domingo, 5 de maio de 2024

Vinicius Torres Freire - O clima no Brasil é de morte

Folha de S. Paulo

Estudo lembra como a selvageria parlamentar, administrativa e ambiental mata muito

O governo tem um "Atlas Digital de Desastres", com números de mortes e prejuízos por desastres chamados de "naturais", similares e conexos, de 1991 a 2022.

O pior ano teria sido 2011, quando 957 pessoas perderam a vida, 955 delas por causa de "chuvas intensas", com 553 mil desabrigados e desalojados. A maioria morreu em Nova Friburgo (420), Teresópolis (355) e Petrópolis (71), na serra do Rio de Janeiro. Em 2022, foram-se 397 pessoas, 395 por "chuvas intensas".

Entendidos acham que os dados são subestimados, bidu. A subestimação maior, porém, deve ocorrer porque morre muito mais gente pelo efeito difuso da combinação de ruína climática com a incompetência e a crueldade nacionais.

Hélio Schwartsman - Hegelianos de Ohio

Folha de S. Paulo

Livro mostra como pensadores alemães influenciaram abolicionistas dos EUA

No Reino Unido, os religiosos desempenharam um papel importante na luta contra a escravidão. Nos EUA, não. Ou melhor, houve um primeiro pico de circulação de ideias abolicionistas, ainda no século 18, para o qual grupos religiosos como os quakers contribuíram, mas o movimento não foi para a frente e a religião acabou se tornando no século 19 uma força majoritariamente pró-escravidão. Pior, os donos de escravos religiosos eram, nas palavras do abolicionista Frederick Douglass, ele próprio um ex-escravo, muito piores que os menos religiosos. Por que a diferença?

Poesia | Sete belíssimos poemas sobre a lua

 

Música | Zeca Pagodinho e vários artistas - Camarão que dorme a onda leva

 

sábado, 4 de maio de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Protestos nos EUA revelam inépcia das universidades

O Globo

Instituições se mostram incapazes de combater antissemitismo e de proteger direito dos alunos à manifestação

A onda de protestos contra Israel que tomou conta das universidades americanas revela a incapacidade dessas instituições para lidar com o conflito entre dois valores essenciais ao mundo acadêmico: a proteção às minorias e a liberdade de expressão. Manifestações e acampamentos pró-Palestina têm sido alvo de ações policiais que já resultaram em mais de 2 mil prisões. A repressão se espalhou de Nova York a Los Angeles, de Portland a Nova Orleans, a ponto de o presidente Joe Biden, alvo dos manifestantes pelo apoio a Israel depois dos ataques do grupo terrorista Hamas, afirmar que os americanos têm “direito de protestar, mas não a causar o caos”.

É importante lembrar que, nos Estados Unidos, vigoram leis mais elásticas sobre liberdade de expressão que nos países europeus ou no Brasil. Lá, manifestações de racismo, nazismo ou antissemitismo são legais, desde que não representem ameaça imediata de dano físico e que não se dirijam contra alvos específicos. Mas diversas manifestações ultrapassaram até esse limite, com invasão de prédios e acampamentos, em violação das normas universitárias, distúrbios à circulação e à ordem. “Destruir propriedade não é protesto pacífico. É contra a lei”, disse Biden. “Vandalismo, invasão, quebrar janelas, fechar o campus e forçar o cancelamento de aulas e cerimônias de graduação, nada disso é protesto pacífico. Ameaçar, intimidar, instilar medo não é protesto pacífico. É contra a lei. Dissenso é essencial à democracia, mas dissenso não pode levar à desordem.”

Oscar Vilhena Vieira – Muralhas do Supremo

Folha de S. Paulo

Corte demonstrou ser trincheira relevante na defesa da democracia

Recente pesquisa sobre confiança no Judiciário, realizada pela Atlas-Jota, aponta que cerca de 50% dos entrevistados não confiam no trabalho dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O cenário desperta preocupação, mas não surpresa, em face do papel central ocupado pelo tribunal num contexto de forte polarização e turbulência política em que o pais imergiu na última década.

Para que o leitor tenha clareza sobre a clivagem que separa os eleitores brasileiros, basta destacar que 90,4% dos que declaram ter votado em Jair Bolsonaro não confim no Supremo, enquanto 90,5% dos que declararam voto em Lula dizem confiar na corte.

Ao receber a responsabilidade de decidir sobre questões controvertidas de natureza moral, política e mesmo econômica, que os órgãos de representação política não foram capazes de dirimir, tribunais constitucionais assumem os custos políticos dessas decisões, angariando a desconfiança daqueles que se sentiram contrariados pelas suas decisões.

Pablo Orlellado - O caráter golpista do 8 de Janeiro

O Globo

Não foi apenas uma manifestação pacífica de senhorinhas patriotas

Existe uma aparente contradição capturada por uma pesquisa do Datafolha de março deste ano. A maioria dos brasileiros considera que o ex-presidente Bolsonaro tentou dar um golpe de Estado. Porém também acha que o 8 de Janeiro não foi golpe de Estado, mas apenas vandalismo.

Nos dias 19 e 20 de março, a pesquisa perguntou se os entrevistados consideravam o 8 de Janeiro golpe ou vandalismo. Maioria expressiva de dois terços (65%) acha que se tratou apenas de vandalismo, e apenas o outro terço (30%) que foi golpe. Até entre os eleitores de Lula, 52% consideram que a invasão dos três Poderes foi só vandalismo. Na mesma pesquisa, porém, 55% acreditam que Bolsonaro tentou se manter no poder por meio de um golpe. Como é possível que o Brasil acredite que Bolsonaro é golpista, mas que o 8 de Janeiro não foi golpe ou parte de um golpe?

Dora Kramer - Às favas com a Carta

Folha de S. Paulo

Os Poderes se atritam no Brasil, e os poderosos confraternizam sob sigilo no exterior

Vejam como são as coisas: os Poderes da República se atritam no Brasil de modo transparente enquanto os poderosos confraternizam no exterior em ambiente de obscuridade nada republicana.

Isso sob a égide do sigilo quanto a quem paga, por que paga e a quais propósitos atendem os patrocinadores de convescotes no circuito Londres-Paris-Nova York-Madri-Lisboa.

Alega-se, para tal, a necessidade de estreitar relações entre os setores público e privado, mas não se faz isso por aqui mesmo ou em cenários menos propícios ao deleite dos participantes.

Carlos Alberto Sardenberg - Sobre democracia e mandar

O Globo

Quem manda acha que pode fazer o que criticava quando era oposição. A fala de Lula no Dia do Trabalho cai nessa categoria

Topo com o Millôr. Democracia, diz, é quando eu mando em você; ditadura é quando você manda em mim. Ainda pergunto:

— Vale para qual época?

— É universal.

Mas, se fosse preciso escolher uma só época, esta nossa cairia bem. Ampliando o sentido da frase: quem manda acha que pode fazer exatamente o que criticava quando era oposição.

Cai nessa categoria a fala de Lula no comício do Dia do Trabalho, quando pediu votos para Boulos, candidato a prefeito de São Paulo. Pela lei eleitoral, só poderia fazer isso — pedir voto — uma vez iniciada oficialmente a campanha, segundo as normas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Como ainda não começou, poderia, digamos, aparecer abraçado a Boulos, sem falar nada. A pena por falar é mixaria. No máximo, de R$ 25 mil. Logo, vale a pena. Todo mundo está falando do episódio, inclusive nós aqui.

Hélio Schwartsman - Vontade de punir

Folha de S. Paulo

Esquerda aceita ideia de que menores sejam tratados de modo menos rigoroso desde que delito não integre sua lista de crimes favoritos

A esquerda precisa definir aquilo em que acredita. Quando um bolsonarista fala em reduzir a maioridade penal, a esquerda, com razão, rejeita a proposta. E o faz com base na ideia de que crianças e adolescentes, por serem sujeitos em formação, devem receber da Justiça um tratamento menos rigoroso que o dispensado a adultos. Daí não decorre que jovens não devem responder por ilícitos ou violações éticas que cometam, mas apenas que as sanções tenham caráter mais educativo do que retributivo.

Alvaro Costa e Silva – Quem é vivo sempre aparece

Folha de S. Paulo

Além de usar a filha para influir no Congresso, indica aliados na Prefeitura do Rio

O ditado é antigo, mas infalível: quem é vivo sempre aparece. Ainda mais quando o vivente –que está mais para assombração– se chama Eduardo Cunha.

O ex-deputado presidiário tem longa familiaridade com as altas rodas do poder desde a época em que se tornou o todo-poderoso presidente da Telerj e usou o cargo para mexer os pauzinhos e construir sua carreira. No fim dos anos 1980, ajudou a campanha presidencial de Collor e a fortalecer o inexpressivo PRN no Rio de Janeiro. Acabou envolvido no escândalo das contas fantasmas de PC Farias. Sempre conspirando e fazendo alianças secretas, foi a figura determinante no processo de impeachment de Dilma e na posse do vice, Temer. "Que Deus tenha misericórdia dessa nação" –quem não se lembra da frase?

Eduardo Affonso - Lady Madonna

O Globo

Na contramão do identitarismo, a cantora não vitimizou mulheres, pretos, gays, latinos. Preferiu celebrá-los

Deve ter havido algum fenômeno paranormal entre junho e agosto de 1958. No intervalo de menos de três meses, nasceram Prince, Madonna e Michael Jackson. É difícil que pelo menos um deles não esteja na trilha sonora da vida de qualquer sessentão.

Prince mudou de nome, Michael mudou de cor, e a material girl se tornou mãe de seis filhos (quatro adotados na África). Em algum momento, nesses 65 anos, o Brasil esteve no meio de seu caminho.

Prince abriu show de Alceu Valença no Maracanã (era o Rock in Rio, e ele preferiu não ser a última atração da noite). Cantou que nada se comparava a nós. Michael subiu o Morro Dona Marta (onde há uma estátua horrenda, em homenagem) e desceu o Pelourinho com o Olodum, cantando que eles não ligam para nós. A única sobrevivente da trinca estará hoje, no Rio, diante de 1,5 milhão de pessoas, mostrando que não liga para o peso de 40 anos de carreira — e que poucos artistas se comparam a ela.

Demétrio Magnoli - O ópio dos estudantes

Folha de S. Paulo

Tese 'decolonial' espalhou-se entre professores universitários e salas de aula

"O Ópio dos Intelectuais", obra do filósofo Raymond Aron publicada em 1955, referia-se ao marxismo e brincava com a caracterização da religião, por Karl Marx, como o "ópio do povo". A religião laica dos intelectuais fez seu caminho até os estudantes e, bem diluída nos líquidos do pacifismo e do terceiro-mundismo, deixou uma marca nas manifestações contra a Guerra do Vietnã. De lá para cá, porém, foi substituída por outra doutrina dogmática: a tese "decolonial".

Assim como o marxismo, a nova doutrina espalhou-se entre professores universitários, gotejou para as salas de aula e, finalmente, emergiu no palco das manifestações contra a guerra em Gaza nos campi dos EUA. Sua síntese aparece num cartaz exposto no acampamento de protesto da Universidade George Washington: "Palestina livre. Os estudantes voltarão para casa quando os israelenses voltarem para a Europa, os EUA etc (seus lares verdadeiros)".

Bolívar Lamounier - Reflexões à margem de uma crise anunciada

O Estado de S. Paulo

Não estranha havermos chegado a uma estrutura disfuncional, incompatível com uma boa gestão das contas públicas e irrelevante na função de representar os cidadãos

O Brasil nunca teve, não tem e nada sugere que venha a ter uma estrutura de partidos consistente e confiável. Acrescente-se que, na situação em que nos encontramos, é imperativo contextualizar essa questão no quadro da séria crise com que nos iremos deparar num horizonte de 15 ou 20 anos. Comecemos, então, pelos partidos políticos. Aqui, o que interessa não é o simples número de siglas, mas esse número ponderado pelo número de assentos que cada uma delas detém na Câmara federal. É sabido que nossos maiores partidos nunca ultrapassam 20% do número de assentos. Desse ponto de vista, estamos tratando do grau de fragmentação da estrutura partidária, e ninguém contesta que a nossa é uma das mais fragmentadas do mundo. Daí decorre que o Executivo só consegue o apoio da maioria recorrendo deslavadamente ao clientelismo e ao contorcionismo fiscal para fechar anualmente as contas públicas.

Miguel Reale Júnior - Punitivismo eleitoreiro

O Estado de S. Paulo

O obscurantismo prevalece para alimentar o discurso de palanque visando a contentar a população crédula em soluções fáceis

A guerra contra as drogas foi declarada por Richard Nixon em 1971 e reiterada pelos governos que o sucederam. A ONU, por influência norte-americana, editou a Convenção de Viena de 1988, na qual se consagrou a war on drugs, com exigência de punições graves aos usuários.

Nessa época, eu presidia o Conselho Federal de Entorpecentes, contando com conselheiros do nível de Elisaldo Carlini, Sérgio Paula Ramos e Miguel Jorge. O conselho, ao qual então cabia editar a lista de substâncias estupefacientes, decidiu não incluir como entorpecente o chá do Santo Daime, ou ayahuasca, pois, malgrado fosse um alucinógeno, seu uso era limitado e ligado à prática religiosa. A incriminação apenas criaria o comércio clandestino e a tentação do proibido. Estávamos certos. O uso do chá cumpre, até hoje, seu ritual espiritual, de forma restrita.

Luiz Gonzaga Belluzzo - Dúvidas do espírito de porco

CartaCapital

Será que não há um pouco de precipitação nas conclusões irrefutáveis dos economistas sobre seus modelos?

Na edição de 29 de abril, em sua Página de Rosto (assim falavam os da antiga), o Estadão estampou a manchete: “Piora fiscal e cenário externo põem em xeque previsão de taxa de juros com um dígito”.

Essa advertência foi precedida, e segue acompanhada, por incisivos editoriais que fincam o pé na condenação dos gastos do governo, apresentados como a origem dos males que afligem a economia brasileira.

Em contundente editorial, a Folha de S.Paulo proclama: “Economia oscila entre o medíocre e o arriscado. Relaxamento de meta fiscal confirma recusa de Lula em rever gastos, o que limita expansão do PIB e torna País vulnerável. O afrouxamento precoce das metas para os resultados das contas do Tesouro Nacional não surpreendeu ninguém. Na verdade, nem mesmo se acredita que as novas metas serão cumpridas”.

Marcus Pestana - Traduzindo o desafio fiscal em miúdos (II)

Na última semana, chamamos a atenção sobre a barreira quase intransponível erguida pela linguagem técnica entre o cidadão leigo e os economistas. A economia faz parte do cotidiano da população. As decisões econômicas repercutem na vida de todos. No fundo, trabalhadoras e trabalhadores, donas de casa e chefes de família, entendem conceitos tais como receita, despesa, déficit, inflação, juros e dívida, pois lidam com o orçamento familiar.

No último artigo, ficou claro que receita é receita, despesa é despesa, independentemente de sua natureza, qualidade ou classificação contábil. As receitas podem ser correntes, como a dos impostos, taxas, contribuições, participações, ou de capital, como a oriunda da venda de uma estatal ou de uma operação de crédito. As despesas podem financiar o custeio (salários, previdência, benefícios, bens de consumo, etc.), investimentos (obras e equipamentos) ou, ainda, o pagamento de parcelas e juros da dívida. Os gastos podem ter boa qualidade como quando bancam a qualidade da educação, o acesso a saúde, o Bolsa Família ou uma estrada necessária. Mas podem ser ruins quando direcionados a sustentar privilégios e obras faraônicas não prioritárias ou vão pelo ralo da corrupção ou do desperdício. Mas bons ou ruins, para custeio ou investimento, gasto é gasto. 

Cláudio Carraly* - Construindo Resiliência: Desafios e Estratégias Diante dos Eventos Climáticos Extremos

A crescente instabilidade climática lança uma sombra cada vez mais ameaçadora sobre o destino da humanidade, eventos climáticos extremos, outrora raros e excepcionais, agora são assustadoramente comuns. Inundações avassaladoras, secas prolongadas, tornados devastadores e ondas de calor insuportáveis assolam comunidades em todo o mundo, inclusive e crescentemente no Brasil. Nossa diversidade climática e a vasta extensão territorial do país não o imunizam contra a fúria da natureza, inundações recorrentes, secas intermináveis e ondas de calor extremo em todo o território nacional servem como um lembrete cruel da vulnerabilidade da nação diante dos caprichos do clima.

O Brasil enfrenta desafios monumentais diante das crescentes mudanças climáticas globais, para responder de forma eficaz a esses desafios, é imperativo adotar uma abordagem abrangente e multifacetada que não apenas mitigue os impactos adversos, mas também promova a resiliência e a sustentabilidade a longo prazo, pois o problema veio para ficar. Uma parte essencial dessa resposta envolve o compromisso com o financiamento adequado e a alocação inteligente de recursos, é fundamental que os governos em todos seus níveis, estabeleçam políticas claras de financiamento sob o prisma climático, garantindo que os recursos necessários estejam disponíveis para implementar medidas de adaptação e mitigação em todas cidades mais vulneráveis do país, além disso a mobilização de financiamento internacional, bem como a exploração de instrumentos financeiros inovadores, como títulos verdes e fundos de resiliência climática.

Poesia | Caso Pluvioso, de Carlos Drummond de Andrade (Por Paulo Autran

 

Música | Paulinho da Viola - Sei Lá, Mangueira

 

sexta-feira, 3 de maio de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Falta planejamento para enfrentar a tragédia das chuvas

O Globo

Dificuldade de prever o impacto de eventos climáticos extremos justifica precaução maior, não o despreparo

Oito meses depois das enchentes que arrasaram cidades do Vale do Taquari, em setembro do ano passado, provocando a morte de pelo menos 50 pessoas, o Rio Grande do Sul se vê novamente às voltas com os efeitos de eventos climáticos extremos. Com cerca de 150 municípios afetados por inundações, o governador Eduardo Leite (PSDB) declarou estado de calamidade pública na última quarta-feira. As imagens de pontes, estradas e casas destruídas pela força das águas não deixam dúvidas sobre a gravidade da tragédia, que já deixou pelo menos 32 mortos e 60 desaparecidos.

Era, como costuma ser em casos assim, impossível prever os efeitos das tempestades. Embora existisse previsão de chuvas fortes para o Sul do país, não havia como saber exatamente as áreas que seriam afetadas nem o impacto sobre a população. Por isso mesmo, era preciso estar preparado. A dificuldade de prever uma tragédia é motivo para adotar precauções maiores, não para o descaso e o despreparo. Eventos dessa natureza têm se tornado — e se tornarão — cada vez mais frequentes e intensos em consequência das mudanças climáticas.

Fernando Abrucio* - Municípios no centro do debate

Valor Econômico

O pleito de outubro deveria ser centrado na discussão da melhoria das condições locais de vida da população

As eleições municipais constituem um momento especial da democracia brasileira porque os governos locais tornaram-se, a partir de 1988, fundamentais para a vida dos cidadãos. As principais políticas de saúde, educação, assistência social e transporte público passam pelos prefeitos e vereadores, bem como as decisões sobre a organização das cidades onde moramos. O país teria, então, de se preparar para discutir exaustivamente essas temáticas até outubro. Só que uma parcela da classe política tem escolhido caminhos que dificultam um debate sólido sobre que tipo de municípios queremos ter depois de 2024.

É possível elencar quatro aspectos que dificultam colocar os municípios e seus desafios no centro do debate das eleições de outubro. O primeiro deles é o crescimento do peso da lógica parlamentar emendista sobre a vida política local. Houve aqui não somente uma elevação das emendas cujo gasto é impositivo, hoje numa faixa próxima dos R$ 50 bilhões. Também ocorreu uma transformação na forma como podem ser transferidos os recursos, especialmente por meio das chamadas “emendas Pix”, que caem direto no caixa das prefeituras.

Aparentemente, tudo isso é muito bom, porque mais recursos chegam aos governos locais. Porém, esse processo é feito de um modo que cria uma dependência dos municípios em relação aos senadores e, principalmente, deputados federais. Muitas das mudanças feitas nos últimos 30 anos no federalismo brasileiro foram na direção do aumento da autonomia municipal, e o emendismo vigente é um retrocesso neste processo. Claro que parlamentares federais (e estaduais, também cada vez mais emendistas) são eleitos tanto quanto os prefeitos e vereadores. Contudo, deveria ser dado um poder maior a quem apresenta um plano de governo para o conjunto da cidade e ganha a legitimidade popular para executá-lo para o conjunto do eleitorado local.

José de Souza Martins* - Incertezas da crise brasileira

Valor Econômico

Um sinal preocupante de nossa ruína é a persistência de um Brasil bipolar, que estreita nossas alternativas sem abrir-nos a possibilidade de superação democrática de nossas limitações

O que nos espera lá adiante na história social e política? Tudo indica que, em comparação com o que fomos e com as certezas que já tivemos do que poderíamos ser, nosso lá adiante será a confirmação de uma opção preferencial pelo atraso. Uma opção acidental, por ação e omissão, aos trancos e barrancos de uma história política sem a nervura própria de partidos doutrinários. Em que mais teve voz a incompetência e o oportunismo do que a consciência política propriamente dita.

Essa anomalia chegou ao auge no governo de 2019 a 2022, em que o Brasil foi capturado por um êmulo do Chacrinha, que iniciava seus programas de TV com a advertência: “Vim para confundir”, por meio do desmonte do nosso modesto patrimônio de conquistas democráticas.

Alguns episódios dramáticos de nossa história revelam todo seu sentido nesta atualidade de incertezas. Quando começou nossa decadência? Quando começou o fim de nossa confiança em nós mesmos? Um sinal preocupante de nossa ruína é a persistência de um Brasil bipolar, que estreita nossas alternativas sem abrir-nos a possibilidade de superação democrática de nossas limitações.

César Felício - Terreno hostil para Lula na galera dos aplicativos

Valor Econômico

É tudo muito novo e a polêmica existe no mundo inteiro; manual de representação sindical antigo não se aplica aqui

Se há uma brecha no eleitor potencialmente bolsonarista em que o lulismo se empenha em tentar entrar é o do universo dos motoristas de aplicativos. Não tem tido muito sucesso: depois de um ano de negociações, o governo conseguiu apresentar uma proposta de regulamentação do trabalho de transporte de passageiros, mas não obteve um mínimo consenso necessário para mandar um projeto em relação aos entregadores.

E o jogo está travado em relação ao que foi enviado ao Congresso. O governo deparou-se com uma oposição parlamentar azeitada e com a constatação que tem muitos grupos organizados de motoristas de Uber que não se sentem representados pelos sindicatos que negociaram a proposta. A urgência regimental na Câmara que o projeto teve que ser retirada.

Vera Magalhães - Lula o risco do 'datapovo' precoce

O Globo
Presidente precipita desnecessariamente competição com Bolsonaro pelo posto de melhor padrinho eleitoral

Lula não conseguiu esconder a irritação por ter sido levado a uma roubada. Se ele próprio advertira, como discursou, que o evento do 1º de Maio seria esvaziado, por que aceitou participar? Se reconhece que havia pouco a anunciar, de novo, por que dar essa sopa ao azar? E, por fim, diante do cenário adverso, a cereja do bolo foi pedir voto para Guilherme Boulos e sair do ato com uma multa por propaganda eleitoral antecipada espetada na conta. Desastre total.

O presidente da República ainda tem dois anos e cinco meses de mandato até a eleição. A pior cilada em que pode cair é começar a disputar público, se lançar no “datapovo” com Jair Bolsonaro. A começar porque o antagonista está inelegível. Ao cair nessa esparrela, Lula prorroga e amplifica o prestígio do adversário como cabo eleitoral e a campanha que o ex-presidente e aliados já empreendem no sentido de causar uma comoção popular pela reabilitação eleitoral.

As aglomerações que Bolsonaro provoca nos aeroportos e eventos que convoca, sabe-se desde 2017, são obtidas à custa de uma diligente mobilização digital, empresarial e logística. Têm, claro, um componente orgânico, como evidenciam as pesquisas de apoio ao ex-presidente, mas também grandes doses de arregimentação minuciosamente cuidada.

Bernardo Mello Franco – A punição que compensa

O Globo

Lula usou o Dia do Trabalho para alavancar a candidatura de Guilherme Boulos em São Paulo. “Vou fazer um apelo: cada pessoa que votou no Lula em 1989, em 1994, em 1998, em 2002 (...) tem que votar no Boulos para prefeito”, discursou, no palanque das centrais sindicais.

A legislação eleitoral afirma que só é permitido fazer campanha após 15 de agosto. Ao pedir votos para o aliado, o presidente cometeu uma infração à luz do dia. Não é possível absolvê-lo por inexperiência.

Lula poderia encher um álbum com as multas que já recebeu da Justiça por campanha antecipada. Ora para si mesmo, ora para aliados, como Dilma Rousseff e Fernando Haddad. Nada indica que a coleção vá parar por aqui.

A reincidência não o faz muito diferente dos adversários. De Jair Bolsonaro a José Serra, quase todos já foram punidos pelo mesmo motivo. São beneficiados por uma legislação inócua, que serve como incentivo a quem quiser descumpri-la.

Hélio Schwartsman - Lula já esteve em melhor forma

Folha de S. Paulo

Gafe política e infração eleitoral marcaram falas do presidente no 1º de Maio

Lula está fora de forma. Em outros tempos, não teria cometido um 1º de Maio como o da última quarta-feira.

O presidente tem não só o direito como o dever de apoiar Guilherme Boulos na disputa pela Prefeitura de São Paulo. Isso é parte de um acordo que ele em nome do PT firmou dois anos atrás, e cumprir acordos é importante na política. O problema é que Lula não é só o comandante do PT. Ele também lidera uma coalizão de governo que reúne mais de uma dezena de partidos. Os três principais postulantes à prefeitura, Boulos (PSOL), Ricardo Nunes (MDB) e Tabata Amaral (PSB), pertencem a legendas que integram essa aliança. O MDB tem três ministérios, e o PSB, dois.

Bruno Boghossian - A farra das emendas vai longe

Folha de S. Paulo

PF mal arranhou a superfície na apuração do descontrole da verba indicada por parlamentares

Em uma semana, Juscelino Filho terá que explicar à PF por que mandou dinheiro público para pavimentar uma estrada que passa por suas propriedades. O ministro também poderá contar aos investigadores sobre sua relação com o empresário Eduardo DP e com uma construtora envolvida em outra obra bancada com emendas parlamentares.

Poucos casos ilustram tão bem a farra da distribuição de verba por indicação de deputados e senadores. Investigações conduzidas pela PF e pela CGU levantaram indícios de que Juscelino não se contentou apenas com os generosos benefícios políticos de mandar uma bolada de emendas para seu reduto eleitoral.

Marcos Augusto Gonçalves - A bronca de Haddad com Pacheco

Folha de S. Paulo

Ministro disse verdades sobre pseudo parlamentarismo e irresponsabilidade da PEC das desonerações

Foram certeiras e contundentes as declarações do ministro da Fazenda, Fernando Haddadem entrevista concedida a Mônica Bergamo nesta Folha. Para reincidir nos anglicismos triunfantes, diria que não poderia concordar mais.

Falo isso com tranquilidade. Não ganho meu croissant com café com leite fazendo press release ou passando pano no governo Lula ou no Supremo. As considerações do ministro acertaram no mérito, tanto em aspectos tópicos, caso da famigerada PEC, quanto em questões de fundo, como o arranjo roto desse pseudo parlamentarismo que vem se desenhando de modo insidioso no sistema presidencialista brasileiro.

No primeiro aspecto, que diz respeito à fragilidade constitucional da emenda, a Advocacia-Geral da União parece, em seu pleito, prenhe de razão –lembrando aqui uma velha expressão citada na letra de "Jorge Maravilha", canção de Chico Buarque, dedicada ao general Ernesto Geisel.

André Roncaglia - No Dia Internacional do Trabalhador, rentismo mostra suas garras

Folha de S. Paulo

Novas tecnologias elevam produtividade mas geram questões sobre desemprego estrutural

O Dia Internacional do Trabalhador é um emblema das lutas históricas por melhores condições de trabalho, dignidade e justiça social: a jornada de trabalho de oito horas, o direito à organização sindical e a valorização do trabalho humano.

Inspirada pela greve iniciada em 1º de maio de 1886 em Chicago, a celebração continua atual e necessária. Nos últimos 30 anos, o poder de barganha dos trabalhadores foi debelado pela globalização, pela precarização e pela automação.

As novas tecnologias (uberização, automação e robotização) aumentam a eficiência produtiva, mas levantam questões sociais e éticas relativas ao desemprego estrutural, à neutralidade racial e de gênero dos algoritmos e à desigualdade de renda. A popularidade da proposta de renda básica universal no Vale do Silício é sintoma deste temor.

Vinicius Torres Freire - Um IBGE do desastre ambiental

Folha de S. Paulo

É preciso criar e escancarar indicadores de como o desastre climático afeta o cotidiano

É difícil associar imediatamente acontecimentos específicos, como a desgraça que se desenrola no Rio Grande do Sul, com a evidente degradação do clima no planeta.

Se por mais não fosse, em muitos casos o morticínio ou a destruição dependem também da falta de planejamento urbano ou econômico e à escancarada e desavergonhada exclusão social.

De qualquer modo, a recorrência dos desastres já demonstrou que aquela história de populações que vivem em "áreas de risco" é mais do que velha e acanhada.

Não há mais "áreas de risco", circunscritas, embora existam buracos do inferno sobre a terra ou sobre a Terra. É claro que os pobres sofrerão e morrerão primeiro, pois vivem naquelas zonas centrais de intersecção de riscos, socioeconômicos e ambientais.

Celso Ming - A economia agora e os riscos do futuro

O Estado de S. Paulo

Quatro meses do ano já se foram e o balanço da economia emite sinais contraditórios. Para o consumidor, que em outubro comparecerá às urnas, a percepção da qualidade de vida parece mais negativa do que positiva.

A atividade econômica vai bem. O PIB avança ao ritmo de 2% ao ano, o que não é pouco, embora o governo Lula aposte em mais do que isso.

Nesta quinta-feira, foi divulgado o Balanço de Pagamentos do primeiro trimestre que registrou déficit de US$ 14,3 bilhões. Em 12 meses, o déficit das transações correntes está nos US$ 32,6 bilhões, o equivalente a 1,5% do PIB, algo mais baixo do que os US$ 49 bilhões de 2023.

Mas este não é, em si mesmo, mau sinal. Mostra que as importações crescem mais do que o esperado, o mesmo acontecendo com as despesas de serviços (transportes, seguros, telecomunicações, viagens), e este é dado adicional de força da atividade econômica.

Eliane Cantanhêde - Lula está fora da realidade

O Estado de S. Paulo

O Primeiro de Maio de 2024 é um marco para o presidente Lula e o PT jamais esquecerem

O presidente Lula deu um mau passo, na verdade um péssimo passo, ao convocar o ato com as centrais sindicais no Primeiro de Maio em São Paulo. Tropeçou na articulação, enfrentou o vexame da falta de gente, descontou o fiasco no ministro Márcio Macedo e atropelou a legislação eleitoral – ou seja, cometeu um crime – ao usar um evento oficial, e ainda por cima com financiamento da Petrobras, para fazer campanha para a candidatura de Guilherme Boulos à Prefeitura da capital.

Tudo errado, mas o mais preocupante é como Lula está fora da realidade, sem compreender que o mundo mudou e o Brasil, o equilíbrio político, as centrais sindicais, a disposição das massas, o PT e o próprio Lula, afinal, também mudaram. Foi-se o tempo em que eles mobilizavam até milhões de pessoas. Foi e continua sendo melancólico, com as fotos na mídia e circulando nas redes bolsonaristas. Lula falando, falando e aquele espaço imenso vazio, com um punhado de gente um tanto perplexa em baixo e Lula tentando disfarçar a irritação, em cima.

Flávio Tavares - As datas que se renovam ou não

O Estado de S. Paulo

Já não vemos grandes concentrações de trabalhadores no Dia do Trabalho, dando a aparência de que tudo está resolvido

Existem datas que não caducam nem se antecipam e, além de tudo, são universais. Uma delas é o Natal, aquele 25 de dezembro que (pelo menos no mundo ocidental) celebra o nascimento do Menino Jesus. Outra, também imprescritível, é o 1.º de Maio, Dia do Trabalho, festejado na quarta-feira passada.

Não se trata de um feriado qualquer. Chamado em alguns países de Dia do Trabalhador, nasceu para comemorar a greve operária de 1886 em Chicago, nos Estados Unidos. Aos olhos de hoje, a exigência dos grevistas era simples: redução da jornada de trabalho para oito horas (que, até então, ia de 12 horas a 16 horas diárias), além da supressão do trabalho infantil e, também, buscando melhor ambiente de trabalho.

Entre nós, no Brasil, o “Dia do Trabalhador” teve seus primórdios em 1917, aqui na cidade de São Paulo, com a greve geral reivindicando a redução da jornada de trabalho para oito horas, ao contrário das 12 horas adotadas como regra naquela época. Houve repressão, sem tiros e com cavalaria nas ruas, mas as fábricas e comércios fecharam.

Laura Karpuska - Asfalto

O Estado de S. Paulo

A cada eleição, obras e serviços públicos são intensificados para cativar eleitores

“Pessoal, nós vamos desviar pela (rua) Bela Cintra, tá?”, avisa o cobrador do 175p10 Metrô Santana-Ana Rosa. Passageiros que acabaram de entrar no ônibus abarrotado reviram os olhos. “É por conta do asfalto do prefeito?”, questiona uma passageira, em tom irônico, segurando duas crianças pequenas pelas mãos. Os outros passageiros dão risada. Um outro aproveita e fala: “Quero ver se o asfalto vai ficar bom”. A gargalhada é geral.

Flávia Oliveira - Efeito Madonna no Rio

O Globo

Show atesta o potencial da cadeia produtiva da cultura na atividade econômica, geração de trabalho e renda

Uma mulher. Uma mulher de 65 anos. Uma artista de fama planetária que, aos 65 anos, 40 de carreira, é capaz de mobilizar para uma solitária apresentação três aviões de carga, 30 caminhões, 270 toneladas de equipamentos, 45 baús de figurinos, estafe de 200 pessoas, 90 quartos de hotel, palco de 812 metros quadrados, três passarelas, 18 torres de som, para receber um público estimado em 1,5 milhão na praia mais famosa do Brasil. A Prefeitura do Rio estima que a passagem de Madonna por Copacabana, amanhã, movimentará R$ 293,4 milhões na economia carioca. Tudo isso num fim de maio, período de baixa temporada turística na Cidade Maravilhosa.

A vinda de Madonna ao Rio para o encerramento de “The celebration tour”, a 12ª turnê mundial da popstar, contém lições em cultura, economia e na área social. Em tempos de etarismo e maus-tratos a idosos, é inspirador ver uma mulher de 65 anos ativa, querida e exibindo vigor físico numa maratona global de mais de 80 shows em sete meses. O Brasil chegou a 2022 com 32,1 milhões de habitantes com 60 anos ou mais; 22,1 milhões com 65 ou mais, segundo o último censo demográfico do IBGE. A proporção de idosos saltou de 10,8% para 15,6% desde 2010.

Luiz Carlos Azedo - Madonna reclama do calor, enquanto gaúchos estão debaixo d'água

Correio Braziliense

"A catástrofe aproximou o presidente da República do governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite, seu provável adversário nas eleições de 2026, que agradeceu o apoio de Lula"

Enquanto a cantora Madonna reclama do forte calor do veranico carioca e seus bailarinos curtem Copacabana e outras praias do Rio de Janeiro, num outono que ontem registrava mais de 37º, no Rio Grande Sul há uma tragédia em decorrência das fortes chuvas, com 29 pessoas mortas e mais de 60 desaparecidas, principalmente na Serra Gaúcha. Foram atingidos 147 municípios, 67 mil pessoas estão desabrigadas e, agora, com o transbordamento do Rio Guaíba, Porto Alegre está sendo inundada.

De pronto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva viajou para o Rio Grande Sul, onde prometeu todo apoio ao governador Eduardo Leite (PSDB) para socorrer os flagelados, que estão sendo removidos das áreas de risco em caminhões, tratadores, barcos e helicópteros. O socorro às vítimas foi muito prejudicado pelo mau tempo.

A Marinha está enviando aeronaves, viaturas e embarcações para atuar em apoio às vítimas. O Exército também reforçou o número de helicópteros com destino ao Sul, que aguardam por condições meteorológicas para pousar em Santa Maria. Mais uma vez, tanto o governo gaúcho como o governo federal não estavam preparados para uma tragédia dessa envergadura.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Os ombros suportam o mundo

 

Música | Marisa Monte | Elegante Amanhecer/A Lenda das Sereias