O Estado de S. Paulo
Governo federal faz jogo perigoso ao apostar
em crescimento econômico sem sustentabilidade
Não há mágica nem milagre, mas o governo
brasileiro continua apostando em crescimento econômico sem investimento
produtivo, isto é, sem suficiente aplicação de capital em máquinas, equipamentos
e infraestrutura. Não tem faltado investimento financeiro, mas dinheiro
aplicado em papéis, especialmente em títulos de um governo gastador, é muito
menos importante – e muitas vezes inútil – para dinamizar a economia.
Nos primeiros três meses deste ano, os setores público e privado aplicaram em meios físicos de produção apenas 16,5% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo números oficiais. Em nove dos últimos dez anos, o valor investido nesse trimestre ficou abaixo de 18%. A taxa mais alta, 18,4%, foi anotada em 2021. A mais baixa, 14,5%, em 2017, no final de uma crise econômica.
A taxa de 18% é usada frequentemente como
sinal de normalidade por causa da experiência brasileira nas duas ou três
últimas décadas do século passado. Em outras economias emergentes, no entanto,
o investimento em meios físicos de produção igualou e até superou muitas vezes,
no último quarto de século, a taxa de 20%.
Mas crescimento econômico depende também da
aplicação de recursos em educação, em pesquisa e em desenvolvimento
tecnológico. Nessas áreas, especialmente em educação, tem havido avanços no
Brasil, onde o analfabetismo foi quase eliminado e a formação básica se
disseminou. O sucesso da política educacional em áreas nordestinas tem sido
especialmente importante, não só pelos efeitos locais, mas também como exemplo
de eficiência e sinalização de caminhos.
Não bastam, no entanto, casos de sucesso e
avanços estaduais ou regionais. O poder central é muito importante no Brasil,
talvez mais do que em outras federações. Seus erros e acertos podem afetar todo
o País, estimulando ou freando o investimento, favorecendo ou prejudicando o
emprego, proporcionando segurança aos negócios, contribuindo para a
estabilidade ou gerando inflação.
Não basta alardear objetivos sociais e
preocupação com os desfavorecidos, quando suas decisões desarranjam as finanças
públicas e estimulam a alta de juros, prejudicando a atividade empresarial,
agravando a situação dos endividados, dificultando o consumo e aumentando a
insegurança. Não basta, igualmente, anunciar ou mesmo promover ajustes
ocasionais, sem sinalizar, de forma confiável, condições efetivas de
estabilidade. O governo federal tem falhado de forma indisfarçável nesses
pontos.
O poder central acumulou no primeiro semestre
um déficit primário de R$ 92,2 bilhões. Segundo estimativas de mercado
coletadas pelo Banco Central (BC), o resultado poderá melhorar na segunda
metade do ano. Mas o resultado final ainda será um buraco na faixa de R$ 58
bilhões a R$ 59 bilhões, e a dívida bruta poderá chegar a 83% do PIB. Países
desenvolvidos têm dívidas públicas iguais e até superiores ao PIB, mas suas
contas governamentais são financiadas com juros muito menores que os do Brasil,
em condições muito mais favoráveis de credibilidade.
A insegurança em relação às contas públicas
contribui para a manutenção de juros elevados. Depois de alguma redução no
primeiro semestre, a taxa básica, a Selic, ainda está em 14%. Descontada a
inflação, o Brasil funciona com uma taxa real mínima na vizinhança de 9%, muito
superior àquelas observadas no mundo avançado e mesmo em várias economias
emergentes.
Juros elevados dificultam o investimento em
meios de produção e tendem a prejudicar, portanto, o crescimento econômico, a
expansão do emprego e a elevação do bem-estar da maior parte das famílias.
Podem conter a inflação, mas atrapalham os negócios mesmo quando a inflação é
baixa ou simplesmente contida – sem vantagens, portanto, para a saúde da
economia.
Dinheiro caro tem sido há anos um entrave ao
crescimento e à modernização da economia. Governantes têm reclamado e podem
continuar reclamando dos juros altos. Podem também continuar acusando o BC de
prejudicar o País com a política de restrição monetária. Mas cuidar da moeda é
função básica do BC, como podem lembrar seus dirigentes quando criticados por
medidas austeras. Desde sua recuperação, no final do governo da presidente
Dilma Rousseff, essa função, cumprida de forma autônoma, tem funcionado em
benefício da contenção de preços e da segurança econômica.
O presidente Lula protestou muitas vezes
contra decisões do BC. Também deixou clara, em muitas ocasiões, sua tese
favorável ao controle da política monetária pela Presidência da República,
ponto de vista sustentado por vários outros petistas. A rejeição dessa mudança
por importantes forças do mercado – e até do mundo político – tem impedido, em
várias ocasiões, o abandono de uma política voltada para o objetivo oficial do
BC, a combinação da estabilidade monetária com a otimização do emprego. Essa
combinação, no entanto, fica mais complicada quando a articulação de poderes,
em Brasília, sobrepõe interesses políticos imediatos a objetivos nacionais
permanentes, como a preservação da sanidade e das condições de crescimento da
economia.

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