O Estado de S. Paulo
O telefonema entre Lula e Donald Trump na
sexta-feira confirma o que minhas fontes no governo americano sempre me dizem:
não existe animosidade pessoal do presidente americano para com o brasileiro. E
abre oportunidade no momento em que Trump precisa de boas notícias na política
externa.
Um presidente americano não dedica 1h20 de seu tempo, perto de eleições cruciais para o Congresso, se não tiver interesse em cultivar o relacionamento com um governante estrangeiro. A iniciativa da conversa foi de Lula, e parece ter sido em ambiente de cordialidade.
Quem mudou não foi Trump, mas a estratégia de
Lula. Ele parece ter chegado à conclusão de que um embate com o presidente
americano, que lhe rendeu popularidade no ano passado, pode ser menos
interessante, neste momento de tarifaço contra o Brasil, do que demonstrar
estatura política para falar com Trump, como fez seu adversário Flávio
Bolsonaro em maio ao visitar a Casa Branca.
Lula aparentemente atingiu seu principal
objetivo na conversa: retomar as negociações comerciais, encerradas em julho
com o fim do período de um ano das investigações da Seção 301, que resultaram
em alíquota adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Mas não adianta
retomá-las, se o Brasil não estiver disposto a fazer concessões.
ORDENS. O Escritório do Representante
Comercial dos EUA apenas executa a ordem de Trump de melhorar as condições de
comércio com os parceiros do mundo inteiro. Não é algo dirigido contra o
Brasil. Mas atinge produtos brasileiros em cheio por causa das altas barreiras
protecionistas praticadas pelo País.
Segundo o relato do governo brasileiro, Trump
perguntou sobre o processo eleitoral. Lula defendeu a integridade do sistema de
votação e o presidente americano não fez comentários. Ou seja, mesmo o
interesse de Trump de tracionar a tese de fraude eleitoral que prejudica a
direita não evoluiu para um desgaste entre os presidentes.
A recusa de vistos para funcionários
americanos que pretendiam averiguar o processo eleitoral, combinada com a falta
do agrément para o embaixador Daniel Perez, nomeado por Trump, levou a uma
grave crise diplomática, com a retirada do visto da embaixadora do Brasil em
Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. O assunto nem sequer foi tratado.
Esses atritos diplomáticos não são provocados
por Trump, mas por seu poderoso secretário de Estado, Marco Rubio, hostil a
governos de esquerda da América Latina. Lula criticou a designação do crime
organizado como terrorismo e defendeu a cooperação entre os dois países no seu
combate. Outro tema caro a Trump, que não causou irritação na conversa.

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