sábado, 15 de agosto de 2026

Ao confiar mais em balas que em urnas, políticos conservadores se tornam alvo de violência, por Angela Alonso*

Folha de S. Paulo

Ocorrências são tão velhas quanto a República, mas governos de direita abrem campo com estímulo a armas

De 2003 a 2023, houve 1.228 ataques a políticos e ativistas e 760 assassinatos consumados

A saída acabou sendo mais momentosa que o debate. Foi quando o prefeito chamou na chincha o candidato ao governo do partido adversário. Aconteceu em São Paulo e não esquentou mais porque as respectivas equipes entraram apartando.

Na presidencial, Flávio Bolsonaro decidiu-se por slogan que ressoa o de Lula e alude à arminha do pai: "A esperança virou medo". Medo da criminalidade, que Jair Bolsonaro e seu pupilo Tarcísio de Freitas tinham prometido conter.

Como ficaram na promessa, o tema ficou na agenda e outros se lançam ao posto de solucionador-mor da República. A violência está no programa de Ronaldo Caiado, velho de guerra de 1989, como Lula. Em um de seus arroubos juvenis (já desafiou o Bananinha para luta livre), Kim Kataguiri propôs nada menos que uma bomba atômica.

Flávio B. e Caiado miram a dimensão social e Kataguiri, a Internacional da violência em suas agendas políticas. O entrevero entre Fernando Haddad e Ricardo Nunes alude à outra: a relação violenta dos políticos entre si.

Ataques mortais a políticos por outros políticos ou terceiros incomodados com suas ações é fenômeno internacional e de longa duração. No Brasil, de um janeiro a outro entre 2003 e 2023, houve 1.228 ataques a políticos e ativistas e 760 assassinatos consumados. Políticos são a maior parte desse bolo: 63,1% dos casos. Embora o levantamento para os últimos anos esteja em andamento, o problema não desapareceu.

O candidato que tematiza o medo tem medo ele próprio: segundo a revista Oeste, Flávio B. acumula 2.000 ameaças. Fiel ao pai, adotou colete e foge da Polícia Federal. Recusou esta polícia, mas recorreu à do Senado e triplicou sua segurança.

Não é só na presidencial que a violência se esgueira.

As deputadas Gleice Jane (PT-MS), em Dourados, e Lívia Duarte (PSOL-PA), em Belém, foram ameaçadas de morte, respectivamente, em dezembro de 2025, por Zap, e em fevereiro de 2026, por email. Tampouco é só misoginia. Lívia é a primeira deputada negra da Alepa (Assembleia Legislativa do Estado do Pará), o que, a própria apontou, adenda outra camada.

Mas os homens e os brancos, sendo maioria na política, são também os mais visados. O vereador de São Paulo Adrilles Jorge (União Brasil) registrou ameaça em abril. O deputado Cafu Barreto (PSD-BA) ganhou áudio aterrorizador em Ibititá, na Bahia. No Paraná, o deputado federal Toninho Wandscheer (PP) e seus filhos Alisson, deputado estadual (Solidariedade), e Tiago, secretário municipal de Fazenda Rio Grande, registraram B.O. em julho.

Nem quem tem arma escapa: a deputada federal Coronel Fernanda (PL-MT) encontrou em sua caixa de entrada, em junho, email com detalhes de sua rotina e a advertência: "Sei onde você mora".

A PF corre atrás. Anunciou operação nacional para assegurar a integridade física dos presidenciáveis, aumentando em cerca de 53% o contingente mobilizado (de 300 para 458 agentes). Mas enxuga gelo.

A variedade de estados atesta que a questão suplanta o nível local, abrange políticos municipais quanto estaduais e ronda a Presidência. Resolver conflitos políticos à bala é fato tão notório quanto nacional.

E não é específico desta conjuntura. A violência contra políticos é tão velha quanto a República: o primeiro civil na Presidência, Prudente de Morais, quase morreu de bala. E atinge a todos os partidos. Contudo, governos de direita abrem mais campo para ocorrências ao liberarem armas ou incentivarem seu uso. No levantamento citado, a média anual de assassinatos políticos mais que dobrou entre o primeiro governo Lula e o de Bolsonaro.

O fenômeno deve muito ao discurso de políticos conservadores de estímulo à resolução direta dos conflitos políticos, desprezando as mediações institucionais. Confiando mais nas balas que nas urnas, são eles próprios, muitas vezes, as vítimas delas.

*Professora titular do Departamento de Sociologia da USP e pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)

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