segunda-feira, 17 de junho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Terceirização pode melhorar gestão escolar em SP

O Globo

Iniciativa do governo paulista não significa ‘privatização’ do ensino e aumentará eficiência administrativa

É acertada a decisão do governo de São Paulo de licitar a prestação de serviços para 33 novas escolas de ensino médio e fundamental II. O sindicato de professores tachou a medida como “privatização” das escolas. Mas evidentemente se trata de um equívoco, já que as atividades de ensino continuarão a cargo do Estado. As empresas privadas apenas construirão as instalações, cuidarão da manutenção e conservação, sem nenhum contato com a área pedagógica das novas unidades.

Os prestadores de serviços assinarão contratos de concessão com duração de 25 anos, período em que certamente os gastos com as escolas serão mais eficientes. A administração privada dessas 33 unidades poderá ter custo mais baixo e obter resultados melhores que nas escolas sob gestão exclusiva da Secretaria de Educação. Outra vantagem é que a concessão, que passa para o setor privado tarefas como limpeza, vigilância, portaria, alimentação ou jardinagem, servirá de parâmetro para o governo avaliar a relação de custo e benefício dos mesmos gastos que realiza nas demais escolas. São apenas 33 estabelecimentos, num estado que tem mais de 5 mil.

Fernando Gabeira - A longa crise brasileira

O Globo

Forças que conduziram a redemocratização não fizeram um exame profundo dos seus erros

Para além das questões cotidianas, de vez em quando me pergunto onde estamos e para onde vamos. E aproveito grande parte do tempo livre para ler sobre o assunto. No momento, leio Peter Turchin, que escreveu um livro chamado “Fim dos tempos: elites, contraelites e o caminho da desintegração política”.

Ufa, só o título já consome parte da energia do leitor. Ele trabalha com uma equipe investigando inúmeros exemplos de História universal, dinastias chinesas, França medieval, tudo isso com o objetivo de explicar a polarização americana e a emergência de Donald Trump.

Turchin e sua equipe usam fórmulas matemáticas, poderosos computadores, mas suas conclusões não impressionam muito meu precário conhecimento empírico. A tese é que o empobrecimento popular é motivo da queda de governos quando está ligado a uma superprodução de elites, estas no sentido econômico, político, cultural, enfim nas suas várias formas. O encontro da insatisfação popular com a frustração de parte da elite que não consegue ascender é a centelha que acende a fogueira.

Miguel de Almeida - O Irã fundamentalista é aqui

O Globo

No espelho, sem maquiagem e com as olheiras matinais, estamos muito mal na foto

Com um pouco de exagero, o conservadorismo brasileiro pode ser equiparado ao fundamentalismo iraniano. Há um tradicional entusiasmo pátrio com as belezas naturais e a simpatia tropical da população. Mas isso soa apenas cosmético. No espelho, sem maquiagem e com as olheiras matinais, estamos muito mal na foto.

Em outra mão, o conservadorismo se reflete nos índices de violência. Os comunicados da ONU, dada nossa diminuta relevância mundial, pouco se referem às chacinas habituais ocorridas nas cidades brasileiras ou no campo e só citam por vezes o trágico extermínio dos povos originários. Reflexo do descaso planetário provocado pela reconhecimento de que o Brasil é de fato um lugar estranho. Haja vista que a extrema direita agora deseja tirar a praia dos pobres. Vai-se o fio dental, e ganha-se um pastor.

Ricardo Henriques - Políticas baseadas em evidências

O Globo

Decisões baseadas apenas na intuição ou em ideologias são perigosas pelo alto risco de ineficácia e por prováveis consequências negativas

O que queremos dizer quando falamos em tomada de decisão baseada em evidências? Com frequência, nada, ou quase nada. O argumento de que políticas públicas precisam ser baseadas nelas é quase consensual, mas torna-se complexo quando questionamos o que cada um entende por evidências, como identificamos as mais robustas e adequadas, ou de que forma devem ser incorporadas nas ações governamentais. E há também o desafio, ainda maior em sociedades democráticas e plurais, de convencer políticos e a população — que possuem visões de mundo distintas e, não raro, opostas — de que determinado caminho é o melhor e mais viável.

Ana Maria Diniz - O futuro possível requer coragem

Valor Econômico

Para o mundo melhorar, temos de evitar que as pessoas sejam seduzidas pelo discurso catastrofista

Há momentos em que é muito importante relembrar a História. Acredito que estamos em um desses momentos. O pessimismo é a grande realidade instalada a nível global. O desânimo e o desalento imperam, e a maioria das pessoas acha que a humanidade está sem rumo. Muitos, inclusive, já jogaram a toalha. Alguns, de tão desiludidos, anseiam pelo fim do mundo. Entre os grupos etários, a juventude é o mais afetado. Uma pesquisa com 10 mil jovens de 10 países publicada no “The Lancet” há um ano e meio revelou que 75% deles achavam o futuro assustador; 56%, que a humanidade estava condenada. Por essa razão, 48% afirmaram que não teriam filhos. O que podemos esperar do futuro se os mais novos, responsáveis por construí-lo, estão totalmente sem esperança? No limite, este pensamento fatalista pode representar um retrocesso civilizatório, ou mesmo o fim dos nossos tempos.

Bruno Carazza - Instituições não bastam se líderes as desrespeitam

Valor Econômico

Roberto Campos Neto coloca em risco a credibilidade do Banco Central ao pensar no seu futuro político

O desenvolvimento econômico e social de uma nação depende das suas instituições. Essa é a principal lição de uma corrente de pensamento econômico que teve suas origens na heterodoxia no início do século XX, com as críticas de Thornstein Veblen ao capitalismo, mas que foi incorporada ao mainstream após os trabalhos de nobéis como Ronald Coase, Douglass North, Elinor Olstrom e Oliver Williamson.

Em comum, institucionalistas de ambas as vertentes acreditam que as “regras do jogo” aprimoram as interações humanas e o funcionamento dos mercados. Baixos custos de transação, previsibilidade econômica e segurança jurídica estimulam o investimento e a produção. Abusos econômicos devem ser combatidos, enquanto a concentração de poder precisa ser contida com instâncias decisórias independentes, transparentes e técnicas.

Alex Ribeiro - Mercado tem que aprender a viver com o BC autônomo

Valor Econômico

É bom que o Copom tenha votos dissidentes e opiniões contrárias, desde que consistentes com o objetivo de cumprir as metas de inflação

Ninguém sabe ao certo qual será a decisão e o placar da reunião desta semana do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, mas falas recentes de seus membros indicam que deve ser algo unânime e conservador.

Isso pode, pelo menos, atenuar o problema mais imediato de falta de confiança sobre o comprometimento com as metas de inflação do Banco Central a partir de janeiro. Mas, no médio e longo prazos, a busca a todo custo do consenso faz mais mal do que bem. O mercado precisa se acostumar com a autonomia do BC.

Entrevista | Renato Casagrande (PSB): ‘Lula precisa de pragmatismo para governar’

Mariana Carneiro / O Estado de S. Paulo

Para governador do ES, agenda de esquerda não serve ao presidente neste momento

“Lula não precisa de uma agenda de esquerda. O presidente tem que ir conduzindo no dia a dia, focando na agenda econômica e nas necessidades do governo”

Governador do Espírito Santo pela terceira vez, Renato Casagrande (PSB) defende que os políticos de esquerda devem buscar o ajuste fiscal como forma de obter “resultados efetivos” na administração pública.

O tema é espinhoso para partidos como o dele e para o PT do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, hoje às voltas com cobranças para entregar um maior equilíbrio nas contas do governo.

Em entrevista ao Estadão,o governador, diz que Lula deve apostar no ajuste como forma de reconquistar aliados que já estiveram no lado dele contra adversários à direita. 

A seguir, os principais trechos:

Diogo Schelp - Prioridades e retrocessos

O Estado de S. Paulo

Política econômica periclitante e retirada de direitos ganham espaço na agenda pública

As prioridades do governo Lula e da oposição empurram o país para retrocessos na economia e nos costumes. É tentador atribuir isso à polarização política, que tem servido como explicação para quase todos os dissabores nacionais.

Na verdade, os tais retrocessos encontram espaço na agenda pública mais pela omissão dos campos políticos opostos do que propriamente pelo confronto. São fruto do fato de que cada lado escolheu um campo de batalha diferente para concentrar seus esforços. A resistência que encontram na linha de frente adversária acaba sendo pequena.

Denis Lerrer Rosenfield - Convívio com a maldade

O Estado de S. Paulo

Anos depois, lendo o jornal, Gabriel terminou por descobrir a identidade de seu potencial ‘sogro’. Era nada mais nada menos do que o comandante dos campos de Treblinka e Sobibor

O pai gostava de contar histórias para sua filha antes de dormir. Se fosse o caso, cantava canções de ninar: uma pessoa normal, plena de dedicação. Tudo aparentemente de acordo com a convivência familiar, como se esse cotidiano fosse a regra, não admitindo nenhuma exceção. No entanto, seu trabalho de policial já tinha sofrido uma grande alteração, tanto em termos financeiros como de prestígio. A partir do momento em que os uniformes pretos da SS passaram a frequentar a sua casa, sua vida já era totalmente outra.

Ascendeu na carreira, exibia uma eficiência acima do comum no genocídio de judeus, homossexuais e ciganos, tendo também se destacado no assassinato de deficientes mentais. Tornou-se, por seus feitos, comandante dos campos de extermínio de Treblinka e Sobibor. Seu nome era Franz Stangl. Mais propriamente poderia ser denominado de especialista no culto da morte e em sua organização em uma máquina de extermínio. No entanto, continuava a ser um pai carinhoso. Nele conviviam a aparente doçura do pai e o monstro, dedicado, em outro sentido, à maldade.

Marcus André Melo - Coalizões e a economia

Folha de S. Paulo

Governos de coalizão geram problemas fiscais e de ingovernabilidade?

Há certa confusão conceitual no debate sobre as consequências de nossos governos de coalizão para a economia e a governabilidade. Entre os cientistas políticos, a ênfase é posta na relação Executivo-Legislativo e a governabilidade. A questão de interesse é a capacidade do Executivo em aprovar sua agenda. Para os economistas, é a de promover o crescimento.

Crises canônicas de governabilidade envolvem presidentes impondo unilateralmente suas agendas a um Legislativo recalcitrante, e deflagrando crises institucionais e intervenções militares.

Lygia Maria - Congresso abjeto

Folha de S. Paulo

Em vez de resolver gargalos no acesso ao aborto legal, Legislativo usa a vida de meninas e mulheres estupradas para barganha política

"Fui estuprada, estou grávida, mas vou esperar alguns meses para fazer um aborto". Para os parlamentares brasileiros é assim que uma mulher que engravidou por violência sexual pensa. Só isso explica a crueldade do projeto de lei que pune o aborto após 22 semanas de gestação como homicídio —mesmo nos casos autorizados, como estupro.

Mas outro fator esclarece melhor o disparate. O presidente da Câmara e aliados resolveram usar a vida de meninas e mulheres como moeda de troca contra o governo, que, por sua vez, lavou as mãos. A insensatez, portanto, ganha ares abjetos.

Ana Cristina Rosa - Como o diabo gosta

Folha de S. Paulo

PL 1904 é demonstração explícita do perigo que é misturar política e fundamentalismo religioso

Um retrocesso civilizatório, uma violência contra as mulheres e uma demonstração explícita do perigo que é misturar política com fundamentalismo religioso.

O projeto de lei de que restringe e criminaliza o aborto legal em casos de estupro é isso tudo e muito mais. Sintetiza o desprezo de uma sociedade machista, racista e patriarcal que desrespeita o feminino.

Estuprar é "constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso" (Código Penal). Sendo assim, toda pessoa está suscetível à violência sexual. Mas só as mulheres sofrem a dor de uma gravidez indesejada resultante de um crime.

Sylvia Colombo – Bananeiras e a América Latina

Folha de S. Paulo

United Fruit Company criou conceito de que países da região são 'repúblicas das bananas'

Houve um tempo em que a United Fruit Company decidia quem morria e quem vivia nas duras vidas que seus trabalhadores enfrentavam nas plantações de frutas na América Latina. Horários de trabalho desregulados, jornadas extenuantes, condições insalubres. Um tempo em que juízes e políticos eram comprados para defender os interesses da empresa em vários países.

A UFC punha e tirava caudilhos do comando dos países cujos mercados queria dominar. Quando havia revoltas de trabalhadores, a empresa intervinha ao lado dos governos para que suas forças de segurança contivessem, muitas vezes com violência, os protestos por melhores salários e condições de vida.

Poesia | O Amor antigo, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Live Solidária RS - Zeca Pagodinho e Xande de Pilares - Zeca tá de Carro e Fuzuê

 

domingo, 16 de junho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Alcance do PCC prova fracasso do Brasil no combate ao crime

O Globo

Expansão da facção revelada pelo GLOBO mostra que passou da hora de o governo federal cumprir seu papel

Em 31 de agosto de 1993, surgia na Casa de Custódia de Taubaté, em São Paulo, a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), criada sob o pretexto de combater a opressão no sistema penitenciário e de evitar massacres como o do Carandiru, que deixara 111 mortos um ano antes. Três décadas depois, o PCC tornou-se uma potência do crime. Domina rotas internacionais do comércio de drogas, controla presídios, influi nos índices de violência e desafia governos, como mostrou a série especial do GLOBO “Multinacional do tráfico”.

O foco no faturamento, especialmente a partir da ascensão do chefão Marcos Willians Herbas Camacho, ou Marcola, rapidamente expôs a realidade da organização criminosa. Nas últimas décadas, o PCC não só consolidou sua hegemonia nos presídios paulistas, como expandiu seus domínios para outros estados e países, despertando a atenção de autoridades internacionais. Em 2021, foi incluído numa lista de bloqueios do Departamento de Tesouro dos Estados Unidos.

Merval Pereira - Imagem congelada

O Globo

O mundo mudou, e Lula não mudou com ele na prática, embora na retórica pareça ter mudado

O sucesso que o presidente Lula faz no exterior justifica suas viagens internacionais, polindo a própria imagem e a do país, que passou quatro anos sendo enxovalhada pelas atitudes radicais e retrógradas do seu antecessor. Mas não tem consequências para as crises de seu governo, onde se vê a cada dia mais impotentes diante do avanço da oposição.

Agora mesmo, na reunião da Organização Internacional do Trabalho (OIT) em Genebra, Lula foi aplaudido de pé ao defender a democracia, e emitiu conceitos estimulantes a seus correligionários de esquerda no mundo, como a direta afirmação contra Elon Musk, ao afirmar que não precisamos buscar em Marte a solução de nossos problemas, é a Terra que precisa de cuidados.

Míriam Leitão - Caixa de horrores de Arthur Lira

O Globo

Matérias retrógradas, destruidoras de direitos, estão sendo aprovadas a toque de caixa na Câmara dos Deputados

A sensação que fica é que há, à disposição do presidente da Câmara dos Deputados, uma caixa de horrores, de onde saem assombrações que ele pode usar na medida da sua conveniência. De lá acaba de sair a urgência para votar uma lei medieval, que retrocede onde deveríamos avançar. Um projeto que, se aprovado, ataca a mulher numa sociedade em que as mulheres se sentem acuadas diante dos números alarmantes de estupros e feminicídios. Uma sociedade na qual tantas meninas são proibidas de viver seu tempo de menina.

Bernardo Mello Franco - Marcha do atraso

O Globo

A bancada fundamentalista terminou a semana com duas vitórias na Câmara. Avançou em pautas que pioram a vida de mulheres estupradas e dependentes químicos.

Em votação relâmpago, os deputados aprovaram a urgência do projeto que restringe o direito ao aborto seguro. A ideia é mandar para a cadeia quem interromper a gravidez após a 22ª semana. Mesmo nas situações em que a lei permite a prática: estupro, risco à vida da mulher ou anencefalia.

Na mesma quarta-feira, a Comissão de Constituição e Justiça aprovou uma proposta de emenda que criminaliza o porte de qualquer quantidade de droga. O texto dificulta a distinção entre usuário e traficante e abre caminho para aumentar o encarceramento de jovens negros e pobres.

Dorrit Harazim - Direito a um futuro

O Globo

Não está claro que pena seria reservada a crianças brasileiras que engravidaram por estupro

Cena modorrenta no plenário da Câmara dos Deputados em Brasília. Grupinhos de parlamentares, alguns sentados, outros de pé, uns de frente e muitos de costas para a mesa presidida pelo chefe da Casa, Arthur Lira. Várias cadeiras vazias. O clipe de 40 segundos começa com Lira entediado consultando o celular. Em seguida, aproxima o microfone e comunica em tom monocórdio:

— Orientação de bancada pelo acordo feito.

A cena modorrenta não se altera. Quem se interessasse em saber o que era pautado leria apenas “discussão e votação de propostas legislativas”.

Lira pausa um pouco, confere a orientação de bancada do PSOL e finaliza assim a banalidade de seu dia:

— Em votação. Aqueles que aprovam a urgência permaneçam como se acham. Aprovada.

Uma voz isolada dizendo “PCdoB contra, presidente”, ainda consegue ser registrada. Com Lira já de pé, um retardatário acrescenta, melancolicamente:

— Presidente, só para registrar a posição contrária do PT também.

Luiz Carlos Azedo - O trauma do aborto é um segredo das famílias brasileiras

Correio Braziliense

"Foi imediata a reação contrária da opinião pública, pelas redes sociais e nas ruas, à tentativa de criminalizar o aborto de crianças vítimas de estupro com penas de até 20 anos", observa o jornalista

Prêmio Nobel de Literatura de 2022, recebido aos 82 anos, a escritora francesa Annie Ernaux tinha 23 anos, em 1963, quando engravidou do namorado. Um relacionamento recente, sem muitas expectativas. Jovem universitária, de repente sua vida virou de ponta-cabeça. Sem poder contar para sua família, que vivia numa pequena cidade conservadora do interior da França, tomou a dramática decisão de fazer um aborto. Seu livro O acontecimento (Fósforo Editora), tradução de Isadora de Araújo Pontes, relata sua difícil e solitária trajetória em busca de um aborto, que à época era ilegal na França.

Annie Ernaux levou 30 anos para relatar essa história, já escritora consagrada, com uma obra literária toda pautada por forte conteúdo autobiográfico. "Faz uma semana que comecei esta narrativa, sem nenhuma certeza de continuá-la. Só queria testar meu desejo de escrever sobre isso", registrou em seu diário. O peso do domínio masculino sobre o corpo feminino transborda no texto, que todo homem deveria ler. "Se eu não relatar essa experiência até o fim, estarei contribuindo para obscurecer a realidade das mulheres e me acomodando do lado da dominação masculina do mundo".

Elio Gaspari - A Super Casa Civil é ilusão

O Globo

Lula e a torcida do Flamengo sempre souberam que a eleição de 2022 produziu um Congresso conservador. Com quase dois anos de governo, entrou no inferno astral das derrotas parlamentares e cada hierarca aponta para um responsável. A raiz dos erros vem de Lula e tem data. Em março de 2023, ele reuniu o Ministério e disse o seguinte:

“É importante que toda e qualquer posição, qualquer genialidade que alguém possa ter, é importante que antes de anunciar faça uma reunião com a Casa Civil para que a Casa Civil discuta com a Presidência da República, para que a gente possa chamar o autor da genialidade e possa anunciar publicamente como se fosse uma coisa do governo.”

Lula achava que esse modelo de administração poderia funcionar e Rui Costa, seu chefe da Casa Civil, acreditou. Pensou até mesmo que poderia filtrar o acesso de ministros ao presidente.

Lourival Sant’Anna - O futuro do centro

O Estado de S. Paulo

Moderados de direita e esquerda ainda predominam na Europa, mas cenário preocupa

O líder de um partido historicamente ligado a Charles de Gaulle, que liderou a resistência contra os nazistas, anuncia apoio ao grupo oriundo do regime nazista na França. Militantes brasileiros que ostentam a bandeira de Israel festejam a vitória da extrema direita francesa, antissemita. A última vez que uma tal confusão de ideias ocorreu, no Entre guerras, floresceram o nazismo e o comunismo.

A Reunião Nacional (RN), de Marine Le Pen, venceu as eleições para o Parlamento Europeu com o dobro da votação do Renascimento, movimento de centro liderado pelo presidente Emmanuel Macron: 31,4% a 14,6%. O partido conservador moderado Os Republicanos obteve apenas 7,25%.

Quando os resultados de boca de urna saíram, na noite de domingo, Macron convocou eleições para 30 de junho e 7 de julho para a Assembleia Nacional. O objetivo de Macron era despertar os franceses para a ameaça extremista e aglutinar as forças moderadas de direita e esquerda em torno do centro.

Eliane Cantanhêde - Reações tímidas e medrosas

O Estado de S. Paulo

Sem rumo e base sólida, governo sofre derrotas e Lula titubeia em temas graves

Governo fraco é alvo fácil de pressões da Câmara, do Senado, do mercado e da opinião pública, e é isso que acontece no terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, que sofre derrotas no Congresso e titubeia em questões de grande relevância, como a equiparação do aborto a homicídio e o veto a delações premiadas de presos. O governo finge que não tem nada a ver com isso, vai, volta e fica no meio do caminho.

Até a reação à devolução da MP sobre PIS/Cofins, para compensar R$ 26 bilhões de perdas com a desoneração da folha de pagamentos, foi tímida, medrosa, com Lula, seus ministros e líderes apoiando a decisão do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, e deixando no sereno o ministro Fernando Haddad. Devolver projetos é quase um tapa na cara, o Planalto ofereceu a outra face.

José Roberto Mendonça de Barros - Um cenário bem mais difícil

O Estado de S. Paulo

Não há o menor sinal de que o presidente Lula irá dar algum apoio ao corte de gastos

Na edição de 19 de maio, escrevi neste espaço que o cenário econômico estava mais difícil, pois, desde a divulgação da inflação americana de março, uma sucessão de eventos reforçou uma perceptível piora das contas fiscais do ano corrente. Isso devido ao início das transferências para o Rio Grande do Sul e à necessidade de cobrir a perda de receita decorrente de duas pautas-bomba nascidas no Congresso: a renovação dos subsídios a 17 setores e a redução das contribuições previdenciárias dos pequenos municípios.

Nesse contexto, foi editada a MP 1.227, que limitava o volume de créditos de PIS/Cofins que as empresas poderiam utilizar, então enviada ao Congresso sem discussão prévia em nenhum fórum.

Celso Ming - Lula e o barranco à frente

O Estado de S. Paulo

Se o motorista não acredita que existe um barranco à frente e insiste em seguir na mesma direção, a trombada fica inevitável. Assim é o governo Lula, que vem trombando insistentemente com o Congresso, com o Supremo, com os governadores, com os evangélicos, com o mercado, com o agronegócio e outros setores importantes da economia, com alas do PT e com ele próprio.

A falha na percepção da existência do barranco começa com a falha do entendimento de que, se é para governar no interesse dos brasileiros, é para levar a sério a natureza de um governo de coalizão.

Grande parte do governo e o próprio presidente Lula agem como se a vitória nas eleições lhes assegurassem o direito de impor as diretrizes do PT que, por si sós, são de economia antiga e confusas.

Marcelo de Azevedo Granato - Crises que separam, crises que irmanam

O Estado de S. Paulo

A todas as nossas diferenças a Constituição atribui igual valor, o que faz de nós pessoas iguais. É essa a mentalidade que deve guiar um esforço de união nacional

Estamos acostumados a falar em crise no Brasil. No governo Dilma Rousseff, a palavra foi associada sobretudo à economia, com suas óbvias repercussões sociais. Dali em diante, porém, a crise mais pronunciada pelos brasileiros é a política. Foi ela que sobressaiu aos abalos provocados pela Operação Lava Jato, pela proeminência das redes sociais, das novas relações de trabalho, da religiosidade na sociedade. Até a pandemia de covid-19 foi transformada em crise política, que serviu, ainda, aos que arquitetaram a devastação da Praça dos Três Poderes em janeiro do ano passado.

Mas a tragédia climática e humanitária que se abateu sobre o Rio Grande do Sul nos expõe a outra crise, bastante diferente. Uma crise em que não se distingue uma pessoa ou um grupo “inimigo”; uma crise a ser combatida através da união dos cidadãos e da solidariedade ao povo gaúcho. Nisso, ela difere da crise política que há anos deforma nossa sociedade, fabricada para produzir desunião e conflito.

Celso Lafer - Sobre a diplomacia do governo Lula

O Estado de S. Paulo

A condução da política externa requer um esforço de sintonia com a sociedade para amainar riscos de polarização interna

Lula da Silva assumiu o seu terceiro mandato com o objetivo de se contrapor ao que foi o peso de passivos diplomáticos oriundos do “negacionismo” circunscrito da visão de mundo do presidente Jair Bolsonaro.

A repercussão internacional da eleição de Lula foi altamente positiva. Foi substanciada pelas suas prévias realizações diplomáticas, a vis atractiva de sua personalidade, seu conhecido interesse pelas relações internacionais, e pela sinalização, inovadora em relação ao Lula I e II, da ênfase que pretende dar ao meio ambiente.

É indiscutível que do ponto de vista quantitativo o Brasil de Lula está de volta ao mundo. É o que atestam suas muitas viagens internacionais, importante presença em reuniões em instâncias multilaterais, plurilaterais e regionais e as não menos numerosas visitas de altas personalidades estrangeiras.

Oscar Vilhena Vieira - A direita parlamentar parece ter perdido sua bússola moral

Folha de S. Paulo

Lira e seus liderados têm de explicar por que tanta violência contra meninas e mulheres

Com o objetivo de adular a extrema direita e constranger o governo, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, facilitou a aprovação de regime de urgência para votação do infame PL 1904/24, que equipara a prática de aborto ao crime de homicídio, mesmo nos casos autorizados por lei, se realizado após 22 duas semanas de gestação.

Conferiu urgência também ao mal dissimulado PL 4372/16, que pretende impedir a homologação de acordos de delação premiada de réus presos.

A movimentação parlamentar causou perplexidade mesmo entre aqueles que não mais se deixam surpreender pela voracidade e soberba do centrão e da extrema direita na promoção de interesses mais mesquinhos e pautas obscurantistas, em detrimento do Brasil.

Celso Rocha de Barros - Malafaia e o aborto

Folha de S. Paulo

Deixem mulheres estupradas fora de maquinações para eleger presidentes da Câmara e Senado

Silas Malafaia é um profissional da sinalização de virtude com o sofrimento alheio. Ficou milionário entregando a seus seguidores certificados de bom comportamento cristão para quem exigir de pequenos grupos excluídos uma aderência à interpretação literal da Bíblia que ninguém, repito, ninguém no cristianismo moderno exige de si mesmo.

Sim, Levítico 18:22 e 20:13 proíbe a homossexualidade, mas também proíbe a cobrança de juros (25:37). O ex-banqueiro Paulo Guedes certamente já violou as disposições do Levítico mais vezes que o mais produtivo dos atores pornôs gays.

Nós, como sociedade, aprendemos que o mercado de crédito é um aliado do crescimento econômico, e aprendemos a respeitar os LGBTs. Nos dois casos, progredimos, e não acho que violamos a essência do evangelho.

O que já era errado na perseguição aos LGBTs cruzou a linha da indecência com o projeto de lei apresentado por Sóstenes Cavalcante, o homem de Malafaia no Congresso, que equipara ao homicídio o aborto realizado após 22 semanas de gestação, veja bem, para os casos em que a lei já permite o aborto, como nos casos de estupro.

Vinicius Torres Freire - O recomeço de Lula 3, a eleição municipal e a ofensiva reacionária

Folha de S. Paulo

Projetos de leis de selvageria social e risco de derrota em outubro dificultam retomada

Não é surpresa que esse Congresso proponha leis contra a civilização e o debate racional de problemas sociais.

Veio o ataque à "saidinha" de presos. Quer inscrever na Constituição o princípio da prisão em massa de quem for pego com droguinhas, uma contribuição para o recrutamento de soldados para as facções do crime, entre outros problemas.

A lei já reacionária sobre a interrupção voluntária da gravidez ("aborto"), piorada na prática por guerrilha jurídica e institucional, pode ficar mais desumana.

Bruno Boghossian - Tática de isolar extrema direita dá sinais de fadiga na Europa

Folha de S. Paulo

Falta de coordenação e mudança na preferência do eleitor abre buracos no chamado cordão sanitário

Por muito tempo, a Europa confiou que um apelo às forças políticas moderadas seria suficiente para isolar a extrema direita. A coalizão entre esquerda e centro-direita para bloquear o Chega em Portugal, a reprovação multipartidária à AfD na Alemanha e a união contra os Le Pen na França são exemplos desse caminho.

A consolidação da ultradireita na paisagem partidária, os ajustes cosméticos feitos por algumas legendas, a simpatia crescente do eleitores e o acovardamento de representantes da direita tradicional, porém, abrem buracos nesse cordão sanitário.

Hélio Schwartsman - Depois da revolução

Folha de S. Paulo

Livro provoca e diverte ao mostrar situações em que consensos da esquerda identitária se tornam meio delirantes

"Morning After the Revolution", de Nellie Bowles, é um livro feito para provocar —e consegue fazer isso.

Antes de continuar, um pouco de contexto. Bowles é uma jornalista que até pouco tempo atrás abraçava de corpo e alma os consensos da esquerda identitária. Apoiava todas as causas gays, feministas e antirracistas e participou de um cancelamento. Bowles, perseguindo um sonho de infância, se tornou repórter do The New York Times. Mas aí veio o amor. Ela se apaixonou por Bari Weiss, que era a colunista de direita do NYT. Bowles, hoje casada com Weiss e já fora do jornal, se tornou crítica de muitas das ideias que antes defendia. Para os que simpatizam com a autora, ela despertou do sonho dogmático; para seus críticos, é uma traidora que produziu uma obra equivocada e desbalanceada.

Muniz Sodré - Degeneração política

Folha de S. Paulo

Sem meias palavras, séria e honesta Maria da Conceição afirmava 'a crise brasileira é política'

Evento: seminário sobre a redemocratização brasileira em Washington, organizado no final dos anos 1980 pela Universidade de Maryland. Numa mesa, Darcy Ribeiro prometia entre jocosa e seriamente que, se o elegessem imperador, resolveria em três meses o problema econômico do Brasil. Maria da Conceição Tavares interrompe: "Não seja leviano, Darcy!" Ele então pergunta que êxito os economistas haviam obtido nos últimos 20 anos. Sempre autoafirmada como séria e honesta, ela responde: "Nenhum!" E contemporiza baixinho que Darcy levantava com verve o problema da decisão política.

Luiz Gonzaga Belluzzo - Querida Ceiça

CartaCapital

Sempre a rever as próprias ideias, nunca a negar o que escreveu

Ainda mergulhado em minhas tristezas e amarguras com a despedida de minha grande companheira de tantas batalhas, vou oferecer ao leitor de ­CartaCapital um perfil mais afetivo do que acadêmico de minha querida amiga Maria da Conceição Tavares.

Na posteridade da animada festa que celebrou seus 80 anos, na alegria que sempre mereceu dos amigos, Ceiça vestiu uma camisa do Vasco e saiu por aí. Foi ao jogo contra a turma da camisa listrada rubro-negra. Acompanhada do filho Bruno e do neto torceu e vibrou na arquibancada. O time do Almirante não fez feio. Empatou jogando de igual para igual com o adversário.

O leitor avisado imagina que, se nos gramados Conceição se conforma com empates, no campo das porfias ­intelectuais e políticas ela não tem piedade dos adversários. Posso garantir: é lenda. Os colegas e alunos que conviveram com a professora sabem que sua inteligência inquieta e irreverente não ataca o interlocutor, mesmo em casos terminais em que o cidadão apresenta graves sintomas de neo­liberalismo ou de esquerdismo infantil.

Poesia | Nudez, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Alceu Valença - Cabelo no pente (Ao vivo na Fundição Progresso)

 

sábado, 15 de junho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ação da PF expõe vulnerabilidade do fundo eleitoral

O Globo

Esquema desbaratado no PROS mostra que exagero na verba para campanhas é incentivo a desvios

A operação deflagrada pela Polícia Federal (PF) para investigar desvios nos fundos eleitoral e partidário nas eleições de 2022 tem efeito pedagógico ao escancarar a incúria cometida com dinheiro público diante do controle tíbio. Agentes cumpriram sete mandados de prisão preventiva e 45 de busca e apreensão em quatro unidades da Federação — São Paulo, Paraná, Goiás e Distrito Federal. O principal alvo foi Eurípedes Gomes Júnior, ex-presidente do PROS, partido incorporado no ano passado ao Solidariedade. Entre os presos, estão um candidato a deputado federal pelo PROS e uma tesoureira do Solidariedade. Eurípedes Júnior estava foragido.

Em Goiânia, os policiais apreenderam um helicóptero avaliado em R$ 2,4 milhões, comprado, segundo as investigações, com recursos dos fundos e destinado ao uso particular de Eurípedes Júnior. Também em Goiás foram apreendidos R$ 26 mil em espécie. A operação tenta bloquear na Justiça R$ 36 milhões e 33 imóveis atribuídos aos acusados. As investigações mostram que o grupo se esbaldou com dinheiro destinado às campanhas. Suspeita-se que Eurípedes Júnior, familiares e amigos tenham usado recursos dos fundos para custear viagens a Dubai, Punta Cana, Miami e Orlando. Para despistar, o grupo usava candidaturas laranjas e superfaturava serviços junto a consultorias. Empresas de fachada eram usadas para lavar o dinheiro. A PF disse ter identificado, por meio de relatórios de inteligência financeira e prestação de contas, indícios de uma organização criminosa criada com o intuito de se apropriar dos valores dos fundos.

Hélio Schwartsman - O que querem os cristãos?

Folha de S. Paulo

Proposta de equiparar pena para o aborto tardio à do homicídio criaria situações absurdas

O sistema político brasileiro estimula parlamentares a posarem para suas bases eleitorais sem se preocupar com a viabilidade ou as consequências das medidas que propõem. Apresentar um projeto de lei contra o aborto é garantia de aplauso no culto de domingo, mas será que nossos valorosos legisladores não deveriam examinar os resultados potenciais de suas ideias?

Qualquer um, cristão ou não cristão, é livre para ver o aborto como uma grave violação moral. Não pretendo demover ninguém dessa posição. Mas será que o remédio para esse dilema é, como determina a atual legislação, colocar na cadeia as mulheres que tentam interromper suas gravidezes? Estamos falando de dezenas ou centenas de milhares de candidatas a presidiárias por ano, muitas das quais com filhos que precisariam ser encaminhados para abrigos enquanto elas cumprem pena. Fazer isso tornaria o país melhor?