O Globo
O El Niño pode atingir o Brasil em plena
campanha eleitoral, mas candidatos tratam a questão ambiental de forma
superficial
A campanha eleitoral ignora o problema mais urgente da humanidade: a mudança do clima. A emergência climática atinge o mundo, ondas de calor rondam a Europa, o rio Danúbio seca, o Brasil é vulnerável em inúmeros pontos. E deve ser atingido nos próximos meses por eventos extremos do super El Niño. No entanto, tudo se passa como se esse fosse um tema lateral. O candidato Flávio Bolsonaro repete a mesma ideia fixa do pai e ameaça as entidades ambientalistas, alimentando a ideia da conspiração. O presidente Lula apresentou o plano mais robusto dos candidatos, mas fala vagamente sobre o mapa do caminho para a eliminação do combustível fóssil que defendeu na COP30. Também pudera.
A imagem mais emblemática desse começo da
campanha é o presidente Lula de macacão da Petrobras e de mãos sujas de óleo
chamando o petróleo de “passaporte para o futuro”. Ainda não se sabe se a
descoberta de petróleo na Foz do Rio Amazonas será viável. Se for, a produção
começará dentro de sete ou dez anos. Há especialistas alertando sobre os
riscos, outros comemorando. A crítica é que a vida útil do poço Morpho, e de novos
que surgirem, será no tempo em que o mundo precisará abandonar o combustível
fóssil empurrado pelo aumento dos eventos climáticos extremos. Os que são a
favor admitem que o uso do petróleo vai declinar enquanto o poço estiver em
atividade, mas argumentam que daqui a 30 ou 40 anos o mundo ainda estará usando
petróleo e o nosso tem teor menor de CO2.
Se houvesse um debate eleitoral deste nível,
de pró e contra a exploração de petróleo em nova fronteira, ou da viabilidade
de um mapa do caminho da descarbonização, seria excelente. Mas, na verdade, os
documentos de campanha dos candidatos têm propostas rasas ou fazem ameaças a
quem tenta resistir ao avanço da degradação ambiental. O presidente Lula deu
uma declaração que é uma contradição em si mesma, quando disse que o petróleo
na Amazônia era o passaporte para o futuro, mas que ele não desistiria da sua
luta para que “um dia a gente não precise usar o combustível fóssil”.
O programa de Flávio Bolsonaro promete
acelerar o pagamento por serviços ambientais para o produtor que preserva a
vegetação nativa, que passará a ser tratado como “parceiro e não como
suspeito”. O problema dessa ideia é que a lei obriga o proprietário de terra a
manter uma reserva, que varia de tamanho conforme o bioma. Pagá-lo para cumprir
a lei não faz sentido. O programa de Bolsonaro diz que vai exigir transparência
de financiadores e projetos das ONGs que recebam recursos internacionais e
judicializam ações contra a União, “porque onde há dinheiro estrangeiro movendo
decisões sobre o território brasileiro há riscos ao interesse nacional, sobre
os quais o cidadão brasileiro deve estar informado”. O que o passado nos mostra
é que um Bolsonaro no poder significa a deliberada destruição ambiental para
“passar a boiada”.
A verdadeira ameaça ao interesse nacional é o
grau descontrolado de destruição ambiental e não quem se mobiliza e se organiza
para tentar proteger os recursos que sustentam a vida como a água, as matas e o
ar limpo. Alimentar a teoria da conspiração em torno de instituições não governamentais
é velho truque da direita, para encobrir crimes ambientais.
O candidato Romeu Zema fala em atrair
investimento privado para o “monitoramento ambiental”. Se é para substituir o
trabalho público do INPE é uma ameaça. Fora isso já existem instituições não
governamentais processando dados de satélites. O que seria esse investimento
privado?
O candidato Ronaldo Caiado diz em seu
programa que “a política ambiental deixará de ser campo de polarização entre
permissividade e punição indiscriminada”. Com falas assim fingindo ter
propostas equilibradas entre interesses diversos, os candidatos da direita, na
verdade, escondem apoio a projetos concretos, que já tramitam com o objetivo de
desmontar o arcabouço de proteção ambiental do país.
O presidente Lula chega a essa eleição com
números animadores de queda do desmatamento. Tanto o Deter quanto o Prodes
trazem dados provando que o terceiro mandato de Lula levou o desmatamento da
Amazônia ao seu nível mais baixo. E que em outros biomas também há queda das
taxas de destruição. Mas o que preocupa é a ausência de qualquer debate sobre o
tema ambiental e climático que representa para a humanidade nada menos do que
uma ameaça existencial.

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