sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A conversa fiada que candidatos contam à elite privilegiada por informação exclusiva, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Emissários dos presidenciáveis falam mais com ricos do que com o eleitorado, e falam mal

PT e PL apresentam ideias vagas ou tortas, mas Lula 4 tem pouco crédito de reformista

Os candidatos principais à Presidência da República mandam seus economistas contarem seus "planos para a economia" a gente da elite econômica, em especial da finança. Faz semanas é assim, vai ser assim nas próximas, antes e depois da eleição.

Ainda assim, a elite agraciada com o privilégio nada republicano dessas visitas de esclarecimento não se diz esclarecida nem sobre os assuntos mais rudimentares dos "planos para a economia", que são o tamanho do gasto federal, dívida pública e taxas de juros.

"Planos para a economia" vai entre aspas porque nessas conversas se trata mal e vagamente de problemas fiscais, apenas parte dos nossos problemas econômicos extensos e variados (ciência, pesquisa, infraestrutura, crédito subsidiado, agências reguladoras, plano para energia, eficiência administrativa do Estado, modos de incentivar fronteira produtiva nova etc.).

Segundo algumas dessas pessoas privilegiadas, a conversa não vai muito além de uma tentativa de demonstração de "responsabilidade" com problemas fiscais.

Ninguém acredita que Lula 4 fará mais do que um remendo. Não acreditam que Lula 4 vá adotar ao menos diretrizes propostas por Fernando Haddad logo no início de Lula 3 e vetadas de vez no final de 2025.

Por falta de alternativa substantivamente melhor, por acharem que é menor a chance de Flávio Bolsonaro vir com mais impostos, por acharem que é maior a chance de desregulamentação e privatização, preferem a promessa vaga da direita. De resto, melhor direita do que esquerda.

A turma de Lula 4 até agora apareceu com a ideia de que o arcabouço fiscal terá "ajustes". Isto é, taxa menor de crescimento da despesa do que a atual, de 2,5% ao ano (com reajuste menor do salário-mínimo, pois), acerto em benefícios sociais, limitação de gastos via emendas, menos favores com impostos ("gasto tributário").

Tais planos estariam em estudo. Talvez sejam apresentados em detalhe prático apenas a um Lula reeleito. Podem ser embalados em uma conversa de "pacto dos Poderes".

Melhor do que nada, dizem, se for verdade, se passar pelo Congresso. Os mais simpáticos acham que Lula vai fazer "alguma coisa" até para evitar a falta absoluta de dinheiro livre no Orçamento de 2028 e para atenuar o risco de crise aguda. No grosso, não resolve.

De resto, semana e pouco depois de uma dessas conversas, Lula voltaria a dizer que investimento não é gasto e que a "Faria Lima" quer engessar o governo etc., a mesma conversa do terceiro mandato. Qual Lula está valendo?

De público, economistas do governo dizem que a dívida não cresce por causa do gasto primário, mas por causa dos juros (o que na aparência mais superficial e desinformada é verdade). Essa e outras bobagens são apenas para consumo externo, para a campanha, ou alguém acredita nisso?

O que diz a turma dos Bolsonaro? A receita de bolo convencional para problemas fiscais, sem imaginação, passos do ajuste e tamanho de medidas. Que haverá um "time dos sonhos" (hum) para tocar tudo isso —mas há desconfiança na praça do que seria esse "time" e se teria apoio do presidente. O que Flávio Bolsonaro diz em público não faz lé com cré.

Seguindo seu pai, é um demagogo, sem compromisso de fundo com reforma econômica, mesmo a liberal. Quase ninguém acredita que a candidatura da direita ora saiba do que está falando. Mas acha que há mais chance de sair "reforma" por aí. Com Lula, "reformas" maiores estariam limitadas de antemão.

 

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