sábado, 15 de agosto de 2026

A razão da Grécia, por Ivan Alves Filho*

O maior livro de síntese que eu li sobre a história grega, sua cultura e impacto sobre a própria trajetória do Ocidente e, mesmo, sua expansão para outras áreas do globo, foi Pourquoi la Grèce?, de Jacqueline Romilly. Desconheço se existe tradução em português dessa obra que revela, em um volume apenas, a extraordinária contribuição grega no campo da Filosofia, da Democracia Política, da História, das Artes e mesmo da Medicina. 

Integrante durante muitos anos da Academia Francesa, de ascendência judaica, Jacqueline Romilly dedicou praticamente toda sua existência ao exame da Grécia, e suas observações sobre o trabalho poético de Homero são irretocáveis. Com ela, aprendi que seus heróis não são deuses, são heróis humanos e como todos os homens sujeitos a falhas. Mas, mesmo assim, criaturas exemplares. E não só: os deuses da Grécia agem mais como um inconsciente humano do que como uma divindade propriamente. A impressão que fica para mim, ao menos, é esta: alguns dos pressupostos da Psicanálise talvez tenham relação com isso. 

Mais: Homero nunca hostiliza uma cultura diferente da sua, inaugurando com sua Ilíada, esta obra-prima, uma ideia de respeito ao outro e de universalidade que tanta falta nos faz ainda hoje. Com Homero, despontava o Humanismo. 

Mesmo na Odisseia, outra obra de referência excepcional para a nossa Cultura, esta dimensão humana, cotidiana, de reconhecimento do papel do homem comum, se mantém. Há uma passagem em que Aquiles revela a Ulisses que preferia “estar a serviço de um pobre fazendeiro “do que “reinar sobre esses mortos”, na guerra. 

O fato é que o mundo do trabalho, a atividade laboral dos camponeses e “as regras de uma sociedade comum”, conforme observou Jacqueline de Romilly, estão sempre presentes na Ilíada de Homero. Nesta obra, ele se refere até mesmo às doçuras da vida de cada dia, quando vislumbra, por exemplo, que “sozinho na montanha... um pastor de rebanho sente seu coração alegre”, ao admirar a paisagem ao seu redor, a força ou o poder das estrelas. 

O senso de Humanismo de Homero se apresenta quase que o tempo todo na Ilíada, quando chega a dizer que os homens precisavam ser mais tolerantes, uma vez que uma “alma impiedosa” não se justificava “quando os próprios deuses se deixam emocionar...”.

*Ivan Alves Filho, historiador

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