunca desenvolvi uma política junto aos artistas, aos fazedores de cultura mais ativos. Mas, em compensação, na prefeitura e mesmo no governo federal, eu meti o bico. Inclusive houve um projeto de recuperação do patrimônio histórico que foi ideia minha. Quando eu estava no Planejamento, o BID financiou. Sempre fui muito ligado, até porque na universidade eu cheguei a ser ator, diretor do grupo teatral da Politécnica. Na prefeitura, criei a Virada Cultural, que foi um sucesso estrondoso em São Paulo. Agora foi feita no Rio também. E no estado, o orçamento que mais cresceu foi o da cultura.

ANCELMO GOIS: Fernando Henrique Cardoso prometeu duas vezes que a questão da violência urbana seria prioridade. Não foi. Lula também prometeu aqui que a questão da violência urbana seria um prioridade. Não foi. Por que acreditar que com o senhor vai ser uma prioridade?

SERRA: Porque o que falo eu faço.

ANCELMO: Já Fernando Henrique e Lula...

SERRA: Não estou dizendo que é o caso dele (Fernando Henrique). Tudo o que o Ministério da Justiça tem em matéria de segurança foi criado na época do Fernando Henrique. Houve alguns equívocos, por exemplo, a Secretaria Nacional Antidrogas. Ele fez uma péssima nomeação. Resultado: uma coisa nova, boa, acabou naufragando, não fazendo o que deveria ter feito. Mas tomou as iniciativas. Depois (no governo Lula) só se fez fru-fru.

'É o mesmo fenômeno Maluf-Pitta'

SERRA NA SABATINA DO GLOBO: "A ética na política, na vida pública, está chegando ao chão", disse, sobre o atual governo

Foi respondendo a uma pergunta da leitora Maria Thereza Bunte que o tucano José Serra fez uma das críticas mais fortes à adversária do PT, Dilma Rousseff. E voltou a bater forte nas considerações finais.


MARIA THEREZA BUNTE: O senhor aprovaria a possibilidade de o presidente voltar após ter sido reeleito?

JOSÉ SERRA: Acho que reeleição não é uma boa. Não deu certo no Brasil. Não vou transformar isso em objetivo de governo. Agora, voltar depois, eu deixaria... Aliás, o Lula só tem uma chance de ser candidato em 2014, de novo: se eu ganhar. Se a Dilma ganhar, o Lula não se elege deputado. O que aconteceu com o Paulo Maluf em São Paulo? Ninguém sabia quem era o (Celso) Pitta, ele se elegeu, o que aconteceu? Aliás, só falta o Lula dizer: "Não votem mais em mim se a Dilma não governar bem". Maluf disse isso. Só falta isso, ele já disse tudo. O único jeito de o Lula ser candidato e ganhar em 2014 é se eu ganhar.

JORGE BASTOS MORENO: O que mais irrita a Dilma é ser comparada ao Pitta...

SERRA: Não sabia. São duas pessoas diferentes (Dilma e Pitta). Estou me referindo ao fenômeno político. Alguém que está perto da inexistência política, que é inventado pelo governante que está saindo e tem popularidade, que não tem ideias próprias, conta com uma máquina avassaladora em cima. Porque o Lula ainda é mais forte que o PT. No caso da Dilma, ela é muito mais fraca que o PT. Esse tipo de fenômeno é o Maluf com o Pitta, sim. O essencial da análise é: você votar num candidato que de fato não vai governar. Se quiser governar, vai dar a maior briga, dura uma semana. Ainda mais com o PT no meio, o partido da encrenca. Nos escândalos do PT, foi tudo cavado por eles mesmos. O PSDB, em matéria de armar confusão para os outros, de descobrir escândalos, é uma nulidade. O caso do mensalão é clássico, não teve nada a ver com o PSDB ou a oposição. Mais ainda: na época, pessoas importantes do governo procuraram Fernando Henrique e outros, querendo conversar para não ter impeachment, e foram muito bem recebidas. Curioso é que hoje se acusam de golpe aqueles que foram procurados para que o presidente pudesse se sustentar.

RICARDO NOBLAT: O PT se queixa muito da imprensa, diz que a imprensa é serrista. O senhor também se queixa da imprensa? Acha que ela beneficia a candidatura do PT?

SERRA: Eu me queixo, mas defendo que a imprensa seja livre. Não defendo censura de imprensa com o nome de conferência, congresso, comitê, participação popular etc. Que na verdade não são. Sou ardoroso defensor dessa liberdade.

NOBLAT: O senhor acha que a imprensa é mais simpática com o PT?

SERRA: Não diria isso. No atacado, não. Mas uma coisa que entre os tucanos se fala é: imagina se fosse o Fernando Henrique, certas coisas que o Lula faz ou fala. Imagina se o Fernando Henrique estivesse na campanha, como o Lula está. Seria um escândalo, viriam manifestos... Lembra em 2002? Inventaram que tinha um filme sobre o Lula, que iria passar no meu programa. O Zé Dirceu foi procurar o FH. Tudo inventado. Aí veio um manifesto assinado por Antonio Candido, Celso Furtado, para defender que não tivesse baixaria. Aquilo era pintinho perto do que estão aprontando nesta campanha, só com coisas familiares.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

SERRA: Estou convencido de que esta eleição vai ser muito importante para o Brasil neste século. O governo Lula se beneficiou de uma conjuntura única da economia mundial. Não lembro outro período de bonança como este. Mas este período não foi aproveitado para colocar o Brasil num rumo de crescimento de médio e longo prazos. Temos fundamentos sólidos para um desenvolvimento sustentado, que é o que importa. Esta eleição vai decidir muito o que vai acontecer na economia, na sociedade. A ética na política, na vida pública, está chegando ao chão. A banalização dos piores costumes da política, desvalorização do mérito, das instituições, dos direitos individuais... Ou tomamos rumo diferente ou entramos num processo de desgaste e perda de rumo muito acentuado. Acho que esta eleição vai definir isto: o que vamos fazer neste século. Essa percepção é que me levou a ser candidato. Então, entrei nesta luta como a luta da minha vida. O que temos agora é a luta entre o mito e uma proposta. O mito é que o Lula continuaria governando, de fora. Mesmo que continuasse de dentro, atravessaria um momento muito complicado. O modelo Lula se esgotou. E botar lá gente que vai continuar com essa privatização do Estado, os abusos, o desrespeito à democracia, incompetência, desconhecimento da realidade, falta de propostas, governo publicitário é um risco muito grande para o Brasil. É uma análise serena, não se trata de causar alarme. Votar num envelope fechado é uma temeridade. Estou sendo muito sincero, não estou fazendo discurso para angariar votos. É minha convicção.

Perguntas que Dilma deixou sem resposta

DEU EM O GLOBO

Ao se recusar a debater com leitores e colunistas do GLOBO, a candidata do PT, Dilma Rousseff, deixou sem resposta perguntas como as duas abaixo:

Verissimo: Se eleita, qual será seu primeiro gesto, aquele ato de impacto que costuma inaugurar governos? Ou não haverá nada disso?

Ricardo Noblat: Se Lula não a tivesse escolhido, a senhora cogitava ser candidata a qualquer outra coisa?


O que Dilma não respondeu

Perguntas que colunistas do GLOBO fariam para a petista, que se recusou a debater

Ancelmo Gois

Eu gostaria de repetir a pergunta que fiz a Lula, então candidato em 2002, até porque, em que pesem as promessas do atual presidente, de lá para cá o problema se agravou ainda mais. Por que acreditar que, com a senhora na Presidência, o problema da violência poderia ser atenuado?

Merval Pereira

Candidata, a senhora vem sofrendo uma transformação radical, à vista de todos, tanto na fisionomia quanto na ideologia. Qual é a verdadeira Dilma, a gerentona do governo, que já colocou muitos ministros a chorar depois de discussões, ou a mãe gentil do povo brasileiro? A que coloca o chapéu do MST e diz que não trata dos movimentos sociais na base da polícia, ou a que diz que não convém colocar o chapéu do MST e que não tolerará ilegalidades? A que se orgulha de ter participado da luta armada contra a ditadura e foi saudada por José Dirceu como "minha companheira em armas" ou a que nega ter pegado em armas contra a ditadura? A que classificou de "rudimentar" a proposta do então ministro Antônio Palocci de limitar os gastos do governo, ou a que defende o corte de gastos e tem o mesmo Antônio Palocci como coordenador de sua campanha?

Ilimar Franco

A necessidade de uma reforma política é recorrente no discurso de todos os partidos. Os presidentes da República falam de sua necessidade, mas nenhum deles assumiu a responsabilidade de levá-la adiante. Nas gestões do presidente Lula, a Câmara esteve próxima de aprovar uma reforma que previa a votação em lista fechada para a Câmara dos Deputados e o financiamento público das campanhas. Se a senhora for eleita presidente da República, pretende trabalhar pela votação de uma reforma política? A senhora é favorável, ou não, ao voto em lista? A senhora é favorável, ou não, ao financiamento público?

Ricardo Noblat

Se Lula não a tivesse escolhido para ser candidata à sucessão dele, a senhora cogitava ser candidata a qualquer outra coisa? Caso seja eleita e Lula queira voltar em 2014, a senhora abrirá mão da reeleição?

Jorge Bastos Moreno

Qual a sua verdadeira posição em relação ao sistema de partilha do pré-sal, já que, como integrante do governo, a senhora não foi tão enfática?

Elio Gaspari

No campo político a senhora defende a introdução do voto de lista. Vamos ser claros: desde 1946 o eleitor brasileiro votou em candidato para a Câmara dos Deputados, indicando-o nominalmente. Por exemplo: o eleitor quer votar em Dilma Rousseff para deputado e vota em Dilma Rousseff. Como funcionará isso no seu sistema de lista? O eleitor votará no partido, digamos o PTB, presidido por Roberto Jefferson, e qual será a ordem de entrada dos candidatos? A da vontade da direção do PTB ou de qualquer outro partido que organizou a lista?

Zuenir Ventura

A senhora disse que a oposição está com medo de que uma mulher dê certo na Presidência. A senhora já se considera eleita? Não é cedo para cantar vitória?

Verissimo

Se eleita, qual será o seu primeiro gesto, aquele ato de impacto que costuma inaugurar governos? Ou não haverá nada disso?

Chico Caruso

Como pretende conviver com caricaturas e caricaturistas, se for eleita?

Míriam Leitão

O governo tem banalizado o crime de quebra de sigilo fiscal dos líderes da oposição e familiares do candidato José Serra com frases espantosas. O ministro da Fazenda disse que vazamentos sempre acontecem; o presidente Lula perguntou num comício "cadê esse tal de sigilo?"; a senhora declarou que falar disso é desespero e jogo eleitoral da oposição. Tente imaginar a situação inversa: os dados da sua filha sendo espionados no órgão que deve zelar pela proteção constitucional do sigilo. O que a senhora sentiria? A senhora considera normal que órgãos do Estado sejam usados para espionar adversários políticos?

Flávia Oliveira

Uma das primeiras medidas do governo Lula na área econômica foi a elevação dos juros básicos para controlar uma inflação crescente em 2002/2003. O resultado foi um primeiro ano de governo com PIB estagnado. Que medidas fiscais e monetárias a senhora pretende adotar no início do seu mandato para manter o Brasil com crescimento econômico e baixa inflação?

Fernando Calazans

A senhora disse que, se eleita, estenderia a mão para os adversários. A mão ainda pode ser estendida? É possível ou impossível um entendimento, no governo, com o PSDB? Por quê?

Artur Xexéo

Uma das áreas mais polêmicas do atual governo, a administrada pelo Ministério da Cultura, não recebeu até agora uma só menção no seu programa do horário eleitoral. Caso ganhe as eleições, quais são as suas prioridades na área da cultura?

Joaquim Ferreira dos Santos

O presidente Lula praticamente não esteve presente a eventos de cultura, como uma peça de teatro, um concerto de clássicos ou música popular. A senhora também não tem sido vista em plateias de cultura. Qual a sua relação pessoal com os hábitos culturais?

Cora Rónai

A senhora tem sido apresentada, na sua campanha, como um duplo do presidente Lula, "Lula e Dilma", como se ambos tivessem governado o país juntos ao longo dos últimos anos. Caso venha a ser eleita, a parceria continua? Teremos "Dilma e Lula" no poder?

Arnaldo Jabor

Se a senhora for eleita, vai seguir a trilha do Lula, mais conciliadora, ou vai dar ouvidos às ordens de petistas de carteirinha como Dirceu, Berzoini e outros?

Arnaldo Bloch

O maestro John Neschling disse que teve um encontro com a senhora e ficou impressionado com seu conhecimento das óperas russas, a ponto de cantar árias inteiras. Como a senhora vê, em contrapartida, a situação da cultura brasileira, completamente ausente do debate eleitoral?

Mais uma procuração falsa de Atella

DEU EM O GLOBO

Sigilo de genro de Serra também foi quebrado por meio de apresentação de documento falsificado em Santo André

Sérgio Roxo e Silvia Amorim

SÃO PAULO e RIO. Sérgio Rosenthal, advogado de Verônica Serra, filha do presidenciável José Serra (PSDB), disse ontem que os dados fiscais do genro do candidato, Alexandre Bourgeois, também foram violados por uma procuração falsa, apresentada pelo mesmo Antônio Carlos Atella Ferreira à agência da Receita Federal em Santo André, ABC paulista. O falso documento, diz o advogado, consta dno inquérito da Polícia Federal que apura a violação do sigilo fiscal de Verônica. Atella, que usou falsa procuração também em nome de Verônica, é filiado ao PT.

- Foi o mesmo procedimento criminoso que permitiu o acesso ao sigilo da Verônica. Diante disso, é possível inferir que os dados do Alexandre também foram acessados - disse Rosenthal, ao deixar a Superintendência da PF em São Paulo.

Carimbo falsificado também é do 16º Tabelião de SP

A filha de Serra teve seu sigilo fiscal violado em 29 de setembro de 2009 na delegacia de Receita em Santo André. Os dados foram acessados após Atella entregar uma procuração falsa em nome de Verônica. Esses dados teriam sido usados num dossiê montado por petistas.

O advogado esteve de manhã na sede da PF para marcar a data do depoimento de Verônica e Bourgeois e teve acesso, pela primeira vez, à investigação. O falso documento, segundo ele, também tinha carimbo falsificado do 16º Tabelião de São Paulo, mesmo cartório que Atella usou para quebrar o sigilo da filha de Serra. E foi entregue à Receita no mesmo dia em que deu entrada no departamento a procuração que permitiu a violação dos dados de Verônica.

Rosenthal disse que ficou surpreso ao ver a falsa procuração de Bourgeois, uma vez que a própria Receita divulgou, esta semana, que o genro de Serra não tivera dados fiscais acessados por funcionários do órgão, mas só dados cadastrais. Para o advogado, a procuração em nome de Bourgeois reforça a tese de ação orquestrada com interesses político-eleitorais:

- Não entendi por que esse documento não veio à tona até agora - afirmou.

O que se sabia, até então, era que o genro de Serra teve os dados cadastrais acessados em 16 de outubro de 2009, na Receita em Mauá. O acesso ocorreu no terminal usado pela servidora do Serpro Adeildda Ferreira Leão dos Santos, de onde também foram extraídas ilegalmente cópias das declarações de Imposto de Renda de pessoas ligadas ao PSDB, incluindo o vice-presidente do partido, Eduardo Jorge Caldas Pereira.

Verônica e seu marido serão ouvidos pela PF na próxima quarta-feira, em São Paulo. O horário ainda não foi definido. Um dos objetivos da investigação é colher a assinatura da filha do presidenciável para confrontá-la com a rubrica que consta na procuração apresentada à Receita, e que teria sido falsificada.

A filha de Serra está no exterior, e seu retorno ao Brasil está previsto para hoje.

No inquérito, há documentos comprovando que Atella apresentou outras duas procurações para obter dados fiscais em São Paulo, uma delas em nome de José Gomes Graciosa, ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado do Rio, em novembro de 2009. Pela assessoria, Graciosa disse que não conhece Atella e nunca firmou tal procuração.

Ontem no Rio, ao saber da falsa procuração em nome do genro, Serra disse não ter se surpreendido:

- Vejo isso sem grandes surpresas, pois isso tem sido a metodologia do crime contra as pessoas, que tem sido praticado nesta campanha. De maneira que cada dia tem uma novidade, mas tudo dentro daquele processo de confronto do PT.

Colaboraram Henrique Gomes Batista e Maiá Menezes

Falsificações usaram mesmo selo

DEU EM O GLOBO

Roberto Maltchik e Gerson Camaroti

BRASÍLIA. O selo usado para fraudar a procuração que permitiu a violação do Imposto de Renda da filha de José Serra, Verônica Serra, também serviu para falsificar documentos levados à Receita Federal seis meses depois.

Em ofício enviado anteontem à Corregedoria da Receita, o tabelião Fábio Tadeu Bisognin, do 16º Tabelionato de Notas de São Paulo, informa que o selo que legitimaria a assinatura de Verônica é o mesmo usado para falsificar um pedido de extinção do nome fantasia de uma empresa de equipamentos para direções hidráulicas, que funciona em Mauá (SP), em março deste ano.

O documento básico de entrada de CNPJ da empresa AWF Comercial, com assinatura fraudulenta, foi apresentado em 8 de março de 2010. A violação do sigilo da filha de Serra ocorreu em 30 de setembro de 2009. A falsificação de março tem as mesmas características da fraude que resultou na quebra do sigilo fiscal de Verônica, indica o tabelião.

De acordo com o tabelião, "é impossível que um mesmo selo seja utilizado em dois atos distintos".

Receita orientou fraude em procurações, diz servidora

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A servidora da Receita Federal Ana Maria Caroto Cano, investigada pela quebra de sigilo fiscal de cinco pessoas ligadas ao candidato José Serra (PSDB), afirmou à Polícia Civil de São Paulo que foi orientada pela Corregedoria do Fisco para "encobrir" violações de dados fiscais. O corregedor-geral da Receita, Antonio Carlos Costa d"Ávila, nega. A servidora foi levada a prestar depoimento sobre as quebras de sigilo após denúncia do aposentado Edson Pedro dos Santos. Ele acusou o marido da servidora, José Carlos Cano Larios, de tentar fazer com que assinasse uma procuração em seu nome para acessar dados da Receita. Segundo o depoimento de Santos, o marido de Ana Maria bateu à porta de sua casa há cinco dias e disse: "Minha mulher é funcionária da Receita, eu preciso que o senhor assine aqui dando autorização para que ela acesse suas declarações de renda dos exercícios 2007 e 2008."

Receita orientou fraude, diz servidora

Funcionária afirma em depoimento à Polícia Civil que foi orientada pela corregedoria do Fisco para "encobrir" violações de dados fiscais

Bruno Tavares e Roberto Almeida

Ana Maria Caroto Cano, servidora da Receita investigada pela violação de sigilo fiscal de cinco pessoas ligadas ao presidenciável José Serra (PSDB), afirmou em depoimento à Polícia Civil de São Paulo que foi orientada pela corregedoria do Fisco para "encobrir" violações de dados fiscais.

A servidora foi levada a prestar depoimento sobre as quebras de sigilo no 1º Distrito Policial de Mauá (SP) após denúncia do metalúrgico aposentado Edson Pedro dos Santos. Ele acusou o marido da servidora, José Carlos Cano Larios, de tentar fazer com que assinasse uma procuração em seu nome para acessar dados da Receita.

Segundo o depoimento de Santos obtido pelo Estado, o marido de Ana Maria bateu à porta da casa dele na última segunda-feira e declarou: "Minha mulher é funcionária da Receita, eu preciso que o senhor assine aqui dando autorização para que ela acesses suas declarações de renda exercícios 2007 e 2008. Quem fez esse pedido é o contador que fez suas declarações."

Santos pegou a procuração, mas não assinou. No dia 7 de setembro ele procurou seu contador e o indagou sobre o caso. "Você pediu acesso ao meu Imposto de Renda?" O contador negou e o aconselhou a procurar a polícia. No dia 8 o aposentado deixou uma carta no 1.º Distrito Policial de Mauá narrando o que tinha acontecido.

Ontem, ele disse que não imaginava que seu caso tivesse relação com o escândalo de violações de sigilo na Receita. Em 2008 ele foi candidato a vereador de Mauá pelo PPS. "Fiquei na dúvida. Ainda bem que meu contador me alertou para procurar a polícia. Até agora mão sei explicar por que queriam acessar meus dados."

Segundo o delegado Marcos Carneiro, chefe do Departamento de Polícia Judiciária da Macro São Paulo (Demacro), Ana Maria e seu marido afirmaram que as assinaturas começaram a ser colhidas a pedido da corregedoria do Fisco, após a série de reportagens sobre o escândalo.

O objetivo, segundo a funcionária da Receita, seria o de "justificar" acessos ilegais a declarações de Imposto de Renda. Segundo a polícia, Ana Maria foi indagada sobre quem na corregedoria a teria orientado a "encobrir" as violações de dados fiscais, mas não citou nomes.

"Segundo ela, (as autorizações) são de pessoas que pediram favores e ela teria feito o acesso", afirmou o chefe da Demacro. "Quando começou a reportagem maciça, Ana Maria foi orientada, segundo ela, por funcionários da corregedoria da Receita, para que declarassem que o acesso aos dados foi por vontade própria. Isso não corresponde. Esse cidadão (o metalúrgico aposentado) foi o primeiro que achou estranho", afirmou Carneiro.

Ana Maria Caroto Cano é filiada ao PMDB-SP desde setembro de 1981. Segundo a corregedoria do Fisco, que a investiga, partiram do computador dela acessos supostamente imotivados a 114 CPFs.

Reação. O corregedor-geral da Receita, Antonio Carlos Costa D"Avila, reagiu, em nota, à declaração de Ana Maria sobre a "orientação" do órgão . "A Corregedoria-Geral da Receita Federal do Brasil contesta e repudia a informação divulgada pela imprensa de que haveria orientado a servidora Ana Maria Rodrigues Caroto Cano, que está sob investigação, a providenciar qualquer documento para encobrir ou justificar irregularidades cometidas."

Lula faz campanha durante agenda de governo

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Presidente aproveita compromissos em Suzano e São Bernardo para atacar gestão tucana em SP e promover candidaturas de Dilma e Mercadante

Roberto Almeida

Oficialmente, o presidente Lula cumpriu ontem "agenda de trabalho" em São Paulo, conforme definição do próprio site da Presidência. Na prática, porém, transformou solenidades de inauguração em Suzano e São Bernardo do Campo em comícios petistas, atuando como cabo eleitoral de Dilma Rousseff e Aloizio Mercadante. E atacou duramente as gestões tucanas no Estado.

Ao inaugurar um campus universitário em Suzano, diante de uma plateia de cerca de 300 estudantes e moradores da cidade, Lula classificou como uma "vergonha" os números da educação das gestões tucanas no Estado e no governo federal. Lula afirmou que há 704 mil estudantes beneficiados pelo Programa Universidade Para Todos (ProUni), do governo federal, ante 96 mil alunos matriculados em universidades públicas em São Paulo. E responsabilizou a "elite paulista".

"O fato de que o ProUni tem neste momento mais alunos que todo o sistema de ensino público universitário em São Paulo demonstra que a elite paulista que governou este Estado nunca se importou em colocar o pobre para fazer universidade", disse em durante discurso. "O maior Estado da Federação, o mais rico do País, que tem mais indústria, a maior renda per capita, só tem 96 mil alunos estudando em escola pública do Estado. É, na verdade, uma vergonha para o Brasil, e sobretudo para a elite que governou o Estado de São Paulo até agora."

"Ignorância". Mais tarde, em São Bernardo, voltou a usar uma solenidade oficial, para entrega de Unidade de Pronto Atendimento 24 horas, como palanque de campanha. E mirou diretamente no tucano José Serra, principal rival de Dilma na corrida presidencial. Acusou o governo Serra de agir com "pura ignorância" ao não investir no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

PSDB de São Paulo reage às críticas de Lula

DEU EM O GLOBO

Para tucanos, petista mistura papéis de líder e cabo eleitoral

SÃO PAULO. As críticas do presidente Lula às gestões tucanas causaram uma resposta imediata do governo de São Paulo e do PSDB paulista, que, em nota, o acusou de "confundir os papéis de líder da nação e cabo eleitoral". O ex-ministro da Educação Paulo Renato de Souza, hoje secretário de Educação de São Paulo, em nota, acusou Lula de "mentir deslavadamente" ao dizer que é o presidente que mais criou universidades e escolas técnicas.

Para tucanos, mais vagas ociosas nas universidades

Ontem, Lula afirmou que, enquanto nas universidades públicas de São Paulo há 96 mil alunos, já passaram pelo ProUni 234 mil alunos. "O que cresceu no governo Lula foram vagas mal planejadas e ociosas e a evasão escolar, além de gastos e contratações de pessoal. Entre 2003 e 2008, diminuiu em termos absolutos o número de formandos nas federais: foram 84.036 em 2008, contra 84.341 em 2003", afirmou o ex-ministro, em resposta.

A Secretaria de Saúde de São Paulo também respondeu à crítica sobre a acusação, feita por Lula, de que o governo paulista não investiu no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência e Emergência (Samu). "A contrapartida do governo do estado seria o atendimento dos casos de urgência encaminhados pelas ambulâncias aos hospitais estaduais", informou a secretaria, em nota.

PF prende políticos aliados de Lula e Sarney no Amapá

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Investigação aponta ação de quadrilha liderada pelo governador do Estado e outras autoridades

A Polícia Federal prendeu no Amapá o governador Pedro Paulo Dias (PP), o ex-governador Waldez Góes (PDT) e outras 16 pessoas, sob acusação de corrupção, lavagem de dinheiro, ocultação de bens, tráfico de influência, fraude em licitações e formação de quadrilha. Dias é candidato à reeleição, e Góes tenta o Senado. Ambos contam com apoio explícito do presidente Lula e da candidata à Presidência Dilma Rousseff (PT), e o ex -governador é aliado do senador José Sarney (PMDB-AP). A operação da PF detectou que, sob o comando do governador, a máquina do Estado era dominada por uma quadrilha de altos funcionários que fraudavam 9 em cada 10 licitações, superfaturando os contratos e cobrando e distribuindo propinas abertamente. O Planalto não quis comentar a proximidade de Lula com os políticos presos.


PF prende governador, ex-governador e presidente de TCE do Amapá

Rui Nogueira e Vannildo Mendes

Um governo inteiro atrás das grades e sob investigação por corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro, ocultação de bens, tráfico de influência, fraude em licitações públicas e formação de quadrilha. Esse foi o saldo final da Operação Mãos Limpas que a Policia Federal deflagrou no Amapá, na madrugada de ontem, quando prendeu o governador Pedro Paulo Dias (PP), que é candidato à reeleição, e o ex-governador Waldez Góes (PDT), que disputa vaga no Senado.

Ambos têm apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. O ex-governador também é aliado do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).

Ao todo, a PF prendeu 18 pessoas com autorização do ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), João Otávio de Noronha, que preside o inquérito desde que as investigações, iniciadas em agosto de 2009, alcançaram a cúpula do Estado. O governo foi entregue ontem ao presidente do Tribunal de Justiça (TJ) do Amapá, o desembargador Dôglas Evangelista Ramos.

O terceiro na linha sucessória, o presidente da Assembleia Legislativa, Jorge Amanajás (PSDB), está impedido de assumir o Executivo porque concorre ao governo do Estado, mas também foi alvo de um mandado coercitivo - obrigado a acompanhar a PF, submetido a interrogatório e liberado em seguida.

A Operação Mãos Limpas detectou que, sob o comando do próprio governador Pedro Dias, que era vice de Waldez antes deste se desincompatibilizar para concorrer ao Senado, a máquina do Estado era dominada por uma quadrilha de altos funcionários que fraudavam 9 em cada 10 licitações, superfaturando os contratos, cobrando e distribuindo propinas abertamente.

O acerto prévio na escolha de empresas era tão escancarado que uma única empresa de segurança e vigilância manteve "contrato emergencial" por três anos com a Secretaria de Educação do Estado. O valor da fatura mensal com a secretaria era de R$ 2,5 milhões. A PF mapeou pagamentos e tem provas de que o dinheiro era desviado para contas dos políticos e assessores do governo.

Todos os presos, por ordem do ministro Noronha, deveriam chegar na madrugada de hoje a Brasília. O governador Pedro Dias e o presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE), José Júlio de Miranda Coelho, vão ficar nas celas da Superintendência da Polícia Federal, onde o ex-governador do DF José Roberto Arruda ficou por dois meses.

Os outros 16 presos do Amapá vão para celas do presídio da Papuda. Depois de Arruda, o governador do Amapá foi o segundo a ser preso no exercício do cargo.

Petista confunde "fralda" com "fraude" e encerra entrevista

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Graciliano Rocha
De Porto Alegre

A presidenciável Dilma Rousseff (PT) confundiu as palavras "fraude" e "fralda" e encerrou entrevista coletiva em sua primeira aparição pública após o nascimento do neto em Porto Alegre.

Sem participar de atos de campanha desde anteontem para acompanhar o parto de Paula, sua filha única, Dilma disse no início da entrevista, em tom de brincadeira, que gostaria de falar de fraldas e mamadas do neto Gabriel.

Cerca de 25 minutos depois, um repórter começou a fazer uma pergunta sobre "fraldas" e foi cortado pela candidata, que aparentemente pensou que ele se referia ao escândalo da Receita.

"Eu não falo mais sobre fraudes, vocês me desculpem, vocês perguntem isso para o meu adversário [José Serra, do PSDB], que isso é a pauta dele", afirmou a candidata antes de deixar a sala.

Segundo Dilma, o nascimento de Gabriel foi momento mais feliz de sua vida. "Os avós sempre me disseram que a gente fica meio bobo [com os netos]. Estou hoje meio boba", disse.

Um dia antes, Lula pediu votos para Góes

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Candidato ao Senado pelo PDT exibiu depoimento de presidente na TV na véspera de prisão pela Polícia Federal

Trecho da gravação foi exibido de novo ontem; no RS, Dilma disse que corrupção é combatida "doa a quem doer"

Graciliano Rocha
De Porto Alegre

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva apareceu no horário eleitoral gratuito do Amapá pedindo votos para o ex-governador e candidato a senador Waldez Góes (PDT) na véspera de ele ser preso pela Polícia Federal sob suspeita de integrar um esquema de corrupção.

Góes e o atual governador do Estado, Pedro Paulo Dias (PP), que concorre à reeleição, foram presos com outras 16 pessoas, ontem pela manhã, sob suspeita de participar do desvio de verbas federais e estaduais. A operação da PF foi batizada de Mãos Limpas.

A mensagem de apoio de Lula ao candidato, um depoimento que dura 28 segundos, foi ao ar na noite de quinta, horas antes da deflagração da ação policial.

No vídeo, o presidente olha direto para a câmera e diz que aprendeu a importância de ter apoio no Senado para governar bem. Lula afirma: "Quando for presidenta, Dilma vai precisar de senadores que ajudem a aprovar seus projetos".

O presidente encerra a aparição pedindo votos para o pedetista: "Aqui no Amapá vote em Waldez Góes, que está com Dilma".

Parte do depoimento voltou a ser exibida no programa da tarde de ontem, após o candidato ter sido preso.

Em Porto Alegre, a presidenciável petista Dilma Rousseff elogiou a operação da PF e declarou que o governo Lula combate a corrupção "doa a quem doer".

"[A operação] é absolutamente de acordo com o que sempre fizemos. A gente tem tido em relação à Polícia Federal, à CGU [Controladoria Geral da União] e a todos os órgãos de investigação a seguinte orientação, sempre foi a [orientação] do presidente Lula: "desmantele esquema de corrupção doa a quem doer"."

COLADO A LULA

O governador preso tentava se vincular a Lula e Dilma. Quatro dias antes de ser preso, obteve na Justiça Eleitoral o direito de veicular imagens com os dois, já que seu companheiro de chapa, Alberto Góes, é do PDT, que integra a coligação de Dilma.

Na disputa ao governo, Góes enfrenta o candidato Camilo Capiberibe (PSB), que tem o apoio do PT.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Chile,11 de setembro 1973 - El pueblo unido jamas sera vencido

POEMA :: Carlos Pena Filho

Senhora de muito espanto,
vestindo coisas longínquas
e alguns farrapos de sono,

eu vim para te dizer
que inutilmente contemplo
na planície de teus olhos
o incêndio do meu orgulho.

Senhora de muito espanto,
sentada além do crepúsculo
e perfeitamente alheia
a realejos e manhãs.

Eu vim para te mostrar
que se inaugurou um abismo
vertical e indefinido
que vai do meu lábio arguto
ao chumbo do teu vestido.

Senhora de muito espanto
e alguns farrapos de sono,
onde o céu é coisa gasta
que ao meu gesto se confunde.

Um dia perdi teu corpo
nas cores do mapa-múndi.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A banalização do dolo:: Merval Pereira

DEU EM O GLOBO

A candidata do Partido Verde à Presidência da República, Marina Silva, tocou o dedo na ferida ontem, ao acusar o presidente Lula de não ter agido em benefício do cidadão brasileiro no caso dos sigilos fiscais quebrados sucessivamente em agências da Receita Federal em São Paulo e Minas

Ela se referia ao fato de que milhares de cidadãos comuns tiveram seus sigilos violados por funcionários da Receita, e que o governo, em vez de se desculpar com essas vítimas indefesas e tomar providências imediatas para restaurar a confiança pública naquele órgão, preocupou-se apenas em defender a candidata de seu partido à sucessão.

Marina se referiu a certa altura à banalização do dolo, usando uma expressão que ficou famosa na definição da filósofa Hannah Arendt ao se referir aos crimes do nazismo, com base no julgamento de Adolf Eichmann, como a banalização do mal.

O que preocupa a candidata do Partido Verde é que fatos graves como a violação de sigilos fiscais numa repartição do Estado brasileiro passam a ser tratados como meras futricas de campanha, com o estímulo do próprio presidente da República.

No corolário dessa preocupação de Marina vem uma dúvida, que ela não explicitou: quem pode confiar que a apuração dos fatos pela Receita Federal e Polícia Federal seja rigorosa e republicana, se o próprio presidente da República vai à televisão para garantir aos cidadãos brasileiros que nada aconteceu, que tudo não passa de uma armação política contra Dilma Rousseff, coisa da oposição que é do contra, não é patriota e tem preconceito contra as mulheres? Marina Silva está preocupada com o estado de apatia que se abate sobre a sociedade nesta eleição, não propiciando um debate mais aprofundado das questões nacionais.

Ela tem se dedicado a incutir a ideia de que é preciso haver um segundo turno na eleição presidencial para que os candidatos finalistas e ela espera estar entre eles possam confrontar suas ideias com tempos iguais na televisão e nos debates frente a frente nas televisões.

Com relação à participação do presidente Lula no programa eleitoral de Dilma Rousseff, a sensação entre os políticos, tanto do PV quanto do PSDB, é a de que o presidente fez uma ação preventiva, sentindo nas muitas análises do episódio que este tem potencial para interferir na aprovação de sua candidata, embora os índices das pesquisas de tracking telefônico não indiquem ainda uma mudança de tendência.

Além de ter se exposto a críticas pela sua participação extemporânea, explicitando uma tutela de sua candidata que expõe sua fragilidade, o presidente Lula usou símbolos nacionais em sua aparição, confundindo a posição institucional de presidente da República com a de cabo eleitoral do PT.

Quando se elegeu em 2002, Lula passou bons meses usando um broche com a estrela do PT na lapela e foi muito criticado por isso.

Exigia-se na ocasião que ele abandonasse a postura de líder partidário para colocar na lapela o broche com as armas da República, símbolo da Presidência da República de todos os brasileiros.

Também dona Marisa, a primeira-dama, fez um canteiro no Palácio da Alvorada em forma de estrela, com flores vermelhas, e foi muito criticada por enfeitar um prédio público com suas preferências partidárias.

Pois hoje o presidente Lula faz o contrário: usa símbolos da República para apoiar a candidata petista à sua sucessão.

Já havia usado a biblioteca do Palácio da Alvorada como cenário de um dos programas eleitorais de Dilma, e agora, justamente no dia 7 de setembro, o presidente vai à televisão, com o broche com a bandeira do Brasil na lapela, para fazer uma declaração pública em defesa da candidata que apoia, e não sobre o caso institucional envolvendo a Receita Federal e milhares de contribuintes.

E com o Hino Nacional como fundo musical.

Ainda sobre o papel de José Dirceu na origem da montagem de um aparelho de inteligência e informação no PT e no governo Lula.

As ligações do ex-ministro e deputado federal cassado José Dirceu com Cuba são do conhecimento de todos, e ele não esconde os profundos laços que o unem aos dirigentes cubanos.

Ele esteve asilado em Cuba, depois de ter sido trocado pelo embaixador dos Estados Unidos Charles Elbrick, em 1969.

Quando era o todo-poderoso chefe da Casa Civil, teve participação decisiva no envio de homens da Agência Brasileira de Informações (Abin) para treinar em Cuba.

Segundo justificou na época, e eu registrei na coluna em março de 2005, o serviço secreto cubano é dos melhores do mundo, junto com o de Israel e o da Rússia.

Dirceu explicou que, apesar de todo o bloqueio econômico e político, até mesmo a CIA trocava informações com o serviço secreto cubano em matérias de interesse comum, como o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro: Serviço secreto é assim mesmo, troca informações. Se você tem informação, recebe de volta. Aí não tem nada de política.

Dirceu deve saber do que fala. Segundo o relato de brasileiros que estiveram exilados com ele em Cuba, mantinha uma relação bastante próxima do comandante Manuel Piñeiro, o Barba Vermelha, chefe do serviço secreto cubano, o famoso G-2.

Um dos guerrilheiros que acompanharam Fidel Castro e Che Guevara na guerrilha de Sierra Maestra, Piñeiro depois se uniu a Guevara na Bolívia.

Nos anos 1970, passou a ser o responsável pela organização do apoio logístico, com armas, dinheiro e treinamento militar, para grupos guerrilheiros da América Latina, tendo estreitado a relação com o jovem líder estudantil José Dirceu.

Cala boca já morreu:: Dora Kramer

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A intervenção radical do presidente Luiz Inácio da Silva no contra-ataque para transformar o candidato da oposição de vítima em algoz no caso das violações de sigilo fiscal pode ter sido motivada por algum sinal negativo nas pesquisas ou, então, foi uma tentativa do presidente de aplicar um corretivo no adversário a fim de calar as críticas.

A segunda hipótese parece a mais provável como medida preventiva à primeira.

Tendo sido isso mesmo - aqui e ali aparecem notícias de assessores do presidente dizendo que ele decidiu "dar um tranco" na oposição -, a participação de Lula no horário eleitoral para defender sua cidadela não atingiu o objetivo como em outras vezes.

A fala do presidente, por extremamente inadequada do ponto de vista institucional, suscitou reações de toda parte, Judiciário incluído. O candidato José Serra, que já havia delegado a função de falar a respeito ao presidente do PSDB, Sérgio Guerra (o equivalente a deixar morrer o assunto), pôde voltar ao tema.

Serra tem pouco a perder e, portanto, começou a jogar sem medo da derrota em busca de uma difícil vitória, enquanto o PT atua para não errar, tenso apesar da dianteira porque está não só obrigado a ganhar como a vencer no primeiro turno.

Depois da entrada no horário eleitoral, as críticas se voltaram contra a falta de senso de limite do presidente. Não que ele esteja muito preocupado com esse tipo de público que reclama. Mas é de se notar que até há pouco tempo quando Lula falava havia encolhimento ou consentimento.

No caso do mensalão, quando ele falou que "todo mundo" usava caixa 2, houve consenso de que o presidente havia dito algo impróprio, mas verdadeiro e, portanto, aceitável.

Agora há rejeição, estranheza ou silêncio, mas não apoio. E como se sabe foi a esse estrato que o PT conseguiu convencer primeiro sobre seus propósitos éticos e sua disposição de modernizar o Brasil.

Os pobres vieram depois, já na era do pragmatismo.

Cabeça fria. O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Cezar Peluso, assegura que o tribunal não deixará se prolongar a expectativa acerca da constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa: decidirá ainda antes da eleição se políticos condenados em julgamentos colegiados ou que tenham renunciado para fugir de processos de cassação de mandatos podem seguir na disputa.

Grosso modo o Judiciário vem se manifestando favoravelmente à vigência e aplicabilidade da lei para a eleição do próximo dia 3 de outubro. A maioria dos Tribunais Regionais Eleitorais assim se posicionou e também o Tribunal Superior Eleitoral decidiu que a lei vale agora e alcança a todos.

Com base no fato de que não se trata de uma regra eleitoral, mas de uma condição de elegibilidade. Por isso não precisaria ter sido aprovada um ano antes das eleições. Da mesma forma não se pode alegar o preceito da não-retroatividade por não se tratar de uma pena, mas de um requisito para o candidato conseguir obter o registro para concorrer.

É assim que a coisa está e, por enquanto, vários candidatos fichas-sujas - segundo o enquadramento previsto na lei - ficam de fora.

O STF poderá mudar isso? Poderá e se o fizer não merecerá as diatribes que cairão sobre os magistrados. Se acontecer terá sido inépcia dos legisladores.

Nessa hora é que entra o cidadão e, no lugar de espernear de cabeça quente, faz a sua parte com a cabeça fria e não vota em quem não tenha vida pregressa apresentável.

Na muda. Não se ouve do PMDB uma só voz em defesa da tese de que a quebra de sigilo fiscal nas dependências da Receita é uma coisa, mas a conduta do PT é outra completamente diferente.
Já que se arvora ao papel de poder moderador, seria adequado que o PMDB nesta hora oferecesse ao País demonstração inequívoca de seus dotes de mediação republicana.

CLARA NUNES-PORTELA NA AVENIDA

Programa de Propaganda de José Serra - 09/9/2010 (à noite)

Totalitarismo em ação :: Ricardo Vélez Rodríguez

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Está sendo implantado pelo atual governo, no Brasil, agressivo modelo de Estado patrimonial, que privatiza ainda mais as instituições republicanas em benefício da militância partidária do PT e dos que se acolhem nessa sigla. Esta não seria senão mais uma etapa do nosso arcaico patrimonialismo, não fosse o viés totalitário que assoma por entre as frestas dos acontecimentos ao longo destes oito anos, manifestação que se torna mais translúcida em momentos de pugna eleitoral, como os que estamos vivendo.

Três aspectos na política do atual governo são preocupantes, porquanto conduzem diretamente a uma etapa, totalitária, do processo de hegemonia petista.

Primeiro, a tentativa de Lula de conseguir maioria no Senado, com a finalidade de ver aberta a porta para uma reforma, de tipo chavista, da Constituição.

Segundo, a progressiva tendência policial da militância, que, não contente com ter aparelhado Ministérios, secretarias e autarquias, monta, a partir desses espaços, políticas de caça às bruxas, colocando todos os cidadãos com a corda no pescoço. Após as repetidas quebras de sigilo dos dados de declarações de Imposto de Renda, pela Receita Federal, de cidadãos pertencentes à oposição ou próximos dela, todos os brasileiros viramos candidatos a Francenildos.

Em terceiro lugar, a costumeira desfaçatez do presidente Lula, pronto para dar cobertura aos contumazes "aloprados", neste episódio e nos anteriores, ocorridos ao ensejo das eleições de 2006, bem como no caso do "mensalão", rebatizado pela intelligentsia petista como um reles caso de "caixa 2", que todo mundo pratica.

A imprensa brasileira tem reagido à altura diante desses atentados à democracia. O editorial do Estadão O responsável pela bandidagem (3/9, A3) foi certeiro ao indicar para onde apontam as responsabilidades da quebra de sigilo: "O crime comum e o crime político se complementam. Agora, destampada a devassa nas declarações de Verônica Serra, vem o presidente Lula falar em "bandidagem". Se quiser saber quem é o responsável último por essa degenerescência, basta se olhar no espelho."

E o jornal O Globo, na mesma data, não fez por menos, também em editorial (Impunidade incentiva crime na política), destacando a causa do clima de "liberou geral" instalado no País: "É a impunidade existente no PT que incentiva a militância a agir como delinquentes, espiões. O partido estimula o crime quando dá tratamento de herói a mensaleiros (...)."

Como vários comentaristas têm destacado, caracteriza-se a atual onda de utilização criminosa dos mecanismos do Estado em benefício da candidata oficial pelo fato de se alicerçar em modelo de comportamento que, por sua vez, é caracterizado como de "ética totalitária", segundo a qual os fins justificam os meios. A pretensão não é nova na História. Após a formulação do modelo de "messianismo político" por Jean-Jacques Rousseau, estabeleceu-se agressiva doutrina que pode ser resumida rapidamente nos seguintes itens:

1) A finalidade da vida em sociedade consiste em garantir a felicidade dos indivíduos.

2) Somente será possível atingir a felicidade dos indivíduos em sociedade se estes renunciarem à defesa dos seus interesses individuais, a fim de que todos se identifiquem com o interesse ou o bem público.

3) Como os indivíduos se tornaram egoístas por força do individualismo materialista dominante na sociedade, torna-se necessário que uma minoria de puros, identificados com o bem público (definido por eles próprios), os submeta a um banho catártico que os limpe das impurezas do individualismo.

4) A comunidade dos indivíduos despidos dos seus interesses individuais constitui a vontade geral.

5) Nessa comunidade de homens puros vigora a unanimidade, sendo a dissidência considerada como um atentado à felicidade geral, devendo ser rigorosamente eliminada. Como ensinava Rousseau no seu Contrato Social, todos os meios seriam válidos para a elite de puros implantar a unanimidade.

6) Na organização do Estado deve ser levada em consideração a busca do modelo que melhor garanta a unanimidade, mediante a eliminação da oposição. Como consequência dessa proposta, a humanidade viveu, entre 1917 e 1989, o século do totalitarismo, com os milhões de vítimas que causou a implantação da vontade geral por minorias fanáticas, na Rússia, na Ásia e na Europa, ao ensejo das ditaduras nazi-fascista e comunista. A prévia desse filme de horror havia sido apresentada na Revolução Francesa e no ciclo denominado Terror Jacobino, com a maquininha infernal de eliminar dissidentes funcionando a pleno vapor pela França afora.

Neste início de milênio, consolidam-se experiências de populismo que se aproximam, na América Latina e alhures, dessa versão totalitária. Os dois mais importantes rebentos da nova realidade são a revolução bolivariana do presidente Hugo Chávez, na Venezuela, e o agressivo fundamentalismo islâmico praticado no Irã por Mahmoud Ahmadinejad e pelos aiatolás. Totalitarismos e populismos fundamentalistas seriam o reino da paz perpétua, não no sentido liberal que Kant conferiu a essa expressão, mas na acepção literal que o gênio de Königsberg viu inscrita na porta do cemitério da sua cidade, circunstância que o inspirou, aliás, na formulação da pergunta sobre se não haveria outra paz a que os seres humanos pudéssemos aspirar, diferente da dos túmulos.

É curioso observar a tendência do presidente Lula a confraternizar exatamente com esses regimes, louvando Chávez pelo fato de existir democracia "até demais" na Venezuela e defendendo os interesses nucleares do Irã, com sério risco para a paz mundial e arranhando a imagem da nossa diplomacia.


Coordenador do Centro de Pesquisas Estratégicas da Universidade Federal de Juiz de Fora

Constituinte Tabajara :: Nelson Motta

DEU EM O GLOBO

Todos dizem que as reformas política, tributária e previdenciária são urgentes e indispensáveis, que querem fazer, mas ninguém quer perder nada. Só uma Constituinte exclusiva teria independência e isenção para fazê-las, só ela acabaria com os nossos problemas.

Mas que forças e razões misteriosas levariam um constituinte exclusivo, petista, tucano, ou peemedebista, a fazer as reformas corretas que a sociedade exige, contra os interesses a curto e médio prazo de seu próprio partido? Por que o seu comportamento seria mais íntegro e democrático, diferente da maioria dos atuais congressistas de todos os partidos? Eles virão de Marte? Quem seria candidato? Políticos com mandato? Derrotados das últimas eleições? Personalidades populares fora da política? A elite sindical e empresarial? Os notáveis de araque bancados pelos financiadores de sempre? Os fregueses dos currais e dos grotões? Seria uma réplica do atual Congresso.

Uma Constituinte exclusiva seria isenta de fisiologismo e corrupção? O peso das decisões e o valor pessoal do constituinte e de seu voto serão ainda maiores proporcionais ao assédio dos lobbies e corporações. A exclusividade dará aos eleitos probidade, equilíbrio e independência? Por que os liderados de Renan, Sarney ou Zé Dirceu no Congresso se comportariam de forma diferente numa exclusiva? Se os 300 picaretas reconhecidos por Lula, inevitavelmente, serão maioria nessa assembleia, então por que fazê-la? O pior é que abriria caminho para outras, piores.

Não por acaso, essa proposta sempre vem de partidos no poder que têm maioria no Congresso, mas (ainda) não os 3/5 para mudar a Carta.

Hugo Chávez nem teve esse trabalho: a oposição boicotou as eleições e ele ficou com a maioria esmagadora do Congresso e mudou a Constituição à vontade, instituindo a reeleição ilimitada e usando a democracia para destruir a democracia e impor, à revelia de metade da população, um socialismo castrista em que nem Fidel acredita mais.

Quando a vontade das maiorias eventuais não respeita os direitos fundamentais das minorias, a democracia vira bolivarianismo.

Queda de desigualdade na década é lenda :: Clóvis Rossi

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Caiu o desequilíbrio entre assalariados, mas não a obscena diferença entre renda do trabalho e renda do capital

O artigo do economista Marcelo Neri, publicado ontem por esta Folha, ajuda a perpetuar, por omissão de um detalhe, a lenda da queda da desigualdade na presente década.

A omissão é de apenas uma expressão: quando Neri diz que houve queda da desigualdade de renda, está se referindo apenas à renda do trabalho, não à desigualdade, muito mais importante e muito mais brutal, entre a renda do trabalho e a renda do capital.

O próprio texto de Neri deixa claro que não houve redução da desigualdade. Afirma o economista que, entre 2003 e 2009, as "taxas de crescimento da renda do trabalho [se deram] em níveis equivalentes ao da renda de todas as fontes".

Se a renda do trabalho e a renda do capital ("todas as fontes") cresceram de uma maneira equivalente, é matematicamente impossível que tenha havido uma redução da desigualdade.

Que a desigualdade realmente relevante se dá entre renda do trabalho e outras rendas se verifica em texto de Marcio Pochmann, escrito quando trabalhava na Unicamp (atualmente ele é presidente do estatal Ipea, Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas).

"A parte da renda do conjunto dos verdadeiramente ricos afasta-se cada vez mais da condição do trabalho, para aliar-se a outras modalidades de renda, como aquelas provenientes da posse da propriedade (terra, ações, títulos financeiros, entre outras)", diz.

Outro economista do Ipea, João Sicsú, fez, também antes de ser contratado pelo instituto estatal, a seguinte comparação:

"Em 2006, o governo federal pagou R$ 163 bilhões de juros para os detentores da dívida pública federal. Aproximadamente 80% desse valor é apropriado por 20 mil famílias -que fazem parte da elite brasileira. Enquanto isso, em 2006, dezenas de milhões de pessoas pobres foram atendidas pelos programas de assistência social do governo federal com apenas R$ 21 bilhões."

Como é possível diminuir a desigualdade se 20 mil famílias recebem do governo seis vezes mais do que o que vai para as 12 milhões de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família?

Mais: na mesma página do artigo de Marcelo Neri, saía informação (do IBGE) mostrando que a renda média do trabalho em 2009 ainda era inferior à de 1996.

Alguém acredita que a renda do capital no período tenha caído, como caiu a do trabalho, ou tenha ficado estagnada?

Sepultemos, pois, de vez a lenda e usemos as palavras certas: caiu a desigualdade entre assalariados, mas não caiu a obscena desigualdade entre renda do trabalho e renda do capital.

Serra cobra saída de Cartaxo

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Com uma postura ofensiva contra Lula e Dilma, candidato tucano à Presidência criticou trabalho de superintendente da Receita e pediu a sua demissão

SÃO PAULO - Mantendo o tom beligerante contra o governo federal e integrantes do PT, o candidato do PSDB à Presidência, José Serra, pediu ontem a demissão do superintendente da Receita Federal, Otacílio Cartaxo, acusando-o de trabalhar em conjunto com os adversários petistas para protelar a investigação sobre a quebra de sigilo fiscal de tucanos, inclusive de sua filha, Verônica Serra, e seu genro Alexandre Bourgeois. Mesmo com a estratégia do partido em deixar as críticas na esfera institucional, o tucano assumiu mais uma vez o papel de porta-voz das críticas ao partido de Dilma Rousseff, reforçando mentiras levadas adiante na crise já apelidada de Receitagate.

Tem que demitir o superintendente da Receita para que as investigações sejam agilizadas. Primeiro a Receita diz que havia uma procuração, e a procuração é falsa. Depois, a pessoa que apresentou a procuração não era do PT, e é. Eles estão protelando, estão enrolando, disse Serra, em São José do Rio Preto, onde fez campanha ao lado do candidato ao governo de São Paulo, Geraldo Alckmin.

Depois, saiu em defesa de sua filha e do genro. O tucano disse ainda não ter informações exatas sobre o conteúdo devassado nos documentos de Imposto de Renda de seus familiares, mas disparou: Daqui a pouco pode aparecer até meu sigilo violado. Em seguida, acrescentou: Quebraram o sigilo de um casal que não tem nada a ver com política e com governo e que trabalha duro para criar três crianças, afirmou Serra, indignado.

O candidato tucano voltou a dizer que houve um malfeito na quebra dos sigilos fiscais e as autoridades, ao invés de darem explicações sobre o caso, ficam debochando das vítimas. Se a gente não for amigo do dono do poder, então a gente está sujeito a arbitrariedades, protestou o candidato tucano.

Para Serra, o presidente Lula não vem se comportando como o presidente da República, mas como presidente de um partido. O tucano voltou a atacar a forma como a candidata Dilma Rousseff (PT) vem fazendo campanha. Ela tem dificuldades para explicar o que pensa. Fala uma coisa, depois fala outra. Ou então delega aos outros, disse ele, para quem a petista tranca seu passado num cofre.

Em ninho tucano, surgiu ontem a preocupação quanto a eventuais novas investidas dos adversários, agora na área bancária. Aliados já estão se mobilizando para verificar denuncias que teriam sido feitas em blogs ligados ao presidente Lula e à candidatura do PT, que indicariam possíveis quebras de sigilo bancário de tucanos, podendo alcançar até mesmo José Serra.

Marina: Lula defende Dilma, mas esquece os cidadãos

DEU EM O GLOBO

A candidata do PV à Presidência, Marina Silva, disse que o Brasil vive certa prosperidade econômica e alguns avanços sociais, mas um retrocesso na politica. Sabatinada por colunistas e leitores do GLOBO, ela disse que o presidente Lula "banalizou o dolo" na violação de dados sigilosos de pessoas ligadas a José Serra (PSDB) e só veio a público para defender Dilma Rousseff (PT). "Vejo a manifestação do presidente. Lamentavelmente, na forma da defesa da sua candidata, e não dos milhares de brasileiros que tiveram seus sigilos fiscais quebrados", afirmou.

Marina critica Lula e Dilma

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

RIO - A candidata do PV à Presidência da República, senadora Marina Silva (AC), conclamou ontem os contribuintes a perguntar oficialmente e por escrito à Receita Federal se também tiveram violado ilegalmente seu sigilo fiscal, como ocorreu com familiares e pessoas próximas ao postulante tucano ao Planalto, José Serra.

Mantendo contra o governo federal pressão semelhante à exercida pelo PSDB nos últimos dias, Marina também criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (por se solidarizar à candidata petista, Dilma Rousseff), o ministro da Fazenda, Guido Mantega (a quem acusou de banalizar o dolo) e o secretário da Receita, Otacílio Cartaxo (que taxou de incompetente). Acho que os brasileiros deveriam começar a peticionar à Receita Federal para saber se foi (sic) também violado em seu sigilo. Acho que é a única alternativa que resta depois do que estamos vendo: uma ausência daqueles que são responsáveis por passar tranquilidade, firmeza, afirmou Marina, após participar de sabatina promovida pelo jornal O Globo.

Segundo ela, a postura inicial de Mantega foi de omissão e depois de banalização de um crime. As críticas mais duras da senadora, porém, foram focadas no presidente, por ter aparecido no programa eleitoral do PT defendendo Dilma das acusações de Serra de responsabilidade pelas violações ocorridas em 2009, antes do início oficial da campanha eleitoral de 2010.

Para Marina, a atitude do presidente gerou uma sensação de desamparo, porque ele se solidarizou com alguém que não teve o sigilo violado diferentemente das mais de 2 mil pessoas vítimas do mesmo esquema que teria repassado do IR de familiares de Serra e tucanos a arapongas, com fins políticos. No caso do presidente Lula, o que criou foi uma sensação de desamparo, disse. Porque neste momento os milhares de brasileiros que foram violados em seus sigilos querem uma atitude por parte do Estado.

Versões conflitantes

DEU EM O GLOBO

Office-boy nega versão de Atella sobre procuração falsa e polícia planeja acareação

Sérgio Roxo

SÃO PAULO - O office-boy Ademir Estevam Cabral negou ontem, em depoimento à Polícia Civil de São Paulo, que tenha participado da falsificação da procuração apresentada pelo suposto contador Antonio Carlos Atella Ferreira para obter os dados fiscais de Verônica Serra, filha do candidato do PSDB à Presidência, José Serra. A divergência deverá levar a uma acareação entre os dois. Ontem, a polícia pediu à Justiça a quebra do sigilo telefônico tanto de Atella quanto de Ademir. O objetivo é saber para quem eles ligavam na época em que foram acessados os dados de Verônica.

Protegidos por sigilo, os dados fiscais da filha de Serra foram parar num suposto dossiê que estava em poder de integrantes da campanha da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. Além de Verônica e do marido dela, outras quatro pessoas ligadas a Serra também tiveram os dados vasculhados na Receita.

No último dia 2, em entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, Atella, filiado ao PT de Mauá (SP), disse que recebera a procuração de Ademir, filiado ao PV de Francisco Morato (SP). Afirmou ainda que Ademir o contratara para ir à Receita levantar informações sobre a filha de Serra: Ele tem contato com advogados e tem a reputação profissional de ser uma pessoa que agiliza os documentos dos órgãos disse Atella sobre Ademir.

Se Atella mantiver a afirmação, em seu depoimento previsto para hoje, a polícia deverá confrontar as versões.

Em depoimento prestado ontem de manhã na Delegacia Seccional de Santo André, na Região Metropolitana de São Paulo, ao qual O GLOBO teve acesso, Ademir disse conhecer Atella há cerca de cinco anos. Contou que não tem ocupação fixa e trabalha de forma autônoma, como despachante: dá entrada em documentos em órgãos como a Junta Comercial e a própria Receita Federal. Também declarou não conhecer Verônica e políticos de destaque no cenário nacional.

Em entrevista ao Jornal Nacional, Ademir explicou ontem por que ficou uma semana longe de sua casa, em Francisco Morato, e do escritório no Centro de São Paulo: Sou caipira. Não gosto de aparecer.

Estou sendo chamado de bandido, mas não sou bandido.

Sou pai de família e trabalhador.

Ademir também forneceu material para exame grafotécnico. O objetivo é verificar de quem é a letra na falsa procuração.

Atella e Ademir dividiam escritório

O delegado José Emílio Pescarmona, que ouviu Ademir, disse que ele deu uma versão oposta à de Atella: Alega o Ademir que ele nunca passou serviço ao Antonio Carlos (Atella). Ao contrário, o Antonio Carlos é que se prestava a dar serviço ao Ademir. Alega também que não conhece Verônica Serra e desconhece o documento (a procuração).

Ademir contou à polícia que, por um mês em 2009, dividiu com Atella o escritório localizado no Centro da capital paulista. Segundo ele, essa sociedade foi anterior ao período em que houve a quebra do sigilo fiscal de Verônica.

Contou que, por motivos pessoais, o suposto contador teria deixado de atender no local.

Ainda no depoimento, o officeboy contou que teve contato com Atella, pela última vez, uma semana antes de o nome do suposto contador aparecer como responsável pela falsa procuração.

Na TV, Serra diz que Dilma se 'esconde' atrás de Lula

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Em resposta ao presidente Lula, o candidato do PSDB à Presidência, José Serra, usou seu programa na TV para criticar o governo federal e dizer que a adversária Dilma Rousseff (PT) "se esconde atrás de ministros e do presidente da República". Foi referência ao caso da quebra de sigilo fiscal de seus familiares. 0 tucano, no entanto, evitou bater boca diretamente com Lula.

Na TV, Serra reage a Lula e cobra de Dilma explicação sobre quebra de sigilo

Ivan Fávero e Julia Duailibi

Em resposta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o candidato do PSDB à Presidência, José Serra, usou seu programa no horário eleitoral gratuito de ontem para criticar o governo federal e dizer que a adversária Dilma Rousseff (PT) "se esconde atrás de ministros e do presidente da República", no episódio sobre a quebra de sigilo fiscal de seus familiares.

O tucano, no entanto, evitou bater boca diretamente com Lula, função delegada internamente a outros integrantes da campanha. Não mencionou o nome do presidente, mas atacou explicitamente o PT. Candidatos a deputado pelo PSDB foram convocados no começo da semana para gravar no estúdio da campanha de Serra comentários sobre o caso, levados ao ar também ontem.

"A pessoa que deve explicações ao Brasil se esconde atrás de ministros e até do presidente da República", disse o tucano, referindo-se a Dilma, sem mencionar o nome da adversária. Serra gravou o programa na madrugada de ontem, depois de deixar o debate promovido pelo Estado e pela TV Gazeta. Ainda não há consenso na campanha se ele deve usar o programa para criticar Lula de forma mais incisiva.

Políticos do PSDB foram escalados para rebater as declarações feitas pelo presidente na terça-feira, quando apareceu no programa de Dilma para atacar o tucano por relacionar as quebras de sigilo com a campanha petista. Painel com foto de Serra no local onde o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), concedeu entrevistas para comentar o episódio chegou a ser coberto por integrantes da campanha.

Na TV, Serra retomou o termo "indignado", desta vez a respeito da quebra de sigilo fiscal do genro, Alexandre Bourgeois. "Ninguém pode achar natural os abusos que estão ocorrendo nesta eleição", disse. "Esses crimes no fundo não são contra mim ou minha campanha, não. São contra o Brasil, contra a Constituição e os eleitores."

O presidenciável afirmou que os suspeitos de cometer os crimes são ligados ao PT e o que se viu até agora foram "deboches", tanto por parte da campanha petista quanto do governo. Cerca de 38% do tempo da propaganda vespertina de Serra foi destinado a rebater as críticas feitas por Lula. À noite, o tucano preferiu usar somente 14% de seu tempo para essa finalidade. Repetiu apenas a parte em que se diz "indignado" com as violações fiscais de seu genro e que Dilma se esconde.

No programa da tarde, o candidato disse que, se for eleito, não permitirá a quebra de sigilo dos cidadãos e aproveitou para atacar as ações tomadas pelo governo federal na política externa.

"O meu governo não vai ficar de amores com países que não respeitam a liberdade, a democracia, os direitos da mulheres, os direitos humanos e nem com os que fazem corpo mole com o contrabando de drogas e de crack", disse. A pouco menos de um mês da eleição, Serra afirmou que "vai correr muita água por debaixo da ponte" e que "tem gente sentando na cadeira" antes do resultado das urnas. Dos oito candidatos a deputado que apareceram no programa tucano da tarde, metade mencionou diretamente as violações fiscais.

O COMUNISTA E O LIBERAL.

DEU EM O GLOBO – Panorama Político

O arquiteto Oscar Niemeyer apareceu na propaganda na TV do senador Marco Maciel (DEM/PE), candidato à reeleição. Eu conheço Marco Maciel há muito tempo, quando ele era governador de Pernambuco. (...) Ele é inteligente, discreto, honesto, honestíssimo. (...) Ele é candidato a senador, e eu estou certo de que o povo de Pernambuco vai pensar nisso tudo, disse Niemeyer.

Lula já viajou o equivalente a três anos nos dois mandatos

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Embalado pelos compromissos que aliam agendas oficiais e de campanha (pa­ra a própria reeleição e ago­ra com Dilma Rousseff), o presidente Lula completou 1.103 dias de viagens, o equivalente a pouco mais de três anos em dois mandatos.

No período de janeiro a agosto, o presidente passou 61 dias em viagens oficiais, mesma marca de 2006, ano da reeleição.

3 anos fora de casa

Embalado por compromissos que aliam agendas oficiais e de campanha, Lula atinge 1.103 dias em viagens

Eduardo Scolese
Editor-assistente de Poder

No ritmo das agendas oficiais casadas com eventos da campanha petista de Dilma Rousseff, o presidente Lula completou três anos de seu mandato em viagens.

A marca foi atingida duas semanas atrás, quando a aeronave da Presidência decolou de Brasília com destino a Mato Grosso do Sul.

Naquele dia, Lula cumpriu agendas oficiais em Dourados e Campo Grande e, à noite, discursou ao lado de Dilma num comício na capital sul-mato-grossense.

Essas agendas casadas têm sido comuns na atual campanha. Lula marca eventos oficiais num determinado Estado e, à noite, sobe num palanque com sua candidata.

Foi assim anteontem, em Minas Gerais, por exemplo.

Até ontem, foram 1.103 dias dentro de um avião ou em agendas oficiais no Brasil ou no exterior, em sete anos e oito meses de governo.

As viagens lhe tomaram 40% dos dias de governo.

Na Presidência, Lula usou as viagens tanto para aproximação política e econômica com outros países como para fugir de crises no Planalto.

Foi assim no segundo semestre de 2005, por exemplo, quando buscou no interior do país a retomada da popularidade, abalada com o estouro da crise do mensalão.

Nos oito primeiros meses deste ano, Lula passou 61 dias em viagens oficiais, exatamente a mesma marca em igual intervalo de 2006, quando disputou a reeleição.

Comitê do PT recebeu dossiê sobre Veronica

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Dados foram coletados em cartórios e na Junta Comercial pela bancada estadual do partido

Papéis fizeram parte de pedido da liderança do PT para investigação sobre empresa da filha e do genro de José Serra

DE BRASÍLIA - O comitê da pré-campanha da candidata à Presidência Dilma Rousseff teve em mãos um dossiê sobre a filha do adversário José Serra (PSDB) com documentos reunidos pelo PT paulista.

Tal papelada havia sido utilizada pelo partido em 2005 para solicitar ao Ministério Público a abertura de inquérito sobre uma empresa de Veronica Serra e do marido, Alexandre Bourgeois.

O nome de Veronica voltou ao noticiário da campanha presidencial na semana passada. A Receita admitiu que a filha do candidato tucano teve as declarações de bens e de renda violadas, a partir de procuração falsa.

Serra tem responsabilizado Dilma pela quebra de sigilo, o que a petista nega.

A Folha teve acesso a cerca de cem páginas do dossiê do PT paulista sobre Veronica. É o resultado de pesquisa em cartórios de registros de documentos, na Junta Comercial de São Paulo e em sites na internet.

Não há nesse lote de papéis indício de quebra de sigilo bancário ou fiscal.

A papelada circulou no "grupo de inteligência" que no início do ano trabalhava para o comitê de Dilma -equipe que foi desmantelada quando a imprensa noticiou sua existência e as tratativas de contratar "arapongas" para espionar oponentes e até mesmo aliados.

ORIGEM PAULISTA

O material é idêntico ao que o partido havia encaminhado cinco anos antes ao Ministério Público estadual e à Procuradoria da República de São Paulo.

O pedido de abertura de inquérito foi uma iniciativa do então líder da bancada petista na Assembleia Legislativa, Cândido Vaccarezza. Hoje ele é deputado federal, líder do governo na Câmara e apontado como um dos favoritos a ocupar a presidência da Casa a partir de 2011.

Em junho de 2005, Vaccarezza chegou a propor uma CPI na Assembleia para investigar uma suspeita levantada pelo PT de que a empresa de Veronica e do marido havia sido favorecida em leilões na CPTM (companhia de trens), no Metrô e na Sabesp (empresa de saneamento).

As apurações do PT a respeito de Veronica começaram logo após o primeiro turno da eleição para a Prefeitura de São Paulo, em 2004. Serra era o candidato do PSDB e viria a ganhar a disputa contra a então prefeita Marta Suplicy (PT).

Em 2005, a Procuradoria da República paulista abriu procedimento administrativo (investigação prévia presidida por um procurador) para averiguar "crimes contra a ordem tributária e fraude em licitação" desses leilões.

O procedimento deu origem a uma ação judicial, que passou a tramitar na 8ª Vara Federal Criminal paulista.

Contudo, em 2006, o próprio procurador responsável pelo caso pediu o arquivamento da ação. Veronica e seu marido não chegaram a ser chamados nem acusados de nenhuma irregularidade.

O caso foi arquivado na Justiça Federal e no Ministério Público em 2008.

OUTRO LADO

A liderança do PT na Assembleia disse à Folha que agiu dentro da lei e com o propósito de fiscalizar o uso de dinheiro público, tarefa do Legislativo.

Em notas à imprensa e declarações de seu presidente, José Eduardo Dutra, o PT tem afirmado que o partido e a coordenação da campanha de Dilma "não autorizaram, orientaram, encomendaram, solicitaram ou tomaram conhecimento" de dossiês.

Procurada para comentar as investigações realizadas pelo PT-SP acerca da empresa de Veronica, a assessoria da campanha de Serra soltou uma nota: "As especulações da reportagem dão curso às tentativas do PT de jogar lama na campanha na família do candidato José Serra".

"Trata-se da prática de construir dossiês fajutos com informações falsas e insinuações criminosas. Não cabe nenhum comentário a não ser veemente repúdio a quem fez e a quem está divulgando baixarias", diz o texto.

Marina prega consulta popular à Receita

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Wilson Tosta

A candidata do PV à Presidência, Marina Silva, conclamou ontem os contribuintes a perguntar oficialmente e por escrito à Receita se também tiveram violado ilegalmente seu sigilo fiscal, como ocorreu com familiares e pessoas próximas ao presidenciável José Serra (PSDB). Mantendo contra o governo federal pressão semelhante à exercida pelo PSDB nos últimos dias, Marina também criticou o presidente Lula, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o secretário da Receita, Otacílio Cartaxo, chamado de incompetente.

"Acho que os brasileiros deveriam começar a peticionar à Receita Federal para saber se foi (sic) também violado em seu sigilo. É a única alternativa que resta depois do que estamos vendo: uma ausência daqueles que são responsáveis por passar tranquilidade, firmeza", afirmou, após participar de sabatina promovida pelo jornal O Globo.

Segundo ela, a postura inicial de Mantega foi de omissão e depois de "banalização de um crime". As críticas mais duras, porém, foram focadas em Lula, por ter aparecido no programa eleitoral do PT defendendo Dilma Rousseff das acusações de Serra de responsabilidade pelas violações. Para Marina, a atitude do presidente gerou uma "sensação de desamparo".

"Neste momento os milhares de brasileiros que foram violados em seus sigilos querem uma atitude por parte do Estado", disse. "O presidente, investido simbolicamente, inclusive, da aparência do cargo, da instituição, veio na defesa de uma única pessoa, que foi a sua candidata. Tem uma sensação, sim, de impotência, de todos os brasileiros. E uma certa decepção. A defesa deveria ser de todos os brasileiros."

Para ela, a "banalização do dolo leva as pessoas a não se importarem mais".

''Lula delinquiu institucionalmente''

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

ENTREVISTA:: Demétrio Magnoli, sociólogo

Roldão Arruda


O sociólogo e professor Demétrio Magnoli acredita que a possibilidade de reeleição para cargos executivos acentuou no Brasil o uso da máquina do Estado como máquina eleitoral. Uma das provas disso estaria na eleição presidencial deste ano, com o uso da máquina para espionar um candidato e favorecer outro.

Ainda segundo Magnoli, Lula entrou nessa eleição como se estivesse disputando sua segunda reeleição, disposto a ultrapassar repetidamente os limites que separam a militância a favor de uma facção e o respeito às instituições. No recente episódio de violação de dados fiscais, avalia, o presidente "delinquiu institucionalmente".


Acha que o presidente Lula se excedeu quando foi à TV, no horário eleitoral gratuito, defender a candidata do PT das acusações de que sua campanha estaria envolvida com o escândalo da violação de dados Receita?

A resposta a essa questão deve ser dividida em duas partes. A primeira é que o instituto da reeleição tem uma consequência ruim no Brasil e na América Latina, em decorrência das tradições políticas da região, que é a utilização da máquina do Estado como máquina eleitoral. O presidente Lula, que já afirmou que Dilma não passa de um pseudônimo do Lula, vem tratando essa eleição como uma reeleição, como se estivesse tentando o terceiro mandato.

Está dizendo que o governo Dilma, caso ela vença, será o terceiro governo Lula?

Não estou dizendo nem desdizendo. Essa é uma questão para o futuro. O que digo é que o governo encara esta campanha como se fosse a campanha da reeleição para o terceiro mandato.

A segunda parte da resposta à pergunta inicial é que, mesmo levando em conta que o instituto da reeleição tende a fazer da máquina do Estado uma máquina eleitoral, Lula passa de todos os limites aceitáveis. O presidente da República nunca será duas pessoas - o presidente e o líder partidário. No regime presidencialista, ele é presidente 24 horas por dia. Não basta a ele definir um evento como solenidade oficial presidencial e outro, como evento de campanha, porque em todos continua a ser presidente.

Se é assim, como pode fazer campanha pelo seu candidato?

Precisaria, para respeitar a ideia de que o Estado é publico, se autolimitar e renunciar a fazer discursos de campanha típicos de um líder partidário.

Fernando Henrique Cardoso conseguiu isso em 2002?

Basta retomar os pronunciamentos de Fernando Henrique na campanha de 2002 para ver que ele sempre se reprimia para não ultrapassar a fronteira do respeito às instituições. Nas campanhas, líderes partidários ultrapassam a fronteira do respeito às instituições. Isso pode ter um preço político, mas é tolerado, porque falam como chefe de facção - o partido. O presidente não pode ultrapassar o limite, mas Lula é useiro e vezeiro em desrespeitar instituições e leis. No caso atual, pouca diferença faz se ele estava falando num ambiente que simulava o ambiente presidencial, como se viu, ou num comício. O que importa no episódio é que ele, como presidente da República, disse que as violações comprovadas de sigilos não têm importância e não passam de futricas da oposição. Ao dizer isso, independentemente do ambiente e do rótulo que vestia, de presidente ou líder petista, porque é sempre presidente, ele delinquiu institucionalmente.

Ao falar em delinquência, o senhor se refere a qual aspecto: ético ou legal?

Falo em termos políticos e legais. Crimes de violação de sigilo estão previstos na lei.

Lula não estaria apenas criticando o uso eleitoral do episódio? A tentativa do PSDB de criar um factoide para empurrar a eleição para o segundo turno?

Se fosse mesmo um factoide, ele poderia ter dito que não houve crime e criticar o uso eleitoral do episódio. Mas está provado que os sigilos foram violados e que os dados foram parar nas mãos de gente da campanha de Dilma e em blogs eleitorais sustentados com o dinheiro de empresas do governo. Se o Estado viola sigilos com objetivos eleitorais, se a Receita acoberta o crime, usando uma procuração que ela já sabia que era falsa, como criticar o candidato da oposição que apresenta esses fatos na campanha? Ele tem o dever de apresentar.

Ao dizer que tudo não passa de futrica, o presidente pode influenciar as investigações? Isso afetaria as instituições encarregadas de apurar os fatos?

É evidente que isso pode ter influência nos órgãos ligados ao Executivo e subordinados ao presidente, como a Receita e a Polícia Federal. Quando o presidente diz que não houve crime, que é futrica, está estimulando os órgãos a não investigarem. É a palavra do chefe.

O senhor iniciou a entrevista falando dos problemas da reeleição no Brasil e América Latina. Mas os países desenvolvidos também têm reeleição.

A ênfase na América Latina foi pelo fato de termos aqui uma longa tradição de caudilhos, para os quais o Estado não se ergue acima das facções políticas, mas se torna instrumento de uma facção - a que detém o poder. Essa tradição faz com que o instituto da reeleição acentue o processo de captura do Estado por uma facção política. Lula adorou tanto o instituto da reeleição que imagina estar se reelegendo pela segunda vez.

QUEM É

Sociólogo e doutor em geografia humana pela Universidade de São Paulo (USP) é autor de Uma Gota de Sangue - História do Pensamento Racial, O novo mapa do mundo, História das Guerras e História da Paz, entre outros.

A simbiose do presidente

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Lula não conseguiu separar o petista do estadista durante todo o mandato

Nunca foi demarcada a fronteira entre o Lula-petista e o Lula-presidente. Mesmo no cargo, sempre mostrou uma "conduta política flex": ora dirigida ao partido, ora institucional.

Em dezembro de 2002, Lula reuniu-se com o então presidente dos Estados Unidos, George Bush, envergando uma estrelinha vermelha brilhante, na gola de seu paletó. No encontro, Bush usou um pequeno broche com a bandeira norte-americana. Na época, a imagem de Lula com o símbolo do PT causou controvérsias e foi considerada um deslize no protocolo.

Esta não foi, no entanto, a única vez em que houve uma espécie de simbiose entre a estrela vermelha do PT e instituições públicas. Numa mistura entre o que é público e privado, a primeira-dama Marisa Letícia mandou fazer, em 2004, uma gigantesca estrela com flores vermelhas (sálvias) nos jardins do Palácio da Alvorada e na Granja do Torto, residências oficiais do presidente Lula.

O jardim do Palácio da Alvorada, cujo projeto foi doado ao ex-presidente Juscelino Kubitschek (1956-1960) pelo imperador japonês Hiroito, ostentou por cerca de seis meses o canteiro de flores com a estrela de quatro metros de diâmetro.

Na Granja do Torto, onde Lula e a família costumam a passar os finais de semana, a estrela era um pouco maior: tinha cinco metros de diâmetro.

O símbolo petista foi retirado tempos depois dos jardins das duas residências.

Estrela a bordo. A utilização da estrela do PT em bens públicos não é um privilégio do governo federal. Em setembro do ano passado, o Ministério Público determinou ao governo do Acre a retirada da estrela vermelha do helicóptero usado pelo Estado em operações de segurança pública.

Nesta semana, na condição de cabo eleitoral mais proeminente da candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, Lula assumiu a bandeira do Brasil na lapela de seu terno, no dia 7 de setembro, para defender a petista das acusações de quebra de sigilo fiscal de tucanos em agências da Receita Federal.

Numa aparição de mais de dois minutos, Lula partiu para o ataque direto ao candidato do PSDB à Presidência, José Serra. Diante da pompa e circunstância da imagem, ele deu a impressão de fazer um pronunciamento oficial à Nação.

A logomarca do PT que, no passado foi um dos símbolos mais populares da política nacional, agora aparece de forma discreta na campanha da candidata petista, resumindo-se ao pingo no "i" do nome Dilma.

Ausente, Dilma vira alvo de adversários

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Daniel Bramatti

Ausente no debate Estadão/TV Gazeta, a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, se transformou em alvo principal dos três adversários que participaram do evento - José Serra (PSDB), Marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL). Dilma foi atacada, entre outros motivos, por evitar debater a violação do sigilo fiscal da filha de Serra e de integrantes do PSDB.

Serra afirmou que o PT atua "com truculência" e adotou "a estratégia da ocultação" em relação a Dilma. "O presidente da República e o presidente do partido falam por ela", acusou. Foi uma referência indireta ao fato de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter ido à televisão para atacar o próprio Serra.

Marina acusou Dilma de desrespeitar os demais candidatos ao não comparecer ao debate. Sobre a violação de sigilo, ela afirmou que a sociedade "vive imenso desconforto com os desmandos na Receita Federal". Marina criticou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, por não tomar atitudes em relação ao escândalo na Receita, e o próprio Lula, por sair em defesa "apenas de sua candidata", e não das vítimas das quebras ilegais de sigilo.

Partiram de Plínio os ataques mais fortes à candidata de Lula. Referindo-se a Dilma como "essa moça", disse que ela "não é do ramo" e "foi inventada". Mais adiante, afirmou que a petista é "um blefe" e "uma invenção marqueteira". Também houve ataques entre os presentes. Marina aproveitou uma pergunta de Serra sobre saneamento para afirmar que o governo Fernando Henrique Cardoso, do qual o tucano participou, aplicou no setor menos que 20% dos recursos necessários. Plínio acusou Serra de "esconder" FHC em seu programa eleitoral e de procurar associar sua imagem à de Lula.

Debate é comentado nas redes sociais

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Internautas e militantes não pouparam a candidata petista de ausência no confronto

Ricardo Chapola

SÃO PAULO - A ausência da candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, no debate de ontem promovido pelo Estado e pela TV Gazeta adquiriu destaque nos comentários que circularam pelas mídias sociais antes, durante e depois do programa.

Primeira colocada nas pesquisas de intenção de voto, a candidata alegou incompatibilidade de agenda e, por isso, não compareceu. Foi a segunda vez que Dilma se ausentou de um debate na TV.

Antes mesmo de o debate começar, vários internautas se manifestaram em relação à falta da petista ao encontro - o quarto embate entre os presidenciáveis.

CríticasOs candidatos José Serra (PSDB), Marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) não deixaram de desferir críticas sobre ausência de Dilma. O candidato do PSOL foi o que mais alvejou a petista com provocações sobre tal atitude. Elas serviram de endosso para que os internautas intensificassem as tuitadas e rendessem ao debate #estadaogazeta uma posição no Trending Topics do Brasil, onde são elencados os assuntos mais mencionados no Twitter em âmbito nacional.

Outra menção feita por meio da hashtag do debate Estadão/Gazeta foi de Marcelo Tas, jornalista do programa CQC da Rede Bandeirantes. O jornalista elogiou o encontro entre os presidenciáveis Serra, Marina e Plínio.

Militantes dos debatedores também teceram seus comentários na rede, abordando os pontos altos de seus respectivos candidatos, além de criticarem o não comparecimento da petista no debate Estadão/Gazeta.

O candidato à vice de Serra, Índio da Costa (DEM), não poupou a principal adversária dos tucanos, Dilma Rousseff, quanto à ausência, criticando-a via Twitter no decorrer do embate. O mesmo fez a equipe de campanha do candidato do PSOL.

Em 2006, cadeira vazia deu prejuízo nas urnas

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Adriana Moreira

SÃO PAULO - Em 2006, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também apresentava, como Dilma Rousseff hoje, ampla margem de vantagem sobre o segundo colocado nas pesquisas - na época, Geraldo Alckmin (PSDB). Com 47% das intenções de voto, frente a 21% do tucano, Lula preferiu ausentar-se dos debates a tratar de temas polêmicos da época, como o escândalo dos "aloprados".

Ainda assim, o presidente era esperado no último debate antes do primeiro turno, realizado pela TV Globo. Lula só informou que não compareceria três horas antes do programa. A emissora, então, manteve a cadeira vazia do candidato e permitiu que os outros adversários fizessem perguntas que seriam dirigidas a ele em todos os blocos.

Lula, que disputava a reeleição, virou alvo e deu espaço para os adversários. No dia seguinte, declarou que tomara "a decisão certa". A resposta, no entanto, veio nas urnas: com 49,28% dos votos válidos frente a 40,95% de Alckmin, a eleição foi para o segundo turno.

Para muitos, a ausência de Lula no debate foi crucial. Na época, o vice-presidente José Alencar declarou que ele deveria ter comparecido. "Fui voto vencido." No segundo turno, Lula não arriscou: foi em quatro dos cinco debates agendados. Venceu com 60,8% dos votos válidos.

República "socialista" do PT :: Graziela Melo


Pensando, olhando, sentindo e analisando a total falta de escrúpulo, o vale-tudo do Lula que sempre acusa as "elites" de, por inveja, intolerância e etc, por ele ter vindo "de baixo", tentarem sabotar o seu governo, acho até oportuna a fala de Fidel, dando aquele recado de que o modelo econômico cubano já não funciona.

Aliás, faz um tempão que eu sei disso. Mas parece que só agora que o Fidel descobriu. Então, até que o Lula poderia relaxar um pouco e tirar o chapéu de "esquerda" da cabeça, já que a única política de "esquerda" que ele praticou foi aparelhar quase todos os serviços de Estado de "companheiros" petistas, sindicalistas, cutistas e etc.

Fora isso, o cara deu um lucro bastante sossegado aos banqueiros, quer dizer, às tais "elites" que ele tanto malha.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Marcelo Bratke & Camerata Vale Música - Trenzinho do Caipira

SONETO DO DESMANTELO AZUL:: Carlos Pena Filho



Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.