domingo, 3 de agosto de 2008

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO / ALIÁS


COMO SEMPRE FOI
José de Souza Martins
*


Há meses que barbeiros e taxistas desencadearam a campanha das eleições municipais de 2008, fazendo-a objeto de ceticismo e deboche. Desde o final de 2007, o taxista a que recorro, com freqüência, vem me relatando as manobras de crônicos candidatos que se aproximam do ponto de táxi, reatam fingida amizade, juram fidelidade aos eleitores na relação cara a cara, alardeiam feitos desconhecidos ou irrelevantes, beijam e abraçam. Na perspectiva popular, eleição acaba sendo como catapora, cíclica e invasiva.

O "meu" taxista até recebeu pelo correio um chaveiro com o nome de um candidato de um lado e a chapa de seu táxi de outro, para que não se esqueça do nome e do número do dito cujo. Mostrava-o, ofendido aliás, em face da suposição do candidato de que seu voto decorre de uma consciência política de cabresto.

"Meu" barbeiro de muitos anos, mais cético, até se antecipou à movimentação partidária adivinhando como seria abordado e em que termos. Foi ficando preocupado com a proximidade da estação da campanha eleitoral. Repete chavões que ouviu em eleições anteriores e que se prepara para ouvir de novo. Bota todos os partidos e todos os políticos no mesmo saco da banalização, do desprezo pelo povo, da corrupção, do parasitismo, do oportunismo. Há meses está com o espírito preparado para enfrentar o assédio. Fecha o ouvido aos discursos repetitivos, fecha os olhos ao supostamente já visto, fecha a consciência à política propriamente dita. Porque não lhe deram a alternativa de ser positivamente crítico, tornou-se defensivamente apolítico, um eleitor pobre de horizontes, confinado no conformismo impotente dos que sabem que nada podem no cenário impolítico da nossa política.

Pesquisa qualitativa recente sobre o perfil dos candidatos na cidade de São Paulo, sobre o estereótipo de cada um, indica o peculiar modo como a massa da população constrói a imagem da política e dos políticos e a partir dela vota. Esses atributos fantasiosos, porque seletivos, funcionam como filtro de reforço ou deterioração da concepção que o eleitor comum tem de cada um dos políticos. Acusar, por isso, o eleitor de ignorante e despolitizado é injusto, num país de partidos políticos, eles sim, no geral, despolitizados e despolitizantes. No regime militar a parcela consciente do eleitorado ainda tinha a motivação de derrubar a ditadura, de transformar o país num país democrático, desenvolvido, socialmente justo. Se a alguns incomodavam a violência, os cerceamentos, a censura, as prisões arbitrárias, de motivação política, a outros incomodava o mero fato de que as ditaduras são carrancudas e anti-carnavalescas. A força dessa motivação acabou justamente em conseqüência da carnavalização da política e da alegria messiânica que a acompanha, a concepção de que no voto, em vez de delegar obrigações abrimos mão de nossos direitos políticos. O voto na nossa cultura política é uma renúncia.

A política brasileira refluiu para o rotineiro, quebrado nos surtos eleitorais, num cenário em que aparentemente o País já não tem metas de inovação política, as eleições como mera e enfadonha obrigação de manter os mesmos políticos no poder ou, quando muito, substituí-los por suas cópias. Muitos votam ansiosos pela calmaria do dia seguinte, dos intervalos entre eleições, do dever falsamente cumprido no país do voto obrigatório, em que a política acaba se reduzindo à caricatura do deputado orgulhosamente corrupto, o dinheiro caindo do bolso, num programa semanal de televisão. Antes da eleição e depois da eleição tudo parece sugerir que o papel do político é o de servir para a galhofa, a política como comédia. A verdadeira política não tem visibilidade no Brasil nem os verdadeiros políticos a tem, a não ser excepcionalmente. O deformado filtro da cultura popular seleciona fatos e ocorrências da fragmentária crônica política que lhe chega por acaso e com eles constrói a consciência política desse precário cidadão.

Partidos e governos poderiam contribuir para quebrar o círculo vicioso dessa concepção despolitizante da política e do poder se não fossem fortes as sobrevivências da complexa trama de relações da tradição da dominação patrimonial e da cultura da troca de favores em que a política tem sido a moeda corrente. Nosso atraso político se regenera mesmo na ascensão política dos que, supostamente oriundos de outras matrizes sociais e históricas, cresceram respaldados pela ilusão a todos imposta de que, finalmente, 120 anos depois da proclamação da República, torna-se efetiva a República que nos reconheceria a todos como iguais e cidadãos. No entanto, o que se vê é o poder de regeneração do atraso. Os recém-chegados são capturados pela trama desse republicanismo de fachada que se materializa na lógica de que é preciso tudo mudar para que tudo fique como estava, como no esclarecimento de Tancredi ao tio estarrecido com seu adesismo ao triunfo inevitável da Casa de Savóia na unificação da Itália, em "O Leopardo", de Lampedusa.

É verdade que o municipalismo brasileiro, berço do nosso republicanismo e, contraditoriamente, berço do que o paulista Pedro Taques, no século XVIII, denominava de "pais da pátria", tende a reduzir o País às necessidades conservadoras da ordem política arcaica, na fragmentação da vontade política do povo, na superposição de estruturas políticas desencontradas e tão diversas entre si como a do município, das províncias e do Estado nacional. Desencontro que responde por nossos intervalos ditatoriais e na paz da democracia de fachada pelo triunfo dos interesses locais e das artimanhas do localismo primário e suas metas de conveniência, como a do poder pelo poder. A farra da distribuição de verbas para azeitar as possibilidades de aliados, da liberação de recursos para obras de impacto visual, a política social de aliciamento de consciências nos 15% de domicílios que recebem doações financeiras do governo, as múltiplas políticas de pseudofavorecimento dos pobres, tudo dá razão ao barbeiro e ao taxista.

*José de Souza Martins, professor de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP, é autor de O Sujeito Oculto (Ordem e transgressão na reforma agrária), Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2003; A Sociabilidade do Homem Simples (2ª edição revista e ampliada, Contexto, 2008) e A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


PASSADO É COMO DIAMANTE
Luiz Carlos Azedo


Uma “anistia ampla, geral e irrestrita” – palavra de ordem de toda a oposição –, para ser aceita pelos militares, deveria incluir o perdão a seqüestradores, torturadores e assassinos

A maior proeza do baiano Giocondo Gerbasi Alves Dias, o “Cabo Dias” (1913-1987), foi liderar um levante militar e tomar o poder em Natal (RN), por três dias, durante a chamada Intentona Comunista de 1935. Desde então, nunca mais parou de conspirar. Seguidor do líder comunista Luiz Carlos Prestes, de cuja segurança pessoal cuidou anos a fio, na década de 1950, se tornou o principal organizador e segundo homem do Partido Comunista Brasileiro. Foi um dos líderes políticos mais importantes e perseguidos da história republicana.

Nos anos 1970, o PCB passou por momentos dramáticos: muitos dirigentes haviam sido seqüestrados pelos órgãos de segurança, 12 dos quais “desaparecidos”. Um deles é Orlando Bonfim Junior, seqüestrado pouco antes de um encontro com “Neves”, nome de guerra de Giocondo. O velho e clandestino Partidão nunca esteve tão vulnerável, com milhares de militantes presos e centenas de dirigentes desorientados, tentando fugir para o exterior. “Viver e lutar”, dizia o editoral de Bonfim, na última Voz Operária editada no Brasil, em março de 1975. Isolado de seus companheiros, Giocondo se refugiou num velho “aparelho” de Volta Redonda (RJ), que só um homem seria capaz de localizar: Armênio Guedes, outro “capa-preta” do Partidão, que estava em Paris. De lá comandou a operação clandestina na qual “Neves” foi resgatado do Brasil e levado a Moscou.

Nessa época, o líder da campanha pela anistia no Brasil era o general Pery Bevilacqua, ex-membro do Superior Tribunal Militar (STM), que havia sido cassado por seus colegas de farda por se opor ao golpe de 1964. Ele fundou o Comitê Brasileiro da Anistia (CBA), para onde afluíram os parentes dos oposicionistas banidos, exilados, presos e desaparecidos.

Remanescentes de todas as organizações de esquerda que haviam participado da luta armada contra o regime integravam o CBA, que defendia melhores condições carcerárias e denunciava os seqüestros, prisões, torturas e assassinatos de oposicionistas. O general não era de esquerda, era positivista e legalista. Por isso mesmo, ele sabia que uma “anistia ampla, geral e irrestrita” – palavra de ordem de toda a oposição –, para ser aceita pelos militares, deveria incluir o perdão a seqüestradores, torturadores e assassinos. A “conciliação” é uma tradição política brasileira.

Quando houve a anistia, Prestes encarou-a com desconfiança. Imaginava que era uma armadilha para desarticular a oposição, cuja atuação no exterior levara o regime militar ao isolamento internacional, enquanto, no interior do país, promovia greves maciças de trabalhadores, grandes manifestações estudantis e vitórias eleitorais retumbantes da oposição.

Ao contrário, Giocondo enxergava na anistia uma mudança política que resultaria na derrocada do regime militar. Não era, como temia Prestes, uma nova “Macedada”, episódio no qual o ex-ministro da Justiça José Carlos Macedo Soares, em 1937, libertou cerca de 400 presos políticos sem processo, para logo depois o governo Vargas implantar o Estado Novo.

O Comitê Central fechou com Giocondo. A maioria resolveu aceitar o acordo da oposição com o general Figueiredo e voltar para o Brasil, mas Prestes, o legendário líder comunista da América Latina, nunca mais compareceu às reuniões do Comitê Central. Quando se convenceu de que poderia voltar ao Brasil, anunciou que o fazia como simples cidadão. Era o rompimento velado com o PCB, cujo comando havia perdido para Giocondo e outros veteranos de 35, como Dinarco Reis, Almir Neves e Teodoro Melo (ainda vivo).

Toda a esquerda brasileira se beneficiou da anistia, porém uma parte nunca aceitou a reciprocidade com relação aos militares que atuaram na repressão política. Da mesma forma como não votou a favor da eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral, não reconheceu o papel do ex-presidente José Sarney na transição à democracia e não endossou a Constituição de 1988. Ao longo dos anos, alimentou o desejo de um ajuste de contas com os torturadores e ainda vive em escaramuças com os militares na Comissão de Anistia. O ministro da Justiça, Tarso Genro, já fez parte desses setores e de vez em quando tem suas recaídas.

Agora, ingenuamente, resolveu propor a mudança da Lei da Anistia para punir os torturadores e assassinos do regime militar e provocou uma onda de indignação nos quartéis. Não respeitou o histórico acordo referendado no Congresso com a aprovação da Lei da Anistia, que acelerou a democratização do país e a volta dos militares à caserna. Romper esse acordo é chamar os militares de volta à luta política, daí porque o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que acompanhou todo o debate da anistia e já presidiu o Supremo Tribunal Federal, fez muito bem em dar um chega prá lá no seu colega de Esplanada. Como dizia o Cabo Dias, “passado é como diamante, ninguém joga fora”. Afinal, a esquerda também cometeu seus “crimes de guerra” durante a luta armada.

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


OS TORTURADOS NA DEMOCRACIA
Dora Kramer

O estado de completa insegurança do público e a incapacidade provada e comprovada do Estado em enfrentar o aumento inclemente da criminalidade não interditam o debate sobre o acerto de contas com os crimes da ditadura, pedido por perseguidos políticos, familiares de mortos e agora encampado pelo governo federal.

A discussão é pertinente, a cobrança é legítima, o entendimento de que torturadores não são criminosos políticos, mas facínoras como outros quaisquer faz todo o sentido, mas não se trata de uma questão que requeira do poder público uma providência urgente nem que esteja a assombrar a Nação.

Esta hoje se estarrece muito mais com os crimes que assiste, e sofre, no cotidiano presente, do que com as violências cometidas no passado por um Estado que avocou a si o direito de posse sobre o pensamento de seus cidadãos.

Na última quinta-feira, a punição aos torturadores do regime militar e a exclusão deles da Lei de Anistia foram reabertas durante uma audiência pública do ministro da Justiça, Tarso Genro, e do secretário nacional de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, com a Comissão de Anistia.

Até então ambíguo na abordagem do tema, com uma tendência a não reavivar atritos com os militares - posição expressa na manutenção do sigilo sobre os arquivos do período autoritário -, o governo foi explícito na defesa da punição aos torturadores.

"A partir do momento em que o agente do Estado pega o prisioneiro e o tortura num porão, ele sai da legalidade do próprio regime militar e se torna um criminoso comum e tem de ser responsabilizado", disse o ministro Tarso Genro em consonância com o secretário de Direitos Humanos, que propõe uma posição ativa por parte da União para identificar e processar quem matou, torturou, estuprou ou ocultou cadáveres em nome do regime.

De acordo com o ministro e o titular da secretaria, criminosos comuns não podem ser protegidos pela Lei de Anistia de 1979 porque ultrapassaram os limites das próprias regras de exceção vigentes na época.

Os militares reagiram, é claro, apontando na posição do governo intenções puramente "revanchistas".

Provavelmente o que mobiliza o ministério não é o desejo de vingança e certamente as razões dos diretamente atingidos refletem o anseio de qualquer vítima, direta ou indireta, da violência: a reparação.

É um problema em aberto há anos, cabe realmente ao governo tomar uma posição, mas, convenhamos, é preciso que o poder público tenha discernimento e sensibilidade sobre o momento e a oportunidade de fazê-lo.

Não importa o número dos que foram vítimas da ditadura nem se trata de compará-lo à quantidade de gente que é diariamente vítima da criminalidade. Atrocidades contra um ou contra dez milhões são sempre atrocidades.

O que soa fora do eixo é a atenção dedicada pelo governo a um tema do passado em contraposição à quase total indiferença em relação aos crimes - também comuns, como aqueles - cometidos no presente, que serão cometidos daqui a pouco e de novo ocorrerão amanhã, depois e cada vez com mais selvageria.

À exceção de ocasiões em que ocorrem episódios chocantes não se vê as autoridades debruçadas com tanto afinco na proposição de ações objetivas para garantir as vidas da geração atual. Como se os torturados na democracia valessem menos que os brutalizados na ditadura.

Com toda reverência que merece o assunto, um Estado que não lida com o que vê não tem a prerrogativa de olhar para trás.

Agenda máxima

Para que não soe como crítica, estabeleça-se a preliminar: a campanha institucional do Tribunal Superior Eleitoral conclamando o eleitor a votar em gente de "passado limpo" é irretocável. Necessária, didática e oportuna.

Indispensável, porém, que outras instituições interessadas na melhoria da representação política aproveitem o ensejo para acrescentar que vida pregressa limpa é só um pré-requisito básico.

Nem só de honestidade se faz uma excelência. É preciso comprovação de eficácia nos quesitos que realmente fazem o diferencial no governante ou no representante legislativo.

Um honrado inepto é tão insatisfatório quanto um pilantra eficaz. Há exemplos de sobra na praça em ambas as categorias.

O problema do furor moralizante - justo - é conferir uma sensação de saciedade ao cidadão que acaba perdendo a referência do preparo, da eficácia, da experiência, da inteligência, do bom senso, do senso da legalidade em todos os sentidos, do respeito aos limites do poder, e reduz a quase nada seu grau de exigência.

Depende

Paulo Maluf diz que "errou de boa-fé" ao apostar na eleição de Celso Pitta para prefeito de São Paulo, em 1996. Por esse critério, ao embarcar na canoa, Pitta teria acertado movido pelos bônus presumidos da má-fé.

DEU EM O GLOBO


AS PRIVATIZAÇÕES REAVALIADAS
Fernando Henrique Cardoso


Há mais "repulsa ideológica" do que controvérsia ou crítica consistente


Apesar da borrasca, que vem vindo forte sobre a economia global, tem-se a impressão de que vivemos em uma ilha, espero que não seja a da fantasia. Em algum momento e em alguma medida as trovoadas atingirão nossa economia, hoje mais sólida. Dentre os fatores que nos permitem enfrentar as dificuldades globais, quatro são fundamentais: a abertura comercial, a estabilização monetária, algumas mudanças nas formas e condutas administrativas e as privatizações. Alguns desses fatores costumam ser louvados, outros nem tanto e outros são postos à margem. A estabilização, resultante do Plano Real, costuma ser gabada por todos, mesmo pelos que se opuseram a ele no passado. A abertura fica em geral esquecida, dado que foi iniciada no governo Collor, não muito amado. Algumas mudanças administrativas, como a criação de agências regulatórias e a independência, na prática, do Banco Central, foram absorvidas pouco a pouco. As privatizações, embora mantidas até hoje, são objeto de "repulsa ideológica", mais do que de controvérsia ou crítica consistente.

No momento em que a privatização do sistema Telebrás está completando dez anos, é hora de rever as apreciações sobre seu significado para a economia e para o modo de funcionar do estado brasileiro. As privatizações foram feitas a partir de 1991, seguindo a lei de que resultou o Plano Nacional de Desestatização, reestruturado no governo Itamar Franco. É verdade que nem todas as privatizações tiveram êxito equivalente à do sistema de telecomunicações, mesmo porque não é fácil encontrar um administrador de pulso e um político de visão como Sergio Motta. Ele ganhou o apoio do corpo técnico das antigas estatais e se lançou com dedicação e energia à criação do novo modelo. Não presumiu saber tudo. Ao contrário, chamou técnicos experientes de uma assessoria internacional e enfrentou o debate público sobre os novos caminhos das telecomunicações, sempre com meu apoio direto.

O primeiro passo para a reconstrução dos serviços de telecomunicações foi dado em agosto de 1995, com a mudança constitucional que aboliu o monopólio estatal. Menos de um ano depois, em julho de 1996, o Senado aprovava a chamada Lei Mínima das Telecomunicações que permitiu a venda de licenças para a concessão da exploração dos celulares, a banda B. Nas duas casas legislativas a maioria a favor foi esmagadora, opondo-se à mudança um grupo de retrógrados, sempre se auto-intitulando progressistas e defensores dos interesses populares. Faltava-lhes visão de futuro e a percepção de que as novas tecnologias e o dinamismo competitivo entre as empresas, sob supervisão do Estado, garantiriam amplo acesso da população aos meios de comunicação e o barateamento dos serviços.

O passo seguinte foi dado em dezembro de 1996 com o envio ao Congresso do projeto sobre a Lei Geral das Telecomunicações e com a criação da Anatel, projeto que foi debatido, modificado e aprovado pelas duas casas. Em 16 de julho de 1997 promulguei a nova legislação. Estavam criadas as condições para o Brasil entrar na era eletrônica, da internet, do wireless, da banda larga, dos celulares com seus pré-pagos, da universalização do acesso à telefonia e aos serviços de telecomunicações.

Daí por diante travamos a batalha para mostrar que as concessões foram vantajosas e que o processo de privatização decorreu de forma transparente, com leilões públicos que renderam ao Tesouro polpudos ingressos, cerca de 19 bilhões de dólares pela venda de cerca de 20% das ações da Telebrás. As demais, embora não fizessem parte do bloco de controle, já estavam nas mãos de indivíduos e empresas. A esse montante se soma o resultado das concessões de exploração dos celulares e de outros serviços, num total de cerca de 30 bilhões de dólares. Entretanto, não foi só por isso que fizemos a privatização das telecomunicações, nem foi essa sua única vantagem. A principal foi a absorção rápida de novas tecnologias e a continuidade dos investimentos, livres das peias burocráticas do monopólio estatal e das restrições orçamentárias que ele acarretava, inclusive para a contratação de financiamentos. De 1998 até hoje as empresas de telecomunicação investiram cerca de 140 bilhões de reais na melhoria e expansão do sistema, o que seria impossível com recursos do governo.

A gritaria a respeito do que se chamou maldosamente de "privataria" não se sustenta. O BNDES apresentou publicamente as regras dos leilões, respeitando estritamente a diretiva constitucional da publicidade. Nenhuma delas foi modificada posteriormente, de modo que outro princípio constitucional, o da impessoalidade, também foi obedecido. Por fim, o terceiro ditame constitucional, o da economicidade cumpriu-se integralmente. Saía vencedor o consórcio que apresentava em envelope fechado a maior oferta. A celeuma causada pelas discussões entre o ministro das Comunicações, o presidente do BNDES e o Banco do Brasil baseou-se na incompreensão da natureza do processo: quanto mais concorrentes houvesse, maior lucro para o Tesouro. Era natural que o governo se empenhasse em suscitar mais competidores, e que o Banco do Brasil desse cartas de fiança (pelas quais cobrava) para assegurar, com a garantia das ações vendidas, que o vencedor pagaria a primeira parcela ao Tesouro. No caso dessa celeuma, o consórcio em causa perdeu o leilão, não tendo qualquer cabimento falar-se em favorecimento. Ademais, o Tribunal de Contas da União e o chefe de sua Procuradoria analisaram, julgaram e opinaram pela lisura dos procedimentos.

Os objetivos fundamentais da privatização das telecomunicações foram alcançados. A telefonia fixa passou de 20 para 40 milhões de aparelhos nestes dez anos, os celulares entre 1998 e 2007 passaram de 7,4 para 121 milhões, o número de pessoas com acesso à internet alcança hoje 41,6 milhões, e o sistema está em expansão. A concorrência entre as empresas é contínua, o número de empregos aumentou, sua produtividade também, o Tesouro arrecada muito mais impostos do que jamais suas ações renderam, e o preço dos serviços continua caindo. Sem falar na parcela crescente que os serviços de telecomunicações ocupam no PIB e, portanto, em seu aumento.

É preciso melhorar o atendimento aos consumidores assim como os avanços tecnológicos requerem revisões no marco regulatório para permitir o uso convergente de novas tecnologias. Espero que isso seja feito com o fortalecimento da Anatel e no respeito aos princípios constitucionais referidos, mantendo-se a competitividade entre as empresas, para evitar o monopólio privado, danoso ao interesse público.

DEU EM O GLOBO


PÓS-RACIAL
Merval Pereira


NOVA YORK. Embora tenha tentado se colocar como um candidato de um mundo pós-racial, Barack Obama não conseguiu levar a campanha sem que o tema se transformasse em um ponto central das discussões e, embora tenha cerca de 90% de apoio entre os eleitores negros, é desse contingente que surgiram os primeiros problemas de sua campanha em relação ao assunto, ainda tão delicado. O mais recente foi provocado pelo rapper Ludacris na composição "Politics as usual" (A política de sempre), onde, a pretexto de convocar os eleitores a votar em Obama, fala em "pintar a Casa Branca de preto" e dirige ofensas a Hillary Clinton e John McCain.

O candidato democrata foi obrigado a criticar Ludacris, um ídolo do rap a quem elogiara em entrevista, embora criticando sutilmente seu machismo. Anteriormente, já tivera problemas com o pastor radical Jeremiah Wrigth, e com o veterano líder negro Jesse Jackson, que reclamou com palavras chulas de uma suposta tendência de Obama a não ser condescendente com os negros. Na sexta-feira, defrontou-se com manifestantes que levantaram um cartaz cobrando mais atenção aos problemas da comunidade negra.

Uma reportagem do "The New York Times" desta semana mostrou que desde 1994, quando lecionava na faculdade de Direito de Chicago, Barack Obama levava para suas classes discussões sobre políticas públicas envolvendo questões raciais, procurando sempre abrir um debate sobre alternativas multirraciais.

Uma das questões que levantou em classe, por exemplo, foi sobre a política de adoção de crianças negras, que alguns estados queriam limitar a pessoas negras, com o apoio de organizações sociais de trabalhadores negros, sob a alegação de que a adoção pela mesma raça daria à criança um senso de identidade mais forte.

O professor Obama opunha a esse raciocínio os que consideravam essa política racista e prejudicial às milhares de crianças necessitadas de adoção, inclusive famílias brancas interessadas em adotar crianças negras.

Colocando temas como esse em classe, Obama, dizem agora seus ex-alunos e antigos colegas professores, parece que estava testando suas próprias posições, numa espécie de treinamento para a carreira política que acabaria abraçando, em vez da carreira acadêmica, que não parecia ser seu destino já naquela época.

Esse tema de crianças negras sem família, aliás, foi o que levou às queixas do Reverendo Jesse Jackson, que depois se desculpou. Obama havia criticado num comício o fato, apontado por pesquisas, de que crianças negras são mais passíveis de crescer em lares sem pai, exortando os homens negros a assumirem suas responsabilidades diante da família.

Uma pesquisa do instituto Pew Research mostra que negros tendem a casar menos que os brancos, e a terem mais filhos fora do casamento. Também a agência do Censo dos Estados Unidos mostra que crianças negras formam o único grupo mais provável de viver com uma mãe solteira do que em uma família com pai e mãe.

A crítica de Obama está respaldada não apenas em seu histórico de preocupação com o tema, mostrando sua coerência no debate. Outra pesquisa mostra que Obama é visto pela grande maioria dos eleitores negros (72%) como um candidato que se preocupa com os problemas e necessidades de pessoas comuns. Entre os brancos, estas porcentagens são muito menores, 31% e 32%, respectivamente.

Jonas Zoninsein, professor da Universidade de Michigan, um estudioso das políticas de ação afirmativa, acha que Obama encarna as ambições dos liberais negros que tiveram sucesso em sua integração na sociedade americana desde os anos 1960.

"Obama entende que o franchise (concessão) para as minorias nos EUA é expansivo, que a institucionalidade da democracia americana tem condições de progressivamente incorporar todas as minorias, inclusive os negros", ressalta Zoninsein, para quem "as lutas sociais, econômicas e políticas são necessárias, mas o sistema criado pelos fundadores da República funciona e funcionará, é uma questão de tempo, de políticas específicas, de negociações, de lideranças (no caso concreto, ele seria um destes líderes) que entendam os desafios do momento presente".

O professor Jonas Zoninsein diz que Obama, no momento, encarna a síntese do multirracialismo na sociedade americana, uma tendência emergente que ainda estaria restrita a certos grupos, defendida principalmente pelos conservadores, com parentesco com o conceito da democracia racial no Brasil, e os que defendem a integração da minoria negra, sem assimilação à cultura anglo-saxônica.

"Neste sentido, Obama representa uma frente mais ampla que o Jesse Jackson. Obama sendo filho de mãe branca, de classe média, intelectual, liberal, com pai negro do Quênia, muçulmano, não é um negro americano no sentido original da expressão. Isto em si pode ser relevante".

As reações localizadas à essa nova liderança estariam mais à esquerda, nos líderes negros que têm duvidas e desconfiam dele. "Ele representaria uma ilusão de integração, portanto, reduzindo potencialmente seu apoio entre as comunidades negras empobrecidas, excluídas e isoladas socialmente", que seriam um terço mais ou menos do total.

São essas organizações que protestam, como os de sexta-feira, exigindo de Obama uma posição menos pós-racial, que ele não pretende assumir por entendê-la ultrapassada pela realidade.

Segundo o professor Zoninsein, "as negociações com organizações da sociedade civil e igrejas, assim como propostas concretas ao longo dos próximos meses, vão definir o que vai acontecer", mas, no momento, o apoio entre as minorias negras a Obama é bastante sólido.

DEU NA FOLHA DE S. PAULO


FANTASMAS
Eliane Cantanhêde


BRASÍLIA - Se você espremer o que vem sendo publicado sobre os e-mails do "embaixador" das Farc no Brasil, Olivério Medina, ao seu "chanceler", Raúl Reyes, morto pelo Exército da Colômbia em março, não sobra muita coisa.

Medina, que mora em Brasília, cita nas mensagens deputados do PT e integrantes do governo Lula, como Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia. Sim, e daí? Poderia citar A, B ou C, assim como qualquer um pode me citar ou citar você. Não há referência a gestos, ações ou movimentos concretos que caracterizem uma aliança com a guerrilha.

Até prova em contrário, os e-mails não têm conteúdo prático, mas um forte componente político: alguém do governo Álvaro Uribe está vazando textos e nomes no mínimo para constranger o Brasil.

Por quê? Ninguém sabe, nem mesmo os interessados. A suspeita é que o ministro da Defesa, Juan Manuel Santos, candidato à sucessão de Uribe, queira endurecer ainda mais a política interna.

O resultado é que ninguém fala mais em Daniel Dantas, e o novo foco de investigação é se as Farc financiaram campanhas no Brasil e se há vínculos entre o governo e o PT com um grupo que seqüestra e mata às centenas, ou milhares.

Por coincidência (sem ironia), a revista colombiana "Câmbio" circulou com os e-mails e nomes justamente no dia da audiência pública promovida pelo Ministério da Justiça sobre a reabertura da anistia, para processar torturadores.

Do outro lado desse Muro de Berlim à brasileira, militares reagiram com sarcasmo. "O pessoal das Farc está todo lá [na reunião]", disse um oficial. Segundo ele, exagerando, os que querem processar militares são os mesmos que pagam fortunas em indenizações para quem seqüestrou, assaltou bancos e explodiu bombas -como as Farc...

Enfim, os e-mails da guerrilha não provam nada, a não ser que setores do governo Uribe estão doidos para constranger o governo brasileiro. E estão conseguindo.

DEU NA FOLHA DE S. PAULO


DE FATOS E PREVISÕES
Clóvis Rossi



SÃO PAULO - Alguma coisa não fecha nos números recentes da economia brasileira. Por partes: 1 - O desemprego de junho foi o menor em 10 anos para esse mês.

Significa, portanto, que há mais pessoas com emprego e, por extensão, com renda, do que havia no ano passado, na mesma altura.

2 - A turma continua tomando crédito com um apetite invejável, mesmo com o aumento dos juros.

Vale a cultura de que não importa o quanto se paga de juros, mas se a prestação cabe ou não no bolso, como disse Altamir Lopes, chefe do Departamento Econômico do Banco Central, quando foram divulgados os dados sobre crédito no primeiro semestre (crescimento de 14%).Se o crédito cresce é porque os consumidores têm confiança em seu próprio taco e, por extensão, ânimo para ir às compras, certo? 3 - Não obstante, a previsão de crescimento da economia para este ano foi reduzida para 4,8% pelo tal de mercado, apesar de, no ano passado, o PIB ter aumentado 5,4%.

Pior: para o ano que vem, a previsão é de medíocres 3,9%.

Tudo bem que previsões -do mercado ou de economistas- foram feitas para serem desmentidas pelos fatos, o que, no Brasil, ocorre com espantosa freqüência.

Ainda assim, é difícil entender o relativo pessimismo da previsão, quando vários fatores reais (e não previsões) levam a supor que daria para repetir, basicamente, o resultado de 2007. A saber: há segurança quanto ao emprego e, portanto, com a renda; há confiança em tomar créditos. Foram esses dois fatores (renda e crédito) que ajudaram muitíssimo no crescimento de 2007.

A menos que os palpiteiros não acreditem na cultura do juro que cabe no bolso e achem que as contínuas elevações das taxas acabarão mais cedo que tarde por derrubar o consumo e o crescimento. A ver.

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)


CHAMEM OS FILÓSOFOS
Alberto Dines

Perplexo diante do mundo? Quer entender o que está se passando em tantas esferas simultaneamente? A avalancha de informações diárias não consegue se articular para sossegar as suas angústias?

Então, uma boa notícia: sempre foi assim. O ser humano, apesar da mente privilegiada, é no fundo um zumbi, vagueando desnorteado a horas mortas nos quatro cantos do mundo. Para ajudá-lo, existem os filósofos cujo oficio é ocupar-se com as perguntas irrespondíveis e inabaláveis. Quando os questionamentos mostram-se permeáveis a uma explicação, deixam de ser eternos. Neste caso, recorra aos poetas e artistas e, dependendo da esfera em que ocorrem, convoque historiadores – eles sabem que nada mudou, apenas as circunstâncias.

O raciocínio, evidentemente, não se aplica àqueles cujas dúvidas foram resolvidas através das diferentes adesões religiosas. Estes são teoricamente infensos ao atordoamento, jamais se sentirão à beira do abismo embora tão sujeitos a despencar nele como os descrentes.

No âmbito mundial, graças ao distanciamento, é menos complicado entender e desfiar o grande novelo. As metamorfoses visuais e profissionais de Radovan Karadzic são o lado patético da tragédia que enlutou a Europa e a humanidade ao longo de todo o século passado. A xenofobia étnica e religiosa da qual ele é a expressão contemporânea mais bestial são os pavios das duas grandes guerras (1914 e 1939) e da sangueira na ex-Iugoslávia. A perseguição aos ciganos hoje na Itália só não lembram Mussolini para os infelizes que não sabem quem foi Mussolini.

Era inevitável o colapso da rodada de Doha porque faltava um suporte político (espiritual ou humanitário) capaz de amparar o convívio entre sistemas e interesses econômicos tão diferenciados. O fenômeno da globalização tem sido tocado apenas por motivações fisiológicas (ou fisiocráticas), por isso converteu-se no corolário do aquecimento climático mundial. As soluções pacificadoras são viáveis quando o objetivo claramente enunciado é a paz e não as pequenas tréguas.

No cenário brasileiro, as aflições e indignações por mais díspares que sejam, têm origem única: nossa democracia é insuficiente, precária, limita-se ao cumprimento estrito do calendário eleitoral e algumas de suas exigências mais visíveis. Não necessariamente as fundamentais.

O Estado de Direito como construção social, a isonomia como um princípio moral cotidiano, o sistema da representação popular com o equilíbrio entre os poderes são ficções e como todas as ficções mais ou menos próximas da realidade. Nunca incorporam-se à realidade. A corrupção assumiu o lugar da mãe de todos os malefícios simplesmente porque não conseguiu ser qualificada como subversiva, delito contra a ordem constitucional. A surpreendente conversa telefônica sobre o caso Daniel Dantas entre o advogado Luís Eduardo Greenhalgh e o chefe de gabinete da presidência, Gilberto Carvalho só teria conseqüências numa sociedade há muito liberada da tirânica lei "aos amigos, tudo".

Aqui, tudo começa e acaba na corrupção porque combatê-la, ao invés de converter-se em símbolo de um grande pacto nacional, virou kitsch, estigma do moralismo pequeno burguês. A organização criminosa que operava o mensalão não apenas enchia os bolsos, maletas e cuecas de dinheiro, ela solapava as bases da nossa democracia. Reconhecer isso exige sacrifícios que talvez só os filósofos são capazes de oferecer.

A tortura imposta aos cidadãos pelos perversos call centers e pela impostura dos Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) é um atentado diário aos direitos humanos. Totalitarismo da corporação empresarial associado ao autoritarismo dos agentes públicos encarregados de fiscalizá-la.

A greve dos correios de 20 dias penalizou a sociedade inteira, causou enormes prejuízos aos mais carentes, sequer foram oferecidos os serviços mínimos garantidos por lei, mas a pane de 24 horas na internet mobilizou as autoridades que exigiram reparações aos usuários prejudicados – os mais ricos.

A devida percepção das nossas carências democráticas tornaria tudo mais fácil, mais justo e, sobretudo, menos impiedoso. Antes disso é preciso convocar os filósofos para lhes propor aquelas perguntas sem respostas, inconformadas, inconvenientes. Eternas.


» Alberto Dines é jornalista.

sábado, 2 de agosto de 2008

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

TIROTEIO


“É SENSO COMUM TÍPICO DE QUEM NÃO CONHECE A LEI, FEITA PARA SEPARAR O JOIO DO TRIGO. O QUE A POLÍCIA FEDERAL QUER É GRAMPEAR ADVOGADOS E CLIENTES, O QUE ACABARIA COM A DEMOCRACIA”


(Do presidente da OAB Cezar Britto, criticando os que defendem veto de lula ao projetoque torna escritórios de advocacia invioláveis).
O QUE PENSA A MÍDIA
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL

http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1045&portal=

DEU EM O GLOBO


DESCONSTRUINDO OBAMA
Merval Pereira


NOVA YORK. Com um novo vídeo, desta vez divulgado apenas na internet, em que explora de maneira sarcástica o endeusamento da figura do candidato democrata, comparando-o a Moisés e insinuando que o próprio Barack Obama se considera um iluminado, a campanha do republicano John McCain continuou ontem a tentativa de desconstrução de seu adversário, cuja liderança a cada dia vai se erodindo perigosamente. A diferença a favor do democrata está praticamente zerada, segundo as últimas pesquisas diárias. A campanha negativa parece estar tendo boa receptividade junto ao eleitorado, mas há quem tema no Partido Republicano que uma dose exagerada possa reverter contra McCain.

Do lado dos democratas, o maior temor é que se repita o que aconteceu em 1988 com o então candidato Dukakis, que chegou a ter uma dianteira de 17 pontos sobre Bush pai, acabou sendo derrotado, muito por causa de uma cerrada campanha negativa. Na verdade, tanto naquela eleição quanto agora, a economia tem papel de destaque no resultado.

Bush era o vice de Reagan e se aproveitou da melhora da situação econômica, enquanto hoje McCain carrega nos ombros as dificuldades econômicas do segundo governo de George W. Bush. De qualquer maneira, já entrou para a história das campanhas eleitorais americanas a propaganda sobre Willie Horton, um presidiário negro que, num fim de semana livre para visitar a família, estuprou e matou uma mulher branca.

O governador do estado de Massachusetts era Michael Dukakis, e a campanha de Bush pai aproveitou-se para explorar sua suposta leniência no combate ao crime, embora a lei que permitiu ao prisioneiro deixar a cadeia tenha sido aprovada anteriormente ao seu governo, e por um republicano.

Outro tristemente famoso filmete de propaganda eleitoral é o dos veteranos de guerra do Vietnã acusando o candidato democrata de 2004 John Kerry de não merecer as medalhas e honrarias por bravura. Como é praxe nas campanhas americanas, também um livro foi publicado com o título de "Unfit for Command" (Despreparado para Comandar), tendo ido para a lista de best-sellers.

Outros candidatos a presidente também foram alvos de campanhas difamatórias, como o próprio George W. Bush e Bill Clinton, mas os dois venceram suas respectivas eleições e foram reeleitos.

Um dos livros mais violentos contra o atual presidente Bush foi escrito por Molly Ivins, uma jornalista de esquerda do Texas, que, a começar pelo título, marcou o presidente com um apelido depreciativo: "Shrub", o mesmo que "Bush" em inglês, uma espécie de arbusto.

O livro "Shrub: The Short But Happy Political Life of George W. Bush" (A curta mas feliz vida política de George W. Bush) faz acusações pesadas contra o que a jornalista chama de negociatas e acordos políticos espúrios.

Com a subida de tom da atual campanha, é provável que surjam pelo caminho outras propagandas explorando a relação passada de Obama com o ex-pastor radical reverendo Jeremiah Wright, ou com William Ayers, professor de Chicago, que participou de um grupo terrorista nos anos 60 do século passado.

Esses e outros assuntos polêmicos, como a suposta educação muçulmana que teria tido na infância, fazem parte do livro "Um Caso contra Barack Obama, a improvável ascensão e a não examinada agenda do candidato favorito da mídia", de David Freddoso, um jornalista de direita da "National Review", que será lançado na próxima segunda-feira.

Por incrível que possa parecer, ainda existem 12% dos americanos que acreditam que o candidato democrata Barack Obama é muçulmano. Recente pesquisa do Pew Research Center revelou que essa desinformação não se limita aos que se opõem a Obama, havendo a mesma proporção entre democratas e republicanos que acreditam nela.

A diferença contra Obama é que entre os democratas que acreditam que Obama é muçulmano, apenas 62% dizem que votarão nele, uma diferença de 28 pontos percentuais em relação aos democratas que acreditam que Obama é cristão, o que ele de fato é.

Essa percepção está mais arraigada nos grotões dos Estados Unidos, e uma reportagem da CNN mostrou recentemente que mesmo com a informação correta esses americanos desconfiam que uma pessoa com o nome de Barack Hussein Obama seja um muçulmano.

Há quem acredite que por trás da campanha mais agressiva de McCain está Karl Rove, um conselheiro político tradicional do partido republicano que coordenou a assessoria política das campanhas de George W. Bush, sendo responsável pelas campanhas negativas de propaganda, e foi seu assessor na Casa Branca. Em seu blog, ele criticava a campanha de McCain, taxando-a de incompetente e insossa.

Mas a história do marketing político tem exemplos de campanhas propositivas que deram certo, e também de campanhas negativas que reverteram contra seus autores. Um exemplo bem-sucedido de campanha propositiva é um filmete considerado o caso mais conhecido da estratégia de reversão comunicacional: chama-se "Aburrido" (Aborrecido).

Feito pelo famoso marqueteiro americano Dick Morris para a campanha de De La Rúa à presidência da Argentina, em 2001, aproveitou características consideradas não populares do candidato, como sua rabugice e timidez, e transformou-as em trunfo eleitoral.

Um caso de campanha de "desconstrução" que deu errado é também de Morris em uma campanha presidencial no México. O filmete "Labestida" (a besta) procurava ressaltar a percepção generalizada de que o candidato do PRI, Francisco Labastida, era burro. Os estrategistas do PRI identificaram, através de pesquisas, que havia espaço para vitimizar o candidato atacado, e o eleitorado ficou do seu lado. Vicente Fox perdeu pontos com essa peça, embora tenha se recuperado e vencido as eleições.

Na coluna de ontem, onde está escrito "propaganda em que os democratas tratam Obama como uma celebridade sem condições de governar o país...", evidentemente deveria estar escrito "republicanos".

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


MOCINHOS BANDIDOS OU VICE-VERSA
Dora Kramer


Olhar os fatos à distância, sem a obrigação de formar sobre eles um juízo imediato, tem suas vantagens e desvantagens.

A vantagem é poder pensar com mais vagar. A desvantagem é que, ao pensar com mais vagar, nada parece fazer sentido. Os esforços da Justiça Eleitoral para restringir o acesso de gente “fichada” a cargos eletivos soam ingênuos diante da facilidade e eficiência com que os fora-da-lei impõem limites ao acesso a seus “currais” para fins de reserva de mercado eleitoral.

Se chamados de “bocas de voto” daria no mesmo.

Essa, porém, é a deformação mais recente, já vista sob a ótica da interpretação obrigatória. A anterior teve a Polícia Federal em seu papel mais espetacular desde a prisão da dona da Daslu, ao recolher o banqueiro Daniel Dantas, o especulador Naji Nahas e o ex-prefeito Celso Pitta aos costumes.

Até aí, nada de novo. Mais ou menos um mês antes a PF havia enquadrado numa operação no Rio de Janeiro o ex-governador Anthony Garotinho e levado o deputado e ex-chefe de Polícia Civil Álvaro Lins para uma (curta) experiência do lado menos nobre das delegacias.

Houve celebração, mas o ato não deixou seqüelas. Lins permanece deputado e o Rio - para ele - continua lindo visto dos bastidores da Assembléia Legislativa fluminense, literalmente paralisada ante o poder paralelo do ex-chefe da polícia.
Mas foi o barulho que se seguiu à prisão de Daniel Dantas o que proporcionou ao espectador temporariamente desengajado uma visão surreal do cenário.
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, protestou contra os métodos da polícia, envolveu-se em bate-boca com juiz de primeira instância, se estranhou com o ministro da Justiça, mandou soltar Dantas duas vezes e, com isso, nas rodas de cidades como Rio, São Paulo e Belo Horizonte, foi posto no papel de vilão.

Nas duas semanas de julho em que o caso esteve em destaque no noticiário, era comum ouvir gente levantando pesadas suspeições a respeito do presidente do STF, como se fosse a encarnação do malfeitor universal e o tribunal um ambiente permeável a cooptações.

Ao chamado cidadão comum, e ao incomum também, com acesso ao manejo de algum meio de comunicação, não ocorreu que o presidente do Supremo não se exporia daquela maneira sem uma boa razão.
A ninguém pareceu lógico que a decisão estivesse baseada na interpretação da lei. Daniel Dantas saiu bem da história e o presidente do STF caiu na boca do povo.

As decisões avançadas tomadas pela Corte nos últimos tempos perderam a validade. O Supremo foi de mocinho a bandido com a mesma falta de cerimônia com que amanhã pode fazer o caminho inverso.

O episódio ilustra bem a confusão mental em que se encontra o Brasil. Como os escândalos são bem aceitos (qualquer dia serão obrigatórios), a qualificação de corrupto perdeu a gravidade.

Para acusados e acusadores.
Em tempos normais, a simples insinuação de que o STF pudesse condicionar suas decisões à melhor oferta abriria uma crise de ruptura a justificar até a dissolução do tribunal.

Mas agora não, fala-se qualquer coisa e dali a pouco as autoridades aparecem sorridentes numa fotografia e fica o dito pelo não dito.
Tudo desaparece, menos a sensação de que o País abriu mão do discernimento e se entregou ao tanto faz como tanto fez.

Cada qual


No primeiro debate entre os candidatos a prefeito, apresentado pela Bandeirantes, na quinta-feira, ninguém saiu um milímetro do figurino. Marta Suplicy comparou sua gestão com a atual e saiu-se bem no esforço para transmitir serenidade e controlar a tendência ao sarcasmo que, em outros tempos, a fez massacrar Paulo Maluf em debates e ganhar a eleição. Mas, depois do advento do “relaxa” e todo mundo sabe mais o quê, o terreno da galhofa tornou-se intransitável para ela.

Geraldo Alckmin fez o que sabe - invocou Mário Covas, ressaltou feitos no governo do Estado - e o que pôde: falou de futuro, na impossibilidade de criticar a gestão municipal presente, cujo titular é, em tese, um aliado.

Gilberto Kassab ateve-se à lista de realizações e, quando teve chance, deu um jeito de falar sobre uma parceria com o “governo federal”. Assim como quem não quer nada, muito menos briga com o Lula.

Paulo Maluf, o artista de sempre. Reapresentou suas credenciais de realizador, acrescidas do atributo da contenção financeira. Segundo ele, fez mais com menos dinheiro que os outros. A respeito da invencionice sobre um engenheiro (ele) estar muito mais apto que uma psicóloga (Marta) ou um anestesista (Alckmin) para administrar São Paulo, não deu para entender: se fez piada, faltou graça. Se falou sério, faltou lógica.

Ivan Valente, do PSOL, concorre para divulgar o partido e Soninha Francine é animada, espontânea e bem intencionada demais para prosperar na política na forma como é hoje exercida.

DEU NO JORNAL DO BRASIL


DILMA VOLTA AO PÓDIO
Villas-Bôas Correa


NO BALANÇO SUMÁRIO DA SEMANA POLÍTICA sem grandes lances, uma frase do presidente Lula, com a ênfase que soou como um brado retumbante em meio a jantar no Palácio de Ondina, ainda ecoa na frustração do PT e escorreu como mel pela garganta da ministra chefe da Casa Civil com a saudação ao entrar no salão: ­

- Vocês tratem muito bem a minha candidata!

A ministra Dilma Rousseff, reentronizada no pódio, abriu o sorriso no rosto austero e degustou o retorno à virtual oficialização como a candidata do presidente que manda no PT com autoridade para enquadrar os surtos de desobediência e certamente vai curtir por novo período, não se sabe se longo ou fugaz, a prenda mais cobiçada no jogo político.

Ministros e convidados que testemunharam a coroação da ministra comportaram-se com as cautelas da experiência no jogo da política.

E, afinal, há cartas no baralho para todas as combinações do pôquer. E cada qual sonha com a quadra de ases no lance definitivo.

O recado direto de Lula será interpretado de acordo com os interesses e ambições do dono da casa e da parentela que sempre adula o chefe que distribui favores e arranja emprego para todos os paladares na feira-livre das nomeações do governo de generosidade perdulária.

Lula montou a frase, palavra por palavra, com o cuidado do ourives ao polir a jóia com a pedra preciosa incrustada entre brilhantes. E esperou o momento certo para pronunciá-la, em reunião partidária ou nas raras convocações do gabinete de 37 ministros e secretárias que se apertam no salão nobre do Palácio do Planalto ­ em obras, para receber o sucessor, no distante 1° de janeiro de 2011.

Se for mesmo a ministra Dilma a coroada ao fim da caminhada, rosas e cravos enfeitarão o cenário. Mas a sua candidatura reanimada pela injeção de óleo canforado do presidente ajudará a arrumar a casa, pondo ordem na bagunça das ambições do segundo escalão e impondo uma pausa na troca de canelada entre a meia dúzia, talvez chegue ao dobro dos que se consideram no páreo, com todos os direitos da antiguidade na longa folha de serviços ao partido e ao seu proprietário. Respingos de denúncias na enxurrada dos escândalos que parecem não ter fim são como gotas de orvalho que secam aos primeiros raios de sol.

Inútil tentar arrolar nomes que vão e vem como ondas. E é justo que os petistas do primeiro escalão sonhem com a Presidência e, na hora do rateio, aceite conformado qualquer prêmio de consolação, como uma chefia de autarquia ou de gabinete de ministro. Ou de secretário.

Com aliados da penca de siglas as contas estão zeradas. O governo pagou à vista e com a prodigalidade de gerente do cofre da viúva o apoio da sopa de letras que garante a aprovação dos projetos do seu interesse na Câmara, mais dócil, no Senado com surtos de rebeldia.

Derrotas importantes, muito poucas. E quase todas recuperadas no segundo tempo.

A pausa na especulação precipitada sobre a escolha do candidato do governo para a sucessão de Lula foi travada com a pisada firme no freio. E deve fazer bem à mofina campanha para a eleição de prefeitos e vereadores daqui a dois meses, nas urnas do dia 5 de outubro.

Até agora, a campanha mais chinfrim. Parece faz-de-conta entre candidatos, que escondem partidos que lançaram nomes para o vale-tudo.

A maioria dos governadores se omite ou apóia o candidato da sua seleção. Tanto para prefeito como para o angu de caroço da eleição de vereadores. Até porque prefeito reeleito conta com maioria certa na Câmara Municipal.

Se servir de lenitivo para os desprezados, é bem mais pesada a carga de dificuldades da oposição. Lula e o PT estão com a ministra-candidata na escada do trono; a oposição pendurada nos resultados de uma eleição em que suas perspectivas estão longe de justificar o otimismo que espanta fantasmas.

O PT e seus aliados de cabresto receberam na bandeja uma candidata lançada. No puçá do PSDB, do DEM e legendas nanicas, muitos nomes ilustres, nenhum até agora com a marca de candidato natural.

É cedo para enxergar o amanhã. E mesmo o que se vê hoje é melhor esquecer.

DEU EM O GLOBO


TSE VAI DISCUTIR SITUAÇÃO DO RIO NA PRÓXIMA TERÇA


BRASÍLIA. A tentativa de milícias e traficantes de controlar o processo eleitoral em morros do Rio deverá ser discutida pelos sete ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em reunião administrativa na próxima terça-feira, disse ontem o presidente do tribunal, Carlos Ayres Britto. Ao abrir os trabalhos do segundo semestre, ele relatou aos colegas a intimidação a candidatos e jornalistas feita por traficantes da Vila Cruzeiro, no Rio, lembrando que isso motivou sua reunião com o ministro da Justiça, Tarso Genro, e com o presidente do TRE do Rio de Janeiro, Roberto Wider.

Britto voltou a tranqüilizar os eleitores da comunidade e afirmou que não passam de "bravata" de criminosos informações de que grupos fora-da-lei teriam acesso ao conteúdo da urna eletrônica, de forma a saber quem votou em quem.

- Trata-se de uma bravata perigosa, pois termina por impressionar pessoas menos avisadas - afirmou.

Britto lembrou que uma nova reunião com o ministro e o TRE está marcada para o dia 11, no Rio, mas disse que o assunto poderá ser discutido internamente no TSE, na sessão administrativa de terça-feira. Disse ainda que, até lá, vai coletar novos dados sobre o trabalho conjunto das polícias Militar, Civil e Federal nos morros do Rio.

Na sessão de ontem, ele pediu ainda a cooperação do ministro Joaquim Barbosa, também ministro do STF, em razão de seu profundo conhecimento da realidade do Estado do Rio.

Britto disse que, mesmo com tantos desafios, o TSE retoma os trabalhos com ânimo maior para gerenciar as eleições municipais de 5 de outubro. E falou da "feliz coincidência" do aniversário da Constituição de 1988 na mesma data.

- O destino resolveu presentear a Constituição, que trouxe para o Brasil a democracia direta e indireta mais aperfeiçoada, fazendo com que o primeiro domingo de outubro caísse no dia 5.

DEU NO JORNAL DO BRASIL

TSE DISCUTIRÁ COMO COMBATER AS MILÍCIAS

Preocupado com as ameaças de milícias e traficantes na campanha eleitoral do Rio de Janeiro, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Carlos Ayres Britto, disse, ontem, que retomará a discussão sobre o assunto no dia 5 – quando ocorre a primeira reunião administrativa do tribunal neste semestre. A idéia, segundo o ministro, é buscar uma alternativa que garanta aos eleitores a segurança necessária para que possam votar livremente com a certeza da preservação do sigilo de suas escolhas em outubro. "Segundo eles [milícias e traficantes], a urna eletrônica não ofereceria essa transparência que se faz necessária e que seria possível saber quem votou em quem", disse Ayres Britto.

DEU NO JORNAL DO BRASIL


CANDIDATO VERDE PANFLETA NO METRÔ


O candidato Fernando Gabeira (PV/PSDB/PPS) e seu vice, Luiz Paulo Corrêa da Rocha, fizeram panfletagem ontem em frente ao metrô de São Cristóvão, na Zona Norte. Gabeira falou de suas propostas para a rede metroviária da cidade, como expandir a linha 2. Outra proposta é a criação das linhas 4 (de Botafogo à Barra) e 6 (da Barra até Madureira e Penha). Gabeira almoçou com o reitor da Uerj, Nival de Almeida, e fez corpo-a-corpo na Taquara e na Freguesia.

DEU NO JORNAL DO BRASIL

FAVELIZAÇÃO EXPÕE VULNERABILIDADE, DIZ ALBA

Para a socióloga Alba Zaluar, não há dúvida: favelização é problema, não solução. Na opinião da especialista, o que para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é classificado como "sub-normal", deveria chamar-se "sub-legal".

– As pessoas estão muito vulneráveis, podem ser expulsas a qualquer momento – explica a socióloga. – Criou-se um mobiliário para traficantes e policiais corruptos, que, na verdade, são extensão dos grupos de extorsão e extermínio. Tem que haver solução para a ocupação do espaço a título de propriedade.

Dados do Censo Demográfico do IBGE, nos anos de 1960 e 2000, mostram que o crescimento populacional nas favelas do município foi superior ao do asfalto.


O número habitantes nas favelas era de 335.063, em 60, passou para 1.092.476, em 2000. Crescimento de 3,3%. A contagem de habitantes fora das favelas foi de 1.910.145, em 60, para 4.765.428 em 40 anos: variação de 2,5%.

– Com os espaços urbanos nas favelas cada vez mais povoados, os moradores perderam lugar para discussão – conta Alba.


Estudo do Instituto Pereira Passos (IPP) revelou o impacto do crescimento demográfico no território ocupado: a ampliação das favelas chegou a 1.435.877 metros quadrados, entre 1999 e 2004. Das 750 favelas, 356 (47,47%) tiveram crescimento de área; 351 (46,80%) não alteraram suas áreas; e 43 (5,73%) tiveram suas áreas reduzidas, segundo diz o IPP.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O QUE PENSA A MÍDIA
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
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DEU NO JORNAL DO BRASIL


A PASSEATA DOS SEM-VOTO
Villas-Bôas Corrêa

Como ainda teremos a ventura de acompanhar e, em casos mais raros, participar da campanha municipal para a eleição de prefeitos e vereadores nos dois meses e cinco dias de patriótico fervor democrático até as urnas de 5 de outubro, é possível que queime a língua com a precipitação do singelo registro de que nunca assisti a tão chocha e desenxabida caça ao voto esquivo da maioria absoluta do eleitorado, que não está nem aí para o espetáculo das passeatas dos que se oferecem para o sacrifício de salvar a pátria.

As pesquisas ainda escassas não autorizam afirmações categóricas. Mas salta aos olhos que o escasso interesse pelas tendências do eleitorado pega carona nas especulações sobre as eleições para valer de 2010 para presidente da República, governadores, senadores e deputados federais. E ainda assim, nem a perspectiva de uma polarização entre governo e oposição que esquente a gelada indiferença da população parece provável a esta distância, com tempo de sobra para cambalhotas que virem as tendências ou fustiguem a disparada dos favoritos.

Cada cidade vive o seu momento de expectativa. E é evidente que as rivalidades municipais dos que são a favor ou contra o prefeito retocam os quadros com a intensidade das paixões locais.

Não é este o foco das análises dos especialistas do ramo, de militantes a curiosos ou os teóricos que se debruçam sobre a decadência ética de uma atividade cada vez mais atraente com a disparada dos subsídios parlamentares em todos os níveis, confeitados com as mordomias, as vantagens, as verbas indenizatórias, os gabinetes individuais com dezenas de assessores de livre nomeação do titular, das passagens para o fim de semana na base, no aconchego da família e na ronda aos eleitores que garantem mais um mandato para um dos melhores empregos do mundo.

Do vereador, que já foi um dignificante exercício da cidadania, com todas as honras e sem remuneração, ao senador – mesmo dos senadores de garupa, sem um único voto, arrastados pelo galope do titular – o mandato ao mesmo tempo em que perde prestígio e o respeito da sociedade, incha com a atração de um emprego, que precisa ser confirmado em cada eleição, mas que enriquece a quem sabe aproveitar o vento a favor para garantir o alto nível de vida até a eternidade.

É desalentadora a seca e isenta constatação de evidências. E da abúlica indiferença de partidos que não têm nada a propor ou idéias a defender, do Congresso e do governo que têm sempre a intenção de propor ao debate uma reforma política que não reforme nada e deixe as coisas correrem na cadência da tapeação.

O eleitor ainda pode despertar para a importância do seu voto, que é a sua arma para participar de uma batalha que de algum modo influirá no seu destino e no de todos nós.

O voto nulo é uma tolice que não leva a coisa nenhuma. Só uma mobilização nacional que reúna multidões nas ruas e praças para defender o protesto do voto nulo, poderia mexer na indiferença dos donos do poder.

Depois, francamente, é uma frustrante birra o eleitor perder um domingo, enfrentar fila para fingir que vota com o voto nulo. A cartilha do eleitor consciente aconselha outras formas mais lúcidas de protesto. Repito a receita: mantenha acesa a chama da raiva, da indignação, do protesto. E decida por um dos atalhos da encruzilhada: ou vote no candidato da sua cuidadosa escolha pessoal ou, para começo de faxina, vote no novo, no estreante que demonstre a disposição e assuma o compromisso público de lutar pela reforma política.

A reforma moral, a varredura do lixo, a limpeza do entulho que tresanda à distância.

DEU EM O GLOBO


A CARTA RACIAL
Merval Pereira


NOVA YORK. Tudo indica que a campanha eleitoral americana enveredou para uma fase mais agressiva a partir da entrada em cena da discussão de um tema tabu que estava implícito durante a fase anterior: a raça. A partir do momento em que a campanha de John McCain acusou Barack Obama de politizar o tema racial, foi como se a pressão contida de um debate delicado viesse à tona com toda sua força reprimida.


Numa sociedade em que, como revelou uma recente pesquisa do "New York Times", mais de 80% dos eleitores negros e apenas cerca de 30% dos eleitores brancos disseram ter uma opinião favorável a respeito de Obama, e onde aproximadamente 60% dos negros entrevistados disseram que as relações raciais são geralmente ruins, em comparação a 34% dos brancos, este é um tema que continua explosivo, ainda mais diante da possibilidade de um candidato negro vir a ser eleito presidente. Enquanto 40% dos negros dizem que não houve progresso na eliminação da discriminação racial nos últimos anos, apenas menos 20% dos brancos afirmam o mesmo.

O fato é que, ao repetir como acusação, em Springfield, no Estado de Missouri, uma brincadeira que fizera na abertura de seu histórico discurso de Berlim, o candidato democrata Barack Obama abriu uma discussão racial que tomou conta da campanha.

Obama afirmou que os republicanos fariam uma campanha de medo contra ele, acusando-o, por exemplo, de ser diferente dos demais presidentes americanos anteriores. Foi a mesma coisa que disse, em tom de pilhéria, para os mais de 200 mil alemães que foram ouvi-lo em Berlim.

Foi o sinal para que a campanha de McCain o acusasse de estar usando o tema racial para se fazer de vítima. A reação, porém, não foi unânime a favor do republicano. Também houve quem acusasse a campanha de McCain de ter se utilizado sutilmente do tema ao comparar Obama com duas celebridades louras, a cantora Britney Spears e a socialite Paris Hilton.

A propaganda em que os democratas tratam Obama como uma celebridade sem condições de governar o país, por si só, já representava um polêmico aprofundamento da campanha de desconstrução de imagem do adversário.

O toque racista levantado pelos dois lados adicionou um grau perigoso de acusações de racismo. O "New York Times", em um editorial divulgado na tarde de ontem mesmo pela internet, critica duramente McCain e faz duas acusações: a de que ele estaria utilizando a mesma tática que republicanos usaram na eleição de 2006 contra Harold Ford, um candidato negro ao Senado do Tennessee, comparado também com jovens brancas.

A outra suspeita lançada pelo "Times" se refere a uma expressão usada por um assessor de McCain para criticar Obama. Segundo esse assessor, a campanha democrata usou o tema racial "from the bottom of the desk", que significa uma trapaça em um jogo de cartas. A mesma expressão, segundo o "Times", foi utilizada pelo advogado do jogador negro O.J. Simpson para dizer que usara o tema racial para defender seu cliente, que acabou sendo absolvido da acusação de ter matado sua mulher, embora todas as evidências fossem contra ele.

A campanha de McCain está tentando combater a liderança de Obama nas pesquisas com acusações de que ele não tem experiência nem capacidade de governar os Estados Unidos, e também tentando criar uma imagem de presunçoso, que já estaria convencido de que será eleito em novembro.

Essa peja está tendo alguma receptividade, e já começam a aparecer programas humorísticos na televisão fazendo piada dessa suposta soberba de Barack Obama. Em seu programa, David Letterman, por exemplo, deu um decálogo de fatos que demonstrariam a auto-suficiência de Obama, que já estaria até mandando medir sua cabeça para uma escultura no Monte Rushmore, o memorial em Dakota do Sul que tem a cabeça dos presidentes Lincoln, George Washington, Thomas Jefferson e Theodore Roosevelt.

Obama continua à frente em todas as pesquisas, mas é bom relembrar que, no início de junho, uma pesquisa da "Newsweek" lhe dava 15 pontos de vantagem, que vem caindo em todas as pesquisas de lá para cá. Ontem, havia um consenso entre todos os institutos de que a viagem ao exterior produzira um efeito favorável a Obama que se desvaneceu com a mesma rapidez com que foi registrado.

Uma pesquisa divulgada ontem pelo Rasmussen Reports aponta que cerca de 30% dos eleitores democratas conservadores e cerca de 19% dos eleitores democratas brancos planejam votar em McCain.

O mês de agosto trará também para Obama um problema adicional. Uma editora de direita, a Regnery Publishing, publicará o amplamente divulgado livro "Um caso contra Barack Obama, a improvável ascensão e a não-examinada agenda do candidato favorito da mídia". Com vendas antecipadas sendo feitas pela Amazon na internet, o livro é de David Freddoso, um jornalista de direita da "National Review".


O livro acusa Obama de ter sido fabricado pela mídia e analisa suas relações com o pastor radical Jeremiah Wright, de quem Obama se afastou no meio da campanha, e com um líder radical da década de 60 do século passado, Bill Ayers, que é vizinho de Obama.

Tudo indica que a campanha eleitoral americana entrará em uma fase de agressividade que pode ter conseqüências imprevisíveis pelas características únicas desta eleição, em que, pela primeira vez na história do país, um candidato negro é favorito. Mas essa é uma tradição da política americana, da qual tratarei amanhã.

DEU EM GRAMSCI E O BRASIL


CHILE: ELEIÇÕES E FUTURO DA CONCERTAÇÃO
Fernando de la Cuadra

Comparativamente, a economia chilena está situada entre as mais sadias e fortes do continente. Entretanto, sempre é conveniente lembrar que os pontos fortes do país seguem baseando-se na produção e exportação de bens primários, ou seja, o Chile ainda tem uma economia fundamentalmente primário-exportadora (cobre, frutas, vinho, celulose, salmão) e está, portanto, sobreexposto a qualquer abalo do sistema econômico internacional.

A atual crise mundial, que atinge centralmente as economias mais desenvolvidas e repercute sem discriminação em todos os países do planeta, também tem afetado o Chile através do aumento do preço dos combustíveis e dos alimentos (especialmente grãos e lácteos). A inflação é o sintoma mais claro de uma crise que ameaça o conjunto dos países, e a receita tradicional — quase automática — para combatê-la é reduzir o gasto público e desestimular o consumo por meio do aumento dos juros.

O Chile não é uma exceção à regra. O país registra uma inflação de 6,7%, que supera em mais do dobro a projetada para o ano de 2008, algo inacreditável há muito pouco tempo, segundo a maioria dos economistas oficiais. Por isso mesmo, a “autoridade econômica”, ou seja, o Conselho do Banco Central, decidiu agir do modo mais previsível: aumentar a taxa anual de juros de 6,75 para 7,25%, o nível mais alto desde janeiro de 1999.

Com sua decisão, o Banco Central busca reduzir a demanda interna, a qual, segundo disse em comunicado, continua crescendo a taxas elevadas, sobretudo em termos de produtos importados. A medida, sem dúvida, aprofundará a desaceleração, que os créditos ao consumo já vinham mostrando, pela redução da oferta bancária e pela menor demanda das pessoas, em função do encarecimento dos empréstimos.

O diagnóstico da conjuntura nacional indica que o novo cenário da inflação responde a um fenômeno mundial, que provoca aumentos de preços dos bens energéticos (petróleo e seus derivados, gás e eletricidade) e dos alimentos. De fato, tanto na sua matriz energética quanto na segurança alimentar, o Chile possui vulnerabilidades difíceis de contornar a curto prazo. Quanto à disponibilidade de petróleo e gás natural, o país é altamente sensível às flutuações dos preços internacionais e, especificamente, no caso do gás natural, ele é muito dependente dos envios que possa realizar a vizinha Argentina. Já no que diz respeito a certos produtos da cesta alimentar, o Chile não possui auto-suficiência em determinados bens primordiais, como trigo, arroz e leite, entre outros.

Em resumo, o aumento de preço dos serviços e alimentos básicos, a inflação e o insuficiente reajuste do piso salarial (salário mínimo) têm gerado uma sensação de cansaço e descontentamento por parte da população chilena. Pelo menos isso é o que parece transparecer das pesquisas de opinião que foram realizadas neste último período.

Segundo dados divulgados recentemente pelo Centro de Estudos Públicos (CEP), 52% dos consultados desaprovam o desempenho econômico do governo, enquanto 48% reprovam os resultados em termos globais obtidos pela gestão do gabinete da Presidenta Michelle Bachelet.

Reagindo a estes resultados, o Ministro Secretário-Geral da Presidência (Casa Civil), José Antonio Viera-Gallo, declarou que, se não existisse a crise internacional, a aprovação do Executivo teria sido bem mais alta. De acordo com a autoridade, uma das razões mais evidentes desse desconforto deve-se às funestas conseqüências que representa o aumento dos juros sobre uma população que possui um alto endividamento, em grande parte devido a estímulos e facilidades de crédito para consumo. Nas palavras do Ministro: “Acredito que se produziria um aumento notável [do índice de aprovação], se não tivéssemos a crise internacional. A maior preocupação com a inflação e com os aumentos de preço, que golpeiam o bolso das famílias, é o que determina a má percepção dos eleitores”.

Ainda que aceitemos que a crise internacional tem inevitáveis impactos sobre o desempenho da economia nacional, uma explicação desse tipo para justificar a insatisfação da cidadania com a atual administração é visivelmente insuficiente. No nosso entender, estes problemas são meramente coadjuvantes ou agravantes de circunstâncias que, da mesma forma que a crise mundial, têm uma causal estrutural. Uma observação mais apurada sobre a situação em que se encontra a grande maioria das nações, e o Chile em particular, nos demonstra que quase todas elas convivem com deficiências endêmicas: pobreza humilhante, desigualdade, ausência de proteção social, vulnerabilidade, risco, insegurança urbana, descaso com o sistema de saúde, exploração excessiva e abusiva da força de trabalho, atividades predatórias das empresas, desrespeito pelos direitos das minorias, falta de perspectiva da juventude, etc.

Atribuímos, portanto, a queda de popularidade da atual administração a aspectos duradouros, relacionados com a forma como os diversos governos da Concertação têm lidado com a herança da ditadura e seu estigma neoliberal. A esta altura, está suficientemente demonstrado que os problemas da desigualdade no Chile explicam-se principalmente pelas condições estruturais da sociedade: a concentração da propriedade, a frágil organização social e sindical, a propagação de hábitos de consumo nas classes médias e altas próprias de países industrializados, os baixos níveis de educação e capacitação técnica, o atraso tecnológico.

Pode-se dizer que estamos ante aquilo que Antonio Gramsci considerava como a diferença entre o que é permanente e o que é “ocasional”, entre o que é “orgânico” e o que é contingente. Para ele, é fundamental estabelecer esta distinção na hora de efetuar uma análise da realidade social e ter claro o que é essencial na estrutura e o que só está lá por circunstância [1].

Sobrecarregada por estes déficits “orgânicos”, a atual gestão da Presidenta Bachelet está defraudando as enormes expectativas que existiam no início do seu mandato: governo cidadão, combate às desigualdades e à histórica discriminação das mulheres, mudança cultural e substituição das antigas elites. Por exemplo, a crise provocada pela implementação de um novo sistema de transporte público na capital — Transantiago — tornou-se mais virulenta, porque o desenho e a execução do programa realizaram-se sem a participação da sociedade civil. E não é trivial que isto tenha acontecido precisamente sob um governo fundado, enfaticamente, num discurso que salienta sua empatia e aproximação com os cidadãos.

Em definitivo, parece que a promessa de avanço em matéria de proteção social, como a grande meta desta administração, ainda está para ser cumprida. A idéia da mudança cultural associou-se ao primeiro governo presidido por uma mulher no Chile, o que, justamente, alentou muitas expectativas entre as minorias. O fato de haver uma mulher na Presidência simbolizava o ingresso dos excluídos secularmente na administração dos assuntos políticos.

Além disso, os temas relativos aos direitos das mulheres e à superação da moralidade conservadora têm sido crescentemente polêmicos no Chile pós-ditadura (por exemplo, a lei do divórcio e o uso dos métodos contraceptivos). Muito poucos duvidavam de que, durante o governo da Presidenta Bachelet, se produziria uma expansão dos direitos civis, e, sem dúvida, seriam as mulheres as principais beneficiárias. Hoje, vigora o desencanto com esta possibilidade. Somada à dificuldade de responder aos novos conflitos e impasses que emergem na sociedade, deve-se ter em conta a erosão de legitimidade que representa não possibilitar a discussão de temas considerados perturbadores para a estabilidade nacional.

Nuvens cinzentas no horizonte eleitoral

Junto a estes problemas internos e às restrições impostas pela atual “conjuntura” econômica mundial, verifica-se uma situação inédita que está colocando em risco a continuidade da aliança entre os partidos que formam a base do governo. É que, nas eleições municipais de outubro próximo, dois partidos da coalizão (Partido pela Democracia e Partido Radical Socialdemocrata) decidiram unilateralmente concorrer com listas separadas de vereadores. Isto poderia significar a fratura definitiva da coalizão — que vai cumprir 20 anos no fim do atual período —, no caso de estes mesmos partidos decidirem apresentar candidato próprio na contenda eleitoral de 2009.

A cisão também pode vir pelo lado da Democracia Cristã, que já anunciou não abrir mão de apresentar um candidato partidário, considerando que os últimos dois presidentes representaram a ala socialista. Para a DC, não respeitar a alternância de partidos significa desconhecer os acordos mínimos que se definiram antes da formação do bloco.

Parece evidente que, com a divisão desta aliança, o triunfo eleitoral é muito improvável, considerando que nas últimas três eleições a Concertação só conseguiu vencer em segunda rodada (balotage) graças ao apoio dos partidos do bloco Juntos Podemos (comunistas e humanistas), e mesmo assim com uma porcentagem não muito expressiva. Enquanto se mantiver o fracionamento da intenção de voto numa direita com remanescentes pinochetistas e houver uma opção democrática de centro-esquerda, os partidos da aliança de governo devem manter a vantagem demonstrada até hoje. Se este último setor se dividir, as possibilidades de sucesso eleitoral serão realmente mínimas. Mas será que, no horizonte concertacionista, interessa somente ter sucesso eleitoral para impedir que a direita assuma as rédeas do governo nos próximos anos?

Neste ponto, é válido fazer também a pergunta a respeito do que pode oferecer hoje a Concertação, para continuar liderando os destinos do país. Ou, em outras palavras, o que diferenciaria este novo projeto daquele já realizado pela coalizão em quase 20 anos de gestão?

Parece-me prioritário, nesta etapa, consolidar e renovar alguns aspectos programáticos que surgem de uma autocrítica no interior da aliança governista. Nesse sentido, seria preciso repor uma lógica política coerente com o projeto democrático que dá sentido a esta coalizão. Para isso, é fundamental fortalecer uma equipe dotada de mandato claro e de todas as faculdades necessárias para cumprir uma agenda que, entre suas tarefas prioritárias, contemple o desafio de ampliar o campo democrático e a participação efetiva da cidadania, a superação dos entraves estruturais da desigualdade e o fortalecimento da proteção social (emprego e salários dignos, educação de qualidade e sem fins de lucro, segurança alimentar, saúde pública universal, previdência solidária, moradia social digna, reforma tributária com carga progressiva).

Ao mesmo tempo, é fundamental recuperar a mística que caracterizou este pacto na época da sua formação, quando foi pensado para lutar pela recuperação da democracia na chamada Concertação de partidos pelo Não, organizada para concorrer no plebiscito que pretendia dar continuidade à ditadura militar.

Tal espírito e mística foram perdendo força com o transcorrer dos anos. Isto fez com que tanto militantes quanto funcionários dos governos concertacionistas abdicassem da dimensão ética em sua prática quotidiana, chegando a exercer as formas mais corrosivas da ação política. Por isso mesmo, nos últimos tempos é moeda freqüente presenciar atos de falta de probidade, corrupção, mau uso dos recursos fiscais e outras modalidades de decomposição da função pública. Em suma — tal como salienta o cientista político Antonio Cortés Terzi —, é preciso reorganizar um novo ethos e um novo projeto histórico concertacionista, fundado na recuperação de uma cultura de centro-esquerda.

Daqui surge uma nova pergunta. Poderão os setores mais progressistas do Partido Socialista conciliar e negociar esta agenda de mudanças substantivas, em diversos âmbitos, com os setores defensores do status quo, seja na Democracia Cristã, seja em outros partidos da aliança?

Difícil é ter uma resposta precisa a esta pergunta, mas temos certeza de que uma renovação do projeto da coalizão deve sustentar-se principalmente naqueles aspectos que representam o que de mais progressista existe nela, quer dizer, o compromisso em torno de um programa de governo que se proponha superar as restrições “orgânicas” que impedem construir uma sociedade mais eqüitativa e democrática.

Em síntese, os partidos da Concertação não só devem conseguir capturar o entusiasmo e adesão da maioria dos chilenos como há 20 anos, mas também precisam convocar os cidadãos para a construção de um projeto para o futuro, reencantando especialmente os jovens, que até agora não acharam seu lugar num imaginário nacional capaz de conceber o Chile como uma comunidade de destino em que todos podem ser incluídos. Pensamos que estes são os requisitos mínimos que permitirão assegurar a continuidade do governo; do contrário, certamente, o êxito do próximo desafio eleitoral estará seriamente comprometido.


Fernando de la Cuadra é sociólogo chileno e membro da Rede Universitária de Pesquisas sobre América Latina (Rupal).

Notas


[1] “[...] no estudo de uma estrutura, devem-se distinguir os movimentos orgânicos (relativamente permanentes) dos movimentos que podem ser chamados de conjuntura (e que se apresentam como ocasionais, imediatos, quase acidentais). Também os fenômenos de conjuntura dependem, certamente, de movimentos orgânicos, mas seu significado não tem um amplo alcance histórico” (A. Gramsci. Cadernos do cárcere. Introdução ao estudo da filosofia. A filosofia de Benedetto Croce. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999, p. 36-7).

Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


PRIMEIROS ACORDES
Dora Kramer


A saia-justa dos tucanos com o início de pé esquerdo do prefeito Gilberto Kassab em São Paulo, a largada pífia do afilhado de dois mitos da popularidade em Belo Horizonte e a interdição do direito de ir e vir pelo crime e as milícias no Rio indicam que daqui para a frente tudo deverá ser muito diferente em comparação às modorrentas campanhas municipais anteriores, que só despertavam interesse às vésperas da eleição.

Nas três principais capitais, representantes dos maiores colégios eleitorais do País, candidatos e partidos precisaram reordenar suas estratégias assim que os primeiros acordes se revelaram bem mais fortes que o esperado. E até o inesperado entrou em cena.

Por exemplo, em São Paulo, Marta Suplicy, pelo histórico e temperamento, seria a candidata mais propensa à movimentação errática. Pois quem enfiou os pés pelas mãos foi justamente o disciplinado Gilberto Kassab, atento à conduta desde que a explosão de ira para com um cidadão durante visita a posto de saúde quase inviabiliza sua candidatura.

Em poucos dias, Kassab produziu duas grandes tolices: o envio de um e-mail recomendando “ação” do secretariado na área onde o instituto Datafolha faria pesquisa de opinião e a distribuição de panfletos aproveitando a divulgação da lista dos “fichas-sujas” para constranger a candidata do PT.

O prefeito ao mesmo tempo entregou prova material do uso da máquina administrativa, demonstrou uma confiança pueril em uma equipe formada por tucanos e integrada por uma boa fornada remanescente de petistas, e ainda deu mostras de desatenção, de falta de assessoria ao se esquecer de que, ficha por ficha, a dele também carrega a mácula de um processo ainda em aberto onde é co-réu em processo contra o ex-prefeito Celso Pitta de quem foi secretário de Planejamento.

Logo ele que havia conseguido apagar essa parte do passado que, quando da escolha do candidato a vice de José Serra para prefeito, em 2004, provocou protestos generalizados, incluídos aí os do próprio Serra.

Além disso, não se mexeu nas pesquisas - a não ser um pouco para baixo - e inibiu o tucanato, até então seu aliado, a pôr as mangas de fora. Na realidade, na prefeitura o clima anda mais para barbas de molho, com medo de Kassab não passar de uma intenção.

Em Belo Horizonte, a expectativa era a de que Márcio Lacerda, candidato da popular e dinâmica dupla Aécio Neves-Fernando Pimentel, fizesse jus desde o início ao esforço dos padrinhos que se atiraram numa jogada arriscada - tanto pode ser de mestre, quanto revelar-se um desastre ou, pior, uma irrelevância.

É cedo para antecipar resultados, inclusive porque os atuais 6% são até razoáveis para alguém que se passar às 3 da tarde pela avenida Afonso Penna ninguém reconhece.

Mas é certo que Márcio Lacerda não poderá contar apenas com o fator transferência de votos. Terá de mostrar desempenho. Ou, então, corre o risco de levar o governador de Minas e o prefeito de Belo Horizonte a um vexame oceânico.

Resta o Rio. Bem, o Rio é o que está se vendo. Os protagonistas não são os candidatos. É o crime e a rendição do Estado aos seus ditames. Uma coisa esquisita, pois a segurança não diz respeito ao prefeito, mas os candidatos a prefeito serão cobrados a tratar do assunto sem poder dizer que está fora de sua alçada. Sob pena de pagar a conta por covardia ou cumplicidade.

Antiga musa

Apresentada e abandonada em 2004, sob bombardeio intenso, a idéia de controlar, fiscalizar e regulamentar o trabalho da imprensa foi retomada pelo governo.

Há quatro anos, a pedido da Federação Nacional dos Jornalistas, o governo propôs ao Congresso a criação do Conselho Federal de Jornalismo.

Recuou, mas agora, por solicitação também da Fenaj, o Ministério do Trabalho criou um grupo de trabalho para “estudar” a questão. Discretamente.

Tradução

O governador de São Paulo, José Serra, saiu do encontro com o presidente Lula na quarta-feira dizendo que a ministra Dilma Rousseff é uma pessoa “preparada” para disputar a eleição presidencial de 2010.

Só deixou de completar - e jamais o fará em público - o pensamento: que Dilma está preparadíssima para perder.

Aero-milonga

As agruras sofridas por brasileiros retidos semana passada nas mãos da Aerolíneas Argentinas não são fruto de crise circunstancial nem um caso isolado. É prática usual.

Há oito anos, duas brasileiras foram a Buenos Aires. Compraram passagens na classe executiva, de ida e volta. Na ida, uma delas viajou na econômica, enquanto as poltronas da executiva eram ocupadas por funcionários da empresa.

Na volta, ambas foram despachadas para a econômica. Sem nenhuma explicação nem oferta de compensação.