Valor Econômico
O presidente da Argentina, Javier Milei, não falou em nome próprio, mas como protagonista de empréstimo do ex-presidente e chefe do clã que está preso
Uma visita insólita aos palcos da política
brasileira ocorreu há poucos dias. Foi quando da convenção do PL que
oficializou a candidatura de um filho de Jair Messias à confirmação da família
na Presidência da República.
Família, na lei brasileira, republicana e não
monárquica, não é sujeito de direito eleitoral. Tecnicamente, político não é
nem tem família. Só na vida privada. No entanto, mesmo quem do “clã” está
condenado e na prisão comporta-se aqui como se não estivesse. Manda por trás
das grades.
A visita insólita foi a do presidente da
Argentina, que tirou uma folga para uma visita não oficial, uma escapada para
socorrer um colega brasileiro de ideologia política, em crise de sobrevivência
eleitoral.
O evento da convenção mencionada foi feito para legalizar fora da lei o protagonismo eleitoral do que vem sendo identificado pela mídia como “clã Bolsonaro”. Uma prática de despistamento exposta pelo ministro do Meio Ambiente, na reunião do governo Bolsonaro de 22 de abril de 2020. Aproveitar a distração da mídia com a pandemia para fazer “passar a boiada” de mudanças nas leis de proteção ambiental com base nas regras e textos normativos infralegais. Um Brasil infralegalmente paralelo é o Brasil da direita, e é nele que vivemos.
É o país da exceção. O país do que o
professor da USP Antonio Candido definiu em seu artigo sociológico famoso como
“dialética da malandragem”.
Não é estranho, portanto, que um personagem
bufo, coadjuvante de outro governante descabidamente bufo, do recinto conhecido
como Casa Branca, assessorado pelo “clã” brasileiro lá infiltrado, que aqui
pretende voltar ao poder, tenha sido importado do rio da Prata para fazer o
comício de oficialização da candidatura do grupo.
Não podendo legalmente recorrer aos termos
usados no discurso bufo que o convidado fez no evento, ao difamar o presidente
brasileiro e um ministro do STF, Milei não falou em nome próprio, mas como
protagonista de empréstimo para na própria boca colocar o discurso que era,
tudo indica, por gestos de entusiasmo e coleguismo, o do candidato bolsonarista
à presidência do Brasil emudecido pela circunstância.
Clã por uma sutil ironia jornalística porque
não existem clãs na organização social da família no Brasil. Até porque o que
dessa instituição, herdada de Portugal, resistiu no país até o começo do
Império, deixou de existir legalmente em 1835. Quando foi extinto aqui o
morgadio, que concentrava os direitos de herança, especialmente os de terras,
nas mãos do filho primogênito de um potentado rural, o morgado.
No Brasil da época, o principal bem não era a
terra. Eram os escravos. Concentrar terras era ampliar o poder da escravidão e
do escravismo e, portanto, o morgadio era um dos fundamentos do poder político.
Os morgados, indiretamente, herdavam também
um direito prioritário ao poder, na importância que o patrimônio tinha no
Império para ascensão aos níveis mais altos do Legislativo. Um sistema de
acesso político hierarquizado de vereador municipal a deputado ao Parlamento
nacional com base no montante do patrimônio de cada candidato e o requerido em
cada nível.
Foram tantos os disfarces para essa
persistência, que ela perdura até hoje, como indica a pretensão do morgadio nos
direitos políticos exclusivos de uma família no país de agora. É a legitimação
pelo eleitorado partidarizado mas não politizado, que é o nosso, dessa
pretensão, que os partidos de direita e de extremo centro praticam.
Em bom número, partidos não representativos
das demandas sociais e políticas condenam o povo brasileiro à subserviência a
esse tipo de gente e de mentalidade por no mínimo mais meio século. Com os
cúmplices e cupinchas como alternativas leais, ainda que eventuais, poderão
chegar a um século no poder.
Com o elenco de bajuladores e protegidos que
o “clã” tem arrastado para o Poder Legislativo, as prefeituras e câmaras
municipais, os governos estaduais e as assembleias legislativas, a direita
governa por via indireta, como faz o presidente do Senado e do Congresso.
Cotidianamente atuam para inviabilizar as
medidas governamentais do Poder Executivo e mesmo as decisões reguladoras do
Poder Judiciário. Passam, mutiladas, as medidas que eles querem e permitem.
Infiltrar-se no STF foi tentativa sinistra de
risco de influência pessoal de um grupo de interesses políticos em eventuais
decisões da corte. Aqui, cada vez mais, é ela nossa mais importante garantia de
respeito à Constituição, às leis e à democracia que nos resta. Mas ameaçada o
tempo todo pelos fazedores de “fake news”. Até religiões e seitas foram postas
de joelhos. Como diz Guimarães Rosa: “E Deus mesmo, se vier, que venha armado”.

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