O Estado de S. Paulo
Fenômenos climáticos extremos passaram a ser um risco tão ou mais importante do que crises geopolíticas
A forte onda de calor que sufocou a Europa no fim de junho, com temperaturas recordes acima de 40 graus centígrados em vários países do continente, causou a morte de mais de 10 mil pessoas, segundo dados de uma entidade ligada à Organização Mundial da Saúde. Mas, além da tragédia humana, os analistas dizem que fenômenos climáticos extremos passaram a ser um risco macroeconômico tão ou mais importante do que crises geopolíticas.
Com muitos escritórios, fábricas e outros
locais de trabalho sem uma estrutura específica – sistemas de refrigeração –
para lidar com picos de calor, várias empresas tiveram de parar as atividades,
diante do crescente risco de desidratação, insolação e outros danos causados
por temperaturas excessivas.
Enquanto nos Estados Unidos os aparelhos de
ar condicionado chegam a uma média de 90% dos lares e dos locais de trabalho,
na Europa essa taxa é de apenas 19%. Na Alemanha, uma das potências econômicas
do continente, somente 6% dos lares dispõem de arcondicionado.
O impacto negativo sobre a produtividade
afeta, principalmente, setores como construção civil, agricultura, varejo,
hotelaria e restaurantes. A consultoria Oxford Economics calcula que apenas
quatro dias a mais de onda de calor neste ano poderiam reduzir a produtividade
dos trabalhadores naqueles setores em até 0,1 ponto porcentual na Europa
Ocidental.
Um estudo recente da seguradora Allianz
mostrou que as perdas estimadas para o PIB decorrentes de ondas de calor vão de
0,1 ponto porcentual, para a Alemanha, até impressionante 1,4 ponto porcentual
para a Espanha. A média estimada na Europa é de uma perda de 0,5 ponto,
enquanto nos EUA essa perda de PIB é de 0,6 ponto. Conforme a Allianz, um único
dia de calor extremo (com temperatura acima de 32 graus) tem um impacto nas
operações equivalente a uma paralisação de meio dia de greve de funcionários.
Aliás, as maiores economias da Europa poderão sofrer perdas acumuladas entre 5%
e 7% do PIB agregado até 2030.
Sem falar nos gastos mais elevados com
energia elétrica e outros combustíveis para manter os ambientes refrigerados.
Até o fim de 2030, a fatura do clima poderá representar um custo econômico de
US$ 638 bilhões às quatro maiores economias da Europa (Alemanha, França, Itália
e Espanha).
Até o fim do verão, em metade das cidades
europeias, está prevista quebra de recordes de temperatura. De imediato, a
inflação de alimentos poderá ser 0,7 ponto mais alta até 2027, segundo a Oxford
Economics. Ou seja, o termômetro virou um indicador antecedente da economia.

2 comentários:
Excelente. Um assessor do Clinton alertou-o antes das eleições de que o que a decidiria era a economia, cunhando a frase "É a economia, estúpido!". Quando se fala de mudanças climáticas, ainda tem-se o vício de atrelá-las à ecologia. Ao dizer que as mudanças climáticas estão se tornando um fator estratégia de importância geopolítica, o autor repete na verdade a frase do assessor do Clinton: "É a economia, estúpido". Pena que o mundo vá aprendendo tão devagar essa lição.
No século passado, o calor modorrento do verão nos trópicos brasileiros era apontado como uma das causas da "preguiça" dos nossos cidadãos...
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