terça-feira, 8 de setembro de 2026

Lula paga o pato do Master porque erra o alvo, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Presidente é pressionado contra André Mendonça, mas alvo a ser desconstruído é Flavio Bolsonaro

O candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro, ascendeu para o empate com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na simulação de 2º turno da Quaest num momento em que cresce a preocupação com o endividamento e com a corrupção. A resposta do governo à primeira deverá ser uma tardia medida provisória restringindo apostas online.

A resposta à segunda passa pela inclusão, igualmente tardia, no programa de governo lulista, de uma reforma do Judiciário que passe pela ampliação da transparência e do controle social. Vai ser suficiente para conter a curva ascendente da candidatura bolsonarista? Uma parte da resposta está nos sinais da manifestação bolsonarista deste 7 de Setembro na Avenida Paulista, recorte do eleitorado do Sudeste em que, assim como em 2022, a eleição está mais aberta.

Há uma dissonância entre a redução do público da manifestação e o crescimento de seis pontos percentuais, fora da margem de erro, portanto, da preocupação com a corrupção. Num feriado prolongado de frio e garoa em São Paulo, um terço a menos dos bolsonaristas, em relação a 2025, atenderam à convocação.

A manifestação do ano passado aconteceu a quatro dias da conclusão do inquérito que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro na trama golpista, enredo que contou e continua a contar com o apoio da maioria. A de segunda foi convocada sob o mote “Fora Lula, fora Moraes” e em apoio ao ministro Andre Mendonça.

A discrepância pode ter muitas explicações. A preocupação com a corrupção, medida pela Quaest e exacerbada pela explicitação das relações de Alexandre de Moraes com o banqueiro do Master, Daniel Vorcaro, é uma delas. A convocação feita por um candidato igualmente encrencado com o banco pode ajudar a explicar a avenida mais vazia, mas não se espalha para o conjunto do eleitorado.

Na grande angular da pesquisa, o que aparece é Lula como o principal prejudicado de uma conjuntura em que a corrupção cresce como o principal problema. Se é claro, para os petistas, que a eleição de Flávio Bolsonaro teria como consequência o enterro da investigação do Master, não o é para o conjunto do eleitorado.

Transformar Mendonça em algoz é associar Lula ao maior adversário do ministro no STF. Há evidências claras de que o relator dos inquéritos do Master e do INSS incorreu em desvios processuais, aliás presentes também nos inquéritos das fake news e da trama golpista. Mas igualá-los a um contrato de R$ 131 milhões (ou dois que somam R$ 181 milhões?) firmado pelo escritório da família de Moraes com o banqueiro é um erro que pode custar a eleição de Lula.

No meio disso tudo, Mendonça enviou seu juiz auxiliar para ouvir Daniel Vorcaro numa tentativa de ‘colaboração unilateral’, alternativa à delação quando o investigado vê obstruções na PF ou na PGR. A intenção do advogado, Daniel Bialski, em comprometer o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, ficou evidente. Em busca de nulidade?

E o juiz auxiliar de André Mendonça, o que buscava? A colaboração, diretamente com o juiz, está prevista em lei e se o gabinete do relator buscava auferir desgaste para a PF e para o presidente da República, não é do comportamento do juiz que se pode cravar esta conclusão. Vorcaro quis usar o advogado e o juiz. Foi usado por ambos.

Se Lula se enfiar nesse terreno movediço não sai mais dele. O foco é outro. A campanha fracassa em desconstruir Flávio Bolsonaro porque se recusa a ver aquilo que o eleitor que ficou debaixo do cobertor em São Paulo já captou. Não é Lula que está capitalizando essa desconstrução do candidato do PL, mas o voto pulverizado nos demais que, no 2º turno, corre para o senador. Contradição? Sim, toda eleição é cheia delas. Não ganha eleição quem tem razão, mas quem convence.

A ala Alexandre de Moraes do STF fracassou em convencer Lula a puxar as providências para seu colo. O presidente deixou claro, inclusive publicamente, que esta atribuição é do presidente do STF, Edson Fachin. E os sinais são de que as providências serão mais dirigidas contra Moraes do que contra Mendonça.

O ministro da Advocacia-Geral da União saiu ileso do bombardeio da PF e da ala Moraes que dele cobraram providências contra Mendonça em sua investida contra Andrei Rodrigues. Para mais de um interlocutor, Lula perguntou: “Você já se deu conta de que quando a AGU age é o presidente da República que está agindo?”. O desdobramento dos fatos lhe daria razão.

O erro do encontro com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União), na casa de Moraes - do qual Lula saiu inconformado pela certeza de que senador e ministro são uma coisa só - poderia ter sido potencializado se a AGU tivesse bancado o pedido da PF de interpelar Mendonça. A atitude teria colocado Lula irremediavelmente do lado de Moraes num momento em que seus diálogos com Vorcaro foram exibidos à luz do dia.

Se Jorge Messias saiu ileso não ficou mais próximo de uma nova indicação ao STF. Ao deixar vazar a simpatia de Lula pela indicação do governador em exercício do Rio, Ricardo Couto, à vaga, o Palácio do Planalto testa os benefícios decorrentes da associação de Lula com um gestor compromissado com o saneamento das contas públicas e o enfrentamento ao crime organizado no berço do bolsonarismo. Balão de ensaio? Pode ser, mas com essas curvas de intenção de voto se cruzando, não parece ser época de soltar balão e, menos ainda, de ensaios.

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