sábado, 18 de julho de 2009

Os EUA vão para o spa

Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÃO PAULO - Na conversa que teve com seu colega Luiz Inácio Lula da Silva, em Áquila, durante as multicúpulas do G8 e cia., o presidente Barack Obama transmitiu um recado claro: que o mundo não conte mais com o consumo norte-americano para tocar a vida. Lula deve ter ficado impressionado, a julgar pelos comentários que fez no dia seguinte, durante sua entrevista coletiva.

Ontem, Lawrence Summers, um dos principais nomes da assessoria presidencial, avançou alguns detalhes sobre o que será a economia do G1, que continuam sendo os Estados Unidos, se os planos de Obama forem de fato adiante.

"A economia americana reconstruída tem que ser mais orientada para a exportação e menos para o consumo; mais orientada para o meio ambiente e menos para a energia fóssil (menos petróleo); mais orientada para a biotecnologia e para o software e menos para a engenharia financeira; mais orientada para a classe média e menos para o crescimento da renda que favorece desproporcionalmente uma fatia muito pequena da população", afirmou Summers.

Fácil e bonito de falar, difícil de fazer. Mesmo assim, eu votaria, em 2010, em quem defendesse esse tipo de conceitos, desde que tivesse credibilidade para fazê-lo. Pena que credibilidade e política, no Brasil, raramente se encontram.

A construção dessa nova economia não é um problema apenas dos Estados Unidos. A crise demonstrou a plena vigência de um ditado que alguns afoitos davam por ultrapassado, o que diz que, quando os Estados Unidos espirram, o mundo pega pneumonia.

Pegou. Agora que os Estados Unidos se encaminham para um tremendo spa/academia, o mundo será de novo afetado, para o bem e para o mal. O diabo é que ninguém, no Brasil, está pensando em como adaptar-se a um país de apetite menos pantagruélico.

Argentina x Brasil?

Cesar Maia
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


OS JORNAIS argentinos -"Clarín" e "La Nación"- publicaram, em dois dias, artigos questionando as relações entre os EUA e a América do Sul, pró-Brasil, e contra a Argentina.

Dia 8 de julho, no "Clarín", ("Brasil, um aliado sui generis"), o professor Fabian Calle diz que a política externa interamericana EUA/ Brasil é apenas o desdobramento da estratégia do general Golbery do Couto e Silva durante o regime militar. Cita o recente informe "A Second Chance. US policy in the Americas" e afirma que os EUA, como potência mundial, têm o Brasil como "primus interpares" sulamericano. Lembra a reunião Obama-Lula em que ficou clara a imagem transmitida de Brasília como um poder brando.

"A visão de Golbery era o destino do Brasil como uma potência ocidental com estreitas ligações com Washington e com graus de manobra para consolidar sua hegemonia sulamericana e garantir aos EUA um status não desestabilizador." "O ponto era reforçar a hegemonia regional do Brasil sobre a Argentina", e conclui afirmando que, "em pleno século 21, a história das grandes potências não parece convalidar visões lineares de delegação".

Dois dias depois, no "La Nación", o professor Carlos Escudé vai mais longe. Diz que o Brasil nasceu com vantagem ao ficar independente sem crise. Mas que nos anos 1890 a Argentina o superou. Um trabalhador argentino trabalhava a metade de um belga ou alemão e um terço do italiano para comprar o mesmo.

Em 1937 o PIB per capita argentino era superior aos de Áustria e Finlândia, o dobro do italiano e o triplo do japonês. Nos dois casos, o Brasil não era sequer listado. No plano militar, em 1920, a Argentina mobilizaria imediatamente 379 mil homens e o Brasil, 136 mil. Isso valeria para toda a década de 30.

Escudé afirma que o ponto de inflexão foi a Segunda Guerra. Os EUA privilegiaram o Brasil. A neutralidade Argentina teria aberto uma política de sanções dos EUA. A Argentina teria sido privada dos insumos necessários a seu desenvolvimento industrial (departamento de Estado 1945: "essencial não permitir a expansão da indústria pesada na Argentina").

Cita Roosevelt em 1944: "Estou totalmente de acordo que deveríamos proceder duramente com a Argentina. Ao mesmo tempo, é essencial fortalecer o Brasil. Isso deve incluir armas e munições. "Por isso o Brasil emergiu como potencia regional." No final do artigo, Escudé alivia e diz que hoje as relações com o Brasil são de cooperação comercial, e não geopolíticas.

Artigos como esses, em meio à crise política argentina, devem prevenir os canais político-diplomáticos de forma a que nossa imprevisível América Latina não acorde surpreendida, mais uma vez.

Cesar Maia escreve aos sábados nesta coluna.

João Nogueira – Espelho

Vale a pena ver

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sexta-feira, 17 de julho de 2009

Estadista pelo avesso

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Reza a boa norma da política que o estadista até leva desaforo, mas não carrega mágoas para casa. Sobrepõe as questões de Estado a ofensas pessoais. Sacrifica o individual em nome do coletivo.

É sábio para distinguir situações e, mediante o cotejo de perdas e ganhos, calibra suas atitudes de modo a equilibrar responsabilidades e necessidades.

O presidente Luiz Inácio da Silva, a despeito da celebração de suas habilidades no ramo, não possui esses atributos.

Antes, exibe características opostas e age exatamente no sentido contrário ao do governante cujo objetivo primeiro é o zelo pelo bem-estar físico, espiritual, cultural e moral dos governados.

O presidente é hábil no terreno da autoajuda de efeito imediato, comanda como ninguém o espetáculo do crescimento da própria popularidade, mas mostra-se desprovido da noção do que seja a construção de um legado de avanços de longo prazo em benefício de toda a sociedade.

Há exemplos anteriores às mais recentes exorbitâncias que agora, tardiamente, depois de um longo período de celebração de tais atos como manifestação de genial pragmatismo político, provocam reações gerais de desagrado.

Quando se sentiu pessoalmente atingido por uma reportagem do correspondente do New York Times, Lula não hesitou em confundir-se com o Estado e expor o País ao ridículo ordenando a cassação do direito do jornalista ao visto de permanência no Brasil.

Sofreu pesadas críticas e pôs o pé no freio do autoritarismo que se delineava no início do primeiro mandato. Os mesmos reparos, no entanto, não sofreu nas inúmeras vezes em que confundiu a necessidade altiva de passar por cima de idiossincrasias ideológicas com a pequenez da irresponsabilidade de passar a mão na cabeça de infratores.

Distribuiu "cheque em branco", avalizou práticas criminosas, deu abrigo a gente expulsa do poder público por desrespeito ao bem público, afrontou o Judiciário, chamou de hipócritas as restrições ao uso eleitoral da máquina administrativa, reclamou que o excesso de fiscalização faz mal ao Brasil, ignorando o mal que a impunidade secular faz ao País.

Com isso, esvaziou o valor dos princípios, aos quais costuma tratar com zombaria chamando de "principismo" e, assim, tudo se tornou permitido e as críticas ao esfacelamento ético perderam o sentido. Ou pior, adquiriram um caráter de puro farisaísmo.

Lula não fez isso sozinho. Contou com a colaboração de um razoável consenso segundo o qual os vencedores, principalmente se populares, são inimputáveis.

O presidente se sentiu à vontade e, portanto não há razão para surpresa quando Lula acelera na defesa de tudo e todos cuja representação é a desonra, imaginando que isso lhe garantirá ganhos eleitorais e um lugar privilegiado na História.

O que surpreende é que não consiga enxergar o perigo do exagero. Cumprir um dever de solidariedade a um aliado como o senador José Sarney é uma coisa. Poderia fazê-lo dentro do limite da sóbria moderação de Estado.

Mas, não, optou por jogar-se nos braços da impostura ao ponto de produzir aquela frase sobre Sarney não ser uma pessoa comum, que não lhe rende nada além de perdas.

Sarney, nesta altura com muito pouco ou quase nada a perder, fica bem. Ele, Lula, dono de um enorme capital, desperdiça patrimônio à toa.

Da mesma forma, é perdulário na derrama de elogios e afetos para Fernando Collor.

Para quê? O estadista que engole desaforos em nome de um projeto compartilha palanque em Alagoas, não hostiliza o antigo adversário e dá por cumprido o ofício da boa convivência e do respeito ao voto do eleitorado local.

O governante que exacerba e perde a medida é o mesmo que confessa a "mágoa" com o Senado pela derrubada da CPMF, porque, por falta do dinheiro do imposto do cheque, não pôde "melhorar a saúde".

Na realidade, Lula não se conforma é com a derrota política. A ajuda à saúde pública poderia ter dado apoiando o projeto do ministro José Gomes Temporão, de modernização da gestão do setor, largado no Congresso à posição contrária dos corporativistas de plantão, petistas à frente.

As pessoas percebem essas coisas. Pois é como diz o outro: não se engana todo mundo o tempo todo.

Em vão

Um dos principais, senão o principal motivo pelo qual o senador José Sarney resolveu ser presidente do Senado pela terceira vez, foi o de acreditar que no cargo teria influência sobre a Polícia Federal, na investigação envolvendo um de seus filhos.

Pois Fernando Sarney foi indiciado pela PF sob acusação de organizar quadrilha para atuar dentro do aparelho de Estado em prol de empresas privadas interessadas em ter acesso privilegiado a contratos com estatais.

Sarney achou que ao presidente do Senado ainda seriam devidas velhas reverências. Mais um de uma série de equívocos cometidos a partir da ultrapassada premissa de que o poderoso tudo pode. Foi-se o tempo.

Ataque a senadores desagradou ao Planalto

Maria Lima, Adriana Vasconcelos e Gerson Camarotti
DEU EM O GLOBO

O CONGRESSO MOSTRA SUAS ENTRANHAS: Oposição se refere a Lula com adjetivos mais pejorativos, diz Almeida Lima

BRASÍLIA. O plenário do Senado foi palco de reação irada contra as declarações do presidente Lula, que, na véspera, chamara alguns senadores de "bons pizzaiolos". Onze senadores de vários partidos, inclusive da base, subscreveram requerimento de Cristovam Buarque (PDT-DF) pedindo um voto de censura.

No governo, a avaliação feita é que o presidente cometeu um erro político com seu "deslize verbal", no dizer de um ministro. As declarações, feitas ao comentar a CPI da Petrobras, reacenderam a crise no Senado, e isso é tudo o que o governo quer evitar agora. O próprio presidente Lula teria mostrado arrependimento, por não ter avaliado a repercussão da frase.

Já o presidente José Sarney (PMDB-AP) manteve-se indiferente ao debate em plenário e às novas denúncias conta ele. Passou o dia trancado em seu gabinete se preparando para o recesso que começa hoje.

O líder do PSDB, Arthur Virgilio (AM), protocolou nova denúncia contra Sarney no Conselho de Ética, para investigar informação de que gravação da Polícia Federal mostra o envolvimento de Sarney na nomeação do namorado de sua neta Maria Beatriz em cargo do Senado,por meio de ato secreto. Sarney não comentou essa nova denúncia.

Tucano teme ação de Paulo Duque durante o recesso

Para Virgilio, essa era a prova que faltava para ligar Sarney aos atos secretos nomeando parentes. Ele teme que o presidente do Conselho, Paulo Duque (PMDB-RJ), engavete as denúncias contra Sarney no recesso:

- Deixamos cinco requerimentos para levar qualquer decisão do senador Paulo Duque ao plenário do Conselho, apesar de ele ter dito que só tratará do assunto em agosto. No plenário do Conselho o voto é aberto.

O voto de censura, previsto no regimento da Casa, tem que passar pela Comissão de Constituição e Justiça e pelo plenário para ser aprovado, antes de ser endereçado ao presidente.

Demóstenes Torres (DEM-GO) apresentou voto idêntico. Tramitam na Casa outros quatro pedidos de votos de censura: um contra o "top top" do assessor Especial da Presidência Marco Aurélio Garcia e outros três contra discursos de Lula - Ninguém está aqui querendo dar um golpe. Mas se Lula fosse primeiro-ministro, cairia. O que vai acontecer é uma consequência histórica e moral. Vai ficar registrado para a História. Daqui a 100 anos vão saber que protestamos contra um gesto de desprezo do presidente pelo Senado - disse Cristovam.

- Se Lula tivesse dito que existem alguns pizzaiolos eu avalizaria, porque são os impostos pelo governo nas CPIs que enterram as investigações. São os pizzaiolos governistas, os fieis escudeiros que se comportam como cães de guarda - apoiou Álvaro Dias (PSDB-PR).

Da tropa de choque do PMDB, Almeida Lima (SE) atacou:

- E eu achei até pouco, porque os senadores da oposição se referem a Lula com adjetivos muito mais pejorativos.

É puro deboche

Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÃO PAULO - Uma vez, quando se discutia se o mandato do então presidente José Sarney deveria ser de quatro ou cinco anos, escrevi que o Brasil havia se transformado em uma república bananeira, vistas as manobras sórdidas em favor do mandato mais longo.

Hoje, sou obrigado a pedir desculpas às repúblicas bananeiras. O Brasil é pior. Ou pelo menos sua política é pior. Virou deboche. Só pode ser deboche a eleição de Paulo Duque para presidir o Conselho de Ética do Senado, a julgar pela entrevista que deu à Folha. Espremendo bem as declarações, seu conceito de ética é mais ou menos assim: roubar pouco é ético.

Só se roubar muito pode, assim mesmo eventualmente, ser investigado pelo Conselho de Duque. Aliás, o conceito de muito ou pouco também é relativo, já que o ínclito senador orgulha-se de ter nomeado 5.000 pessoas para cargos públicos e ainda acrescenta que todas estão felizes. Pudera.

Trata-se, claramente, de um caso único no mundo de caçador de talentos republicanos, um disseminador de felicidade às custas do seu, do meu, do nosso dinheirinho.

Na véspera, aquela foto do abraço Lula/Collor já era um deboche. Deu nojo, mas nem escrevi a respeito primeiro porque nojo é mau conselheiro, segundo porque sabia que o leitor dispensaria intermediários para julgar a debochada cena. Estava certíssimo, como dá prova o "Painel do Leitor" de ontem, em que Silvério Oliveira diz tudo: "Eles se merecem".

Como se o deboche fosse pouco, ainda ficamos sabendo que o presidente não sabe o que diz. Não, não é alguma iniciativa golpista da oposição. Trata-se de avaliação de um dos sumo-sacerdotes do culto à personalidade de Lula, o senador Aloizio Mercadante, para quem o que o presidente disse (sobre os senadores) "não expressa o que ele efetivamente pensa". Ou seja, não sabe se expressar.

O primeiro a ligar o forno

Editorial
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Mesmo no clima geral de achincalhe da política e da atividade parlamentar, consequência inevitável da parceria entre o presidente Lula e o coronelato que controla o Senado da República, ele passou da conta ao dizer que "todos eles (os senadores da oposição) são bons pizzaiolos". Lula respondia à pergunta de um jornalista sobre a possibilidade de a CPI da Petrobrás - a seu ver, "uma irresponsabilidade" - acabar em pizza. A grosseria incomodou até os seus companheiros, como o líder petista Aloizio Mercadante, que se viu constrangido a soltar uma nota para criticar a "frase infeliz". Mas o que chama a atenção no episódio, além da absoluta naturalidade com que o presidente se permite ofender uma instituição legislativa, embora apequenada, é o fato de ser ele o primeiro a ligar o forno onde pretende ver incinerados os derradeiros vestígios de autonomia do Senado, no que possam contrariar os esquemas de poder do Planalto.

O comportamento rombudo da maioria governista na imposição dos nomes do presidente e do relator do inquérito parlamentar sobre a Petrobrás é um exemplo disso. Outro, na mesma linha, está na escolha do novo presidente do Conselho de Ética, no qual 10 dos 15 membros integram o bloco da situação. Comprovando que o governo está determinado a não deixar aberta nem uma fresta sequer para o exame, no colegiado, das denúncias contra o senador José Sarney - de quem Lula se tornou arrimo -, o líder do PMDB, Renan Calheiros, fez eleger um pau-mandado, o seu correligionário do Rio de Janeiro Paulo Duque. Ele chegou ao Senado como segundo suplente do atual governador Sérgio Cabral e não pretende se candidatar em 2010. Nas últimas semanas, ninguém o superou na defesa de Sarney, nem em ênfase nem em primarismo.

O maranhense, Duque chegou a dizer, "é diferente dos outros senadores" por ter criado a TV Senado, "que permite que eu me dirija a todo o povo brasileiro". E arrematou: "Isso não tem preço." Tudo se faz com a maior desfaçatez. Calheiros, obviamente de comum acordo com Lula, vetou o nome de Antonio Carlos Valadares, do PSB de Sergipe, indicado pela liderança petista, porque este, que deverá disputar a reeleição, poderia se mostrar menos propenso a bloquear um processo por quebra de decoro parlamentar contra Sarney. O presidente do Senado mentiu ao negar que tivesse responsabilidades administrativas na fundação que leva o seu nome e que desviou R$ 500 mil do patrocínio cultural de R$ 1,3 milhão recebido da Petrobrás. Sarney é também suspeito de envolvimento na edição dos famigerados atos secretos, nos 14 anos em que a diretoria-geral da Casa foi ocupada pelo seu apadrinhado Agaciel Maia.

Essas suspeitas se adensaram com a revelação, na edição de ontem deste jornal, de que gravações da Polícia Federal (PF) autorizadas pela Justiça captaram telefonemas do empresário Fernando Sarney, primogênito do senador, para Agaciel. As interceptações foram feitas no curso da Operação Boi Barrica, que levou a PF a indiciar o empresário, que cuida da rede de comunicação da família, por lavagem de dinheiro, tráfico de influência e formação de quadrilha. A operação foi desencadeada para apurar o uso de recursos ilícitos nas eleições de 2006, quando Roseana Sarney era candidata ao governo do Maranhão. Dois dias antes do segundo turno, Fernando teria sacado R$ 2 milhões em dinheiro vivo. Há outras acusações escabrosas.

Entre março e abril de 2008, a filha do empresário, Maria Beatriz, tratou com o pai e com o avô da nomeação do namorado Henrique Bernardes para o lugar do meio-irmão Bernardo que tinha se demitido. Sarney é instruído a encaminhar o currículo do namorado da neta a Agaciel. Pouco depois, ele foi nomeado por ato secreto. O detalhe que vale por um tratado sobre a mentalidade do clã, pela qual os seus membros têm uma espécie de direito natural sobre o patrimônio comum dos brasileiros, é o argumento usado por Maria Beatriz para justificar a nomeação de Bernardes: afinal, a vaga pertencia à família. É o caso de dizer que, se o filho de Sarney cometeu o crime de formação de quadrilha, o senador, a parentela e os agregados passaram anos formando família, compulsivamente, sob o teto do poder público. Pelo menos 10% dos 663 atos secretos no Senado favoreceram parentes e aliados políticos do seu tripresidente por quem Lula assará pizzas de todos os tamanhos e sabores.

Senado avalia voto de censura a Lula

Eugênia Lopes, Brasília
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Frase “bons pizzaiolos” usada pelo presidente resulta em requerimento

Um dia após derrotarem o governo na indicação de um diretor da Agência Nacional de Águas (ANA), os senadores voltaram a retaliar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que criticou a oposição pela criação da CPI da Petrobrás e os chamou de "bons pizzaiolos". O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) apresentou requerimento de voto de censura contra Lula.

Pelo menos 11 senadores assinaram o requerimento que, agora, será analisado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), antes de ser levado a plenário. "Esse voto de censura visa à história. Daqui a 50 anos, os historiadores vão ver essas declarações que Lula deu", disse Cristovam. "Existem aqueles que podem ser pizzaiolos e ele sabe quais são. Em geral, são os que estão mais próximos a ele hoje. E existem aqueles que não são. Ele generalizou e ofendeu toda a nossa instituição."

Indignados, os senadores fizeram questão de observar que Lula chamou de "pizzaiolos" os parlamentares que são da base aliada. Na CPI da Petrobrás, a maioria governista é expressiva, são oito votos do governo contra apenas três da oposição.

"Na medida em que o Lula diz que vai dar pizza, está criticando os próprios companheiros de governo. Só vai dar pizza se a maioria quiser e a maioria está com ele", disse o senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE).

Às vésperas do recesso parlamentar e com o plenário praticamente vazio, Cristovam conseguiu assinaturas de parlamentares não só de oposição. Membros do PTB, do PDT e do PMDB apoiaram o voto de censura, além do DEM e do PSDB.

"Esse requerimento mostra a nossa indignação", comentou o senador Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR). "Normalmente se censura um filho, uma pessoa subalterna. Aqui, como somos iguais, são poderes iguais. Estamos censurando o chefe do Executivo, porque realmente não soube se comportar como tal."

O único a defender Lula foi o líder do PTB, Gim Argello (DF). "O negócio é que o presidente fala a linguagem popular, mas ele não teve intenção de ofender os senadores", afirmou.

PSDB vai ao Conselho de Ética contra Sarney pela 4ª vez

Eugênia Lopes, Brasília
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Motivo agora é um grampo da PF que levanta a suspeita de envolvimento do senador em negociações para nomeação de namorado de sua neta

O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio Neto (AM), anunciou ontem que vai apresentar na semana que vem nova denúncia ao Conselho de Ética contra o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP). O tucano quer que o conselho investigue a participação de Sarney nas negociações que levaram o então diretor-geral do Senado, Agaciel Maia, a nomear o namorado da neta do senador para um cargo na Casa, conforme publicou ontem o Estado. Às vésperas do início do recesso parlamentar, Sarney preferiu não aparecer ontem no plenário, frustrando a expectativa de que fizesse um balanço sobre as atividades do Senado no primeiro semestre.

"Vamos ver se a água mole em pedra dura tanto bate até que fura", afirmou o líder tucano. É a terceira denúncia que ele apresenta contra Sarney no Conselho de Ética. O ceticismo de Virgílio em relação ao conselho tem motivos. Dos 15 integrantes do colegiado, dez são da base aliada e estão dispostos a salvar Sarney.

Além disso, o recém-eleito presidente do conselho, senador Paulo Duque (PMDB-RJ), já sinalizou a disposição de mandar arquivar tanto as denúncias quanto a representação do PSOL contra o presidente do Senado por falta de decoro. Pelo regimento, Duque tem poderes para barrar a investigação logo no início, mas a oposição já avisou que vai recorrer.

NA BERLINDA

Os cinco senadores de oposição já deixaram assinado recurso na eventualidade de Duque determinar, durante o recesso, o arquivamento das denúncias e da representação. "Tomamos essa precaução porque como vamos estar em recesso e cada senador é de um Estado diferente, seria difícil reunir as assinaturas da oposição", disse o líder do DEM, José Agripino Maia (RN). Em sua avaliação, a nova denúncia torna a situação de Sarney mais grave.

Agripino está certo de que as férias parlamentares irão "acalmar" a pressão sobre Sarney, mas avalia que o peemedebista continuará na berlinda. "Os fatos contra Sarney continuam consistentes, mesmo havendo recesso. O que irá apenas ocorrer é um lapso de tempo nessa pressão", disse.

Virgílio, que foi ontem para Manaus, pretende entrar com a representação na próxima segunda-feira no Conselho de Ética. Reportagem publicada ontem pelo Estado revela gravações reunidas pela Polícia Federal durante a Operação Boi Barrica, com telefonemas entre Fernando Sarney, um dos filhos do senador, para o ex-diretor Agaciel Maia. Nas escutas telefônicas, existem referências diretas a nomeações de parentes e agregados do clã Sarney por ato secreto.

A primeira reunião do Conselho de Ética está marcada para 5 de agosto. O órgão terá de analisar as denúncias apresentadas pelo líder tucano e a representação do PSOL contra Sarney. Em duas denúncias, Virgílio solicita ao Conselho que apure a suposta responsabilidade de Sarney na edição dos 663 atos secretos, além da suspeita de ter usado o cargo para favorecer a Fundação José Sarney. O PSOL pede a punição de Sarney por quebra de decoro no caso dos atos secretos. O partido também pediu a abertura de processo contra o ex-presidente Renan Calheiros.

PROTESTO

Estudantes da Universidade de Brasília (UnB) promoveram um protesto ontem no Senado. Eles trajavam camisetas brancas com letras da frase "Fora Sarney". Seguranças arrancaram o aluno que vestia o "S" - a frase ficou "Fora Arney".

UNE, com verba oficial, festeja Lula

Lisandra Paraguassú e Tânia Monteiro, Brasília
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Evento anual da entidade recebeu apoio de sete ministérios, da Caixa, dos Correios e da Petrobrás

Aos gritos de "Dilma presidente" e "Lula, guerreiro do povo brasileiro", os cerca de 3 mil estudantes que se reuniram ontem na abertura do 51º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) mostraram uma adesão inquestionável ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Com algumas poucas reivindicações e vários elogios, deixaram claro de que lado estão. Algum desavisado poderia pensar tratar-se de uma convenção petista.

Ovacionado ao se levantar para fazer seu discurso, o presidente chegou a pedir que parassem. "Vocês vieram aqui para trabalhar ou para gritar?", brincou o presidente.

As vozes dissonantes foram poucas. De um lado, um grupo minoritário contrapunha ao nome da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, para a presidência em 2010 o do deputado Ciro Gomes (PSB-CE) - que integra a base aliada do governo. Mas mesmo esse grupo de estudantes se entusiasmou e começou a tirar fotos de Lula assim que o presidente entrou no auditório do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, ontem, em Brasília.

"O presidente Lula é o primeiro a participar de um congresso da UNE em 71 anos de história", destacou a presidente da entidade, Lucia Stumpf, ligada ao PC do B. Não há registros, no entanto, de outro presidente que tenha sido convidado para a cerimônia. Lula e o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Luiz Dulci, foram convidados a pôr a mão no gesso em um molde que ficará exposto na nova sede da UNE, no Rio. Como Lula e Dulci demoraram muito, o gesso endureceu e os dois tiveram dificuldades para tirar a mão da massa.

APOIO

Dominada há décadas pelo PC do B, que elegeu a maioria dos presidentes desde a reconstrução da entidade, em 1979, e pelo PT, que tem o segundo maior grupo, a UNE virou base do governo desde a primeira eleição de Lula, em 2002. Nunca antes a entidade teve uma relação tão próxima com o governo federal.

Essa proximidade se traduz em recursos. Desde 2004, a UNE já recebeu R$ 10 milhões da União. Desses recursos, R$ 7 milhões foram repassados somente nos últimos 14 meses. O 51º Congresso da entidade, que começou ontem em Brasília, foi organizado com o apoio de sete ministérios, além de instituições como a Caixa Econômica Federal, Correios, o Programa Nacional de Segurança com Cidadania (Pronasci) e a Petrobrás. Um projeto de lei que tramita no Congresso ainda vai liberar recursos federais para financiar a reconstrução da sede da entidade no Rio de Janeiro.

Em seu discurso, que durou pouco mais de meia hora, o presidente Lula elogiou a independência da UNE. "A Lucia (Stumpf) fez seu discurso como se eu não estivesse aqui. E fez mais forte porque eu estava aqui. Numa relação democrática,civilizada, ninguém pode ser dependente de ninguém", afirmou o presidente.

"Eu sou amigo de vocês e vocês meus amigos. Vocês são uma entidade com autonomia e no momento em que vocês não concordarem comigo é para dizer na minha cara ?não concordo, sou contra? e vão para rua fazer passeata. Não tem nenhum problema", completou.

Com os estudantes concentrados em pedir mais investimentos na área da educação, defender o petróleo encontrado na camada pré-sal e exigir a abertura de um número maior de vagas no programa Universidade para Todos (ProUni), não se ouviu durante as cerca de duas horas em que Lula e seus 11 ministros estiveram no centro de convenções gritos de "Fora Sarney". A manifestação contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), que tem contado com o apoio do presidente para se manter no cargo, só ocorreu mais tarde, em frente ao Congresso.

A presidente da UNE aproveitou para dizer que a entidade não compartilha alguns pontos de vista do presidente Lula, que além de liderar a movimentação em defesa de Sarney até abraçou no início desta semana o hoje senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL), removido da Presidência da República com a ajuda de estudantes que ficaram conhecidos como os "caras-pintadas".

"Nós não nos somamos a ele (Lula) na defesa de Fernando Collor nem de Sarney. Nós repudiamos o que Collor representa na história do Brasil", afirmou Lucia. "Por isso vamos convocar um grande debate para exigir uma reforma política que dê acesso ao jovem ao Congresso Nacional. Os jovens que estão lá hoje são os filhos, os netos, os juniores (das oligarquias políticas)", completou.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil

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Mediador propõe governo de reconciliação em Honduras

Gustavo Chacra, Nova York
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Sugestão de Arias para resolver crise será levada amanhã à mesa de diálogo; Micheletti diz que rejeitará proposta

Enquanto simpatizantes do presidente deposto Manuel Zelaya intensificaram as ações contra o governo de facto em Honduras - ao bloquear estradas de acesso a Tegucigalpa e outras cidades importantes do país -, em San José, na Costa Rica, o presidente costa-riquenho e mediador do conflito, Oscar Arias, declarou ontem que a saída para o impasse deve incluir necessariamente a volta de Zelaya à presidência e propôs a criação de um governo de reconciliação.

A proposta foi feita após o presidente de facto de Honduras, Roberto Micheletti, dizer que estava disposto a deixar o cargo que assumiu após o golpe do dia 28, desde que o governante deposto não reassuma a presidência.

No entanto, Micheletti rejeitou estabelecer um governo de "reconciliação nacional" para resolver a crise política. "Não aceitamos que nenhum país nos faça imposições. Nós temos uma posição firme e não mudaremos de modo algum", disse o presidente de facto.

Segundo declarações feitas por telefone ao Estado desde Tegucigalpa, não há clima internamente para que Zelaya retorne. As Forças Armadas, a Suprema Corte e o Congresso ainda estão unidos na oposição ao presidente deposto, apesar de estarem abertos a concessões para aliviar o isolamento de Honduras, um dos países mais pobres da América Latina.

"Micheletti está disposto a renunciar ao cargo para dar o poder a outra pessoa (que não seja Zelaya). Mas essa não é uma solução, pois o restabelecimento constitucional passa pela volta de Manuel Zelaya ao poder", afirmou Arias a um programa de rádio.

Para ele, Zelaya deve também abandonar sua pretensão de levar adiante o projeto de uma consulta sobre a convocação de uma Assembleia Constituinte. Amanhã, comissões representando os dois lados devem ser reunir para prosseguir com as negociações, iniciadas uma semana atrás, quando Micheletti e Zelaya se reuniram separadamente com Arias.

Em Tegucigalpa, a tensão continua a se acentuar. Após Zelaya ter conclamado seus partidários à insurreição contra o governo de facto, manifestantes bloquearam as estradas e sindicatos ameaçaram iniciar uma greve geral se não houver acordo até domingo. O governo restabeleceu o toque de recolher. Cresce o temor de que se iniciem conflitos armados caso Zelaya tente entrar por terra em Honduras.

"O que se fala é que Zelaya poderia voltar com a ajuda (do presidente nicaraguense, Daniel) Ortega", disse o professor da Universidade Nacional Autônoma de Honduras, Benjamin Santos.

Segundo o analista, tudo dependerá de quem o presidente deposto está disposto a ouvir. Se seguir aliados como o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, pode tentar voltar. Já o governo de Barack Obama e Arias aconselham Zelaya a esperar por uma solução. O jornal El Heraldo, mais importante de Honduras e contrário a Zelaya, informou ontem ter tido acesso a planos para "desestabilizar o país mediante ações armadas de grupos irregulares, ligados ao narcotráfico e provenientes da Venezuela".

O analista hondurenho Graco Pérez afirma que provavelmente "Zelaya não retornará". O consenso, acrescenta Peter DeShazo, diretor de América Latina do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington, "é que qualquer solução passa pelas eleições". A votação está prevista para novembro.

Tigre de papel

Míriam Leitão
DEU EM O GLOBO


Nem a China está comemorando o crescimento chinês. O instituto oficial de estatísticas disse que o crescimento é desigual e instável e que a retomada não foi para todo o país, nem todos os setores. O Congresso do Povo disse que o governo tem que evitar o “crescimento extraordinário” do crédito. Na China, nem o governo acha que a crise acabou por causa dos 7,9% do PIB do segundo trimestre

Não se pode ser superficial com crise tão grave. Ela continua sendo a pior em 80 anos. O que está acontecendo é uma redução das previsões de queda da maioria dos países, e uma ligeira melhora no crescimento chinês.

Mas a China cresceu 13% em 2007, e deve crescer entre 7% e 8% este ano e no próximo.

Parece muito para o mundo não chinês, mas para os padrões do país esse resultado é ruim. O economista Nouriel Roubini faz uma série de ponderações sobre o desempenho da China que vale a pena registrar. As importações foram dominadas por commodities neste primeiro trimestre e se aproveitaram dos preços baixos. Agora, os preços subiram; a demanda internacional dos produtos manufaturados chineses continua fraca; os estoques aumentaram; e a tendência é o país reduzir a compra de commodities. A China aumentou tanto o incentivo à exportação quanto as barreiras às importações. Isso contribuirá para um dos riscos atuais: o protecionismo.

Houve aumento de investimentos, mas depois de forte apoio do governo e pelo uso de lucros retidos. Isso pode tirar fôlego das empresas para investimentos em 2010.

A China está em melhor posição do que a maioria dos países para estimular a demanda, diz Roubini. O consumo das famílias é baixo, 36% do PIB, e o nível de poupança é reconhecidamente alto. Só que, paradoxalmente, parte da compulsão de poupar vinha de um problema: uma rede social deficiente em saúde, educação e aposentadoria. Investindo nessas áreas, o governo poderá reduzir a tendência à poupança na população.

O país continua correndo os riscos de deterioração fiscal, reservas altamente concentradas em dólar, câmbio quase fixo e crescimento abaixo do potencial. Esse último item afeta diretamente países da América Latina, Ásia e África. Se a China crescer menos, também importará menos commoditites. No Brasil, os efeitos são imediatos no setor de mineração.

Gráficos enviados ao blog (http://www.miriamleitao.com.br/) pelo Banco Fator mostram claramente os efeitos da crise sobre a China. Apesar das taxas serem altas quando comparadas com o resto do mundo, elas representam desaceleração no contexto chinês.

A produção industrial teve alta acumulada no primeiro semestre de 7%, mas no mesmo período de 2008 a taxa estava acima de 15%. As vendas no varejo que chegaram a crescer 23% desaceleraram para 15% no acumulado até junho.

“Não se espera que o ritmo (do PIB) observado entre 2003 e 2007 (acima de 10% ao ano) volte a vigorar rapidamente”, diz relatório do banco.

O secretário-executivo do Conselho Empresarial BrasilChina (CEBC), Rodrigo Maciel, disse a Bruno Villas Bôas, do blog, que a desaceleração da economia tinha duas origens: uma externa, fruto da crise, e outra interna, que era o colapso do setor imobiliário.

O governo elevou impostos, reduziu crédito e tirou benefícios no ano passado para conter a expansão do setor e evitar o superaquecimento da economia.

— O governo chinês também pediu para os bancos segurarem crédito, entre outras medidas. Mas a partir do final de 2008, com a crise, o governo chinês adotou uma política de explodir investimentos — disse Maciel.

Entre as medidas voltadas ao setor imobiliário, o governo reduziu o tamanho da entrada necessária para compra do imóvel, que caiu de 35% para 20% do total. Também reduziu o volume de capital que as construtoras precisam ter em caixa para executar uma obra. Na compra de imóveis, o imposto foi reduzido de 1,5% para 1%: — O governo investiu pesado em grandes obras de infraestrutura, como rodovias, portos, usinas de energia.

São investimentos em ativo fixo, que cresceram 33% na primeira metade do ano, maior taxa em cinco anos.

Isso incentiva a indústria de base, responsável por uma grande fatia da economia.

Mas nada disso é capaz de eliminar os desafios que a China tem pela frente. Como explicou o diretor da Câmara de Comércio e Indústria BrasilChina, Kevin Tang, desde a crise, cerca de 20 milhões de empregos foram eliminados.

Mais desemprego é sinal de aumento de tensões sociais.

Além disso, a China terá que suprir a redução do consumo americano. As economias americana e chinesa tinham uma relação de mútua dependência: os americanos aumentavam o consumo e produziam déficit, os chineses produziam para atender esse consumo e poupavam. Com a poupança, financiavam o endividamento americano. Agora, as famílias americanas voltaram a poupar. Têm dívidas e medo do futuro. A China terá que estimular seu próprio consumo e alterar a base da indústria, focando internamente.

Não é trivial: — Algumas mudanças são culturais e não acontecerão de uma hora para a outra — explicou Tang.

É isso que o próprio governo alerta, quando o escritório de estatísticas avisa que o crescimento não chega a todas as partes, é desigual e instável, e quando o Congresso do Povo afirma que bolhas de crédito são perigosas.

Quem discordaria?

Com Alvaro Gribel

Crise faz criação de empregos formais no país despencar 78% no semestre

Geralda Doca
DEU EM O GLOBO

Foram abertas 299 mil vagas com carteira, pior resultado da última década

BRASÍLIA. A crise econômica levou o mercado formal de trabalho brasileiro a registrar, no primeiro semestre de 2009, seu pior desempenho nos últimos dez anos. Foram criados 299.506 empregos, o que representou queda de 78% na comparação com o registro de igual período do ano passado (1,36 milhão). Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), em junho foram abertas 119.495 vagas - abaixo das 136 mil anunciadas anteontem pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e das projeções do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, de um número superior ao de maio (131.557).

O motivo para o desempenho aquém do imaginado, explicou o ministro, foi a indústria de transformação, que contratou menos que o esperado. Este é o setor mais atingido pela crise, com uma queda de produção no semestre superior a 13%.

- Em maio, esperávamos uma recuperação melhor da indústria, principalmente em São Paulo e no setor de produção de alimentos, o que não ocorreu - lamentou Lupi.

Com apenas duas mil contratações no mês passado, a indústria ficou atrás dos setores agropecuário, que registrou saldo de 57.169 vagas, e de serviços, com 22.877. Também perdeu para a construção civil (18.321) e o comércio (17.522). Os subsetores do parque fabril mais prejudicados são as indústrias metalúrgica, mecânica, de materiais de transporte e de borracha, fumo e couros.

Indústria fecha 144 mil postos. Serviços contratam

No acumulado do ano, a indústria também foi o segmento que mais fechou postos de trabalho, com saldo negativo de 144.477 vagas. O comércio aparece em segundo lugar, com a eliminação de 32.978 postos. O setor que está puxando o emprego formal neste ano é o de serviços, que respondeu pela contratação líquida de 235.435 trabalhadores com carteira assinada, com destaque para ramos ligados ao turismo.

Apesar da desaceleração do mercado formal de trabalho no semestre, Lupi prevê que 2009 fechará com saldo positivo de um milhão de vagas, apostando na recuperação da produção industrial a partir deste mês. Segundo ele, há indicativos nesta direção, como a redução no nível dos estoques industriais na esteira dos incentivos dados pelo governo, como a redução do IPI para automóveis e artigos da linha branca.

Pela segunda vez consecutiva, o Caged mostrou elevação no nível de emprego formal em todas as regiões do país, com destaque para o Sudeste, com abertura líquida de 72.002 postos. Na região, Minas Gerais respondeu pela maior geração de empregos com carteira, 45.596 contratações, devido principalmente à safra do café. São Paulo ficou em segundo lugar, com 27.602, seguido pelo Rio de Janeiro, com 5.455 vagas.

Já no Espírito Santo houve a eliminação de 6.651 mil postos de trabalho. O Distrito Federal e o Rio Grande do Sul também registraram saldos negativos.

Interior emprega mais. Renda da mulher é menor no país

Devido ao desempenho do setor agropecuário, as maiores oportunidades de emprego no mês passado se concentraram no interior do país, que respondeu por 80.406 postos de trabalho, contra 25.535 no conjunto das nove áreas metropolitanas pesquisadas (Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre).

Ao divulgar os dados do Caged, Lupi aproveitou para informar que o salário médio do mercado formal de trabalho subiu 0,57%, na comparação entre os primeiros semestres de 2008 e 2009, saindo de R$741,57 para R$745,80. As mulheres, no entanto, recebem 89% do valor auferido pelos homens com carteira assinada. Sem entrar em detalhes, Lupi revelou que os números mostram que os salários pagos aos admitidos são inferiores aos dos demitidos.

Retração em São Paulo foi de 15,06% em junho

Paulo Justus
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A queda na arrecadação federal em São Paulo foi mais acentuada que a média do País. Relatório apresentado ontem pela Receita Federal mostrou que os R$ 21,2 bilhões arrecadados em junho no Estado representam uma queda real (descontada a inflação) de 15,06% em relação ao mesmo período do ano passado. No primeiro semestre, o recuo foi de 8,17% comparado a igual período de 2008.

De acordo com o superintendente da Receita Federal em São Paulo, Luiz Sérgio Fonseca Soares, a queda maior na arrecadação se deve ao alto grau de industrialização do Estado. "Também sofremos uma redução da carga tributária neste ano, ao contrário do que ocorreu em 2008", disse.

As informações foram repassadas em coletiva de imprensa anunciada às pressas pela Receita ontem, dois dias depois da demissão da secretária do órgão, Lina Vieira. De acordo com Soares, a divulgação dos resultados já estava prevista antes da demissão da secretária.

O superintendente paulista, que foi colocado no cargo por Lina em setembro do ano passado, negou que o evento para os jornalistas fosse um ato de desagravo à ex-secretária. "Admiro muito a atuação de Lina Vieira, mas o trabalho é mais importante que as pessoas",afirmou, acrescentando que coletivas nunca foram realizadas antes por falta de condições técnicas.

Soares também negou a existência de pressões internas na Receita para a nomeação do substituto da secretária. "Não cabe a nós aprovar ou desaprovar o nome do secretário da Receita. Isso seria deslealdade institucional", disse.

Desde que assumiu o cargo, Soares concentrou a atuação da fiscalização nos grandes contribuintes, conforme diretrizes de Lina Vieira. Como resultado, os créditos das fiscalizações das grandes empresas em São Paulo subiram de R$ 1 bilhão no primeiro semestre de 2008 para para R$ 2,8 bilhões nos primeiros seis meses de 2009. Já os créditos provenientes da autuação de contribuintes pessoa física caíram de R$ 702 milhões para R$ 254 milhões nas mesmas bases de comparação.

Decifrando o enigma da crise

Luiz Carlos Mendonça de Barros
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Se o atual padrão de ajuste de custos se mantiver, teremos um mercado mais forte e um menor nível de pessimismo

OS PRIMEIROS resultados da atividade econômica global na primeira metade de 2009 começam a ser divulgados. Ontem, ficamos sabendo que o PIB chinês cresceu a uma taxa anualizada de 16,5% entre abril e junho passados. Nos três primeiros meses do ano, o gigante asiático havia crescido 6,1%, e, no último trimestre de 2008, apenas 1,5%. Uma recuperação impressionante.

Mas são alguns vetores desse crescimento que chamam a atenção do analista mais cuidadoso.

As vendas no varejo cresceram no segundo trimestre deste ano em relação a 2008 a uma taxa anualizada de 24%. Nesse mesmo período, a China passou a ser o maior mercado mundial de venda de automóveis, superando os Estados Unidos. Ainda do lado da atividade econômica voltada para o consumo interno, é importante ressaltar o crescimento de quase 20% ao ano na construção de imóveis residenciais.

Sabemos que a chave para um crescimento sustentado na China está no aumento do consumo interno e na redução da dependência das exportações industriais. Por isso, os analistas acompanham com lupa essa mudança de dinâmica no crescimento chinês. Os dados divulgados ontem vão nessa direção, embora apenas a manutenção desse movimento em prazo mais longo será prova definitiva de sucesso.

Em uma economia dirigida por um governo central forte e com sólida visão estratégica de longo prazo, a política econômica está direcionada para acelerar a transição para esse novo modelo de crescimento. O susto dos últimos meses de 2008 e da parte inicial de 2009 alertou o governo dos riscos que corre se não tiver sucesso no reequilíbrio agora buscado. Aposto nessa direção e acredito no crescimento chinês nos próximos anos.

Nesse sentido, reproduzo ao leitor da Folha a informação de que o valor de mercado das empresas chinesas, negociadas nas Bolsas de Valores, já supera o das japonesas -e perde apenas para as norte-americanas.

Mas a atenção dos mercados não está voltada apenas para os dados macro das principais economias do mundo. Entramos no período de divulgação dos resultados trimestrais das principais empresas negociadas nas Bolsas de Valores nos Estados Unidos. Em época de crise de confiança na maior economia do mundo, seus lucros e, principalmente, as previsões para o resto do ano são informações decisivas.

A legislação norte-americana nessa questão não foi enfraquecida pela onda ultraliberal dos últimos anos, e as informações passadas aos mercados são vistas com grande credibilidade.

Embora o número de empresas que já divulgaram seus balanços seja ainda muito pequeno, alguns padrões estão aparecendo. O primeiro é a força dos lucros dos bancos, principalmente dos resultados de tesouraria obtidos em razão dos juros baixíssimos nos mercados interbancários e da melhoria nas condições de crédito. Com isso, os prejuízos com a inadimplência crescente de seus devedores estão sendo compensados, sem comprometer ainda mais sua estrutura de capital.

Além disso, outro padrão aparece nos resultados já divulgados das empresas não financeiras. O ajuste de custos nos últimos três meses, principalmente no volume de emprego e no nível dos salários, está sendo maior do que o esperado pelos analistas. Se esse padrão se mantiver até o fim, poderemos ter um mercado mais forte nas próximas semanas, o que pode reduzir ainda mais o pessimismo que vivemos nos últimos meses.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, 66, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

Caminhos bloqueados paralisam Honduras

Tegucigalpa e La Paz
DEU EM O GLOBO


Chanceler deposta afirma que Zelaya está a caminho do país para instalar governo alternativo e dirigir insurreição contra golpistas

A chanceler do governo deposto, Patricia Rodas, afirmou ontem na Bolívia que o presidente Manuel Zelaya está a caminho de Honduras para retomar o cargo, do qual foi derrubado no dia 28, e instalar uma sede alternativa de governo. A declaração veio dois dias depois de Zelaya convocar os hondurenhos à insurreição contra o governo golpista - no que parece ter sido atendido: ontem os acessos norte e sul da capital, Tegucigalpa, foram fechados por manifestantes, assim como as principais rotas comerciais do país, nos mais intensos protestos dos últimos dias.

Patricia Rodas chegou à Bolívia junto com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, para participar das comemorações pelo bicentenário da Revolução de Julho.

- Neste momento, nosso presidente está a caminho de Honduras - disse Patricia, sem dar detalhes de quando e onde a sede alternativa será estabelecida. - A instalação de uma sede alternativa é para poder dirigir de lá o que eu chamaria de a batalha final. Não se trata de um governo no exílio. Existe um governo em Honduras (de Zelaya) que não perdeu sua legitimidade.
Nem o toque de recolher, retomado na véspera, impediu que as ruas fossem ocupadas, chegando a reunir 3 mil pessoas em alguns pontos de Tegucigalpa. O bloqueio dos acessos da capital causou quilômetros de congestionamento. O tráfego foi paralisado também entre San Pedro Sula (a segunda maior cidade do país) e Puerto Cortés. As filas de veículos em direção ao principal porto do país eram enormes. Em Copan, no oeste, os manifestantes bloquearam as rotas de importação e exportação para El Salvador.

- Se tivermos que paralisar o país, nós o faremos - disse a manifestante Yadira Marroquin, funcionária de um hospital.

Foram registrados protestos também em Comayagua, no centro de Honduras, e Yoro, no norte, além de Atlántica e Colón, na costa. Os manifestantes ameaçaram realizar uma greve geral se não houver uma solução na reunião entre representantes do governo deposto e do governo golpista, mediada pela Costa Rica, amanhã.

- Vejam: não há um facão, um revólver ou fuzil. É uma passeata pacífica - destacou o líder camponês Rafael Alegria.

Chávez adverte para risco de guerra civil

A crise hondurenha começou com a insistência de Zelaya em realizar uma consulta popular que poderia abrir caminho para sua reeleição.

Chávez advertiu ontem para o risco de a crise se transformar numa guerra civil e se espalhar pela América Central. O presidente venezuelano é acusado pela imprensa que apoia o governo golpista de planejar uma ação militar com a ajuda da Nicarágua para derrubá-lo. O jornal "El Heraldo" afirmou que estão se formando grupos armados para ajudar Zelaya a entrar no país.

Zelaya já tentou regressar uma vez, no dia 5, mas a pista do aeroporto foi bloqueada. Ele é ameaçado de prisão caso pise no país. O presidente deposto conta com amplo apoio internacional. Mas, em Honduras, as instituições apoiam Micheletti. Os últimos acontecimentos são um mau sinal para a rodada de negociações marcada para amanhã, em San José. O presidente da Costa Rica e mediador, Oscar Arias, pretende propor a formação de um governo de reconciliação, com uma coalizão em ministérios importantes, como Finanças e Interior. Arias não acha necessário adiantar as eleições presidenciais, marcadas para novembro, mas Zelaya teria que renunciar à consulta popular.

Volta de Zelaya é pré-condição, diz Insulza

Gilberto Scofield Jr.
DEU EM O GLOBO

Secretário-geral da OEA chama governo Micheletti de "uma ditadura de fato"

WASHINGTON. O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, afirmou ontem que a saída para o impasse sobre Honduras passa, necessariamente, pela recondução do presidente Manuel Zelaya ao cargo, e nenhum acordo sem essa pré-condição deve ser fechado por Oscar Arias, presidente da Costa Rica, que tenta mediar uma solução. Insulza falou ontem a diplomatas e estudiosos da América Latina num fórum sobre a crise hondurenha organizado pelo Inter-American Dialogue, um instituto de estudos sobre a região.

Segundo o secretário-geral - que se diz otimista sobre a nova rodada de conversas, marcada para amanhã -, a OEA tem como horizonte para um acordo as eleições presidenciais marcadas para novembro. Ele evitou falar sobre o que a organização fará caso as conversas não tenham resultados a curto prazo e descartou qualquer operação de caráter militar na região.

- A realização de eleições em Honduras ocorre em cinco meses e precisamos de um acordo até lá. A solução passa, obrigatoriamente, pelo respeito à Constituição, o que significa a recondução de Zelaya ao cargo. Chegarmos às eleições sem isso é inadmissível - afirmou.

O pré-requisito de Insulza se choca com as recentes declarações do presidente interino, Roberto Micheletti, segundo o qual ele poderia abdicar do cargo desde que Zelaya não retornasse ao comando do país. Insulza chamou o governo de Micheletti de "uma ditadura de fato".

- É verdade que Zelaya tentou mudar as regras previstas na Constituição e que proíbem a reeleição, mas tanto o Legislativo quanto o Judiciário tinham alternativas para barrar suas ambições. Um golpe é diferente. É um ataque à democracia e afeta todos os países da região. Estou esperançoso com as declarações de Micheletti, mas a renúncia não pode acontecer com o preço de levar junto Zelaya - afirmou.

Insulza disse que está negociando com o governo interino de Honduras o envio, na próxima semana, de representantes da Comissão de Direitos Humanos da OEA, que irão investigar se ocorrem abusos contra opositores. Mas fez questão de negar que esteja ocorrendo "um banho de sangue" ou haja violência nas ruas. E criticou a Igreja por se meter em assuntos políticos.

Trio Carioca - Mistura e Manda, de Nelson Alves

Vale a pena ver o vídeo

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quinta-feira, 16 de julho de 2009

O PENSAMENTO DO DIA – Jarbas Vasconcelos

“É incrível que esta Casa ainda se surpreenda com as atitudes e as ações do presidente da República. Essa declaração foi infeliz. Ele vai continuar usando e abusando de sua popularidade. Ele não tem princípios. Ele é pior do que o pior dos generais que exerceram a ditadura neste país, porque os outros ainda tinham um certo pudor, um certo cuidado ou com a opinião pública ou com o próprio Congresso. Ele não tem nenhum. Quer desmoralizar o Senado, porque não quer que nada concorra com ele.”

(Senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), ontem, em discurso no Senado Federal)

Material fatigado

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Mesmo com toda força do Palácio do Planalto e o empenho pessoal do presidente Luiz Inácio da Silva, o governo sofreu nesta semana três contratempos no Senado: a instalação da CPI da Petrobrás, a recomposição do Conselho de Ética e o considerável agravamento da situação do senador José Sarney na presidência da Casa.

Aparentemente, o comando e a maioria acachapante na CPI, bem como a composição do conselho feita ao molde da absolvição antecipada, são pontos a serem creditados na conta positiva. O fato de a renúncia ser um ato unilateral de vontade, também. Sarney só sai quando e se quiser.

Mas, objetivamente, o saldo é negativo.

Durante dois meses o governo trabalhou contra a instalação da CPI. Dentro e fora do Congresso. Esperava, com o patrocínio de atos públicos, despertar um sentimento patriótico de "defesa" da Petrobrás, criando um constrangimento para a oposição na sociedade.

Se não há clamor em prol da CPI tampouco há procissões populares contra ela. O jogo continua restrito ao ambiente parlamentar. E, neste, o ideal para o governo seria procrastinar o início dos trabalhos até que o recesso do Congresso e a agenda eleitoral dessem conta do riscado, por gravidade, no segundo semestre.

Não é nessa direção que apontam os acontecimentos. O controle da presidência, da relatoria e de 8 dos 11 votos não garante vida fácil à base governista. O trabalho de "tratoragem" é pesado sob todos os aspectos: físico e político.

Todos os dias haverá uma agonia. A recusa de requerimentos, o veto a depoentes, a busca de justificativas para não se analisar as investigações propostas renderá um desgaste monumental.

Se o PT andou na corda bamba e caiu do pior lado quando o presidente da República obrigou o partido a apoiar Sarney, mais equilibrista terá de ser a bancada na CPI presidida por um petista.

Suplente, é verdade, sem compromisso com o eleitorado.

Mas o restante dos senadores depende de votos. Tiveram tanta falta de sorte que a CPI foi instalada justamente no momento em que se divulgou a denúncia sobre desvio de verba de patrocínio da estatal em entidade presidida por José Sarney.

O governo tem maioria para manipular a CPI, mas não tem o poder de controlar os fatos, estes sim condutores dos acontecimentos.

Isso sem falar na crescente desunião da base. Seja por conta das divergências na composição das alianças eleitorais nos Estados, seja como consequência das discordâncias na condução da crise do Senado.

E aqui, nesse quadro de atritos, entra o caso do Conselho de Ética. Dois senadores - ambos governistas - renunciaram antes de o colegiado se instalar oficialmente. Por esta e mais outras, o Conselho de Ética já começa a funcionar sob a égide da desconfiança e falta de legitimidade.

O afã de compor um conselho completamente dominado resultou num conselho totalmente desmoralizado. Presidido por Paulo Duque, um segundo suplente (do governador do Rio, Sérgio Cabral), o conselho poderia, com essa configuração, ser visto como vantagem para Sarney.

Com juízes desacreditados, não há processo que se sustente. É um modo de ver as coisas. Uma outra maneira de observar a cena aconselharia prudência. Afinal, quanto mais atos degradantes, maior o número de senadores que saem da letargia em movimento de autodefesa.

Até a semana passada, o líder do PSDB, Artur Virgílio, falava praticamente sozinho da tribuna do Senado, cobrando brios a seus pares. Estava numa situação difícil até na própria bancada, que considerava seus gestos exagerados.

Pois na terça-feira recebeu adesões de correligionários e de senadores de partidos aliados ao governo. No PMDB, por exemplo, cresce a conduta dissidente. Aos senadores Jarbas Vasconcelos, Pedro Simon e Geraldo Mesquita, agora se junta Garibaldi Alves.

A disposição da maioria na confrontação com a opinião pública é inversamente proporcional ao aumento do descaramento dos métodos adotados pela tropa de choque governista.

A escolha de Paulo Duque para a presidência do Conselho de Ética é um sinal típico da insensatez que conduz o batalhão. Qualquer pessoa que já tenha observado a conduta do suplente em plenário nem precisa do prévio conhecimento a respeito do seu comportamento por vários anos como deputado estadual no Rio de Janeiro.

Desprovido de modos parlamentares, dono de um linguajar inaceitável, Duque produzirá mais malefícios que benefícios para a causa de Sarney. E assim as demais exorbitâncias que levam a corda a ser esticada para além do ponto de resistência de um material obviamente fatigado.

Congregados

Considerando que Fernando Collor de Mello não pode ser apresentado como o pilar central da governabilidade, os elogios do atual ao ex-presidente não foram pautados pela necessidade. Não tendo sido movido pela precisão, Lula só pode ter sido motivado por gosto ou vocação.

Os caras... de pau

Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Cada um tem "o cara" que merece. O de Barack Obama é Lula. O de Lula agora é Collor, disputado a tapa entre governo e oposição, entre Lula e os senadores José Agripino e Arthur Virgílio, nesses tempos de CPI da Petrobras. Mais uma vez, Lula não está sendo educativo, não leva em conta o efeito de suas palavras e seus atos sobre milhões, consolidando a percepção cada vez mais generalizada de que a política é uma farsa e os políticos são todos farsantes.

Os ataques contra Lula na eleição de 1989, em que até filha entrou no meio, foram uma farsa? Os ataques contra Collor nas CPIs de 1992, em que um Fiat Elba virou símbolo de escândalo, também? Tudo não passa de jogo político, de um vale-tudo sem ética, sem moral, para vencer e aniquilar o adversário?

Desvios? Corrupção? Bobagens, meros instrumentos contra adversários, peças a serem sacadas quando convém e logo esquecidos? Ídolos não precisam só fazer gols, chegar primeiro, pular mais alto, nadar mais rápido, encaçapar mais bolas, cortar mais forte nem administrar bem municípios, Estados, países. Ídolos precisam também dar exemplos. Com seus 80% de popularidade, Lula é um ídolo.

E um muito especial, que foi retirante nordestino, metalúrgico, líder sindical contra a ditadura e um dos criadores do PT -partido cujo marketing é/era ser o mais puro do país, quiçá do planeta.

Por isso, não dá para entender a teimosia de Lula, que insiste em defender o indefensável.

Renan Calheiros, depois José Sarney, depois o governador que viaja para Paris com a sogra em avião pago com dinheiro público. Sem falar nos mensaleiros, aloprados, fabricantes de dossiês.

O governo Lula acaba, mas o legado dele fica. E se dissemina, como aula e como exemplo para milhões de brasileiros. Para o bem ou para o mal. Ele deveria refletir sobre isso. Para que todo o purismo dos tempos de oposição não esfarele como a mais reles farsa.

Caso Sarney: O ganho buscado por Lula e a nova queda do PT na opinião pública

Jarbas de Holanda
Jornalista

A undécima e enfática manifestação em defesa de José Sarney, feita por Lula na reunião ministerial de anteontem, dias após forçar a mudança de postura, contrária, da bancada petista, mostrou que nem a persistência das denúncias contra o presidente do Senado, nem o impacto delas nos segmentos melhor informados da sociedade o desviam da prioridade política básica do Palácio do Planalto: contar com o apoio formal do PMDB à candidatura governista na disputa presidencial do próximo ano. Por isso, embora preocupado com a sequência e a amplitude das denúncias, ele as avalia, desde o começo, como úteis por favorecerem seu objetivo, contribuindo para o estreitamento de relações com a banda peemedebista dos senadores, enquanto trabalha a hipótese da indicação de uma das lideranças da banda da Câmara dos Deputados, o presidente e paulista Michel Temer, para vice de Dilma Rousseff (especialmente se o titular oposicionista for o governador de São Paulo José Serra).

O papel do PSDB no desencadeamento da ofensiva contra Sarney – por meio da assunção e da ampliação por parte do líder Arthur Virgílio de dados fornecidos pelo petista Tião Viana – e a adesão do DEM a ela, com a quebra da aliança antipetista montada para a eleição da mesa da Casa, esses dois ingredientes conferiram às denúncias uma clara dimensão oposicionista. Que propiciou a Lula trocar o respaldo a Sarney por antecipação já agora pelo PMDB do Senado – em lugar de manobras protelatórias e ambíguas que vinha fazendo – de compromisso definido com o projeto governista para a sucessão presidencial Dentro da perspectiva de que esse projeto ganhe caráter plebiscitário em torno de um lulismo que combine a elevada popularidade do presidente com a imagem centrista do PMDB (e obviamente com seu generoso tempo de propaganda gratuita). Perspectiva na qual ao PT cabe apenas função de ator coadjuvante, já deixado à margem ao atrapalhar um episódio importante da montagem do projeto, como se evidenciou na crise do Senado.

No plano partidário, esse episódio tem como principais vitimas as lideranças do PT dependentes do voto de opinião dos grandes centros urbanos, sobretudo os das regiões Sul e Sudeste. Já duramente afetadas pela crise do mensalão, em 2005, elas sofrem novo e forte desgaste na chamada opinião pública com as posturas contraditórias assumidas pelos seus representantes no Senado: do radical “fora Sarney”, enunciado bombasticamente por Aloizio Mercadante, ao enquadramento pró-Sarney imposto pelo presidente Lula. Na verdade, a postura inicial articulava uma oportunista retórica ética ao propósito concreto de conquistar espaço na direção do Senado provocando uma implosão do acordo PMDB – DEM que a elegeu meses atrás. Esse propósito inviabilizou-se ao ser rápida e veementemente rejeitado pelo Planalto, com os efeitos de divisão da bancada petista e desqualificação de seu líder. E a retórica frustrou-se por inteiro em face da péssima repercussão social do enquadramento da bancada pelo presidente Lula.

A forte debilitação do PT no Sudeste e no Sul registrada nas últimas eleições estaduais e nas capitais das duas regiões, o enfraquecimento político vivido agora em decorrência da subordinação à prioridade conferida por Lula à armação de palanques regionais para a campanha de Dilma Rousseff em torno de candidatos a governadores indicados por outros partidos, principalmente pelo PMDB, e o novo desgaste provocado pela crise do Senado, tudo isso poderá ser compensado, quantitativamente, com a capitalização eleitoral em 2010 da popularidade do presidente e dos amplos e crescentes programas assistencialistas do governo, em especial no Norte e no Nordeste e em grau menor na periferia das diversas regiões metropolitanas. Mas isso através da acentuação do processo, já em curso, de mudança do antigo PT ideológico e forte no voto de opinião para um partido eleitoreiro dependente do sucesso e da persistência do lulismo, com votação expressiva nas áreas periféricas mas com reduzida e decrescente influencia nas camadas médias e sem maior peso na política nacional.

Um bom indicador desse processo é a erosão do protagonismo que ele tinha em São Paulo, onde hoje não conta sequer com um nome competitivo para a disputa do governo do estado. E tenta resistir aos sinais emitidos por Lula em favor do apoio da legenda à alternativa da candidatura de Ciro Gomes, que cumpriria o papel de palanque unificado da campanha presidencial de Dilma Rousseff num estado amplamente dominado pelo PSDB.

O novo Senado

Wilson Figueiredo
Jornalista
DEU NO JORNAL DO BRASIL


Desde que deixou de ser abrigo histórico de políticos idosos – sobreviventes de derrotas dignificantes e vitórias retumbantes, ex-presidentes, ex-governadores e demais credores de reconhecimento público – o velho Senado tomou o rumo equivocado assim que o AI-5 saiu de circulação e lhe abriu passagem. O caso do Senado e da Câmara começou com a mudança de endereço da capital federal: longe da opinião pública, o Congresso deu as costas à ética política e perdeu o senso ao se mudar para o Planalto Central. A livre multiplicação da mordomia parlamentar abalou o sentimento republicano até a raiz. O voto direto, de peso majoritário no Senado, é a armadura dignificante da autoridade especial que a eleição confere aos senadores, por cima das divergências. Mas, usado como moeda de troca de favores, passou a ser péssimo investimento da cidadania.

Nos últimos tempos no Rio, contornando a ida para Brasília, os senadores, para ganhar tempo, prolongaram o viço crepuscular que fez o encanto final do Palácio Monroe. Os últimos senadores daquele período – de 1946 a 1964 – fecham o álbum de família que incorporou, até ali, o presente ao passado brasileiro. O saldo das leis a que o Senado deu aval valeu por uma bênção cívica, mas não mais imuniza personagens de menor estatura histórica. Dissipou-se o eco dos debates que sustentavam, no plenário e na repercussão nacional, o prestígio da oratória, complementada com pequenos escândalos, como a licença privilegiada de importação de automóveis antes do advento da indústria que democratizou a oportunidade. A decadência atual tem outra natureza e criatividade maligna, como as decisões secretas para que os eleitores não venham a saber. Ganhou dinâmica suicida. Desfez-se, da noite para o dia, a ilusão de que seja possível esconder história suja por muito tempo.

A mudança da capital para Brasília não correspondeu, na política, ao múltiplo efeito favorável nas suas consequências e benefícios. Na tradição das intervenções políticas com alegações éticas rapidamente esquecidas, fez-se, a partir de 1964, de um golpe de Estado, como era praxe, uma ditadura, obviamente sem prazo, ao custo da dívida moral que ainda está sendo paga em escândalos de intermináveis prestações. De um Congresso proibido de legislar e calado com favores de vários tamanhos, não se podia esperar nada melhor do que tem sido servido aos brasileiros a título de atividade parlamentar.

Com a ida para Brasília, foi-se a época dos alentados discursos, com duelos de qualidade política, fosse para divergir ou convergir. Apenas um punhado de sobreviventes faz as honras do contraste entre o que foi e o que pode vir a ser um novo Senado, desde que a opinião pública tape os ouvidos e não confunda o fim do dia no Planalto Central com o fim dos tempos. É apenas um novo começo. Sem se levar em consideração que o espetáculo não precisa durar mais para realçar as diferenças, não é possível entender o que se passa em Brasília. Elas são óbvias. A conta política cobrada pela cidadania cria a oportunidade para reconstruir uma nação politicamente carente de ética pública, sem a qual as leis morrem de inanição. O que passou, não apenas passou como não pode continuar sem consequências, à margem da ordem legal em que os cidadãos transitam e os costumes se regeneram.

Ao confinar a representação política ao exercício do mandato vazio, a inversão da ordem dos fatores democráticos ressaltou a perfídia: a ditadura, quando fechou os olhos, deixou apenas a decadência representativa como legado. O sinal dos tempos é a falsa legitimidade de senadores sem votos, vestidos com sofismas arrogantes que não lhes cobrem as vergonhas. Na revelação das misérias ocultas, não houve sequer um suspeito com a dignidade de assumir a culpa e se explicar no julgamento. A presunção de inocência se tornou privilégio dos culpados irrecuperáveis, para os quais o voto é mercadoria paga com dinheiro do contribuinte. O resto se chama conivência. Ainda bem que as liberdades enchem os pulmões da cidadania. A absolvição de culpados é o esgoto de uma época da qual nada de bom se poderá aproveitar, como se vê mais de perto a cada dia.

Entre o Velho Senado, que Machado esculpiu com mão fina, para durar mais do que a vida de cada um dos senadores que o habitavam, e outro que é esperado, chega a oportunidade democrática a ser aproveitada antes que a mão pesada da História desça sobre as instituições que precisam ser salvas, e não destruídas a título de dar lugar a outras. Os pecados da mordomia não resistem à luz do dia e os seus beneficiários, não demora, vão passar pelo voto dos cidadãos. Não há alternativa.

Uma aposta ousada do presidente Lula

Maria Inês Nassif
DEU NO VALOR ECONÔMICO

Não deixa de ser uma aposta ousada: no momento em que o PMDB é um somatório de desgastes de suas lideranças políticas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se lança numa cruzada destinada a sustentar nacional e regionalmente cada um deles. Lula tem dado a líderes pemedebistas que são a expressão da política tradicional - de clientelismo, patrimonialismo e mandonismo - uma sustentação cujo aval é sua alta popularidade, a maior conseguida por um presidente da República brasileiro em períodos democráticos. Tem acrescido a ela o apoio resignado de seu partido, o PT. Do ponto de vista tático, pode ser uma jogada de mestre: Lula passa de uma situação em que era refém do PMDB do Senado para outra, em que é credor da bancada pemedebista naquela Casa. Do lado político, todavia, é uma ofensiva que tende a trazer o PT definitivamente para a planície dos partidos tradicionais.

O PT debilitou-se internamente ao longo de dois governos e de um excessivo pragmatismo da direção partidária e do presidente Lula. O auge da crise do partido foi o escândalo do mensalão, em 2005, quando revelações sobre financiamento ilegal de campanha desmistificaram o entendimento de que era ele a força nova no quadro partidário brasileiro. A crise interna foi simultânea à colheita de popularidade de Lula, que cresceu à medida em que se tornavam visíveis os resultados das políticas de distribuição de renda do seu governo. Rompeu-se, assim, o equilíbrio da relação que existia até então, em que o poder das instâncias partidárias e o poder pessoal de Lula tinham quase o mesmo peso. A partir das eleições de 2006, Lula tornou-se politicamente muito maior que o partido.

A crise política de 2005, se tirou do governo uma certa organicidade mantida no primeiro mandato, deu a Lula uma grande autonomia sobre o partido. As negociações com o PMDB para constituir um governo de coalizão, os complicados ajustes de interesses internos da legenda aliada, a definição de concessões aos outros partidos e, agora, a escolha da candidata petista à Presidência e os acordos para compor a coligação que a levará às urnas são decisões de Lula. O PT não é propriamente um refém da popularidade do presidente, mas amarrou o seu destino ao dele: será muito difícil o partido vencer em 2010 sem se valer do carisma do chefe. A popularidade do governo pode também definir eleições regionais.

O comprometimento de governos com políticos tradicionais abrigados no PMDB e em outros partidos situados à direita do espectro político não é um dado novo da política brasileira. Todos os governantes, desde 1985, precisaram do apoio do PMDB para formar maiorias no Congresso. A crise política do primeiro mandato de Lula foi o preço pago pelo PT por manter um governo sem aliar-se ao maior partido do país. Lula, no seu segundo mandato, não pagou para ver. A excessiva exposição de sua imagem à de políticos tradicionais, todavia, é um dado adicional. Não faz parte da tradição política brasileira. Ao que tudo indica, Lula acredita que está imune a contaminações com os escândalos que têm atingido as lideranças tradicionais da política brasileira.

O apoio incondicional aos líderes tradicionais que estão em franco processo de desgaste tem suas contra-indicações. O dado mais visível é o enfraquecimento cada vez maior do PT como instância de decisões políticas: Lula tem sido o protagonista de ações das quais resultam compromissos no Congresso e alianças eleitorais nos Estados. Outra é o empréstimo de sua popularidade a lideranças tradicionais que chegavam ao ocaso, para que retomem a hegemonia das políticas estaduais e o espaço na política nacional. Uma terceira consequência pode ser a de acabar de afugentar uma militância ideológica que ainda gravitava em torno do PT por considerá-lo como a alternativa de poder que se contrapunha aos governos anteriores. O PT e Dilma Rousseff herdam, assim, os votos cativos de Lula nas camadas mais pobres da população, mas abrem mão de antigos votos petistas que conferiam ao partido um perfil ideológico diferenciado.

Não será o único caso de partido a sucumbir a um período na chefia do Executivo. O PMDB no governo de José Sarney (1986-1990) e o PSDB nos governos FHC (1995-1998 e 1999-2002) passaram pelo mesmo processo de afrouxamento ideológico. O PSDB, após ações pragmáticas que trouxeram para dentro dele políticos com a carreira fincada na política tradicional, não reencontrou o eixo da social-democracia quando virou oposição. O PT, embora tenha se preservado de adesões de ocasião, tem cada vez menos autonomia em relação ao governo e ao presidente da República.

Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras

O QUE PENSA A MÍDIA

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Os compadres

Editorial
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Lula abençoa práticas e líderes oligarcas e ajuda a dar sobrevida a um modo de fazer política que deveria estar sepultado

NEM TUDO saiu dentro do previsto na passagem do mandatário da República por Palmeira dos Índios, Alagoas.

O helicóptero da Presidência era muito grande para pousar próximo à barragem da qual parte uma adutora financiada pelo PAC. Aboliu-se o desembarque porque, como explicou o presidente, "podia dar problema".

O plano alternativo também falhou. A ideia era demonstrar ao vivo as maravilhas da adutora a ser inaugurada. A torneira que traria água até o palanque, porém, não foi instalada.

"Lamentavelmente, não deu tempo de a gente fazer a obra, e a torneira não pôde chegar aqui", justificou Lula, na terra outrora governada pelo autor de "Vidas Secas", Graciliano Ramos.

Dadas as circunstâncias um tanto restritivas, o presidente resolveu inaugurar algo mais abstrato: "Um outro jeito de fazer política no nosso país". Antes dele, discursou, as decisões do governo eram tomadas na base do compadrio; prevalecia "a política dos amigos". Lula valeu-se do fato de inaugurar obra ao lado de um governador do PSDB, Teotonio Vilela Filho, para persuadir de que os tempos mudaram.

O presidente exagerou. Todos os que já se sentaram na sua cadeira se viram compelidos a alargar seus horizontes político-partidários. A atitude faz parte do instinto de sobrevivência de todo governante e é necessária para que a democracia funcione. Mas a generosidade de Lula nesse aspecto tem sido maior que o seu helicóptero.

Ainda em Alagoas, o presidente rasgou elogios a uma notória dupla de congressistas. "Quero aqui fazer justiça ao comportamento do senador Collor e do senador Renan, que têm dado uma sustentação muito grande aos trabalhos do governo no Senado." Dias antes, Lula fizera "justiça" ao ex-presidente José Sarney e expusera o PT a mais um vexame histórico.

O presidente da República torna-se o fiador do que há de mais retrógrado na política brasileira.

Abençoa de bom grado o compadrio -bem como sua matriz, o patrimonialismo- que displicentemente afirma combater. O uso de contratos, cargos e dinheiro públicos para beneficiar amigos e parentes é o roteiro monótono do interminável escândalo do Senado. Alguns de seus protagonistas gozam da proteção de Lula.

Os modernistas inventaram a metáfora da antropofagia para designar a sua plataforma estética.

Cabia devorar a tradição, como os caetés devoraram o bispo Sardinha, para dar à luz algo novo e vigoroso -no caso, uma cultura nacional. Na relação entre Lula e os velhos oligarcas, não se sabe ao certo quem é devorado e quem devora.

Parecem todos desfrutar do mesmo banquete de privilégios e mandonismo. No século 21, o presidente Lula e seus compadres dão sobrevida ao Brasil decadente retratado por Graciliano Ramos -um mundo que já deveria estar sepultado.

Refém da eleição

Editorial
DEU EM O GLOBO

Interessa a quem dá expediente no Palácio do Planalto o que se passa no Congresso. Como qualquer movimento de terreno mais importante no campo partidário pode afetar, para melhor ou pior, a capacidade de o Executivo transformar projetos em leis, a coreografia política seguida por deputados e senadores é acompanhada com a atenção devida pelo Executivo. E vice-versa. Mas o que acontece hoje no Senado é diferente.

Porque o destino do presidente da Casa, José Sarney, foi atrelado ao projeto político-eleitoral do presidente Lula para 2010, sucede no Senado um choque de dimensões crescentes em que fica em segundo plano a necessidade de serem investigadas denúncias de sérios desvios administrativos.

A instituição do próprio Congresso passa, assim, à condição de refém deste projeto, pagando o preço incomensurável do desgaste decorrente do que será e já vem sendo feito pela tropa de choque do PMDB fisiológico para proteger Sarney no Conselho de Ética - criado com o objetivo de avaliar se o senador infringiu o decoro - e manter o próprio governo a salvo de qualquer susto na CPI da Petrobras. Tanto o Conselho quanto a CPI não devem ser levados a sério - esta é a intenção da tropa de choque de senadores, sob o comando de Renan Calheiros.

É dos regimes autoritários manietar Parlamento e Judiciário. Mas não estamos num regime fechado, ao contrário. A subordinação do Senado a desígnios do Executivo se dá, agora, pela via de práticas fisiológicas, da distribuição de verbas e vagas, do aceno por mais benesses a partir de janeiro de 2011.

Poderia não ter sido assim, caso José Sarney houvesse aceitado os pedidos para que se licenciasse. Mas como o presidente da Casa foi convertido em peça-chave da "governabilidade", a nação começa a conhecer o repertório de manobras destinadas a impedir que qualquer evidência de irregularidades na Petrobras seja averiguada, bem como na Fundação José Sarney.

Uma delas é designar um senador "sem voto", Paulo Duque (PSDB-RJ), para presidente do Conselho de Ética. Tendo assumido o lugar do titular, Sérgio Cabral, governador fluminense, Duque não dependeu de voto para chegar lá -, nem dependerá tão cedo, pois está em meio de mandato. Fará o que lhe mandarem fazer. A CPI da Petrobras, sob total controle do governo, vai pelo mesmo caminho. Às favas com a independência entre os poderes.

É preciso proteger o Congresso. Não é bom para a nação que o Poder Legislativo seja tratado como vassalo - e se preste a isso.

A captura de uma instituição

Editorial
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Pensando bem, o maior dos escândalos que enxovalham o Senado não é nenhum dos que vieram à luz nos últimos meses, na esteira da disputa pelo seu comando, do qual saiu vitorioso o representante do Amapá, José Sarney, que até a enésima hora jurava não ambicionar o posto pela terceira vez. O escândalo dos escândalos é a transformação do Senado da República em repartição do governo Lula. A captura da instituição tornou-se a meta principal, nas relações com o Legislativo, de um presidente escaldado pela única derrota séria que a Casa lhe infligiu, ao derrubar a prorrogação da CPMF, em dezembro de 2007, e obcecado em remover do Congresso o menor obstáculo ao programa de aceleração do crescimento da candidatura Dilma Rousseff - a "sucessora", como não se peja de proclamar, indiferente ao prazo estabelecido pela Justiça Eleitoral para o início da campanha.

Todo presidente aspira à hegemonia no Parlamento. A diferença está nos meios que em países politicamente amadurecidos o sistema presidencialista considera legítimos para o exercício da influência do Executivo nas decisões congressuais e, mais do que isso, nos limites que os próprios governantes se impõem nessa empreitada, por reconhecer o imperativo da integridade dos Poderes republicanos. Com Lula a história é outra. De há muito ele deve ter intuído que os costumes políticos nacionais - os mesmos que passou décadas execrando até o exagero - embutem uma complacência, pronta para ser explorada, com as premissas a partir das quais se estrutura o relacionamento entre as instituições de governo. Sem nada a inibi-lo no plano da ética política, que para ele consiste no êxito puro e simples das suas operações de poder, tudo se resume à oportunidade e à moeda adequada para comprar a adesão dos parlamentares que outra coisa dele já não esperavam.

Para tutelar o Senado, o Planalto não precisou recorrer a um meio tão rudimentar como foi o mensalão na Câmara. Bastou acertar-se com as suas caciquias - as dos Sarneys, Calheiros, Jucás, em suma, a escolada primeira divisão dos profissionais do PMDB - e o resto, previsivelmente, veio por gravidade. Rudimentar, isso sim, é a forma como o esquema aplasta não só a desvitalizada oposição, no curso daquilo que na linguagem política é o "jogo jogado", mas qualquer entendimento entre os blocos partidários que contenha ao menos um semblante de respeito ao direito da minoria na Casa outrora chamada Câmara Alta. A tática da terra arrasada funcionou a pleno vapor no deplorável espetáculo da instalação da CPI da Petrobrás, anteontem, passados dois meses da sua criação. Com a leonina vantagem de 8 cadeiras a 3 no colegiado, a maioria impôs os nomes que desde a primeira hora Lula queria ver na presidência (o seu fraternal amigo petista João Pedro) e na relatoria do inquérito (o ex-ministro e líder do governo Romero Jucá).

A exibição inaugural do rolo compressor do Planalto deixa poucas dúvidas sobre o alcance da investigação das suspeitas que envolvem a estatal - fraudes em licitações, superfaturamento nas obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, irregularidades em contratos de patrocínio e convênios com ONGs e prefeituras e manobras contábeis contestadas pela Receita. A CPI auditará o que o governo permitir e ouvirá apenas depoentes seguros ou sacrificáveis - excluída, por definição, a ministra Dilma Rousseff, ex-titular de Minas e Energia. A ironia é que até há bem pouco, imaginando que poderia equilibrar a balança, a oposição falava em sugerir aos governistas o nome do senador Fernando Collor, presidente da Comissão de Infraestrutura, para conduzir os trabalhos. Justo o feroz adversário de Lula na eleição de 1989, convertido em lulista desde criancinha, a quem, na mesma quarta-feira, numa festa em Alagoas, exaltaria por dar "sustentação muito grande aos trabalhos do governo no Senado".

A sessão em que se instalou a CPI foi dirigida e sumariamente encerrada pelo decano da Casa, o peemedebista Paulo Duque, de 81 anos. Ele era o candidato do líder do partido, Renan Calheiros - outro sustentáculo de Lula -, para presidente do Conselho de Ética que já recebeu três representações contra Sarney por quebra de decoro. Duque espelhou à perfeição a esqualidez moral deste Senado jungido pelo lulismo ao dizer que "ficar vasculhando a vida dele é bobagem".