Desempenho do Brasil no Pisa continua frustrante
Por O Globo
Houve recuo em matemática e leitura, e nota
média estagnou. Para piorar, educação é desprezada na eleição
Continua decepcionante o desempenho do Brasil no Pisa, o exame de avaliação de jovens de 15 anos realizado a cada três anos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), medida internacional mais usada para comparar o estágio do ensino médio em mais de 90 países. Em áreas críticas para a economia moderna, como matemática e leitura, houve retrocesso de dois pontos desde 2022. Em matemática, a média caiu de 379 para 377. Em leitura, de 410 para 408. Somente em ciências houve avanço, de 403 para 409. Apesar disso, a média geral do país se mantém estagnada desde 2015, uma péssima notícia para um país com graves deficiências na área de educação.
Só três em dez alunos brasileiros conseguem
representar matematicamente, sem instruções, uma situação simples, como
comparar a distância entre duas rotas alternativas ou converter preços para uma
moeda diferente do real. A média na OCDE é de 65%. O percentual de brasileiros
que atingem o nível mais alto de conhecimento em matemática é quase nulo, ante
37% em Cingapura, 32% em Taiwan, 23% na Coreia do Sul e 22% no Japão.
Outra preocupação no Brasil é a desigualdade
no desempenho. Entre 2022 e 2025, aumentou a distância entre a nota dos 10%
melhores em matemática e os 10% piores. Em comparação com 2015, a proporção de
estudantes de baixo desempenho em matemática não mudou de forma significativa.
O mesmo acontece em leitura. Somente em ciências diminuiu quatro pontos.
A situação da educação é uma preocupação
global. Os resultados do Pisa na maior parte do mundo sofreram queda acentuada
em 2022, devido à pandemia. De lá para cá, não houve melhora. Entre os países
da OCDE, a média em matemática caiu 22 pontos entre 2015 e 2025, o equivalente
a um ano a menos de ensino. Países fora da OCDE que participam do Pisa também
registraram declínio. Em leitura, a redução foi ainda maior: 28 pontos na OCDE
e 16 pontos nos demais países. Pelo menos em ciências, os resultados têm ficado
estáveis. Não há uma única causa. Entre as mais apontadas estão maior
dificuldade de concentração dos alunos e a dificuldade dos professores em
manter a disciplina.
O fato de o Brasil ter se mantido no mesmo
patamar nos últimos dez anos, enquanto as médias globais caíram, é prova de que
iniciativas positivas têm surtido algum resultado. Mas, no atual estágio da
educação e do desenvolvimento brasileiros, evitar a queda não basta. Países
como Camboja e Turquia conseguiram elevar em mais de 24 pontos os resultados em
matemática, leitura e ciências no mesmo período.
São dramáticas as consequências do
conhecimento na vida de cada indivíduo e na economia como um todo. Inúmeros
estudos comprovam a associação entre nível educacional, geração de riqueza e
desenvolvimento social. Nos Estados Unidos, de acordo com estimativa de
pesquisadores da Universidade Stanford, se todos os alunos de 15 anos
atingissem pelo menos o nível básico de desempenho no Pisa, gerariam mais de
US$ 40 trilhões na economia ao longo da vida profissional. Não há cálculo
semelhante para o Brasil, mas ninguém duvida de que a melhoria na educação da
população teria impacto ainda maior. Ante essa constatação, causa espanto o
silêncio dos candidatos a governos estaduais e à Presidência na atual campanha
eleitoral sobre seus planos para a educação.
Ultradireita alemã impõe novo teste
institucional a democracias europeias
Por O Globo
Até agora, UE tem resistido. Mas vitória da
direita radical em estado da Saxônia volta a acender alerta
A Europa e o mundo precisam acompanhar com
atenção os desdobramentos da vitória do partido de ultradireita Alternativa
para a Alemanha (AfD) nas eleições de domingo no estado da Saxônia-Anhalt.
Mesmo que seus 2,1 milhões de habitantes representem apenas 2,5% da população
alemã, acende-se um sinal de alerta quando os eleitores dão uma guinada para a
direita radical num país que foi berço do nazismo — e é a maior economia da
União Europeia (UE). O resultado confirma a importância de questões como a
imigração, nacionalismo ou guerras culturais na Alemanha e no continente
europeu.
Por apenas três deputados, o AfD não obteve
as 42 cadeiras no Legislativo local necessárias para governar sem alianças.
Ainda assim, pode fechar uma coalizão com a esquerda radical, cuja agenda tem
pontos de convergência com a ultradireita. Os principais derrotados são o
chanceler Friedrich Merz, da conservadora União Democrata-Cristã (CDU), e sua
aliança com a União Social-Cristã da Baviera (CSU) e os social-democratas do
SPD.
Há algum tempo os regimes democráticos da UE
convivem com legendas de ultradireita. Elas se fortaleceram na França, na Espanha,
em Portugal, na Holanda, na Áustria e nos países do Leste. Ainda assim, o
sistema de freios e contrapesos do bloco tem conseguido lidar com esse avanço
sem implodir.
O exemplo dessa adaptação é o governo da
primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni. Sua legenda é herdeira do fascismo
de Benito Mussolini e leva no DNA impulsos autoritários. No poder, contudo,
Meloni tem respeitado as regras do jogo democrático. Ela moderou seu discurso,
tem apoiado a Otan e nem pensa em propor a saída da Itália da UE. Seu governo,
iniciado em outubro de 2022, já é o mais longo da República italiana
estabelecida em 1946 e é bem avaliado nas pesquisas de opinião.
É possível traçar um contraste entre Meloni e
Viktor Orbán, ex-primeiro-ministro da Hungria. Durante 19 anos e 10 meses de
governo (cinco mandatos), Orbán promoveu um profundo retrocesso institucional,
com intervenção no Judiciário, na academia e cerceamento à imprensa. Tornou-se
uma referência para a ultradireita mundial ao cunhar o termo “iliberal” para designar
seu projeto de regime. Ao menos respeitou a regra básica da democracia e deixou
o poder quando perdeu a eleição em abril para Péter Magyar, um conservador de
centro-direita e antigo aliado. A UE demonstrou flexibilidade para manter a
Hungria no bloco apesar dos arroubos antidemocráticos de Orbán. Essa mesma
flexibilidade pode ser necessária caso as eleições da França no ano que vem
sejam vencidas por Marine Le Pen, do ultradireitista Reunião Nacional (RN).
O resultado das urnas na Alemanha mostra que o risco do extremismo persiste — não apenas da direita, mas também da esquerda. O histórico recente sugere que a UE apresenta condições institucionais de evitar retrocessos como os da primeira metade do século passado. Mas será preciso manter vigilância para que as catástrofes autoritárias não se repitam.
Flávio explora crise no STF com leviandade e
cinismo
Por Folha de S. Paulo
Candidato do PL trata momento grave como
oportunidade de angariar votos, sem explicar relação com Vorcaro
Dos postulantes se espera a compreensão de
que os valores republicanos e a solidez das instituições estão acima das
querelas eleitorais
Agrava-se a cada dia a crise desencadeada no
Supremo Tribunal Federal pelo escândalo do Banco Master,
sem que se vislumbre saída capaz de restabelecer a normalidade e evitar traumas
prolongados —e o afastamento liminar do diretor da Polícia
Federal pelo ministro André
Mendonça é apenas o episódio mais recente.
Deplorável e alarmante, tal cenário põe à
prova a conduta dos candidatos a governar o país nos próximos anos. Deles se
espera, antes da capacidade de diálogo político e institucional, a compreensão
de que os valores republicanos e a solidez das instituições estão acima das
querelas eleitorais. É tudo o que não demonstra Flávio
Bolsonaro (PL).
Em comício no Dia da Independência, o senador
fluminense não se contentou em fustigar o ministro Alexandre de
Moraes, que esteve à frente do processo que condenou corretamente
seu pai por tentativa de golpe de Estado e hoje está no centro do escândalo
político-financeiro.
Com oportunismo rasteiro, buscou transformar
a crise em peça de ataque ao rival na corrida ao Planalto e presidente da
República, Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
—"Quem
vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes", discursou.
Trata-se de irresponsabilidade e cinismo.
Irresponsabilidade porque fulaniza de modo
leviano uma questão gravíssima. O petista e o ministro se associaram, até
indevidamente, em temas como a defesa da regulação de conteúdos na internet.
Entretanto não se sabe de nenhuma providência tomada ou proposta pelo governo
em favor das tramoias do Master.
Não é pouco diante da rede de influência nos
três Poderes comprada pelo fraudador Daniel
Vorcaro à esquerda, ao centro e à direita. Lula recebeu o então
banqueiro fora da agenda, o que, embora impróprio, não se compara a desfrutar
de favores ou contratos familiares milionários.
Cinismo porque é Flávio, dentre os
postulantes à Presidência, quem mais deve explicações sobre as relações com
Vorcaro. Foi ele o flagrado
em mensagens amáveis e informais a cobrar os milhões do Master
para financiar um filme laudatório ao pai, ex-presidente. É ele quem sonega o
prometido detalhamento dos contratos para a obra, também na
mira da Polícia Federal.
É desculpa esfarrapada alegar que se tratava
de dinheiro privado. Àquela altura já eram notórias as relações promíscuas de
Vorcaro e seu banco com políticos e as diversas instâncias da máquina pública.
É preciso fingir idiotia para crer que ali se negociava um mero investimento na
indústria cinematográfica americana.
Candidatos, como toda a sociedade, podem e
devem criticar e questionar o STF e seus
ministros. O momento exige, contudo, a postura do estadista que sabe separar o
interesse nacional do varejo da busca de votos. Atiçar tensões em benefício
próprio é estratégia bolsonarista surrada de afronta às instituições e fomento
de tentações autoritárias.
Educação mal parada
Por Folha de S. Paulo
Na OCDE, notas do Pisa caem ao nível mais
baixo, enquanto no Brasil continuam insatisfatórias
O país é superado por vizinhos; ficamos no
52º lugar em leitura, 67º em ciências e 57º em matemática, atrás de Chile e
Uruguai
Os resultados do Pisa, divulgados nesta terça
(8), apresentam um recorde preocupante entre os membros da OCDE,
organização de países desenvolvidos responsável pelo teste, e uma estagnação em
desempenho precário no Brasil.
A avaliação de jovens de 15 anos em três
áreas do conhecimento (leitura, matemática e
ciências) é realizada a cada três anos. Em 2025, participaram 91 nações ou
regiões, e a média dos 23 países que fazem parte da OCDE desde o primeiro ano
do Pisa, em 2000, foi a mais
baixa da série histórica.
O recorte nesse grupo começa em 2006, quando
ciências passou a ter resultados comparáveis. Desde então, a média diminuiu 29
pontos em leitura (chegando a 466), 32 em matemática (469) e 17 em ciências
(486).
A queda brusca ocorre a partir da pandemia.
Trata-se de redução significativa, já que uma variação de 20 pontos representa
cerca de 1 ano de aprendizado.
As médias de 2025 dos 38 países que hoje
integram a OCDE foram de 461, 463 e 482, respectivamente. O Brasil melhorou
entre 2000 e 2009; desde então, contudo, ainda permanece às voltas com notas
insatisfatórias.
Considerando a última década, as médias dos
estudantes brasileiros subiram só 1 ponto em leitura (408 em 2025), 8 pontos em
ciências (409) e, em matemática, não houve alteração (377). Em 2025, também foi
avaliada a área de resolução de problemas computacionais, na qual a nota do
país foi 406, ante 483 da OCDE.
Mesmo na
comparação com vizinhos, ficamos atrás de Chile (436,
442, 403 e 466, respectivamente), Uruguai (423,
445, 405 e 462) e Costa Rica (416,
424, 387 e 452). Dentre 91 países avaliados, o Brasil ficou em 52º lugar em
leitura, 57º em matemática, 67º em ciências e 69º em computação.
Os dados indicam gestão ineficiente dos
recursos alocados para a educação brasileira,
ainda mais com a redução de 25% no número de alunos da rede pública de ensino
nos últimos 20 anos, segundo o Censo Escolar.
É preciso direcionar verbas para regiões e
escolas com mais problemas; melhorar a formação e a capacitação de professores;
usar avaliações frequentes para orientar intervenções, não só como ranking;
estabelecer metas de resultados e monitorá-los; conter faltas e abandono
escolar.
Crianças devem ser alfabetizadas na idade certa, e o domínio da língua precisa ser profundo. Como aponta o relatório do Pisa, o mau desempenho nessa disciplina impacta o aprendizado de todas as outras áreas do conhecimento. Já passa da hora de o Brasil superar a mediocridade.
O Supremo está uma bagunça
Por O Estado de S. Paulo
Ao afastar o diretor-geral da PF, Mendonça dá
o troco em Moraes, que usara a corporação contra o colega. Cabe a Fachin
restabelecer a ordem e mostrar que o STF não é a casa da mãe Joana
A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal
(STF) formou maioria para referendar a decisão do ministro André Mendonça de
afastar preventivamente o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei
Rodrigues, e o diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada. A medida
foi uma reação a uma provocação igualmente grave: na semana passada, o ministro
Alexandre de Moraes se valeu de um “relatório de inteligência” supostamente
produzido pela PF – apócrifo e “sem valor probatório”, como advertia o próprio
texto – para acusar Mendonça de graves crimes e desvios funcionais como relator
do caso Master no STF. De que a instrumentalização de uma ala da PF por Moraes
exigia pronta resposta, não resta dúvida. Que a resposta de Mendonça tenha sido
correta, é outra história.
Juristas ouvidos pelo Estadão foram unânimes em
apontar sérios problemas na decisão de Mendonça. Rubens Glezer, professor de
Direito Constitucional da FGV-SP, notou o descompasso entre a incerteza quanto
ao vínculo de Rodrigues e Almada com a produção do tal relatório usado por
Moraes, ainda a ser investigado pela corregedoria da PF por ordem do próprio
Mendonça, e a gravidade de seus peremptórios afastamentos.
Wálter Maierovitch foi além e classificou a
destituição do diretor-geral da PF como medida “arbitrária”. Ademais, o
ex-desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo questionou se Mendonça,
tendo se declarado vítima de “monitoramento sistemático” e “coleta dirigida”
por agentes da PF, não estaria impedido de julgar uma questão de seu interesse
pessoal. É verdade que não seria a primeira vez no STF. Para não voltarmos
tanto no tempo, basta lembrar que Moraes fez o mesmo na semana passada ao usar
o inquérito das fake news, do qual é relator plenipotenciário há mais de sete
anos, para retaliar Mendonça após virem a público os sórdidos detalhes de sua
potencialmente criminosa associação com Daniel Vorcaro.
É digna de nota, por fim, uma fragilidade
processual apontada pelo criminalista Marcelo Crespo: o afastamento cautelar
dos dois policiais foi determinado por Mendonça após o ministro ter sido
provocado pelo Partido Novo, não por autoridade policial ou pelo Ministério
Público, como determina o Código de Processo Penal. Por sua vez, a professora
Ana Laura Barbosa, também da FGV-SP, não vê paralelo entre os precedentes
citados por Mendonça na decisão – os afastamentos de Eduardo Cunha e de Ibaneis
Rocha, respectivamente, da presidência da Câmara e do governo do Distrito
Federal – e a situação de Andrei Rodrigues e Leandro Almada.
É pesaroso constatar, mas o Supremo está uma
bagunça, a ponto de ter criado para si uma “jurisprudência de crise”, como bem
definiu o professor Glezer. Com espantosa naturalidade, a Corte vinha admitindo
absurdos sempre que enxergava “ameaças à democracia” em cada esquina. Agora, é
a vez de a heterodoxia servir aos interesses particulares de Suas Excelências,
notadamente os de Moraes e Mendonça, ambos orientados pelo instinto de autopreservação.
A heterodoxia, sabemos, virou norma na mais alta instância judicial do País.
Mas a normalização de atalhos processuais não conta nem jamais contará com o
endosso deste jornal, qualquer que seja o ministro que deles se valha.
Isso não equivale, absolutamente, a absolver
a origem dessa bagunça que impera no STF, a exigir uma firmeza ainda não
demonstrada por seu ministro presidente, Edson Fachin. A produção de um
relatório fajuto contra Mendonça, por encomenda de Moraes, segue gravíssima.
Mais ainda quando vista em contraste com o precedente aberto pelo próprio
Moraes, que, em abril de 2020, suspendeu a posse de Alexandre Ramagem como
diretor-geral da PF por entender que havia risco de “desvio de finalidade” na
escolha do então presidente da República, Jair Bolsonaro. Seis anos depois, a
ironia é que o defensor da impessoalidade da PF de outrora hoje é ministro
suspeito de tê-la violado para se proteger do escrutínio público – e legal – de
sua associação com o trambiqueiro Vorcaro.
O Estado Democrático de Direito não admite a
existência de uma força policial disposta a servir a agendas particulares de
autoridades ou a operar em nome de causas carentes de delimitação conceitual e
fundamentação legal. Cabe a Fachin restabelecer a ordem e mostrar ao País que o
STF não é a casa da mãe Joana.
Os limites da IA na educação
Por O Estado de S. Paulo
O Conselho Nacional de Educação edita
resolução com regras para o uso da tecnologia nas escolas, o que é necessário
para preservar a autoridade do professor e o protagonismo do aluno
Fez bem o Conselho Nacional de Educação (CNE)
ao editar uma resolução com regras do que pode e do que não pode quando o
assunto é o uso de inteligência artificial (IA) na educação, da pré-escola até
a universidade, na rede pública e na rede privada. O instrumento normativo
autoriza a aplicação consciente e ética da IA, para fins didáticos, tanto por
alunos como por professores, de tal modo que a tecnologia possa aprimorar o processo
de ensino e, sobretudo, a aprendizagem.
Aprovada no dia 1.º passado, a resolução
segue recomendações internacionais e estabelece que os alunos até a 5.ª série
não poderão usar a IA sem a supervisão dos professores – ou seja, cuida da fase
da vida em que as crianças mais demandam atenção e estímulos para desenvolverem
suas potencialidades. Prevê que os educadores não poderão usar a tecnologia
para corrigir trabalhos, provas ou redações. E autoriza as universidades a
editarem as suas próprias regras, desde que respeitem parâmetros mínimos, como
a declaração da aplicação em trabalhos acadêmicos.
Como o uso da IA, seja por estudante, seja
por professor, impõe desafios técnicos e éticos, a resolução do CNE também
estabelece quatro níveis de riscos. A escala de alerta vai do grau baixo,
quando a tecnologia é usada para uma simples revisão de um texto, até o nível
excessivo ou incompatível com finalidades educacionais, quando é usada para a
vigilância emocional, por exemplo.
Tamanha prudência é recomendável. Como bem
afirmou o relator Celso Niskier em seu parecer ao CNE, a inteligência
artificial é “um dos fenômenos mais relevantes das transformações tecnológicas
que incidem sobre a educação no século 21”. Mas, ao que tudo indica, nem alunos
nem professores sabem usá-la de modo eficiente.
Hoje, é bastante comum um estudante inserir
um chamado “prompt”, ou comando, na IA, apresentar ao programa uma pergunta
sobre o conteúdo de uma determinada disciplina escolar e receber uma resposta
sobre a questão lançada. O problema é que, além de não ter feito esforço mental
algum, o estudante nunca saberá qual o raciocínio empregado na solução de sua
dúvida.
Não se trata de ludismo educacional, isto é,
não é o caso de destruir as máquinas para preservar o trabalho humano. Quando
surgiram, as calculadoras, por exemplo, foram vistas como ameaça à capacidade
de resolução de problemas matemáticos, mas hoje fazem parte do cotidiano porque
facilitaram a vida sem prejudicar o aprendizado das fórmulas e dos conceitos.
Especialistas em educação manifestam
preocupação com a IA. Em recente entrevista ao programa Roda Viva, da TV
Cultura, o professor da Universidade Columbia Paulo Blikstein, que defende o
uso da tecnologia na educação, recomendou cautela. Segundo ele, “já há estudos
que comprovam que, depois do uso, quando essa tecnologia é retirada, as
crianças não lembram o que escreveram”.
Ou seja, as crianças não fixam o conteúdo e,
por isso, não aprendem. E isso ocorre por uma óbvia razão: segundo Blikstein, a
IA é um instrumento desenvolvido para solucionar os problemas dos adultos no
mercado de trabalho, e não das crianças na escola. Como bem explicou o
pesquisador, a IA é uma ferramenta “de eficiência, e não de aprendizagem”.
Tudo isso mostra que a resolução do CNE é
necessária. O instrumento normativo aprovado exige o desenvolvimento do
pensamento lógico, analítico e crítico, a proteção de dados sensíveis e o
estímulo à criatividade, à autonomia e à resolução de problemas. A ideia é
preservar a autoridade do educador e o protagonismo do aluno.
A IA não é inimiga da educação, mas, da forma
como é aplicada hoje, tampouco é uma parceira. A resolução para regular seu uso
entrará em vigor 12 meses após o ministro da Educação, Leonardo Barchini,
homologá-la. Fará muito bem ao Brasil se o governo federal acelerar esse
processo, pois é preciso estabelecer o quanto antes os limites do uso da IA nas
escolas, para o bem de todos.
Fapesp sobrecarregada
Por O Estado de S. Paulo
Bolsas pagas pelo governo federal a
cientistas são insuficientes, o que pressiona o caixa da Fapesp
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de
São Paulo (Fapesp) voltou atrás numa decisão tomada recentemente e decidiu
manter a concessão de bolsas de iniciação científica e de mestrado no exterior.
A ideia inicial da agência era financiar por meio da Bolsa Estágio de Pesquisa
no Exterior (Bepe) apenas projetos de doutorado, doutorado direto e
pós-doutorado.
A medida causou rebuliço no meio acadêmico e
científico, motivou uma investida na Justiça e resultou numa cobrança pública
do governador Tarcísio de Freitas, que está em campanha pela reeleição e não
quer problemas. Tem razão o chefe do Executivo em exigir explicações: o Estado
irriga os cofres da instituição com 1% de sua receita tributária, cerca de R$ 3
bilhões anuais.
Como se vê, não é pouco dinheiro. Mas, apesar
do valor expressivo, o caixa da Fapesp está ficando cada vez mais comprimido,
com o aumento do número de bolsistas atendidos. Conforme mostrou o Estadão, a direção da Fapesp
explicou à comunidade acadêmica que as despesas com bolsas passaram de uma
média histórica de 35% do orçamento por ano para 58% nos dois últimos anos.
De 2023 para 2025, o número de bolsistas
saltou de 7.610 para 13.180 – uma alta de 73%. Não se tratou, portanto, de uma
medida retaliatória ou política, mas sim de uma decisão técnica.
Segundo o comunicado da Fapesp, o atual
cenário financeiro “poderia colocar em risco a saúde orçamentária da fundação e
limitar sua capacidade de continuar apoiando projetos ambiciosos de pesquisa
científica e tecnológica”, o que, por óbvio, implicaria riscos não só para São
Paulo, mas para o Brasil.
E tudo isso só ocorre, segundo o comunicado,
porque a Fapesp oferece “valores altamente competitivos”, ao passo que há “uma
redução na participação das agências federais” na concessão de bolsas –
leia-se, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)
e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Para se ter uma ideia, o CNPq paga R$ 700 por
mês na bolsa de iniciação científica, enquanto a Fapesp paga R$ 1.140. O valor
de uma bolsa de doutorado das agências federais é de R$ 3,1 mil mensais,
enquanto que o órgão estadual desembolsa até R$ 7.140 por bolsista. E nos
Estados Unidos, um pós-doutorando recebe US$ 2,1 mil por mês do CNPq ou da
Capes, bem distante do que aufere um pesquisador financiado pela Fapesp, que ganha
até US$ 4.290.
A Fapesp decidiu abrir editais para bolsas de
iniciação científica e mestrado no exterior. Mas isso não muda em nada a
situação orçamentária: a agência paulista é desafiada a se equilibrar entre um
alto número de bolsas, de alto custo, e um orçamento fixo, que oscila, para
cima ou para baixo, conforme as flutuações da arrecadação. E pior: a Fapesp é
ainda alvo da defasagem das bolsas de suas concorrentes.
Eis um feito do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que tanto se jacta de defender a educação superior e a ciência, mas é incapaz de promover uma política de correção das bolsas do CNPq e da Capes que torne as agências federais tão atraentes quanto a Fapesp, o que faz da agência paulista vítima de seu próprio sucesso.

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