sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Crise da Casas Bahia será arma eleitoral contra Lula, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Endividamento das famílias atingiu um recorde: 82% dos consumidores disseram ter alguma dívida

“Tá caro, tá caro, a culpa é do Bolsonaro!” foi um dos bordões da campanha do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022, que jogou no colo do presidente Jair Bolsonaro a responsabilidade pelos preços altos. Quatro anos depois, estrategistas do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, afirmam que é hora de revidar. Mais do que corrupção ou segurança pública, a oposição concluiu que o tema central da campanha será o custo de vida, culpa de um governo perdulário.

É nesse contexto que a crise da Casas Bahia, uma das maiores e mais populares varejistas do país, será explorada pela campanha de Flávio como um espelho das famílias brasileiras. Na quarta-feira (19), o candidato do PL gravou um vídeo na porta de uma das lojas da empresa, que aguarda resposta de um pedido de recuperação judicial porque não conseguirá honrar as dívidas com os credores.

Flávio argumentará que, mais do que reflexo dos problemas de empresários brasileiros, a situação da varejista é a realidade das famílias: todos vítimas da escalada da dívida pública, que leva aos juros altos, que, por sua vez, acarretam o endividamento e a inadimplência da população. O vídeo será usado na propaganda eleitoral e veiculado à exaustão nas redes sociais.

A referência à varejista parece uma estratégia coordenada da oposição. Na quinta-feira (20), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição, citou a situação da Casas Bahia como exemplo dos problemas enfrentados pelos empresários no país, e cobrou um ajuste fiscal sério. “Olha a situação do empreendedor brasileiro, que luta com o vento contra, que faz o possível para sobreviver, que sofre com taxa de juros”, criticou, na sabatina do Valor, O Globo e CBN.

Um dos coordenadores da campanha de Flávio explicou à coluna que não serão necessários malabarismos ou artifícios para atacar o adversário. “É só narrar o Brasil real. O brasileiro está endividado porque o governo se endivida”, resumiu.

Ele cita cerca de 83 milhões de brasileiros endividados, e afirma que as pessoas estão tristes e frustradas porque o carrinho do supermercado está menos cheio, e não conseguem pagar as contas, enquanto a indústria reduz as quantidades e mantém os preços. Apontou como exemplos o pacote de um chocolate popular que vinha com 20 unidades, e agora são 16; a caixa de ovos trazia 12 unidades, e agora a “dúzia” virou dez; o detergente de 1 litro agora vem com 900 ml, enumerou.

Esse coordenador de Flávio acrescentou que a crise da Casas Bahia atinge o emocional dos brasileiros, porque a varejista concedia crédito a quem não tinha, e a maioria dos consumidores pagava os boletos pontualmente. Mas quando o endividamento contaminou a população, a inadimplência dos clientes comprometeu a saúde das contas da empresa.

Dados recentes da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostraram que o endividamento das famílias atingiu um recorde: 82% dos consumidores disseram ter alguma dívida, o maior percentual desde o início da série. Por sua vez, em março, a Serasa revelou que havia 81,7 milhões de brasileiros inadimplentes, um aumento de 38,1% em relação a 2016.

A campanha de Flávio tentará demonstrar aos eleitores a relação direta entre a escalada da dívida pública e a realidade de seus lares. Em gráficos, uma das estratégias será indicar que a curva de alta da dívida é a mesma que a curva de alta do endividamento da população.

O Valor mostrou que a dívida do setor público atingiu 81,9% do PIB, equivalente a R$ 10,8 trilhões, segundo dados do Banco Central. Encostou no pico de 82,6% do PIB dos anos da pandemia, quando a economia enfrentou uma realidade atípica. No final de 2022, somava 71,7% do PIB.

Quanto maior o indicador, maior o risco de um calote do país em momentos de crise, e maior a insegurança transmitida aos investidores. Ao mesmo tempo, a dívida mais alta, impulsionada pela elevação dos gastos, pressiona a taxa de juros. A taxa Selic, hoje em 14%, é uma das mais altas do mundo, asfixiando o setor produtivo, o comércio e os consumidores.

A ideia de estrategistas de Flávio é resgatar a lição que o ex-presidente do Banco Central (BC) Roberto Campos Neto costumava repetir, de que os juros altos no Brasil são consequência do endividamento. “A dívida não é alta porque o juro é alto. É o contrário, o juro é alto porque a dívida é alta”, insistia.

Num momento em que vêm a público novos fatos sobre as investigações no Supremo Tribunal Federal (STF) que têm como alvo o empresário Fábio Luís da Silva, o Lulinha, e o ex-chefe de gabinete da Presidência, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, em supostas ligações ilícitas com a lobista Roberta Luchsinger, lideranças das campanhas de Flávio e de Lula rechaçam que a corrupção será tema central da disputa. Um aliado do petista, em tom bem-humorado, chegou a falar em “corruptômetro”, lembrando que Flávio deve esclarecimentos sobre o suposto contrato com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que teria emprestado R$ 60 milhões para o filme “Dark Horse”. Na quinta-feira, o candidato do PL disse que prestou contas, e que o assunto é “página virada”. Faltou combinar com o adversário.

 

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