sexta-feira, 30 de maio de 2014

Joaquim Barbosa: ‘Faltou visão clara dos interesses nacionais’

• Dois dias antes de anunciar sua saída, o presidente do STF recebeu o Globo a Mais para uma conversa sobre futebol e a Copa

• Para ele, o governo brasileiro falhou em sua relação com a Fifa ao não estabelecer prioridades e fazer exigências

Aydano Motta – O Globo

RIO - Barbosa e negro como o goleiro da Copa de 1950, o presidente do Supremo Tribunal Federal tenta jogar o futebol na desimportância de uma das opções de lazer do seu cotidiano. Às vésperas da Copa do Mundo, a grande paixão nacional ganha o tempero do desencanto no olhar do ex-craque amador (com o autoidentificado pendor da velocidade) Joaquim Barbosa. Dois dias antes de anunciar sua aposentadoria, o titular do maior posto do Judiciário brasileiro mudou de assunto, para falar ao Globo a Mais de Copa e futebol.

Nossa relação com o esporte motivou um lamento, de que o país não invista mais na formação de craques em áreas mais nobres, como a ciência ou a tecnologia. Mas, paradoxalmente, o Mundial vai ser recebido com entusiasmo por ele, que verá Cristiano Ronaldo in loco, graças ao ingresso — comprado, registre-se — para Gana x Portugal, dia 26 de junho.

O ar sério, que os fatos da quinta-feira transformaram em indício da decisão de sair, pontilhou a entrevista de exatos 27 minutos, sobre os sacolejos pré-Copa, a relação dos brasileiros com o esporte e as reminiscências do ex-jogador de times da Gráfica do Senado e da Procuradoria da República. Joaquim, o atacante, gostava de cair pela esquerda, como Neymar, e chutava com os dois pés; Barbosa, o magistrado que virou astro pop, entrou de carrinho na relação que o Brasil se permitiu ter com a Fifa. A entidade dona da bola também apanhou, pela falta de transparência em seus negócios.

Na terça-feira do encontro, Brasília fervia com a manifestação que acabou em confronto de índios com a polícia, nas cercanias do Estádio Mané Garrincha, onde a seleção fará sua partida na Copa. Foi uma tarde de sorrisos escassos no imenso gabinete, diante da vista da Praça dos Três Poderes e do Palácio do Planalto. No eterno duelo com as torturantes dores na coluna, Joaquim Barbosa pediu que a entrevista fosse perto de sua mesa de trabalho. Ele pôde, assim, recostar-se no divã que lhe garante um pouco mais de conforto.

Na metade da conversa, o divã perdeu a parada, e o presidente do STF ficou de pé, debruçado na cadeira de sua mesa, posição semelhante à adotada no plenário. Numa troca de olhares com o chefe de gabinete Silvio Albuquerque, a agenda de autoridade se impôs, encerrando a entrevista — acabara de chegar o novo presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministro Francisco Falcão, para um encontro protocolar. Ninguém sabia, mas seria um dos últimos de Joaquim Barbosa no cargo que o fez famoso Brasil afora.

A realização da Copa do Mundo é boa ou ruim para o Brasil?
Da maneira como ela se apresenta hoje, parece que vai ser bem ruim para a imagem do país, diante de tudo que está sendo noticiado. As pessoas responsáveis não se prepararam como deveriam para um evento desse porte.

A exposição intensa desses problemas, tanto aqui como no exterior, pode levar à formação de uma nova consciência, de cobrança por progressos tão necessários em nossa sociedade?
Pode levar a um nível mais elevado de exigência a autoridades e responsáveis. Porque veja bem, a Copa não é alvo de responsabilidade só dos governos. Há um número bem grande de pessoas encarregadas do evento fora do governo, e elas são corresponsáveis pela desorganização.

Qual sua expectativa em relação ao legado da Copa?
Ainda tenho esperança que vá ser uma grande festa, apesar de tudo que vem sendo relatado. Como festa, acredito que vá cumprir seu papel. Agora, em termos de organização, temos de aguardar...
A questão central dos protestos está nos gastos com o evento, que deveriam ser direcionados a demandas mais urgentes, como saúde e educação.

O grande problema nosso, como organização social, é não saber escolher prioridades. Investe-se muito em benefício de poucos. Joga-se o foco numa coisa e deixa-se outras ao deus-dará. E isso se repete agora na Copa do Mundo.

O senhor vai assistir a algum jogo no estádio?
Comprei ingresso para Gana x Portugal, aqui em Brasília. Mas verei o resto pela televisão, vou ver não só o Brasil, mas outras seleções, de uma maneira bem global. Vou acompanhar a imprensa estrangeira, para saber como estão as seleções e o que vai ser dito do torneio em si. Mas sou otimista — será uma festa boa. Viajei recentemente por alguns países e soube por nossos diplomatas que a procura para vir aqui está muito grande.

Qual é sua opinião sobre a Fifa?
Não é boa. É um órgão sem transparência. Acompanho pela imprensa estrangeira, sobretudo a europeia, e o que leio não é bom.

A Fifa teve uma atitude bem mais branda com França e Alemanha em relação ao comportamento demonstrado com África do Sul e Brasil. Isso mostra um perfil eurocêntrico dos seus dirigentes?
Não. Faltou um governo com a visão clara dos interesses nacionais, do orgulho e da honra do país. Só isso. Governo que tem consciência clara sobre as prioridades e o papel do país no contexto mundial sabe fazer as exigências corretas. Não se pode encarar a Copa como um favor, tem de haver uma contrapartida. Nós temos interesse em receber a Copa, mas tem de botar na balança os interesses dos dois lados.

O senhor é Barbosa e é negro, como o goleiro da Copa de 1950. Aquela derrota tem importância como formadora desse nosso amor pelo futebol?
Não. Acredito que aquilo serviu de lição para os brasileiros perderem a inocência. Naquele momento, nosso futebol estava num processo de evolução e não tomava certas cautelas. O mesmo que a gente vê mais recentemente com os times africanos. Perdemos aquela Copa por falta de maturidade. O Brasil tinha todas as vantagens ao seu lado e não soube se precaver para utilizá-las.

Quando aquela derrota fez 50 anos, Barbosa disse que era o único brasileiro condenado a uma pena perpétua, que não existe na nossa lei, pelo gol do Gigghia, o da vitória uruguaia. Ele foi vítima de uma injustiça?
Li essa declaração. Foi injusto, mas está superado hoje. Temos inúmeros goleiros negros, aceitos e valorizados pelos clubes. Tivemos um goleiro negro titular da seleção em Copa do Mundo (Dida). Assim como o Brasil de hoje não se compara com o país daquela época. As diferenças brutais na visão sobre as coisas se explicam por isso.

Elio Gaspari, colunista do GLOBO, escreveu, certa vez, que há países “onde as figuras históricas mais lembradas são um general (Bonaparte), um presidente (Washington) ou um tirano (Mao). O Brasil tem Pelé. São 180 milhões de pessoas incapazes de pensar que exista um Brasil sem ele.” Devemos nos orgulhar dessa nossa característica?

Acho que é uma simplificação. O Brasil é um país ainda em transformação. Eu não tenho 60 anos e conheci um país extremamente atrasado, rural, retrógrado, que não tem absolutamente nada a ver com o Brasil de hoje. E com certeza meus netos, daqui a 30 anos, vão conhecer um país muito mais moderno, dinâmico, em que o futebol será apenas um esporte a mais, ainda que adorado por todos.

A nossa relação com o futebol, intensa a ponto de fazer um jornal querer entrevistar o presidente do Supremo Tribunal Federal sobre o assunto, é uma virtude ou um defeito?
Acho que se dá um valor excessivo ao futebol no Brasil, embora eu mesmo acompanhe... Há coisas muito mais importantes, que deveríamos cuidar com muito mais seriedade. Deveríamos nos preocupar com nossas criações industriais e intelectuais, com as realizações por parte de brasileiros. Por que um país deste tamanho, com esta diversidade, até hoje não produziu escritores, criadores universais? Tem a ver com uma visão meio provinciana, que o Brasil precisa superar. Somos um país muito importante, economicamente temos um peso muito grande. O futebol tem de ser visto por nós como aquilo que ele é: um esporte. Não deve ser algo tão dramático.

O senhor, em algum momento, teve o sonho tão brasileiro de ser jogador?
Não, nunca. Achava que não dava futuro, sempre achei. Os jogadores daquela época não ganhavam dinheiro como os de hoje. Os craques daquela época, quando não são pobres, vivem em situação muito modesta.

Qual era sua posição?
Jogava na frente, caindo pela esquerda. O que hoje chamam de segundo atacante, mas sempre pela esquerda. Era muito rápido.

A posição do Neymar...
Isso. Mas com muita velocidade. Sou destro para o futebol, mas chutava com as duas, porque aprendi cedo, batendo bola na parede de casa.

Qual é, como torcedor, sua relação com o futebol?
Nos últimos 20 anos minha relação se transformou profundamente. Quando era muito jovem, não só gostava muito de jogar, como também de acompanhar, era torcedor fanático. Não ia muito a estádios, porque fui criado em Brasília. Nunca fez parte da cultura daqui. Mas acompanhava pelo rádio e depois pela TV até os anos 1980, quando passei por uma mudança radical.

Qual foi essa mudança?
Quando o Brasil perdeu a copa de 1986, constatei que estava perdendo muito tempo com aquilo, me irritando muito. Tinha outras prioridades, e cortei. Fiquei sete anos sem dar bola para o futebol. Boa parte desse tempo coincidiu com minha ida para a Europa, para fazer mestrado e doutorado. Naquela época, via um jogo ou outro, mas não me informava do que acontecia, nem lá nem aqui. Não sabia de nada.

Por que a decepção?
Pelas duas seleções, de 1982 e 1986. Dois grandes times e o melhor treinador que já vi. Os times do Telê Santana eram muito bonitos. O jogo era muito redondo.

E ele era uma pessoa muito preocupada com a ética em campo. Isso também era importante para o senhor?
Muito! Lembro do Telê, num programa de televisão, dar um sabão num jogador no ar. “O senhor é muito violento, precisa mudar seu estilo em campo!” (risos). Isso era importante, mas o que me chamava atenção era o estilo de jogar dos times dele.

Quando se deu a volta?
Fui voltando paulatinamente, ali por 1993, mas com uma relação diferente, de lazer. Tinha muito prazer de ver um bom jogo, reunido com os amigos, não necessariamente do meu time.

O Brasil vai ganhar a Copa?
Espero que sim, mas tenho lá minhas dúvidas.

E será importante para o país?
Não. Será apenas uma vitória esportiva. Claro que uma derrota me deixará triste, mas uma hora depois estarei fazendo outra coisa (risos).

Aécio e CNBB: reforma política é prioridade para o Brasil

• Temas da conversa: reforma política, ética e participação dos jovens na vida pública.

- Agências de noticias

APARECIDA (SP) - Em visita a Aparecida (SP), nesta quinta-feira (29), o presidente nacional do PSDB e pré-candidato a presidente da República, senador Aécio Neves (MG), se reuniu com o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Raymundo Damasceno. Amigos desde que Aécio era governador de Minas Gerais, eles conversaram sobre reforma política, ética e participação dos jovens na vida pública.

“Vim fazer uma visita ao Dom Damasceno, porque há hoje uma preocupação muito grande da CNBB também com a agenda política. Há uma convergência muito grande de sentimento entre aquilo que propõe a CNBB para a reforma política com aquilo que nós achamos necessário. É uma visita pessoal a um amigo de longa data”, afirmou Aécio Neves, em entrevista coletiva à imprensa na residência oficial do arcebispo.

Papa Francisco
Ao falar com os jornalistas, Aécio lembrou mensagem recente do Papa Francisco a favor da participação da sociedade na vida pública.

“Recentemente o Papa Francisco fez um convocação aos cristãos que participem da vida política, não apenas votando, mas, sempre que possível, também sendo votados. Ele falava da política como um instrumento de servir e de atender a demanda da sociedade”, lembrou Aécio.

O presidente nacional do PSDB chegou à cidade no início da tarde, acompanhado do líder do PSDB na Câmara, Antonio Imbassahy (BA), e dos deputados federais César Colnago (ES) e Luiz Carlos Hauly (PR). Após o encontro, eles visitaram o Santuário Nacional de Aparecida, onde fica a imagem de Nossa Senhora, Padroeira do Brasil.

Aécio Neves afirmou que o encontro com Dom Damasceno é mais uma ação de diálogo do PSDB com os brasileiros na construção de um projeto alternativo para o país. Para o tucano, é importante ouvir todas as representações da sociedade.

“A contribuição da Igreja Católica, assim como de outras igrejas, devem ser recebidas com muita humildade por todos os candidatos. O que eu vim dizer é que estaremos prontos para essa discussão. Quero fazer essa discussão com aqueles segmentos da sociedade que têm contribuição a aferecer”, ressaltou Aécio Neves.

Aécio também avaliou como positivo a iniciativa da Igreja Católica em estimular a participação da sociedade na política. “A disposição da Igreja Católica, assim como de outras igrejas, mas falo hoje especificamente da Igreja Católica, de participar do debate e apresentar propostas em relação à participação popular é algo extremamente saudável”, afirmou o presidente do PSDB.

Dom Damasceno
Após a visita, o presidente da CNBB, Dom Raymundo Damasceno, afirmou que a Igreja Católica tem interesse em debater o tema da reforma política com todos os pré-candidatos a presidente. “A CNBB espera que os candidatos se comprometam com a reforma política. Esperamos que ela seja discutida e levada adiante no Congresso Nacional. É uma das reformas fundamentais para que outras possam ocorrer. E ele [Aécio] se comprometeu em colocar a reforma política como prioridade caso ele venha vencer as eleições”, disse Dom Damasceno.

Entrevista de Aécio em Aparecida (SP)

• Encontro com Dom Damasceno; eleições 2014; temas da igreja, Joaquim Barbosa

- Agências de noticias

Sobre o encontro com presidente da CNBB.
Vim fazer uma visita a Dom Damasceno, presidente da CNBB, mineiro, porque há hoje uma preocupação muito grande da CNBB também com a agenda política. E há uma convergência muito grande de sentimentos entre aquilo que se propõe a CNBB, que tem discutido inclusive a proposta de reforma política, com aquilo que nós achamos necessário. Recentemente, o Papa Francisco fez uma exortação, quase que uma convocação, aos cristãos que participem da vida política, que participem não apenas votando, mas, sempre que possível, até mesmo buscando ser votados. Ele falava da política como um instrumento de servir, como uma forma de atender às demandas da sociedade. Extremamente sublime, esse foi o termo usado pelo Papa Francisco.

E, em um momento em que estamos dialogando com o Brasil, queria, antes que a própria campanha efetivamente começasse, vir aqui dizer da nossa disposição de estarmos conversando, construindo uma agenda sobre temas que sejam convergentes, aquilo que pensa a Igreja Católica e aquilo que pretendemos construir no Brasil. Falamos um pouco da necessidade de engatarmos a ética na vida pública e ampliarmos a participação dos jovens.

Esses foram os temas centrais. Uma visita pessoal, um amigo de longa data, e, obviamente, em um futuro próximo, terei a oportunidade de institucionalmente também conversar com a CNBB, como provavelmente outros candidatos farão. Mas vim também pedir as bênçãos dele. Vou ao Santuário também daqui a pouco, antes de ir embora.

Sobre a possibilidade de temas religiosos se destacarem durante a campanha eleitoral de 2014.
Não acredito que essas serão as questões centrais. Eu sou católico e vim aqui para cumprimentar o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, mas não acho que essas serão nesse ano as questões centrais a serem tratadas, pelo menos entre os candidatos à Presidência da República. Mas a contribuição que a Igreja Católica possa dar, assim como outras igrejas, deve ser recebida com muita humildade por todos os candidatos. O que tenho a dizer é que estaremos prontos para essa discussão, para esse debate, e quero fazer esse debate com todos aqueles segmentos do pensamento da sociedade brasileira que tenham contribuições a oferecer.

Sobre debate do aborto na campanha presidencial e proposta CNBB para participação política.
Não é um assunto aqui para hoje. Teremos, obviamente, que falar sobre cada um desses temas, mas acho que existe a disposição da Igreja Católica, como de outras igrejas, e estou falando hoje especificamente da Igreja Católica, de participar do debate, de apresentar propostas em relação à participação popular e até estimulando a participação na política. Eu vejo isso como algo extremamente saudável.

Vim aqui fazer uma visita ao presidente da CNBB, dizendo que a participação da CNBB nessas eleições é importante, como a participação de outras igrejas, e a proposta que eles apresentam, que é a reforma política e de estímulo a participação do cidadão, sobretudo dos mais jovens, na vida pública, é algo que vai absolutamente na direção daquilo que temos trabalhado. As questões centrais de estimular a participação e fortalecer os partidos políticos estão próximas daquilo que pensamos. Como disse o próprio Dom Damasceno, não são propostas acabadas. Na verdade é quase que um estímulo a que esse debate ocorra. E é natural que essas propostas tomem forma ao longo da campanha. Mas o sentido fundamental de estimular a participação popular, garantir uma sintonia maior entre o representado e os seus representantes, pregar e exercitar o Ficha Limpa, são questões que nos são convergentes.

Sobre financiamento público de campanhas.
O financiamento público é uma das questões que nos vamos discutir, mas ele passa pela modificação do atual sistema de voto hoje proporcional. O financiamento público deve vir casado pelo menos com o voto distrital misto, que é a proposta que defendemos.

Esse anúncio de aposentadoria do ministro Joaquim Barbosa. O STF perde?
Acho que sim. É um homem que o Brasil aprendeu a respeitar. Pode-se gostar ou não dele, mas é um homem íntegro, honrado e que faz muito bem à justiça brasileira. Eu não tenho informação oficial dele. Ouvi essa notícia hoje, agora há pouco. Mas certamente é alguém que fez muito bem à justiça brasileira no período que lá esteve. Espero que ainda possa fazer por algum tempo.

O sr. pretende conversar com igrejas evangélicas também?
Eu sou católico, mas, obviamente, sempre tive um diálogo com todas as denominações. Obviamente, se convidado, terei a oportunidade de ir lá debater o Brasil sem qualquer dificuldade.

O sr. foi convidado para vir falar com Dom Damasceno?
Eu fui convidado por inúmeros bispos amigos para estar com Dom Damasceno e por ele próprio. Liguei para ele para ver se tinha condições de vir aqui essa semana. Tenho uma relação com a Igreja Católica que vem das minhas origens mais remotas. Eu sou afilhado de Dom Lucas Moreira Neto, que foi um dos mais importantes cardeais da igreja católica brasileira.

Campos é recebido com faixas e bandeiras em Franca (SP

João Alberto Pedrini e Edson Silva – Folha de S. Paulo

FRANCA (SP) - O ex-governador de Pernambuco e pré-candidato do PSB à Presidência da República, Eduardo Campos, foi recebido com faixas e bandeiras típicas de campanha eleitoral na manhã desta quinta-feira (29) em Franca (400 km de São Paulo).

Uma das faixas trazia com destaque a inscrição "presidente Eduardo Campos. De Norte a Sul e no país inteiro, viva o Partido Socialista Brasileiro". Não havia referência ao cargo de presidente do partido, ocupado por Campos.

Segundo o advogado Gustavo Bugalho, especialista em direito administrativo e público, o ato pode configurar antecipação de campanha e o político ser acusado de cometer uma irregularidade eleitoral.

"Não se pode levar a ideia de que a pessoa é candidata a um cargo público antes do período correto. Isso é um tipo de conduta que, se representada aos órgãos competentes, pode resultar em multa eleitoral em caso de condenação", disse Bugalho.

Segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), candidatos, partidos e coligações só podem fazer propaganda eleitoral a partir de 6 de julho. A data, prevista na legislação e calendário eleitoral, acontece um dia após o término do prazo de pedido de registro de candidatos na Justiça Eleitoral.

O presidente do PSB de Franca, Cézar Vilela, negou irregularidade. Ele disse que o ato não se tratou de campanha eleitoral, mas de uma manifestação de apoio ao presidente nacional do partido, Eduardo Campos.

"É um clima festivo. Nos reunimos segunda-feira para [26] discutir o que poderíamos fazer para recebê-lo e os militantes decidiram demonstrar esse apoio", afirmou.

Recepção
Campos foi recebido no aeroporto da cidade em clima de eleição por cerca de cem pessoas. A recepção foi feita pelo prefeito de Franca, Alexandre Ferreira (PSDB), pelo deputado federal Marco Aurélio Ubiali (PSB) e dirigentes do partido e políticos da região.

Com faixas e bandeiras, cerca de 50 pessoas entoaram gritos de apoio a Campos assim que ele entrou no saguão do aeroporto.

Cinco pessoas ouvidas pela Folha no aeroporto disseram que receberam ou receberiam dinheiro para segurar as faixas, tremular as bandeiras e gritar apoio a Campos. "Temos que tirar um dinheirinho extra, né?", disse uma das contratadas, que pediu anonimato.

Uma outra mulher, segurando uma faixa, contou que estava com a filha e mais três netas. Ela afirmou que sempre trabalha para o deputado federal Ubiali e que na semana passada recebeu R$ 40 por um dia para entregar panfletos.

Disse ainda que, normalmente, em campanha o valor pago por dia de trabalho é de R$ 50.

Um jovem que carregava uma bandeira do PSB, questionado pela reportagem sobre quem desembarcaria no aeroporto no momento, afirmou não saber de quem se tratava.

Vilela negou que as pessoas tenham recebido dinheiro para carregar as faixas e as bandeiras. "Eles vão ganhar o almoço", disse.

As pessoas ouvidas pela Folha disseram que receberiam dinheiro pelo trabalho, mas não disseram quem as pagaria.

'Presidente do Partido'
Campos negou que haja ilegalidade na manifestação das pessoas que carregavam as bandeiras e faixas. "É a bandeira do partido que eu presido. E a democracia prevê a liberdade de expressão", disse.

Sobre a inscrição "presidente Eduardo Campos", o ex-governador disse que a faixa foi escrita porque ele é presidente do partido.

Questionado se a manifestação poderia caracterizar campanha eleitoral antecipada, negou. "De forma nenhuma."

"Se os filiados do partido, os militantes do partido, não puderem receber, em plena democracia, o presidente do partido com a bandeira do partido, então nós não temos uma democracia", afirmou.

Ele disse também que não existe ilegalidade porque não há faixas pedindo votos nem dizeres que fazem referência à eleição.

Programa de Aécio terá eixo social

Marcos de Moura e Souza - Valor Econômico

BELO HORIZONTE - O plano de governo que senador e pré-candidato à Presidência Aécio Neves (PSDB-MG) pretende apresentar daqui a um mês dará ênfase a questões sociais. É uma área que o PT, da presidente Dilma Rousseff, sempre usou como uma de suas principais marcas.

Aécio reuniu colaboradores que estão discutindo cerca de 35 temas para o plano. São acadêmicos e especialistas que estão divididos em oito grupos. A coordenação dos trabalhos está a cargo do ex-governador de Minas Gerais, Antonio Anastasia (PSDB).

"O senador Aécio Neves me deu uma recomendação muito firme, a coluna vertebral é a preocupação com as pessoas, com as políticas sociais", disse Anastasia ao Valor Pro, serviço de informações em tempo real do Valor.

Sob acusações do PT de que haverá uma reversão nas políticas sociais se o PSDB voltar ao poder, Aécio avançou no Congresso projeto sobre o Bolsa Família e também já disse ser favorável à atual regra de reajuste do salário mínimo, que agrada à base sindical. Uma das mensagens que os tucanos pretendem levar ao eleitor - e que aparecerá no plano - é que Aécio tem a mesma sensibilidade e compromisso sociais atribuídos ao PT.

Anastasia explica a estratégia dizendo que quando governador de Minas (2003 a 2010), Aécio adotou uma série de programas sociais exitosos. Programas que, segundo ele, "são muito positivos e que demonstram que não é do PT o monopólio das questões sociais".

A campanha de Aécio ainda busca burilar iniciativas de outros governos estaduais do PSDB, das que estão em vigor hoje e também as que foram adotadas no governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), disse Anastasia.

Aécio Neves cercou-se de vários ex-integrantes do governo FHC. Entre eles, Armínio Fraga (ex-presidente do Banco Central), José Roberto Mendonça de Barros (ex-secretário de Política Econômica), além de Edmar Bacha (um dos construtores do Plano Real). Os ex-ministros Barjas Negri (Saúde), José Carlos Carvalho (Meio Ambiente), Xico Graziano (chefe do gabinete de FHC), Rubens Barbosa (Relações Exteriores), também trabalham pela candidatura de Aécio.

A equipe é constituída também por economistas e acadêmicos de uma geração mais nova, entre os quais Mansueto Almeida (Ipea) e Samuel Pessôa (FGV), Cláudio Beato Filho (UFMG), André Medici (ex-BID). É uma receita que Aécio adotou nas disputas em Minas.

Anastasia não vê no plano de Aécio um resgate direto de políticas do governo FHC. "Naturalmente, as políticas que foram do governo FHC são positivas", disse. "A maioria delas foi incorporada pelo PT, o grosso da política econômica, a política que deu origem ao Bolsa Família. Então há continuidade."

Perguntado se o plano deve mencionar a necessidade de uma nova fase de privatizações, uma das marcas da gestão FHC, Anastasia diz que aquele modelo ficou para trás. Nas últimas eleições presidenciais, o PSDB evitou uma defesa clara das privatizações - sempre criticadas pelo PT. "A privatização foi um movimento daquele momento", disse, acrescentando que a melhoria da infraestrutura exige investimentos gigantescos que os tesouros federal, estaduais e municipais não suportam.

"Por isso a importância de melhorar as agências reguladoras, para que haja também a participação do setor privado nessa nova visão de desenvolvimento de infraestrutura. O quadro de hoje não é o da década de 90. Os anos se passaram e agora temos esses novos instrumentos", diz.

Anastasia, que era vice de Aécio, foi eleito e no mês passado deixou o cargo para disputar o Senado. Ele aparece como favorito. Entre lideranças do PSDB mineiro, é visto como futuro ministro-chefe da Casa Civil de Aécio - uma 'aberração' na definição de Anastasia.

O plano de governo de Aécio está sendo construído com base em 30 temas. Segundo o ex-governador, esses assuntos são divididos em oito grupos, onde se prepara diagnósticos para as áreas de educação, saúde, segurança, saneamento, recursos hídricos, participação cidadã e transparência, combate à pobreza, questões relativas à sustentabilidade e ao meio ambiente, turismo, transporte, econômico, social, relações internacionais, defesa nacional, práticas eficientes de gestão, previdência entre outras. O coordenador dos trabalhos diz que não revela nomes dos que ainda não foram mencionados por Aécio.

O ex-jogador Ronaldo que já manifestou apoio à candidatura do tucano talvez venha a contribuir com o plano: "É uma personalidade do esporte, do futebol, e certamente poderá ser ouvido."

Os colaboradores que integram esses grupos estão concentrados em Minas, Rio e São Paulo, embora haja participantes de outros Estados. No documento não deve haver menção a metas específicas de inflação, câmbio, carga tributária, superávit primário, tampouco onde Aécio pretende fazer cortes de gastos caso eleito, diz Anastasia.

"O que vamos ter no plano são a concepção, os princípios e os programas e, vencida a eleição, vamos objetivar no caso concreto", disse. Durante a campanha, Aécio vai apresentar projetos específicos.

Aécio já falou em reduzir o número de ministérios (hoje são 39) à metade, mirar um superávit primário de 3% (a meta deste ano é 1,9%). Armínio já defendeu a inflação ao centro da meta, 4,5%, para depois reduzi-la.

Anastasia diz que foi formado também um grupo com ex-integrantes do governo FHC que estão se dedicando à política industrial. Recentemente, representantes dos fabricantes de máquinas e equipamentos criticaram declarações de Aécio e Armínio ao Valor no qual ambos apontaram exageros e erros nos programas federais de subsídios a setores da economia.

Mas o objetivo, insiste ele, é que o plano não seja uma leitura restrita a economistas, acadêmicos e empresários. "O plano de governo vai se centrar nas questões relativas à preocupação imediata das pessoas. Saúde, segurança, educação, combate à pobreza, temas que dizem com mais direção às pessoas", disse Anastasia.

A inflação - que vinha numa toada de aceleração - estará entre esses temas mais sensíveis. "A manutenção do valor da moeda é um princípio que estará lá aplaudido. A questão do custo de vida é tema de preocupação imediata que afeta as pessoas em seu dia a dia e deve ser discutido, mas ainda não está formatado."

Anastasia, no entanto, não vê a inflação como o tema que vai aquecer o debate eleitoral este ano. O debate, para ele, será afunilado na segurança pública.

Essa é uma área sobre a qual Aécio já se pôs num campo distinto do de Dilma e do pré-candidato do PSB, Eduardo Campos: a maioridade penal. Ele apoia um projeto do senador por São Paulo Aloysio Nunes Ferreira (PSDB) que dá a possibilidade de o juiz condenar jovens a partir dos 16 anos que cometem crimes graves a penas tão longas quanto a de maiores de idade.

"Não vou antecipar nada porque ainda estamos redigindo. Mas o núcleo duro na questão é o combate à impunidade. A impunidade é a raiz. A polícia se desestimula, a sociedade se revolta. E aí começa a justiça com as próprias mãos", diz.

O grupo de Aécio defende mudança de legislação. "Há de haver uma reforma legislativa", diz Anastasia. Para mudar o quê? "Tornar o processo mais objetivo. Há muita discussão sobre o papel do inquérito. Temos grandes nomes que podem contribuir."

Um potencial alvo das mudanças é uma lei federal de 2011 que, nas palavras do político mineiro, deu certa fragilidade às instituições policiais. Refere-se à Lei 12.403: "Trata do processo penal que não prende as pessoas em determinadas circunstâncias e facilita um pouco a impunidade."

Anastasia recusa a ideia de que Aécio será um candidato para agradar setores conservadores. "Em primeiro lugar, a preocupação que ele me dirigiu e eu tenho repetido isso a todos é a preocupação com as pessoas, principalmente com os mais desfavorecidos".

Decreto do governo federal cria conselhos populares sobre grandes temas

• Jurista diz que obrigar órgãos a ter estruturas para ouvir sociedade engessa governo e é um exagero

• Em geral, esses conselhos populares não são populares, porque são nomeados pelos governantes

Cristiane Jungblut – O Globo

BRASÍLIA - Num ano eleitoral, a presidente Dilma Rousseff editou decreto que obriga os órgãos do governo a promover consultas populares sobre grandes temas, antes de definir a política a ser adotada e anunciada pelo governo. O decreto 8243/2014 cria a Política Nacional de Participação Social (PNPS) e diz que o objetivo é “consolidar a participação social como método de governo”. A decisão provocou polêmica e foi recebida com críticas por juristas e parlamentares.

Na prática, a proposta obriga órgãos da administração direta e indireta a criar estruturas a título de participação social, como “conselho de políticas públicas” e “comissão de políticas públicas”. Até mesmo as agências reguladoras terão que cumprir as novas regras. De acordo com o texto, os órgãos serão obrigados a considerar esses colegiados durante “a formulação, a execução, o monitoramento e a avaliação de seus programas e políticas públicas”. Na prática, ministérios e demais órgãos serão obrigados a criar conselhos, realizar conferências ou mesmo promover mesas de diálogo. Esse tipo de mecanismo pode engessar ainda mais o governo. Os órgãos terão que promover relatórios anuais para mostrar que estão cumprindo a determinação e prestar contas.

A decisão da presidente Dilma de tentar criar um modelo de participação social via decreto foi vista como um exagero, passando por cima inclusive da Constituição. Para o jurista Carlos Velloso, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, há risco de enfraquecimento do Poder Legislativo como fórum de representação da sociedade e de discussão de grandes temas, além do engessamento das decisões do governo. Um tema polêmico pode demorar devido à exigência de se ouvir diversos representantes da sociedade, por exemplo.

— Isso é um exagero. E utilizar decreto é exagero demais. Acredito que essa discussão só poderia ser feita por lei, ou até por meio da Constituição. A Constituição estabelece os casos em que pode haver consulta popular. E isso acaba deixando o Legislativo no corner — disse Velloso.

O deputado Miro Teixeira (PROS-RJ) considera que a medida pode “travar a administração pública”:

— Em geral, esses conselhos populares não são populares, porque são nomeados pelos governantes. Em tempos de dificuldades, é que surgem essas ações (nos governos).

O diretor de Participação Social da Secretaria Geral da Presidência, Pedro Pontual, defende o decreto e rebate críticas de que as normas possam engessar o governo ou mesmo tenham viés esquerdista.

Ele disse que esse tipo de consulta já é utilizada, por meio das conferências. Ele citou as discussões do Plano Brasil Sem Miséria, alegando que elas não “atrasaram” o lançamento do programa:

— A Constituição garante o direito do cidadão de participar. O que o governo quer é que a participação social vire um método de governo. As políticas públicas que passam pelo processo social saem do governo com mais qualidade. Todas as políticas deverão ter alguma interlocução com a sociedade.

Questionado sobre as críticas de que o governo se baseia em práticas do governo do presidente venezuelano Hugo Chávez, ele reagiu:

— Isso não engessa o governo e não tem nada a ver (com política chavista). É a institucionalidade da democracia, é uma relação de soma.

Cabral no Senado e Garotinho com Campos

• Ex-governador confirma que disputará a vaga de senador, enfrentando a concorrência de Romário (PSB). Garotinho elogia Campos, descarta PT e poderá apoiar chapa socialista

Eduardo Miranda, Aurélio Gimenez – Brasil Econômico

Rio - O PMDB fluminense precisou entrar em ação na tarde de ontem para desfazer os boatos de que o ex-governador Sérgio Cabral ficaria de fora das eleições de outubro. Como antecipou o jornal "O Dia", a cúpula do partido se reuniu ontem na casa do ex-governador para confirmar que Cabral é pré-candidato ao Senado. No encontro, estavam o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), que é pré-candidato à reeleição; o presidente do PSD, Índio da Costa; e o presidente da Assembleia Legislativa, Paulo Melo (PMDB). Na reunião, também foi confirmado o nome do deputado estadual Felipe Peixoto (PDT) como vice de Pezão. Na quarta-feira, Índio da Costa, líder do PSD, teria dito que o ex-governador desistira de concorrer a um cargo na eleição.

No mesmo dia, o presidente regional do PMDB, Jorge Picciani, afirmou que o partido só apoiaria Cabral ou o senador Francisco Dornelles (PP) para a vaga. Até agora, o deputado Romário (PSBRJ) é o único adversário declarado que o ex-governador enfrentará nas urnas. Ontem, também no Rio, o ex-governador Anthony Garotinho (PR), que aparece na liderança de algumas pesquisas de intenção de voto, se reuniu com jornalistas para uma conversa informal e deu sinais de que o PR fluminense deverá ceder palanque ao presidenciável Eduardo Campos (PSB).

Apesar de afirmar que não quer influenciar os 120 mil filiados do PR estadual, que escolherão nas prévias de 21 e 22 de junho o presidenciável que a legenda deve apoiar, Garotinho fez elogios ao socialista e disse que a candidatura do ex-governador de Pernambuco é viável. "Em 2002, quando fui candidato à Presidência, tinha 4% das intenções de voto antes do horário eleitoral gratuito na TV. Em 40 dias, saltei para 19%. Na reta final do primeiro turno, estava quase empatado com José Serra (PSDB)", disse, apostando na escalada de Campos quando começar a campanha na televisão.

O presidente regional do partido disse, porém, que a aliança nacional do PR em torno da reeleição de Dilma Rousseff deve ser mantida. Garotinho justificou seu afastamento do PT. "Pedi que o PT nacional induzisse os partidos do Rio a apoiar minha candidatura, mas isso não foi feito. Disse a eles que queria reciprocidade no apoio, mas não dá para a Dilma fazer campanha para quatro candidatos do Rio e o Lula só apoiar o Lindbergh (PT)", argumentou.

Roberto Freire: Retratos de uma guerra civil não declarada

- Brasil Econômico

Os dados preliminares da nova versão do Mapa da Violência, estudo anual baseado no Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, revelam o descalabro da segurança pública. Em 2012, o Brasil registrou nada menos que 56.337 assassinatos, o maior número absoluto da série histórica do levantamento, desde 1980, com aumento de 7,9% em relação a 2011. A taxa de homicídios avançou 7%, alcançando 29 ocorrências para cada 100 mil habitantes. O índice considerado "não epidêmico" pela ONU é de 10 mortes por 100 mil.

Nunca antes neste país, como diz o ex-presidente Lula, tantas pessoas morreram assassinadas. Para se ter uma ideia, o índice de mortes por homicídio na Alemanha é de 0,9 por 100 mil – ou seja, no Brasil se mata 32 vezes mais. Na América Latina e no Caribe, onde vivem 600 milhões de pessoas, o número de assassinatos é de 100 mil ao ano. Com pouco menos de um terço dos habitantes da região, o Brasil responde por quase 60% das vítimas fatais. O desmantelo na segurança pública, cuja responsabilidade maior é de um governo que se mostra incompetente para enfrentar oproblema, se espalha pelo país de forma generalizada.

Apenas cinco unidades da federação reduziram suas taxas de homicídio entre 2011 e 2012 (Pernambuco, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Paraíba e Alagoas). No caso alagoano, entretanto, há poucos motivos para celebração: o estado apresenta o maior índice de assassinatos do país (64,6 por 100 mil). Vem justamente de Alagoas a maior prova da inoperância dos governosde Lula e Dilma Rousseff. Desde junho de 2012, o estado é palco de mais uma peça de propaganda política do PT, o programa Brasil Mais Seguro, que já consumiu R$ 200 milhões da União. Em entrevista recente, o ministro da Justiça cometeu o despautério de comparar os índices de violência ali registrados com"números suíços", mas a bravata não foi correspondida pela realidade.

Em 2012, ocorreram 2.186 homicídios em Alagoas, número que subiu para 2.260 em 2013. Entre janeiro emarço deste ano, 601 pessoas já foram mortas. Na outra ponta da tabela, aparecem estados como Santa Catarina (12,8 assassinatos por 100 mil habitantes) e São Paulo (15,1), os mais seguros do país. Apesar de também terem sofrido com um aumento no número de casos entre 2011 e 2012, os paulistas podem comemorar uma queda expressiva de 60% na taxa de homicídios entre 2002 e 2012, enquanto o índice nacional teve alta de 2,1% no mesmo período.

Como se não bastassem os números estarrecedores que desnudam uma guerra civil não declarada no Brasil, a sociedade vem assistindo a uma sucessão desenfreada de episódios de barbárie explícita, como linchamentos, torturas e agressões das mais cruéis. Há uma evidente deterioração social e perda de valores humanitários em meio ao agravamento da situação econômica do país, aos escândalos de corrupção no seio do governo e à falta de qualidade nos serviços públicos, além da sensação de impunidade que dá margem à ideia equivocada de que se deve fazer justiça com as própriasmãos.

Doze anos depois de assumir o governo, o PT tem mais um enorme fracasso para chamar de seu: a violência descontrolada que atravessa o país de norte a sul. Os brasileiros já não suportam mais sair de casa pela manhã sem a certeza de que voltarão ilesos à noite. Nossa guerra civil diária e não declarada tem de acabar.

Roberto Freire é deputado federal por São Paulo e presidente nacional do PPS

Merval Pereira: O anticlímax

- O Globo

A antecipação da aposentadoria do ministro Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal (STF), de notícia bombástica, foi transformada em anticlímax por decisão do próprio, o que fala bem dele.

Não caiu na tentação de entrar para a política e anunciou sua saída de cena em momento em que ela não tem a menor importância para o jogo de interesses que está em plena ebulição nos bastidores partidários.

Se houvesse decidido concorrer, e poderia fazê-lo até mesmo à Presidência da República, teria sido mais criticado do que normalmente é, e todo seu trabalho como relator do processo do mensalão estaria colocado sob suspeição.

Se permanecesse no STF até depois da eleição, talvez pudesse ser nomeado por um candidato oposicionista que eventualmente vença para um cargo qualquer, desde ministro até embaixador — dando o troco no Itamaraty que o reprovou, ele está convencido disso, por racismo.

Escolhido por Lula para representar a diversidade racial no Supremo, Joaquim Barbosa recusou-se a atuar como um preposto do presidente que o nomeara, e marcou sua presença no plenário do STF pela independência de posições e pelo desassombro verbal. E entrará para a História do tribunal pela condução polêmica, mas eficiente, do processo do mensalão.

Poliglota, com formação nas melhores universidades dos Estados Unidos e da Europa, lamentava que as pessoas não olhassem seu currículo, mas a cor de sua pele. Ele sempre considerou inaceitável a interpretação que resultasse em penas mais leves nos casos em julgamento do mensalão, pela gravidade que via neles, e teve de enfrentar críticas de advogados, inclusive da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e dos próprios pares, como o ministro Luís Roberto Barroso — que, entrando no julgamento em sua segunda fase, a dos embargos infringentes, acusou o plenário anterior do STF de exacerbar seletivamente as penas no caso de formação de quadrilha para deixar os condenados mais tempo em regime fechado, especialmente José Dirceu.

Já como presidente do Supremo, o ministro Joaquim Barbosa rebelou-se contra essa acusação, dizendo que Barroso fazia um discurso meramente político sob uma capa de tecnicalidade.

Aproveitando que Barroso, ao explicar sua expressão “ponto fora da curva”, disse que ela significava também — além da exacerbação das penas — “o rompimento com uma tradição de leniência e impunidade em relação a certo tipo de criminalidade política e financeira”, Joaquim Barbosa aparteou-o dizendo que na prática, defendendo a prescrição do crime de quadrilha, Barroso estava sendo leniente com os crimes que parecia condenar em seu discurso político.

Barbosa encarnou para o cidadão comum a indignação contra a histórica impunidade das classes dirigentes no Brasil, o herói vingador em busca de Justiça, com a capa preta tradicional que lhe dava a aparência de um Batman tupiniquim.

As críticas de Barbosa ao sistema penal brasileiro, explicitadas em diversas ocasiões em entrevistas ou mesmo em declarações em meio aos julgamentos de que participava, explicam seu empenho em dar penas mais pesadas aos réus.

Em sua opinião, o sistema penal brasileiro, é “risível”. A preocupação com a prescrição de algumas penas, como a de lavagem de dinheiro, era realmente um dos objetivos da aplicação de pena maior por parte do relator Joaquim Barbosa, e ele chegou a admitir isso na discussão com Barroso.

Por isso, também, ele errou a mão ao tratar de certos assuntos, como a permissão para que o ex-todo-poderoso Dirceu trabalhasse fora no regime semiaberto. Embora a legislação diga que somente depois de cumprir 1/6 da pena é que o condenado tem esse direito, a jurisprudência tem superado essa exigência há muitos anos, até mesmo pela impossibilidade de manter em cadeias apropriadas todos os condenados.

Todo o processo do julgamento do mensalão correspondeu a um avanço da cidadania, inclusive os bate-bocas ocorridos no plenário do STF transmitidos ao vivo e a cores pela TV Justiça. Até mesmo o grau de endeusamento a que foi levado o relator do processo, o ministro Barbosa, faz parte desse aperfeiçoamento de nossa democracia, que chegará um dia a não precisar de heróis.

Dora Kramer: Na hora certa

• Barbosa soube ver hora de sair de cena evitando declínio que não raro se segue ao uge

- O Estado de S. Paulo

O ministro Joaquim Barbosa é impetuoso, não mede as palavras, bate de frente quando acha que deve bater e não foram poucas as ocasiões em que perdeu as estribeiras no Supremo Tribunal Federal.

Características mercuriais que aparentemente contrastam com a absoluta serenidade com que ele se manteve senhor da razão diante da popularidade jamais alcançada por um magistrado e dono do próprio tempo de sair de cena; soube ver a hora de fazê-lo antes do declínio que não raro se segue ao auge.

Deixar o Supremo antes da aposentadoria compulsória não é prática incomum. O decano da Corte, Celso de Mello, já anunciou que pretende antecipar a saída prevista para 2015. Nos últimos anos, por motivos diferentes, Nelson Jobim, Ellen Gracie e Eros Grau se aposentaram quando ainda tinham tempo pela frente. Mas não houve comoção nem maiores especulações. Joaquim Barbosa é um caso peculiar.

Depois da atuação como relator no processo do mensalão e da passagem pela presidência do STF, que lhe conferiram notoriedade (nos melhores e nos piores dos sentidos, dependendo do ponto de vista), a volta dele como apenas mais um integrante do colegiado ficaria muito difícil. Nada poderia ser como antes. Pasta de dentes que não volta ao tubo.

De imediato, por dois anos estaria sob a presidência de Ricardo Lewandowski, seu mais ferrenho oponente durante o julgamento em que atuou como ministro revisor e cujos embates com Barbosa chegaram a ultrapassar limites de civilidade. De parte a parte, diga-se. Apenas um estava sempre no papel de algoz e outro ficava na posição de vítima.

Sem a presidência ou a autoridade da relatoria de um processo em que foi na maior parte dele irretorquível - basta ver que foi acompanhado pela maioria em quase todas as suas posições -, Barbosa ficaria bastante vulnerável. Os atritos que criou deixaram sequelas que não podiam ser resolvidas ali, enquanto ele estivesse no comando. Mas, depois, talvez o pusessem no rumo do isolamento, do desprestígio.

Diferentemente do ministro Marco Aurélio Mello, com vocação para a polêmica e prazer acadêmico de divergir, Joaquim Barbosa não é homem de aceitar com facilidade o contraditório. Não perde com o mesmo conforto daquele que, ao contrário, não abre mão do direito de ser voto vencido há mais de 20 anos.

Mais que questões de saúde - existentes nos 11 anos em que o ministro passou na Corte - a decisão, de resto anteriormente já anunciada embora sem data, parece ter sido pautada por um sexto sentido que lhe avisou: a missão está cumprida, chega.

O mesmo que o aconselhou a não cair na tentação de atender ao canto da sereia deste ou daquele partido interessado na sua popularidade para fazer do ministro um "puxador" de votos. Tivesse feito isso, teria passado recibo aos que o acusavam de ter dado condução política ao processo do mensalão.

Ademais, para entrar na política teria antes de abrir mão de boa parte de suas convicções. E, com elas, de sua reputação. Por essas e outras citadas acima, saiu na hora certa.

Mal-entendido. Acho que não me fiz entender, quando fiz reparos no artigo "Origem da espécie" à prática do ex-governador Eduardo Campos de atribuir todos os erros que vê no governo exclusivamente à presidente Dilma Rousseff, salvaguardando as duas gestões de Luiz Inácio da Silva.

Não quis dizer, aliás não disse, conforme interpretaram vários leitores, que o candidato do PSB atua como linha auxiliar do PT, muito menos insinuar que Campos poderia abrir mão da candidatura na hipótese de Lula substituir Dilma.

Para ficar bem entendido: a crítica referia-se ao fato de, por uma questão estratégica, o candidato ignorar o fato de que muitos dos defeitos apontados por ele tiveram origem nos governos de Lula.

Eliane Cantanhêde: Joaquim

- Folha de S. Paulo

A passagem do primeiro negro a ocupar e a presidir o Supremo Tribunal Federal foi, além de rápida, fulgurante e fora de padrão --como a sua própria biografia.

Levado pela mão de Lula como um troféu, para ser um negro dócil e agradecido, Joaquim Barbosa rebelou-se contra o papel e desnorteou o PT, o governo e os próprios pares. Mas, na avaliação correta de um juiz atento, Joaquim poderia ter sido simplesmente altivo e muitas vezes foi flagrantemente arrogante.

Muito dos seus adoradores acreditam, como o próprio Joaquim, que ele só conseguiu os resultados que conseguiu porque extrapolou, quebrou regras, confrontou os colegas. A fila é longa: Ricardo Lewandowski lidera, mas também Dias Toffoli, Marco Aurélio Mello, Gilmar Mendes... Tivesse sido mais racional, mais sóbrio, talvez chegasse às mesmas conclusões --e com mais legitimidade.

Goste-se ou não de Joaquim, porém, ele pode ter sido o homem certo na hora certa: o irreverente e irascível capaz de conduzir o processo do mensalão para a história como um marco, um divisor de águas, na Justiça no Brasil. Ela não seria mais só para pretos, pobres e prostitutas; os criminosos de colarinho branco que pusessem as barbas de molho. Não há como negar: apavorou os poderosos e lavou a alma do povo brasileiro.

Sua renúncia começou a se delinear na "tarde triste" em que, abatido, com a voz cansada, assistiu impotente à derrota da tese de "quadrilha", chave no processo do mensalão. Como conviver como minoria num tribunal onde puxara a maioria? Como deixar de presidir e passar a ser presidido logo por Lewandowski?

A caminho da saída, Joaquim atropelou a estrela do mensalão, José Dirceu, mas não conseguiu o fecho de ouro que tanto queria: o julgamento das perdas pelos planos econômicos. Depois de subjugar poderosos da política, sonhava derrotar os bancos.

Com o adiamento, teve seu último chilique no STF, de onde sai para a história. E para flertar com a política.

Nelson Rojas de Carvalho: A governabilidade e as eleições de outubro

• Como a voz das ruas se traduzirá em voz nas urnas?

- Valor Econômico

Se tivéssemos de destacar uma questão que mobilizou por décadas a atenção de nossos intelectuais e de boa parte de nossa elite política, não teríamos dificuldade em eleger a suspeita reiterada sobre a virtude de nossas instituições, incapazes, para muitos, de produzir base adequada ao exercício do bom governo. Filha da República, a suspeita sobre a adequação de nossas instituições políticas bateu às portas do golpe de 1964, em diagnósticos canônicos, como o de Celso Furtado, que apontou para a situação crônica de conflito entre um Congresso atrasado, expressão das oligarquias rurais, e um Executivo modernizador, ancorado nos segmentos urbanos. Ou, ainda, em diagnóstico póstumo de Wanderley Guilherme dos Santos, sobre as raízes do ocaso das instituições democráticas em 1964, solapadas pelo quadro de paralisia decisória no interior do Congresso, com o consequente bloqueio das ações de governo.

Após duas décadas de normalização da vida democrática, a questão dos entraves à governabilidade no Brasil para muitos parecia não só equacionada, como também ultrapassada. A nova perspectiva, otimista, avançou o seguinte prognóstico: cumprido o requisito central do presidencialismo de coalizão - a formação de maioria parlamentar por meio da alocação de pastas ministeriais aos partidos aliados -, os chefes do Executivo se veriam munidos dos instrumentos necessários à implementação de suas respectivas agendas de governo. A taxa de sucesso legislativo dos presidentes Fernando Henrique, Lula e Dilma foi apresentada como evidência inconteste do funcionamento adequado do nosso presidencialismo de coalizão.

Sem entrar no mérito do diagnóstico, cabe sublinhar que a apreciação positiva sobre a dinâmica de nossas instituições derivou de análise que se limitou ao que se passava no andar de cima do sistema político, ou seja, ao padrão de interação - mais ou menos cooperativo - entre o presidente, o Congresso e os partidos políticos; esqueceu-se do andar de baixo, onde o sistema político se articula - de forma mais ou menos eficiente - com a sociedade. Ora, se as mazelas associadas a nossas instituições representativas - excesso de partidos, clientelismo, personalização da atividade política - não inviabilizaram a governabilidade, produziram, no entanto, hiato crescente entre os cidadãos e o sistema político. Hiato que irrompeu de forma aguda nas jornadas de 2013, quando os manifestantes que foram às ruas, embora divergissem na abrangência de sua pauta de reivindicações, convergiram no repúdio às instituições e no rechaço a todos aqueles situados no andar de cima do sistema político: Congresso, partidos e governos. O hiato entre o sistema político e a sociedade se traduziu, assim, em inédita ameaça à governabilidade, considerada até então como página virada da nossa crônica política.

A cinco meses das eleições, o país vive um cenário pré-eleitoral inédito, que guarda continuidade com as jornadas de junho de 2013 e que se traduz na incapacidade do sistema político de conter as demandas da sociedade: a escalada de greves em todos os setores e o recrudescimento das manifestações de rua ocorrem em meio à perda de legitimidade das instituições, processo que vem de longe, e que teve nas jornadas de junho, vale frisar, seu ponto de inflexão.

Nesse quadro, mais importante do que projetarmos o desempenho futuro dos três principais candidatos à Presidência - Dilma, Aécio e Eduardo Campos - é indagarmos em que medida a voz das ruas poderá ser mobilizada, com sucesso, para que se converta no curso do processo eleitoral em voz nas urnas. Numa palavra, cabe indagarmos em que medida o jogo eleitoral que se inicia será capaz de, senão desfazer, ao menos minorar o hiato hoje instalado entre o sistema político e a sociedade no país.

Certamente, as pré-condições para essa reaproximação se acham postas na mesa. Ora, todas as pesquisas de opinião convergem na identificação de linhas de demarcação nítidas e polarizadas subjacente às candidaturas presidenciais. Dilma tem seu núcleo duro de apoio entre os eleitores de baixa renda e escolaridade, nas regiões Norte e Nordeste. Venceria nesses segmentos logo no primeiro turno. Perderia para a oposição, com o PSDB na dianteira, entre os eleitores de alta renda, com nível superior de escolaridade e na região Sudeste. A eleição se mostra competitiva, entre governo e oposição, nas regiões Sul e Centro-Oeste e entre eleitores com nível médio de escolaridade. O quadro pré-eleitoral de 2014 repete, assim, o cenário do Brasil dividido e polarizado de 2010, divisão que hoje aparece, no entanto, como virtuosa, já que a polarização pode se afigurar como antídoto contra a fragmentação das ruas e como caminho de reaproximação da cidadania com as instituições políticas.

Uma eleição que, em razão dos baixos índices de aprovação do governo, se decidirá no segundo turno, traz diferenças adicionais em relação a 2010. Sabem os candidatos e seus marqueteiros que hoje a estratégia recomendável é o esforço de mobilização dos núcleos duros das candidaturas por meio da radicalização das teses próprias de cada campo. Nada mais diferente da corrida despolitizadora rumo ao centro, que marcou 2010. O cenário eleitoral presente, com tendência à polarização e à radicalização, é capaz de fomentar a migração da rua desorganizada para as urnas, reposicionando, pelo menos temporariamente, o sistema político na sua função de contenção de demandas - contenção fundamental para a garantia de cenário futuro de governabilidade.

Nelson Rojas de Carvalho é professor da UFRRJ, pesquisador do Observatório das Metrópoles/Ippur/UFRJ

Brasília-DF - Denise Rothenburg

- Correio Braziliense

O terceiro elemento
Em suas análises mais fechadas, os aliados da presidente Dilma Rousseff traçam cenários e três pontos que podem prejudicar a reeleição. No topo da lista está a economia, ou seja, o brasileiro sentir no bolso a alta dos preços. Em segundo lugar, vem o humor do eleitor a partir da Copa, evento que qualquer aspecto negativo se junta aos problemas econômicos levando o sujeito a descontar em Dilma.
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Por último vem a CPI Mista da Petrobras. Ali, a batalha campal reinará nos próximos dias. Isso porque esta em jogo a imagem do governo, do PT e de seus aliados. Por isso, os governistas decidiram controlar o colegiado com mãos de ferro e colocar ali aqueles que estão hoje com a presidente para o que der e vier.

Vista dupla
Dois deputados pediram vistas do processo contra Luiz Argôlo (SDD-BA), na sessão de ontem, do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. E de partidos diferentes: Sérgio Moraes (PDT-RS) e Júlio Delgado (PSB-MG). Antes, Fernando Ferro (PT-PE) alertou ao conselho sobre o risco da banalização de processos com base somente em denúncias da mídia, sem a comprovação de autos de inquéritos. O pluripartidarismo dos gestos animou o parlamentar baiano. Moraes, para quem não se lembra, é aquele que está "se lixando".

Mão dupla
Júlio Delgado pediu vista exatamente para evitar que, na semana que vem, outro deputado entrasse com a mesma solicitação, atrasando ainda mais o processo. Agora, com o pedido de dois, vale para todos.

Devagar com o santo
O PT comemorou a saída de Joaquim Barbosa do Supremo Tribunal Federal, mas há um grupo do partido bastante apreensivo. Isso porque a saída antes das eleições, deixa o ministro, que é popular, livre para dar opiniões e pitacos a respeito dos mensaleiros. E tem mais: quando o STF começar a soltar os políticos condenados nesse processo, não será com ele.

Apostas
A busca e apreensão no PMDB do Ceará a pedido do Ministério Público no mesmo dia em que Ciro Gomes foi discutir o futuro do Pros com Euripides Junior deixou os peemedebistas convictos de que foi uma declaração de guerra do governador Cid Gomes ao senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), pré-candidato ao governo. Nesse clima, aliança nem pensar.

CURTIDAS
Mina de votos/ Aécio Neves em Aparecida do Norte, Eduardo Campos em Franca e em Araraquara. Dilma Rousseff passou por São Paulo há dois dias. É o estado que toda semana recebe os pré-candidatos a presidente da República.

Memória/ O lançamento da candidatura do deputado Vieira da Cunha (PDT-RS) ao governo gaúcho será transformado em uma solenidade para marcar os 10 anos da morte de Leonel Brizola (foto). O presidente do PDT, Carlos Lupi, diz que a ideia é lembrar a data de modo festivo, como era o estilo do ex-governador.

Data escolhida/ Aécio Neves escolherá o vice antes da convenção de 14 de junho para não deixar que esse tema seja o mais relevante no dia do lançamento oficial da candidatura. As ações em alta são as do senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP).

O doleiro e o assessor/ Os parlamentares começam a comparar o iminente depoimento de Alberto Youssef, preso pela Operação Lava-Jato, ao do ex-assessor do Orçamento José Carlos Alves dos Santos, nos tempos da CPI dos Anões. Alves dos Santos foi quem deu à CPI a linha daqueles que sabiam do esquema de desvio de recursos e aqueles que estavam de gaiatos no navio.

Painel - Vera Magalhães

- Folha de S. Paulo

Diz que fui por aí
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, disse a Dilma Rousseff nesta quinta-feira que não pretende estar no Brasil no período eleitoral. O ministro não detalhou à presidente o que pretende fazer depois que se aposentar, mas o fato de que pretende se ausentar do país enfraquece as especulações de que poderia declarar apoio a algum candidato de oposição e atuar na campanha. A conversa com Dilma foi descrita como "cordial" pela presidente a auxiliares.

Top secret Barbosa solicitou a audiência com Dilma na quarta-feira, sem detalhar o assunto, e pediu que não houvesse outros participantes do encontro.

Portfolio Em uma das conversas que teve ontem, o relator do mensalão disse que se sentia cansado e que havia cumprido seu papel na corte. Lamentou apenas não ter julgado o processo da correção das cadernetas de poupança.

Planos Ministros lembravam ontem que Barbosa revelara recentemente ter recebido convite para presidir uma organização internacional de combate à corrupção.

Padrinho Advogados com acesso ao STF apostam que Dilma dará peso especial a nomes sugeridos por Ricardo Lewandowski para a vaga do atual presidente da corte.

Largada Voltaram a figurar na bolsa de apostas os advogados Heleno Torres e Luiz Edson Fachin, "finalistas" da vaga que ficou com Luis Barroso, e os ministros do STJ Benedito Gonçalves, Luis Felipe Salomão, Nancy Andrighi e Herman Benjamin.

Volver Em jantar com a comunidade judaica na quarta-feira, Dilma relatou preocupação com o avanço da "extrema direita" no mundo, sobretudo na Europa.

Ressaca São Paulo ainda não aprovou a lei estadual permitindo venda de bebidas alcoólicas no Itaquerão na Copa. O projeto enfrenta resistência de parte da bancada evangélica na Assembleia, que tem 21 membros.

Só chamar O deputado Luiz Moura (PT) contatou o presidente do Conselho de Ética da Assembleia paulista, Hélio Nishimoto (PSDB), se colocando à disposição para prestar esclarecimentos.

Arestas Eduardo Campos (PSB) e Marina Silva devem se encontrar hoje com Julio Delgado (PSB-MG) para tentar acertar sua candidatura ao governo de Minas. Oficialmente, a Rede defende Apolo Heringer como candidato.

De fininho Dirigentes da Rede se incomodaram com a conversa entre Campos e Geraldo Alckmin (PSDB) no fim de semana. Esperavam ter sido avisados do encontro.

Agora vai Aliados de Gilberto Kassab (PSD) estão certos de que, até o fim da próxima semana, estará batido o martelo sobre o rumo do partido na eleição paulista. A aliança com Alckmin ainda é considerada a mais provável.

Agora não vai No QG de Paulo Skaf (PMDB), a desistência de Henrique Meirelles (PSD) de se candidatar ao Senado foi vista como mais um sinal de que o partido deve mesmo se aliar aos tucanos.

DNA Eunício Oliveira (PMDB-CE) está acertando detalhes para contratar Paulo Alves para chefiar a publicidade de sua campanha ao governo do Ceará. Alves foi o principal auxiliar de João Santana na campanha de Fernando Haddad (PT).

Açougue Piada que circula entre políticos de Goiás sobre a desistência de Júnior Friboi (PMDB) de disputar o governo e o retorno de Iris Rezende (PMDB): "Ele conseguiu fazer o Roberto Carlos comer carne, mas não consegue fazer o Iris largar o osso".

Tiroteio
"Essa negociação que Kassab conduz é no estilo tântrico: quando você acha que já está chegando ao clímax, começa tudo de novo."
DO DEPUTADO GUILHERME CAMPOS (PSD-SP), sobre a saída de Henrique Meirelles da disputa pelo Senado em meio às negociações com outros partidos.

Contraponto
Testando, 1, 2, 3...

Ao iniciar seu discurso na posse dos membros do conselho de turismo do Estado, em março, o governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB), falou por um tempo com ruídos que impediam que as pessoas escutassem o que ele dizia. Percebeu que o sistema de som não estava funcionando direito e, logo, os técnicos do Palácio dos Bandeirantes resolveram o problema.

Ao retomar o microfone, certificou-se de que tudo estava nos conformes e fez piada:

-- Aparelho do som é igual a gerente de banco: quando você mais precisa, ele falha!

Diário do Poder – Cláudio Humberto

- Jornal do Commercio (PE)

• Adams e Benedito no páreo para ministro do STF
O gaúcho Luís Adams, 49 anos, advogado-geral da União, e o carioca Benedito Gonçalves, 60, único ministro negro do Superior Tribunal de Justiça, estão entre os mais prováveis substitutos de Joaquim Barbosa no cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal. Adams e Benedito têm em comum forte relação de amizade com o ex-presidente Lula, mas ambos querem conquistar o coração de Dilma para ser o ungido.

• Opção política
Dilma pode fazer escolha política: desde que o sergipano Carlos Ayres Brito se aposentou, o Nordeste é a única região sem ministro no STF.

• Espelho meu
A saída de Joaquim Barbosa do Supremo Tribunal Federal não espanta os leitores desta coluna, que sabem dela desde novembro de 2013.

• Tudo a declarar
Joaquim segredou aos mais íntimos que fora do STF ficará à vontade para atuar “abertamente” e “pesado” na próxima campanha eleitoral.

• Sentimento
Amigos dizem que Joaquim Barbosa sai de cena pensando e falando mal da maioria dos colegas. É plenamente correspondido.

• Campos enfrenta crises nos maiores estados
Na reta final dos acordos para convenções partidárias, o presidenciável Eduardo Campos (PSB) enfrenta crises nos três principais colégios eleitorais do País: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A ex-senadora Marina Silva bate o pé para manter as candidaturas próprias, enquanto o PSB segue sem rumo no Rio e tenta compor a chapa pela reeleição do governador tucano Geraldo Alckmin, em São Paulo.

• Freio de arrumação
Em Minas, o PSB pediu a Marina para enquadrar e retirar até hoje (30) a candidatura de Apollo Heringer, abrindo a vaga para Júlio Delgado.

• Subiu no telhado
Marina já avisou ao PSB que negará apoio a Anthony Garotinho (PR) ao governo do Rio, caso o PROS retire a candidatura de Miro Teixeira.

• Barra brava
Se grevistas, índios de araque e black-blocs não derem conta, restam ainda os torcedores argentinos para ajudar na baderna da Copa.

• Novo escritor
Ao se aposentar, Joaquim Barbosa pretende curtir a Copa do Mundo e depois mergulhar em período de “imersão” para escrever um livro. Como não é conhecido por produzir textos de ficção, será um livro de memórias do seu tempo no STF e do caso do mensalão.

• Meirelles com Aécio
Presidente do Solidariedade, deputado Paulo Pereira da Silva (SP) já se reuniu três vezes com Henrique Meirelles para discutir a hipótese de o ex-presidente do Banco Central virar vice de Aécio Neves (PSDB).

• Otimismo
Adorador de holofotes, o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) não perde a chance de reforçar a quem encontra no Congresso que está de pé sua candidatura à Presidência: “Em um mês, ultrapasso Eduardo Campos”.

• Vulgaridade
O deputado Fernando Ferro (PT-PE) deu força ao amigo Luiz Argôlo (SDD-BA) ao advertir o Conselho de Ética para risco de “vulgaridade”, ao abrir processo contra “qualquer deputado criticado pela mídia”. Na verdade, a PF é que revelou seu envolvimento com o doleiro Youssef.

• Negócio imobiliário
Segundo Luiz Argôlo, sua transação com Alberto Youssef tem a ver com a venda de um terreno no interior da Bahia, pelo qual o doleiro não teria pago. Ele promete provar isso. Até constituiu advogado.

• Hora do basta
Deputados do PMDB estão numa pilha de nervos após o Planalto se negar a pagar R$ 4 milhões em emendas parlamentares, dos R$ 10 milhões prometidos, e só falam em dar o troco na convenção nacional.

• Fim de carreira
Presidente do DEM, Agripino Maia convocou reunião dos 59 membros do partido no RN, segunda (2), para deliberar sobre aceitar, ou não, candidatura à reeleição da mal avaliada governadora Rosalba Ciarlini.

• Teste de ‘Fidelidade’
O presidente da Associação Brasileira dos Terminais Portuários, Wilen Manteli, disse à revista Ports Strategy (EUA) que só em 2015 poderá ser desatado o nó burocrático do governo Dilma privatizando portos. Já a nossa grana para o porto de Mariel, em Cuba, saiu no vapt-vupt.

• Metamorfose ambulante
A vida do deputado Luiz Moura (PT-SP), aquele que se relaciona com bandidos do “PCC”, é bom slogan eleitoral: “Não vote em ladrão, ele pode virar político e vice-versa”.

Panorama político – Ilimar Franco

- O Globo

O governo vai levando
O PR caminha para apoiar a reeleição da presidente Dilma. Candidato a governador, o deputado Garotinho avisa: “O Rio não vai acompanhar a decisão nacional”. Só São Paulo poderia mudar esse rumo. Mas, lá, o partido está próximo ao PMDB. Os que não querem dar o 1’56 de TV para a presidente lamentam a divisão dos seus entre o tucano Aécio Neves e o socialista Eduardo Campos.

O ilusionismo e os fatos
Os eleitores devem desconfiar de candidatos a presidente que têm por hábito excomungar os partidos políticos. Ocorre que todos vão precisar deles para governar. O cientista político Paulo Kramer adverte: “Todos são execrados. Mas não tem jeito. É com esse barro que o presidente eleito vai governar”. Os resultados das eleições no Brasil revelam que é lenta a mudança da correlação de forças no Congresso. A radiografia revela a presença do PMDB no apoio a todos os presidentes eleitos, desde 1994. Kramer sentencia: “No parlamentarismo, a maioria produz o governo; no presidencialismo, o governo produz a maioria”.

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“Sempre haverá partidos à disposição das necessidades de um presidente. Quem não está na base (do governo), quer entrar”
Paulo Kramer, cientista político
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Barganha
Mesmo pautada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), contra a vontade do Planalto, a PEC da Magistratura não deve ser votada. É uma reação contra a decisão do TSE que alterou a composição estadual da Câmara.

Conveniente
O enredo da conversa entre o presidente do PSD, Gilberto Kassab, com Henrique Meirelles talvez nunca seja conhecido. Mas o fato é que com a desistência de Meirelles de disputar o Senado, foi aberta a porta para que Kassab seja o vice do governador Geraldo Alckmin (PSDB). Os tucanos tinham avisado que a vice e o Senado não dava.

O próximo passo
Os tucanos devem oferecer para o presidente estadual do PSB, deputado Márcio França, a candidatura ao Senado (SP). Esses candidatos têm tempo autônomo na TV, mas a lei impede seu uso para pedir votos para Eduardo Campos.

Todo poder ao STF
A declaração de independência do ministro do TCU, José Jorge, pode acabar no STF. A crença no Congresso é de que ele não irá à CPI da Petrobras nem se for convocado. Os ministros do órgão auxiliar do Legislativo se consideram magistrados e, por isso, intocáveis. Os partidos do governo estão decididos a ir para cima e recorrer à Justiça

Sentindo a diferença
Os petistas constataram, em suas próprias pesquisas, que tudo mudou depois que Luiz Fernando Pezão (PMDB) assumiu o governo do Rio. A visibilidade, nesses primeiros dias, fez com que ele dobrasse suas intenções de voto.

Olhos fechados
Os candidatos à Presidência, aos governos, ao Senado, à Câmara e às Assembleias começaram a contratar suas equipes de campanha. A lei não permite que se faça isso agora. Enquanto isso, a Justiça Eleitoral assiste a tudo passivamente.

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A DIREÇÃO NACIONAL DO PSD está sendo exortada a intervir em Alagoas. O partido está com o senador Benedito de Lira (PP). Mas o PMDB o quer

Consumo das famílias recua pela 1ª vez desde 2011, e PIB cresce só 0,2 % de janeiro a março

• Indústria caiu pelo terceiro trimestre consecutivo, segundo o IBGE

• Índice de 2013 foi revisto de 2,3% para 2,5% por causa de nova fórmula de cálculo da produção industrial

• Taxa de poupança também caiu, de 13,7% no ano passado para 12,7% nos primeiros três meses de 2014, menor valor desde 2000

Cassia Almeida, Lucianne Carneiro e Rennan Setti – O Globo

RIO - A economia brasileira cresceu 0,2% entre janeiro e março deste ano, frente ao quarto trimestre de 2013, informou o IBGE nesta sexta-feira. Na comparação com o primeiro trimestre do ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos no país) avançou 1,9%. Em reais, o PIB somou R$ 1,2 trilhão.

O consumo das famílias caiu 0,1% frente ao último trimestre de 2013, pela primeira vez desde o terceiro trimestre de 2011, quando havia encolhido 0,3%. A agropecuária avançou 3,6% na mesma comparação e liderou o crescimento nesse trimestre, favorecida por safras de soja, algodão e arroz. Os três produtos têm perspectiva de crescimento para o ano. A produção de algodão deve avançar 23,5%, enquanto espera-se que a soja avance 6,3% — o cereal foi prejudicado por estiagem no começo deste ano.

Já a indústria caiu 0,8%, no terceiro trimestre consecutivo de recuo. A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), indicador de investimentos, também encolheu: 2,1%. A taxa de investimento alcançou 17,7% do PIB no primeiro trimestre do ano, contra 18,2% no mesmo período do ano passado. A fatia foi a menor desde o primeiro trimestre de 2009, auge da crise global, quando ficara em 17% do PIB.

Essa queda nos investimentos foi a principal influência negativa para o crescimento da economia de 1,9% no primeiro trimestre na comparação com o primeiro trimestre de 2013, segundo Rebeca Palis, gerente da coordenação de contas nacionais do IBGE. Houve recuo da 0,9% da indústria da construção. Já a maior influência positiva foi a expansão de 2% de serviços.

— Quem puxou para baixo foi o investimento — disse Rebeca.

Na indústria, foram responsáveis pela queda de 0,8% na atividade os subsetores de indústria de transformação (redução também de 0,8%) e de construção civil, cujo desempenho foi 2,3% menor que no trimestre anterior. Por outro lado, avançaram os segmentos de extração mineral (0,5%) e eletricidade, gás, aguá e limpeza urbana (1,4%).

Na comparação com os primeiros três meses de 2013, a indústria cresceu. Mas o segmento de transformação permanece com resultado negativo na comparação anual, com queda de 0,5% na atividade por causa de produção menor de veículos, máquinas e aparelhos elétricos, informou o IBGE. A construção civil também recuou nesse tipo de comparação, com queda de 0,9%. Já o segmento extrativo mineral avançou 5,4%.

A taxa de poupança da economia brasileira também caiu, de 13,7% no ano passado para 12,7% nos primeiros três meses de 2014. É o menor valor desde 2000.

O crescimento de 2013 foi revisto de 2,3% para 2,5%. Este é o primeiro anúncio do PIB já com o novo cálculo da Pesquisa Industrial Mensal (PIM), que foi atualizada com a ampliação dos setores e produtos analisados, além do peso de cada um deles no resultado geral. O sistema tinha como base a produção de 1999 — agora, passou a ser o ano de 2010. Com isso, o número total de itens pesquisados subiu de 755 para 805 no cômputo nacional.

Com o recálculo, no primeiro trimestre de 2013, o crescimento foi de 0,4% frente ao trimestre anterior, e não a estagnação que tinha sido divulgada inicialmente. No segundo trimestre, a taxa foi de 1,6%, frente aos 1,8% anteriores. No terceiro trimestre, o recuo do PIB foi de 0,3%, menor que os 0,5% que tinham sido divulgados. No quarto trimestre, a alta foi de 0,4% e não de 0,7%.

O maior impacto ocorreu na indústria de transformação. O crescimento, que tinha sido de 1,9%, passou a ser de 2,7%.

— A indústria de transformação foi a mais afetada pela incorporação da pesquisa da indústria, que mostrou crescimento maior. Pela ótica da demanda, o consumo das famílias cresceu. É preciso lembrar que a indústria de bens de consumo foi a que mais avançou na produção — afirmou Rebeca.

O consumo das famílias passou de 2,3% para 2,6% em 2013.

A partir do primeiro trimestre do ano que vem, o IBGE também deverá apresentar o recálculo da nova base para os dados anuais até 2012, o que deve gerar nova rodada de revisões nos trimestres. A nova Pesquisa da Industrial Mensal de Produção Física (PIM-PF) passará a trazer uma nova amostra, embora não tenha mudança da metodologia. Entram na lista 944 produtos, contra 830 presentes na antiga lista. As unidades locais dobrarão para 7.800.

Investimentos
Com a revisão, o investimento medido pela formação bruta de capital fixo teve o desempenho revisado para 2013 de 6,3% para 5,2%. A diminuição foi causada pelas revisões negativas nos dados de indústria de bens de capital (máquinas e equipamentos para a produção) e na construção civil, de 1,9% para 1,6%.

— O que importa é que, apesar das revisões, as explicações para o desempenho da economia em 2013 não mudaram em nada. Continuamos vendo o o investimento crescer mais que o resto e a contribuição negativa do comércio exterior, com importação mais forte que exportação — disse Rebeca.

Maria Rita - Samba Meu / O Homem Falou / Tá Perdoado

Carlos Drummond de Andrade: Tarde de maio

Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de
seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não-perceptível, e tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh’alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e passa…
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.

Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.

E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.

Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita sem máscaras?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.