Valor Econômico
Presidente é pressionado contra André Mendonça, mas alvo a ser desconstruído é Flavio Bolsonaro
O candidato do PL à Presidência, senador
Flávio Bolsonaro, ascendeu para o empate com o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva na simulação de 2º turno da Quaest num momento em que cresce a
preocupação com o endividamento e com a corrupção. A resposta do governo à primeira
deverá ser uma tardia medida provisória restringindo apostas online.
A resposta à segunda passa pela inclusão, igualmente tardia, no programa de governo lulista, de uma reforma do Judiciário que passe pela ampliação da transparência e do controle social. Vai ser suficiente para conter a curva ascendente da candidatura bolsonarista? Uma parte da resposta está nos sinais da manifestação bolsonarista deste 7 de Setembro na Avenida Paulista, recorte do eleitorado do Sudeste em que, assim como em 2022, a eleição está mais aberta.
Há uma dissonância entre a redução do público
da manifestação e o crescimento de seis pontos percentuais, fora da margem de
erro, portanto, da preocupação com a corrupção. Num feriado prolongado de frio
e garoa em São Paulo, um terço a menos dos bolsonaristas, em relação a 2025,
atenderam à convocação.
A manifestação do ano passado aconteceu a
quatro dias da conclusão do inquérito que condenou o ex-presidente Jair
Bolsonaro na trama golpista, enredo que contou e continua a contar com o apoio
da maioria. A de segunda foi convocada sob o mote “Fora Lula, fora Moraes” e em
apoio ao ministro Andre Mendonça.
A discrepância pode ter muitas explicações. A
preocupação com a corrupção, medida pela Quaest e exacerbada pela explicitação
das relações de Alexandre de Moraes com o banqueiro do Master, Daniel Vorcaro,
é uma delas. A convocação feita por um candidato igualmente encrencado com o
banco pode ajudar a explicar a avenida mais vazia, mas não se espalha para o
conjunto do eleitorado.
Na grande angular da pesquisa, o que aparece
é Lula como o principal prejudicado de uma conjuntura em que a corrupção cresce
como o principal problema. Se é claro, para os petistas, que a eleição de
Flávio Bolsonaro teria como consequência o enterro da investigação do Master, não
o é para o conjunto do eleitorado.
Transformar Mendonça em algoz é associar Lula
ao maior adversário do ministro no STF. Há evidências claras de que o relator
dos inquéritos do Master e do INSS incorreu em desvios processuais, aliás
presentes também nos inquéritos das fake news e da trama golpista. Mas
igualá-los a um contrato de R$ 131 milhões (ou dois que somam R$ 181 milhões?)
firmado pelo escritório da família de Moraes com o banqueiro é um erro que pode
custar a eleição de Lula.
No meio disso tudo, Mendonça enviou seu juiz
auxiliar para ouvir Daniel Vorcaro numa tentativa de ‘colaboração unilateral’,
alternativa à delação quando o investigado vê obstruções na PF ou na PGR. A
intenção do advogado, Daniel Bialski, em comprometer o diretor-geral da PF,
Andrei Rodrigues, ficou evidente. Em busca de nulidade?
E o juiz auxiliar de André Mendonça, o que
buscava? A colaboração, diretamente com o juiz, está prevista em lei e se o
gabinete do relator buscava auferir desgaste para a PF e para o presidente da
República, não é do comportamento do juiz que se pode cravar esta conclusão.
Vorcaro quis usar o advogado e o juiz. Foi usado por ambos.
Se Lula se enfiar nesse terreno movediço não
sai mais dele. O foco é outro. A campanha fracassa em desconstruir Flávio
Bolsonaro porque se recusa a ver aquilo que o eleitor que ficou debaixo do
cobertor em São Paulo já captou. Não é Lula que está capitalizando essa
desconstrução do candidato do PL, mas o voto pulverizado nos demais que, no 2º
turno, corre para o senador. Contradição? Sim, toda eleição é cheia delas. Não
ganha eleição quem tem razão, mas quem convence.
A ala Alexandre de Moraes do STF fracassou em
convencer Lula a puxar as providências para seu colo. O presidente deixou
claro, inclusive publicamente, que esta atribuição é do presidente do STF,
Edson Fachin. E os sinais são de que as providências serão mais dirigidas
contra Moraes do que contra Mendonça.
O ministro da Advocacia-Geral da União saiu
ileso do bombardeio da PF e da ala Moraes que dele cobraram providências contra
Mendonça em sua investida contra Andrei Rodrigues. Para mais de um
interlocutor, Lula perguntou: “Você já se deu conta de que quando a AGU age é o
presidente da República que está agindo?”. O desdobramento dos fatos lhe daria
razão.
O erro do encontro com o presidente do
Senado, Davi Alcolumbre (União), na casa de Moraes - do qual Lula saiu
inconformado pela certeza de que senador e ministro são uma coisa só - poderia
ter sido potencializado se a AGU tivesse bancado o pedido da PF de interpelar
Mendonça. A atitude teria colocado Lula irremediavelmente do lado de Moraes num
momento em que seus diálogos com Vorcaro foram exibidos à luz do dia.
Se Jorge Messias saiu ileso não ficou mais próximo de uma nova indicação ao STF. Ao deixar vazar a simpatia de Lula pela indicação do governador em exercício do Rio, Ricardo Couto, à vaga, o Palácio do Planalto testa os benefícios decorrentes da associação de Lula com um gestor compromissado com o saneamento das contas públicas e o enfrentamento ao crime organizado no berço do bolsonarismo. Balão de ensaio? Pode ser, mas com essas curvas de intenção de voto se cruzando, não parece ser época de soltar balão e, menos ainda, de ensaios.

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