Folha de S. Paulo
Decisão de Mendonça de afastar diretor da PF
marca escalada na disputa com Moraes
Lula é tragado para o meio do turbilhão, que
cada vez mais ganha contornos eleitorais
O STF é, por
desenho constitucional, um tribunal político. É a única das altas cortes do
país para as quais o presidente da República, um agente político, pode indicar
quem bem entender.
Não há listas, quinto constitucional e, a rigor, o sujeito não precisa nem sequer ter diploma de direito. Para que a nomeação se efetive, o indicado precisa apenas ser aprovado pelo Senado, que, mais do que um órgão político, é a casa das raposas políticas. E faz sentido que seja assim. Todas as grandes questões que vão ao STF têm uma dimensão política, com potenciais implicações sociais e econômicas, que não seria prudente ignorar.
A política, porém, deveria ser só um tempero,
jamais dispensando a corte de basear todas as suas decisões na melhor técnica
jurídica. De uns anos para cá, não foram poucas as ocasiões em que ministros do
STF sacrificaram a técnica para tornar-se ostensivamente políticos, às vezes
até político-partidários, o que torna o tribunal disfuncional.
A decisão do ministro André
Mendonça de afastar o
diretor-geral da PF, Andrei
Rodrigues, do comando da corporação, mais do que uma resposta à
escalada de seu embate com Alexandre de
Moraes e ao cheiro da
pizza assando no forno, transforma o STF em teatro de operações da
disputa eleitoral. Lula, que vinha tentando manter um certo afastamento,
é definitivamente
arrastado para o centro do turbilhão, num movimento que poderá
custar-lhe preciosos votos num provável segundo turno.
No mérito, Moraes perdeu as condições morais
de ocupar um lugar no STF desde que não foi capaz, meses atrás, de oferecer uma
explicação republicana para suas relações com Daniel
Vorcaro. Não foram disputas políticas que levaram sua família a
envolver-se financeiramente com o ex-dono do Master. São suspeitas graves que,
junto com várias outras relativas a vários outros atores jurídicos e
políticos, cobram
investigação. Ainda assim, Mendonça joga um jogo perigoso ao
empurrar tão escancaradamente a disputa para o terreno da eleição
presidencial.
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