terça-feira, 4 de maio de 2010

Brasil tem problemas de liberdade de imprensa

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Análise apresentada pela entidade Repórteres Sem Fronteiras destaca que País sofre com decisões judiciais que limita trabalho da mídia

Wilson Tosta / RIO

Em um mapa da entidade Repórteres Sem Fronteiras sobre a situação da liberdade de imprensa no mundo em 2010, dividindo 175 países em um espectro de cores que vai do branco (boa) ao preto (muito grave), o Brasil aparece coberto de laranja claro (com problemas sensíveis).

O desenho foi exibido ontem pelo presidente emérito do Grupo RBS, Jayme Sirotsky, no seminário Liberdade de Expressão, e mostra que, se o País não chega ao laranja escuro (difícil) de Venezuela e Equador e está muito distante do preto da Arábia Saudita, está longe da liberdade clara de Canadá, Austrália, Bélgica, países escandinavos e outros.

Entre os motivos, decisões judiciais vetando reportagens - como a que há 277 dias impôs ao Estado censura em relação à Operação Boi Barrica, da Polícia Federal. "Aqui são praticadas algumas formas veladas de censura e outras explícitas, com base em interpretações equivocadas da lei", disse Sirotsky, em sua palestra, intitulada O cerceamento às liberdades de expressão - visão histórica da evolução dos abusos pelo mundo, no evento promovido pela Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (Emerj) e entidades do setor, no Dia da Liberdade de Imprensa.

"São decisões judiciais sob o argumento de que a liberdade de expressão não é um direito absoluto, de proteção da intimidade. O ministro (do Supremo Tribunal Federal) Celso de Mello diz claramente que a nova forma de censura prévia é a tutela antecipada (contra reportagens) que alguns juízes estão concedendo." Sirotsky destacou a "inexplicável e longa" censura enfrentada pelo Estado, lembrou que a liberdade de imprensa é respaldada em tratados internacionais e na Constituição e classificou a situação brasileira como de "liberdade relativa".

Ele também criticou propostas de "controle social" da mídia, levantadas por representantes de partidos de esquerda e movimentos sociais, denunciando-as como tentativas de controlar a imprensa pelo Estado. "Ora! Controle social da mídia... São 8.621 emissoras de rádio, 497 estações de televisão, 3.079 jornais que circulam e informam no nosso País", disse. "A sociedade tem cada vez mais poder de fiscalizar e de usar as novas tecnologias para exigir qualidade, isenção e para produzir seus conteúdos."

Mesmo no campo da segurança física para jornalistas, a situação do Brasil não é a ideal. Até 2009, frisou Sirotsky, o País era um dos 14 piores locais para a imprensa trabalhar sob esse ponto de vista, de acordo com a organização Comitê para a Proteção de Jornalistas. Em 2010, o Brasil saiu da relação, devido a condenações de criminosos que mataram profissionais da área.

O problema é mais grave em outros países da América Latina. "Honduras chegou a ser considerado o país mais perigoso do continente para jornalistas, com seis profissionais assassinados somente em 2010", declarou Sirotsky.

Denúncias. Representantes de órgãos de comunicação da Venezuela, da Argentina e do Equador denunciaram no seminário iniciativas dos governos de seus países para limitar cada vez mais a autonomia de jornalistas e empresas jornalísticas.

Um dos exemplos foi o do presidente do canal venezuelano Globovisión, Guillermo Zuloaga, preso ao voltar ao país após participar de reunião da Sociedade Interamericana de Prensa (SIP) em Aruba, no Caribe, acusado de ter "vilipendiado" no encontro o governo do presidente Hugo Chávez.

Embora já libertado, o diretor da TV não pôde participar do evento de ontem, por estar impedido de sair da Venezuela, e foi representado pelo filho, Carlos Zuloaga. Venezuela, Argentina, Bolívia, Honduras e México são citados negativamente no relatório de 2010 da World Association of Newspapers and News Publishers (WAN).

Mediador de um debate que reuniu Zuloaga, Hernán Verdaguer, do grupo argentino Clarín, e Emílio Palacios, do jornal equatoriano El Universo, sobre O cerceamento às liberdades de expressão na América Latina, o diretor de Conteúdo do Grupo Estado, Ricardo Gandour, citou estudo do analista Andrés Cañizalez, que apontou um padrão comum de perseguição a órgãos de comunicação na América Latina. Segundo Cañizalez, esse padrão é formado por quatro fatores: valorização direta da comunicação do Poder Executivo com o povo; fortalecimento dos veículos estatais; formação e sistematização de novos marcos regulatórios para a comunicação; e o discurso agressivo dos governantes em relação à mídia.

"Eu chamaria a atenção para um aspecto adicional: o risco de, num país emergente como o Brasil, passarmos a confundir o conceito de progresso com apenas o progresso econômico", declarou Gandour. "Há o risco de a sociedade brasileira se deixar anestesiar pelo progresso econômico e deixar de zelar por todos os demais valores que devem sustentar a democracia. O convívio com o contraditório, a fluidez de ideias de várias formas, várias origens, têm que ser preservados." Segundo ele, o Brasil vive situação de plena de liberdade de imprensa, embora com problemas sensíveis e ameaças periódicas.

O ministro Carlos Ayres Britto, homenageado por ter relatado no STF a ação que resultou no fim da Lei de Imprensa imposta pela ditadura, atribuiu as decisões de primeira instância vetando reportagens a uma certa "perplexidade" de juízes com mudanças recentes.

"Estamos passando de uma cultura restritiva da liberdade de imprensa para uma cultura de plenitude da liberdade de imprensa. Então há um certo negaceio, uma certa perplexidade. É como está no livro de Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser. De repente, o que pesa sobre os nossos ombros não são as dificuldades de vida, e sim as facilidades da vida. Estamos hoje em pleno gozo da liberdade de imprensa e paradoxalmente nos sentimos mal", afirmou.

Além da Emerj, promoveram o encontro a Associação Nacional dos Jornais (ANJ), a Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). a Associação Nacional dos Editores de Revistas (ANER) e o Forum Permanente do Direito à Informação e de Política de Comunicação Social do Poder Judiciário.

Aliança de Gabeira terá Marina e Serra

DEU EM O GLOBO

Cesar Maia é confirmado na chapa como pré-candidato ao Senado

Cássio Bruno

Em encontro ontem, na sede do PPS no Rio, para formalizar a coligação PV-PPS-DEM-PSDB, os partidos anunciaram que o pré-candidato ao governo fluminense pelo PV, deputado federal Fernando Gabeira, apoiará, no primeiro turno, dois pré-candidatos à Presidência: Marina Silva (PV) e José Serra (PSDB). Os dois participarão juntos, em junho, da convenção da aliança no estado. Foi anunciada ainda a chapa de Gabeira para o Senado, que terá o ex-prefeito Cesar Maia (DEM) e o ex-deputado federal Marcelo Cerqueira (PPS).

- O Serra tem agora um palanque bom, forte, no Rio. A Marina também tem. Nossa coligação está montada. Foi adotada por todos universalmente e vai fazer uma bela campanha para presidente da República. Tanto do Serra, quanto da Marina. O Gabeira não é mais candidato do PV. Ele é candidato da coligação - afirmou Márcio Fortes, um dos coordenadores da campanha de Serra no Rio e provável vice na chapa de Gabeira.

Coordenador da campanha de Marina, o presidente do PV no Rio, vereador Alfredo Sirkis, lembrou da atual situação no Acre:

- Existe uma situação similar no Acre. A Marina apoia a candidatura do (senador) Tião Viana (PT) ao governo. É claro que ele tem todo o interesse de recebê-la (Marina), embora a sua candidata não seja ela. Mas Gabeira vota na Marina.

O lançamento da candidatura de Gabeira deverá ocorrer em 23 de maio. O pré-candidato, no entanto, disse que Serra e Marina só estarão juntos na convenção:

- Os dois (Serra e Marina) estão convidados e estarão presentes. Isso foi conversado aqui (na reunião).

Mesmo com resistência, os partidos confirmaram Cesar Maia para concorrer a uma das duas vagas ao Senado. O PV, que lançou a vereadora Aspásia Camargo como pré-candidata ao Senado, dependerá de uma resposta do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a viabilidade da chapa com mais de dois nomes a senador. O ex-prefeito não foi à reunião.

- Qualquer problema no caminho não comprometerá a coligação - disse Gabeira, referindo-se a uma suposta negativa à consulta do PV para lançar Aspásia.

Participaram ainda do encontro o deputado estadual Luiz Paulo Corrêa da Rocha, o ex-governador Marcello Alencar e a vereadora Lucinha, pelo PSDB, e os deputados federais Solange Amaral e Índio da Costa, pelo DEM. O presidente regional do PSDB, José Camilo Zito, deixou a reunião logo no início.

Gabeira acerta palanque duplo no Rio com Serra e Marina

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Deputado confirma sua candidatura ao governo do Rio e fecha aliança com o ex-prefeito Cesar Maia (DEM) para o Senado

Alfredo Junqueira / RIO

Após seis meses de impasse, o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) confirmou ontem sua candidatura ao governo do Estado do Rio e oficializou a aliança com PSDB, DEM e PPS. O acordo, sacramentado depois de três horas de reunião, também prevê a participação do parlamentar em atos de campanha do candidato tucano à Presidência, José Serra.

Até o encontro de ontem, Gabeira e lideranças do PV do Rio mantinham firme a posição de que só fariam campanha para Marina Silva, nome do partido à sucessão do presidente Lula.

Os compromissos de Serra no Rio seriam acompanhados apenas pelos candidatos a vice e ao Senado da coligação - indicados pelos demais partidos. O pré-candidato do PV ao governo do Rio confirmou que Serra e Marina participarão da convenção que oficializará seu nome, em junho.

"Pretendemos lançar no dia 23, de manhã. Vamos começar a mobilização. Não será ainda com a presença dos candidatos à Presidência porque nós preferimos que eles venham na convenção", explicou Gabeira.

Indicado como candidato a vice na chapa de Gabeira, o ex-deputado federal Márcio Fortes (PSDB) confirmou que o acordo possibilitará a elaboração de uma agenda de pré-campanha de Serra no Rio. Fortes confirmou a presença de Gabeira nos eventos de Serra no Estado.

"O Gabeira anda com ele", disse Fortes. "O Serra tem um palanque. A Marina também tem.

Mas o Serra tem um palanque bom, uma candidatura vitoriosa, que pode ganhar a eleição e não terá limites. Nossa coligação é adotada por todos universalmente e fará uma bela campanha à Presidência da República. Tanto para o Serra quanto para Marina", avaliou o tucano.

Senado. Pivô da crise que se instaurou entre os partidos, o ex-prefeito do Rio Cesar Maia (DEM) teve sua candidatura ao Senado confirmada na reunião de ontem. O PV do Rio resistia em formalizar a aliança tendo ele como representante dos Democratas. Apesar do acordo, os verdes também confirmaram que a vereadora Aspásia Camargo concorrerá ao Senado.

Caso a Justiça Eleitoral se manifeste contrariamente ao lançamento desse tipo de candidatura independente, o partido não criará embaraços para a coligação - de acordo com o presidente da legenda no Rio, Alfredo Sirkis. O outro nome da aliança ao Senado será o advogado Marcelo Cerqueira, do PPS.

"Gabeira já disse que o melhor candidato ao Senado é o Cesar Maia e confirmou que fará campanha para ele", disse a deputada federal Solange Amaral (DEM), representante do partido e do ex-prefeito na reunião.

Apesar do acordo, Gabeira terá de lidar com resistências veladas. O próprio presidente regional do PSDB, o prefeito de Duque de Caxias, José Camilo Zito, saiu da reunião logo no início. Com ar contrariado, confirmou a aliança, mas disse que a prioridade era a eleição de Serra.


Eleitorado

O Rio é terceiro maior o colégio eleitoral do País

14,2 milhões é o número de eleitores do Estado

10% é quanto representa o Rio no eleitorado nacional

Gabeira lança chapa sob fogo amigo

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Apoio a Serra num eventual 2º turno contra Dilma causa incômodo no PV

Anunciado pré-candidato ao governo do RJ com apoio de PSDB, DEM e PPS, verde justifica fala pró-tucano e responde a correligionários

DA SUCURSAL DO RIO
DA REPORTAGEM LOCAL

No dia em que foi anunciado oficialmente como pré-candidato ao governo do Rio de Janeiro, o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) virou alvo de críticas de aliados por declarar apoio a José Serra (PSDB) num eventual segundo turno contra Dilma Rousseff (PT).

Ele disse ao Blog do Noblat que votaria no tucano após apoiar Marina Silva (PV) no primeiro turno. A declaração gerou incômodo entre aliados da senadora. O ex-deputado Luciano Zica classificou a fala como "lamentável".

"Foi uma declaração infeliz. Causa estranheza, porque Gabeira é um cara experiente. Não temos o direito de escorregar agora", disse à Folha. "Não perguntamos ao Gabeira quem ele vai apoiar no segundo turno do Rio. E se a disputa for entre Serra e Marina, ele também vota no Serra?", provocou Zica.

Obrigado a se explicar, Gabeira disse ter respondido a uma pergunta "bem específica": "Faz parte de um acordo meu com ele [Serra]. Eles [PSDB] me apoiam aqui no Rio, e eu apoio a candidatura da Marina. Caso haja um segundo turno em que ela não esteja presente, eu o apoio".

O presidente do PV, José Luiz Penna, tentou contemporizar: "Estamos trabalhando para vencer. Temos que ser generosos com quem escorrega nas cascas de banana".

Segundo Gabeira, Marina e Serra participarão de seu programa de TV. "Vou fazer a campanha da Marina. Eventualmente posso me encontrar com o Serra, dependendo das circunstâncias",disse.

A chapa ao governo do Rio foi confirmada ontem, em aliança com PSDB, DEM e PPS. O ex-deputado tucano Márcio Fortes, tesoureiro de Serra na eleição de 2002, deve ser o vice.

O ex-prefeito Cesar Maia (DEM) tentará ao Senado, e a outra vaga deve ser de Marcelo Cerqueira, do PPS. O PV ainda tenta emplacar a vereadora Aspásia Camargo.

Em entrevista à TV Gazeta, Marina Silva disse ter tido "divergências sérias" com Dilma no governo Lula, mas negou ressentimentos: "Disputávamos de igual para igual".

Mais prática do que discurso:: José Serra e José Roberto Afonso

DEU NO VALOR ECONÔMICO

"Prática ao invés de promessa" foi o título do artigo que assinamos no dia em que foi aprovada a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), o único na mídia nacional e publicado na terceira edição do Valor. Tempos do grande jornalista econômico Celso Pinto, que deu forma ao jornal. Poucos acreditavam que, dez anos depois, estaríamos comemorando o sucesso da LRF como um divisor de águas nas finanças públicas brasileiras e internacionalmente reconhecida por sua abrangência e resultados.

Hoje aproveitamos a oportunidade do décimo aniversário da lei para falar do seu passado e opinar sobre o futuro da responsabilidade fiscal em nosso país. Sobre o presente, não faltarão avaliações positivas diante dos fatos e números incontestáveis, reconhecidos até pelos que votaram contra a lei e depois tentaram derrubá-la na Justiça.

A ideia da LRF surgiu durante a Assembleia Constituinte (1987/1988). Os autores deste artigo atuaram, respectivamente, como relator e assessor técnico da comissão que tratou de orçamento, tributação e finanças. Uma das inovações propostas pelo relator foi prever na Constituição um código de finanças públicas para reunir as normas gerais sobre receitas, gastos, dívida e patrimônio, a fim de lhes dar um fio condutor e garantir sua aplicação aos três níveis de governo. Não fosse o mandamento constitucional, a LRF, numa federação como a nossa, não se aplicaria a Estados e municípios. Este é um grande diferencial da LRF brasileira; em outros países, ela geralmente se restringe ao governo central.

O propósito de induzir um maior e mais sustentado equilíbrio nas contas públicas foi retomado dez anos depois, quando o presidente Fernando Henrique Cardoso enviou ao Congresso um projeto de lei complementar coordenado pelo Ministério do Planejamento e Orçamento, sob comando de Martus Tavares. O projeto abria caminho para uma mudança estrutural destinada a substituir os ajustes fiscais até então baseados em sucessivos "pacotes" tributários de fim de ano e cortes indiscriminados do Orçamento, além das heranças fiscais malditas não raramente deixadas por um governo ao seu sucessor.

Muitos se surpreenderam com a boa acolhida à iniciativa. Afinal, ela ia na contramão da cultura política dominante até então, segundo a qual déficit era problema exclusivo do Executivo e austeridade fiscal, um assunto da "direita" - como se no Brasil o populismo fiscal não fosse patrimônio comum de todo o espectro político, incluído seus extremos. Bons tempos em matéria de seriedade fiscal...

Dentre outras alterações, os parlamentares definiram que a responsabilidade começa na arrecadação de tributos, tratando a renúncia de receita como um gasto, e se preocuparam com os vínculos entre a política fiscal e a monetária e cambial, exigindo prestações de contas periódicas e inovando ao proibir o Banco Central de emitir títulos por conta própria e fora do Orçamento. A propósito, a LRF detalhou o dispositivo constitucional, oriundo do nosso relatório na Constituinte, que proíbe o Banco Central de financiar o Tesouro, já sacramentando em lei (e complementar) o preceito que assegura à autoridade monetária condições de atuar sem pressões diretas do governo.

O enfoque adotado pela LRF em relação ao federalismo também merece destaque pois permitiu que, após mais de um século de República, a federação brasileira atingisse finalmente sua maioridade fiscal. Os três níveis de governo, do federal à menor prefeitura do país, são iguais perante a lei, sujeitos às mesmas normas, limites e condições. A União não pôde mais assumir dívida que foi contraída por um Estado ou um município - agora cada um tem que cuidar muito bem de suas contas, porque somente seus moradores são premiados ou punidos pelos acertos ou erros de seus administradores e legisladores. Lembramos que a LRF foi editada tão logo completada mais uma rodada de renegociação de dívidas de Estados e municípios e assim fez um corte radical na antiga prática que transferia para os moradores do resto do país o ônus da má gestão de um ente federado.

Poucos sabem que o Brasil foi a primeira economia emergente a adotar uma lei desse tipo e, mesmo em relação aos países ricos, é a mais abrangente. Ela define princípios (à moda anglo-saxônica) e fixa limites e regras (à moda dos norte-americanos e latinos). As metas fiscais são móveis, com cláusulas de escape precisas e detalha mecanismos de correção de rota em caso de eventual ultrapassagem dos seus limites. Mesmo privilegiando a prudência, são previstas sanções amplas e duras, tanto institucionais quanto pessoais. Em termos de transparência, não há outro país que divulgue a evolução das contas públicas tão rápida e detalhadamente, ainda mais se tratando de uma federação com milhares de unidades de governo.

Mas é possível avançar ainda mais. Dez anos depois, é natural que a LRF enfrente novos desafios. É urgente completar sua regulamentação. Também cabe aperfeiçoar e ampliar seu alcance.

O governo anterior enviou propostas ao Congresso poucos meses depois de editada a lei e que, até hoje não foram votadas. Falta instalar o conselho de gestão fiscal, concebido como uma instância representativa (com integrantes das diferentes esferas de governo e também poderes) que pode contribuir para padronizar relatórios e interpretações. Ainda perdura a ausência de limites para a dívida federal, consolidada e mobiliária, cuja fixação cabe à resolução do Senado e à lei ordinária, respectivamente, por mandamento constitucional. Só foram estabelecidos limites, e bem rígidos, para Estados e municípios.


A responsabilidade federativa precisa ser plena. O governo federal permaneceu em certa medida à margem da LRF, num falso paraíso, à custa de saltos da carga tributária, enquanto os governos estaduais e municipais apresentaram um desempenho espetacular: elevaram o superávit primário, reduziram a dívida e ainda empreenderam um maior esforço relativo de investimento.
Nada justifica que governadores e prefeitos fiquem expostos aos rigores da lei, caso se endividem em excesso, e o presidente da República passe imune. Também não há por que fugir de divulgar claramente e discutir quanto custam para os cofres públicos as ações na área de crédito e de câmbio. Curiosamente, esses alertas, cada vez mais frequentes, ainda não produziram nenhum efeito prático. Como sempre nesta matéria impera a máxima: austeridade é uma coisa boa... para os outros praticarem.

A responsabilidade orçamentária continua sendo uma frente de batalha aberta. É preciso reformar a lei geral dos orçamentos, que data de 1964. A lei de diretrizes (LDO) e a do plano plurianual (PPA), outras inovações da nossa comissão na Constituinte, nunca foram regulamentadas nacionalmente. A definição da receita nos orçamentos precisa ser mais transparente para evitar a criação de espuma em vez de arrecadação efetiva. A grande maioria das emendas parlamentares traduz pleitos pertinentes de diferentes Estados e municípios, mas precisam ser formuladas com mais rigor técnico e econômico e liberadas sem discricionariedade política. Para garantir a credibilidade da contabilidade pública, é preciso antes de tudo acabar com truques como o cancelamento de empenhos de despesas essenciais no fim do mandato, o que impõe ao governo sucessor um orçamento desequilibrado.


A responsabilidade na gestão pública exige uma nova postura em relação aos gastos, pois o novo cenário macroeconômico não permitirá seguir aumentando indefinidamente a carga tributária.
Os governos, como as famílias, também precisam se guiar pelo princípio de fazer mais com os mesmos recursos. Isto implica fomento aos investimentos em modernização da gestão. Muito que já se avançou no lado da arrecadação (hoje quase todas as declarações de imposto de renda são entregues por meio digital), precisa ser estendido para o lado do gasto.

Os investimentos do setor público devem ser aumentados e remodelados para eliminar os gargalos da infraestrutura que florescem pelo Brasil afora. Caímos num desconfortável paradoxo: comparado a outros países, o Brasil é líder em carga tributária dentre os emergentes, campeão mundial de taxa de juros reais, e penúltimo colocado em matéria de taxa de investimentos governamentais.

Apesar das brechas e arranhões aqui e ali, do que falta completar e dos avanços possíveis, a responsabilidade fiscal virou mais do que uma lei em nosso país. Plantou a semente de uma nova cultura na administração pública. Não por acaso, a LRF made in Brazil é um sucesso admirado e estudado em outros países.

Tão relevante quanto a lei em si foi a mudança de mentalidade que a viabilizou. A LRF continua sendo aprovada pela opinião pública e mídia, e as tentativas de driblá-la têm recebido reprovação nacional. Apesar do vai e vem (agora estamos na fase do "vem"), se firmou no país a consciência da necessidade do equilíbrio macroeconômico. Isso aconteceu em grande parte graças à Lei da Responsabilidade Fiscal. Um pique-pique para ela.

José Serra e José Roberto Afonso são economistas, respectivamente, professor e doutorando da Unicamp

Prendam os suspeitos de sempre:: Luiz Gonzaga Belluzzo

DEU NO VALOR ECONÔMICO

O pacote de 120 bilhões de euros apresentado como a "salvação da Grécia" é apenas o início de seu calvário. As condições do ajustamento impostas ao país mediterrâneo são quase as mesmas já conhecidas dos periféricos abalroados por desastres financeiros e cambiais. A diferença, não desprezível, está na impossibilidade de desvalorização cambial, circunstância que certamente lançará o país num doloroso processo de deflação de salários e preços, queda do PIB, desemprego e revolta social.

Os gregos podem figurar seu destino ao observar as agruras da desditosa Letônia. Enredados num regime de taxa fixa com o euro, os letões foram abençoados por um turbilhão de crédito externo que, nos "bons tempos", alimentou uma eufórica valorização de ativos (surpresa!, sobretudo imobiliária). O país acabou no Irajá da deflação: três anos de queda do PIB (-17,5% em 2009), contração da capacidade produtiva, desemprego de 25% da PEA, com fuga da mão de obra qualificada. As previsões para 2010 apostam em mais do mesmo.

Ainda assim, os porta-vozes do mundo financeiro celebram a experiência "bem sucedida" da Letônia e recomendam os métodos da "desvalorização interna" para a Grécia. A revista The Economist comemorou: "a despeito de uma queda do PIB de 17,5%, a Letônia conseguiu aquilo que parecia impossível: uma desvalorização interna. Isso significa recuperar competitividade, não mediante uma desvalorização da moeda, mas através de duros cortes de salários e do gasto público." Yarkin Cabeci do JPMorgan escreveu no New York Times: "Os investidores internacionais estão agora confiantes na Letônia e apresentam o país como um exemplo para outros que precisam "entregar a mercadoria" na política fiscal". Salvos da bancarrota, os senhores do universo exigem que se cumpra a sentença prolatada pelo Captain Renault, o inspetor de polícia de Casablanca, personagem de Claude Rains no filme protagonizado por Humphey Bogard e Ingrid Bergman: "Prendam os suspeitos de sempre".

Diante dessas e outras, o jornal alemão Berliner Zeitung entrou na contramão do fluxo de crueldades e bateu duro nas hesitações da liderança alemã no encaminhamento de soluções para a tragédia grega. O jornal diz que a crise bancária chegou ao auge no final de 2008. Os governos e seus parlamentos tomaram medidas extraordinárias para conter o colapso do sistema financeiro global. Políticos como Ângela Merkel proclamaram que a política, finalmente, recuperou o poder diante dos mercados desaçaimados e dos malabaristas financeiros.

"Quanta decepção. Agora, no caso da Grécia, o mercado está caçando os políticos que correm como um rebanho de ovelhas assustadas. Os mercados financeiros "não dão bola" para a primazia da política. Muito ao contrário, apostam e ganham contra os esforços desesperados dos políticos para manter as coisas sob controle."

O mundo da finança viveu uma relativa calmaria, nas três décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Há quem sustente que a escassez de episódios críticos deve ser atribuída, em boa medida, à chamada "repressão financeira". Esta incluía a prevalência do crédito bancário sobre a emissão de títulos negociáveis (securities), a separação entre os bancos comerciais e os demais intermediários financeiros, controles quantitativos do crédito, tetos para as taxas de juros e restrições ao livre movimento de capitais.

As políticas anticíclicas da era keynesiana cumpriram o que prometiam ao sustar a recorrência de crises de "desvalorização do capital". Mas, ao garantir o valor da riqueza já existente, as ações de estabilização ex-post ampliaram, sem dúvida, o chamado "risco moral". Os episódios de valorização excessiva e desvalorizações catastróficas dos estoques de riqueza se multiplicaram, mas os Bancos Centrais desprezaram a sucessão de crises financeiras e cambiais, sempre atribuídas à imperícia e imprudência de governos ineptos e gastadores da periferia. Quanto aos financiadores da orgia, bico calado.

O descaso das autoridades com a adoção de medidas prudenciais e a confiança dos mercados nas técnicas de proteção mediante o uso de derivativos levaram à alavancagem abusiva e à recorrência dos processos de inflação de ativos, assim como à ampliação das oportunidades de ganhos patrimoniais mediante fusões e aquisições. As massas de capital financeiro, concentradas sob o comando de grandes investidores institucionais - fundos de pensão, fundos mútuos e fundos de hedge - moveram-se celeremente entre as economias nacionais, na busca de oportunidades de arbitragem ou de ganhos especulativos, sempre envolvendo apostas quanto aos movimentos de preços dos ativos.

A visão convencional supõe que as decisões privadas são "estabilizadoras". As expectativas são racionais e, portanto, os "erros" de avaliação são residuais e absorvidos pela capacidade dos agentes - diante das informações disponíveis- de decidir de acordo com o modelo "correto". Isso quer dizer: conforme as leis universais - válidas em qualquer tempo e lugar - que regem a trajetória de longo prazo da economia de mercado competitiva.

Quem tem um mínimo conhecimento do assunto sabe que, na história da economia mercantil-capitalista, as incessantes transformações nos regimes monetários e financeiros resultam do conflito permanente, entre as "regras" do jogo e a compulsão dos possuidores de riqueza para transgredi-las. Não há, portanto, um "modelo" e muito menos um conjunto de regras de gestão que possam ser tomados como absolutos.

Nos dia de hoje, é impossível ignorar que as inovações financeiras, a liberalização das contas de capital e a desregulamentação dos mercados tornaram inviável a pretensão conservadora de se deixar aos mercados os cuidados da prudência e da disciplina.

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp, escreve mensalmente às terças-feiras.

A crise só acaba quando termina:: Vinicius Torres Freire

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Empréstimo-monstro grego não dá cabo da crise; BCE dá mãozinha a bancos; tumulto grego ainda pode se espalhar

Remendar AS contas de um país pequeno como a Grécia com US$ 145 bilhões, ou R$ 250 bilhões, é impressionante, embora nem isso assente a crise. Mas extravagante mesmo foi o fato menos notado de que o Banco Central Europeu resolveu aceitar os títulos públicos gregos como garantia mesmo que todas as agências de avaliação de risco chamem de "podre" a dívida da Grécia. Parece um assunto estrambótico, relevante apenas para "nerds" financeiros. Mas não é, não.

O Banco Central Europeu insinua é que pode imprimir dinheiro para tapar um rombo grego ou outros.

Do que se trata? Bancos emprestam dinheiro ao governo grego: compram títulos públicos da dívida grega. Usam esses títulos como garantia para o dinheiro que eventualmente tomam no BCE.

Em tese, se todas as agências de risco relevantes dissessem que esses papéis são "podres", o BCE não poderia aceitá-los como garantia. Teria de pedir mais garantias ou dinheiro aos bancos. Isso é problema. Reduz o capital dos bancos. Coloca-os sob suspeita. Etc.

Se a Grécia dá calote, os primeiros caloteados são bancos que compraram títulos, decerto.

Mas tais títulos estão no BCE. Se o BCE aceita papéis gregos "podres", pode ficar com a conta. Basta o BCE não exigir que os bancos privados fiquem com o mico, o que o BCE pode ter de fazer a fim de evitar "problemas sistêmicos". Isso é um cenário limite, de monetização da dívida grega. Mas, após a crise de 2008/9, essas probabilidades parecem menos remotas.

De imediato, o que o BCE está fazendo é evitar que os bancos gregos acabem no vinagre. Os bancos gregos são os principais detentores de títulos gregos. Se esses títulos não servirem para nada, como garantias para operações compromissadas com o BCE, podem ter "crise de liquidez". E até quebrar.

Enfim, a Europa faz gato e sapato de suas normas financeiras a fim de evitar o calote grego.

Que pode vir mesmo com a dinheirama ofertada.

A fim de receber o dinheiro, a Grécia terá de produzir recessão e crise social. Se conseguir cortar na carne econômica, pode não resistir politicamente. O tumulto social pode derrubar o governo. E o acordo financeiro com o FMI e a UE.

Os governos português e, em menor medida, espanhol já estão sendo discretamente instados a arrochar suas contas. Vão aguentar politicamente? A Espanha já tem 20% de desemprego. E se os mercados decidirem que pode ser uma boa ideia especular com a baixa dos papéis ibéricos? Isto é, demandando juros mais altos desses governos a fim de rolar as dívidas deles.

A crise da dívida europeia não acabou. Seu destino, em parte, vai ser decidido no conflito político e social grego. Por ora, apenas sindicatos de servidores estão em combate. Com a continuidade da recessão, mais gente pode entrar na liça. Se o governo e o acordo gregos caírem, vai haver confusão além das ruas gregas.

Os investidores, gente com dinheiro grosso, "os mercados", podem começar a pedir juros estratosféricos para financiar a dívida portuguesa. E daí? Portugal vai cortar ainda mais gastos para honrar o serviço da dívida? O quanto vai aguentar?

Vai pedir água? Se pedir, como a União Europeia negaria ajuda?

Riscos cruzados:: Miriam Leitão

DEU EM O GLOBO

O maior perigo da Europa é a exposição cruzada de riscos. O maior carregador da dívida grega são os bancos europeus. Aliás, os bancos das maiores economias, Alemanha e França, são exatamente os que mais emprestaram aos países que hoje estão em risco. E até os que estão em dificuldade também devem uns aos outros. O pacote de resgate não é o fim da crise da zona do euro.

Quando a Alemanha e a França emprestam para a Grécia, estão na verdade ajudando seus próprios bancos.

O mundo está vendo o início de um segundo salvamento de bancos em dois anos. Se a Grécia decreta moratória, os bancos da Europa estariam em grande dificuldade. A situação é tão intrincada que a Espanha, que é um dos paísesalvo dessa crise, está sendo forçada a participar do rateio emprestando C 9,8 bilhões para a Grécia, quando a própria Espanha não sabe como vai pagar seus empréstimos de curto prazo. No país, há uma reação contrária ao empréstimo, até porque os espanhóis vivem os rigores de um avassalador desemprego.

Para piorar: os países em crise têm dívida cruzada: a Espanha é grande credora da dívida de Portugal, que é o segundo país da lista dos encrencados.

Por isso é que a economista Monica Baumgarten de Bolle, da Galanto Consultoria, acha que a notícia mais tranquilizadora do fim de semana não foi nem o pacote em si, mas uma decisão do Banco Central Europeu (BCE): — O BCE decidiu aceitar como colateral para empréstimos bancários os títulos da dívida grega. A regra era não aceitar papéis de países que não têm grau de investimento.

A Grécia acabou de ser rebaixada e portanto os bancos que têm títulos da dívida grega não poderiam, nos empréstimos juntos ao BCE, usar os títulos gregos.

No gráfico abaixo, note a confusão. De um lado, estão os bancos dos grandes países (Alemanha, França, Inglaterra, Estados Unidos, Holanda) e o quanto eles emprestaram para os países em crise. No outro lado, estão os países com maiores dificuldades financeiras no momento (Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda) e o tamanho total da dívida deles só com os bancos dos grandes países. Os empréstimos dos bancos da Alemanha e da França são mais concentrados em Espanha e Irlanda. Há tanta confusão que nem cabe num gráfico.

É só para dar uma pálida ideia dos riscos cruzados. Se a Grécia não for salva, derruba Portugal, que derruba a Espanha, que derruba todos porque apenas com esses países do gráfico ela tem uma dívida de US$ 781 bilhões. E a Itália, que tem uma dívida maior ainda, também tem credores por toda a Europa.

O pacote ajuda a Grécia a continuar honrando seus pagamentos, mas não afasta a sombra de o país ter que fazer uma reestruturação de dívida, chamando os bancos para dar mais prazo e descontos.

Isso levará os bancos europeus a terem perdas.

E essas perdas acabarão sendo cobertas pelos próprios governos.

— Se a Grécia chamar uma reestruturação no futuro, isso pode provocar uma nova onda de insegurança dos credores em relação aos outros países — disse Monica.

O grande problema está nas contas do governo grego, que em 2009 teve déficit de 14% do PIB. Trazer essa taxa para a casa dos 3% em 2014 é uma tarefa praticamente impossível para um país em recessão.

O governo estima que o PIB cairá 4% este ano, mas há previsões piores, como a do Morgan Stanley, que prevê um mergulho de 5%. A pior contração da Grécia aconteceu em 1983, quando o PIB caiu 2,3%. Com isso, a dívida grega, que hoje está em 115% do PIB, chegará a 140%, antes de começar a cair.

“Claramente, não se pode ter uma estabilização da dívida em um ano ou em um curto período. O risco de longo prazo permanece”, afirma o Morgan Stanley.

O economista Sérgio Vale, da MB Associados, acredita que essa crise tem potencial para trazer de volta o pânico no sistema financeiro.

“O problema de um default grego é que imediatamente outros países teriam suas avaliações de risco elevadas.

O contágio pode ser muito maior do que em crises no passado, como a asiática ou a russa, pois trata-se de uma mesma moeda que interliga o sistema financeiro europeu e uma série de países potencialmente em crise”, disse.

É preciso ainda combinar com os gregos, os alemães, os franceses, os espanhóis e todos os outros. A União era aceita quanto tudo estava dando certo. Agora, tudo está dando errado. É o grande teste do euro.

O socorro deixa dúvidas:: Celso Ming

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O pacote de socorro à Grécia ficou em US$ 146 bilhões, em três anos, quase quatro vezes maior do que inicialmente calculado. Mas as dúvidas que ficaram são tantas que em vez do alívio desejado continua trazendo apreensão.

Prova disso é que, depois do anúncio oficial, os preços do euro continuaram ladeira abaixo (veja gráfico). Só ontem perdeu 0,76% em relação ao dólar, a menor cotação em mais de um ano.

A primeira dúvida: o povo grego aguenta o tranco que vem aí? Redução de salários e aposentadorias, aumento de impostos, recessão e provavelmente dolorosas reformas internas. Ou é isso aí ou é a catástrofe, como ousou anunciar o primeiro-ministro da Grécia, George Papandreou. Além disso, haverá notória perda de soberania. O FMI e os demais países da área do euro passarão a determinar o que o governo grego pode ou não pode fazer.

Dúvida número 2: trata-se, em grande parte, de solução do problema grego com aumento do problema dos vizinhos. Um bom número de países da área terá de aumentar sua dívida no mercado para dar cobertura ao rombo de Atenas. Em boa medida, é o roto cuidando do rasgado. Imagine-se Portugal, Irlanda, Itália e Espanha, que notoriamente não vão bem das pernas, tendo que buscar recursos nos bancos para socorrer a Grécia que já não consegue crédito bancário.

Outra dúvida consiste em saber como será neutralizado o chamado risco moral. Fica definido que, em última análise, administrar irresponsavelmente as finanças públicas não é tão grave porque o socorro sempre acabará chegando. Quando um sócio deixa a austeridade pra lá, são tantos os problemas que atingem a moeda comum que o mais barato continua sendo socorrer quem pintou e bordou. A União Europeia terá de ver se, com resgates assim, não está desestimulando a desejada austeridade e a vida espartana.

Haverá para todos? Se a Grécia, que é um nanico econômico dentro da área do euro (detém apenas 2,6% do PIB do bloco), está precisando de US$ 146 bilhões, de quanto não precisarão Irlanda, Espanha e Itália, se também vierem a ter de passar o chapéu?

Finalmente, a questão de fundo. Ficou claro que o euro tem pés de barro e precisa de sustentação para não desmoronar. Falta uma autoridade central com mandato para garantir unidade fiscal, de maneira a impedir administrações irresponsáveis das finanças públicas em cada país.

O retorno às moedas nacionais é impraticável. Elas voltariam fortemente desvalorizadas, o que, por si só, implicaria aumento do endividamento e a impossibilidade de contar com socorro dos demais países do euro. E, enquanto essa fragilidade não for superada, não há como pensar em fazer do euro uma moeda internacional de reserva de valor.

Isso parece anunciar que não há volta à situação anterior. No entanto, o euro está exigindo alguma forma de união política, que uniformize as políticas macroeconômicas e imponha o cumprimento das regras do jogo entre os membros da área. Mas, afinal, qual seria o preço?

Obviamente seria perda ainda maior de soberania. Mas, a rigor, não é o que está acontecendo agora? Não está a Grécia perdendo soberania por não ter cumprido regras primárias do jogo e mantido a disciplina fiscal?

CONFIRA

Encolheu

Este é o mais baixo saldo comercial em 1º trimestre desde 2002. No período, as exportações cresceram 25,0% e as importações, 41,8%. São números consistentes com o aumento do consumo interno (de 10% ao ano).

Manufaturados

Os manufaturados vêm perdendo participação nas exportações. No 1º trimestre de 2009 eram de 45,0% e, neste ano, de 42,5%. Três são as causas: redução da demanda externa; redução do excedente exportável por causa do maior consumo interno; e a queda do dólar.

O QUE PENSA A MÍDIA

EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
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Verdi: Requiem, - Orquestra de Moscou

Pedro Ivo:: Castro Alves



Sonhava nesta geração bastarda
Glórias e liberdade!
....................................................


Era um leão sangrento, que rugia,
Da glória nos clarins se embriagava,
E vossa gente pálida recuava,
Quando ele aparecia.

ÁLVARES DE AZEVEDO



I

Rebramaram os ventos... Da negra tormenta
Nos montes de nuvens galopa o corcel...
Relincha — troveja... galgando no espaço
Mil raios desperta co'as patas revê

.É noite de horrores... nas grunas celestes,
Nas naves etéreas o vento gemeu...
E os astros fugiram, qual bando de garças
Das águas revoltas do lago do céu.

E a terra é medonha... As árvores nuas
Espectros semelham fincados de pé,
Com os braços de múmias, que os ventos retorcem,
Tremendo a esse grito, que estranho lhes é.

Desperta o infinito... Co'a boca entreaberta
Respira a borrasca do largo pulmão.
Ao longe o oceano sacode as espáduas
— Encélado novo calcado no chão.

É noite de horrores... Por ínvio caminho
Um vulto sombrio sozinho passou,
Co'a noite no peito, co'a noite no busto
Subiu pelo monte, — nas cimas parou.

Cabelos esparsos ao sopro dos ventos,
Olhar desvairado, sinistro, fatal,
Diríeis estátua roçando nas nuvens,
P'ra qual a montanha se fez pedestal.

Rugia a procela — nem ele escutava!...
Mil raios choviam — nem ele os fitou!
Com a destra apontando bem longe a cidade,
Após largo tempo sombrio falou!...

..........................................................................

II

Dorme, cidade maldita,
Teu sono de escravidão!...
Dorme, vestal da pureza,
Sobre os coxins do Sultão!...
Dorme, filha da Geórgia,
Prostituta em negra orgia
Sê hoje Lucrécia Bórgia
Da desonra no balcão!...

Dormir?!... Não! Que a infame grita
Lá se alevanta fatal...
Corre o champagne e a desonra
Na orgia descomunal...
Na fronte já tens um laço...
Cadeias de ouro no braço,
De pérolas um baraço,
— Adornos da saturnal!

Louca!... Nem sabes que as luzes,
Que acendeu p'ra as saturnais,
São do enterro de seus brios
Tristes círios funerais...
Que o seu grito de alegria
É o estertor da agonia,
A que responde a ironia
Do riso de Satanás!...

Morreste... E ao teu saimento
Dobra a procela no céu.
E os astros — olhar dos mortos —
A mão da noite escondeu.
Vê!... Do raio mostra a lampa
Mão de espectro, que destampa
Com dedos de ossos a campa,
Onde a glória adormeceu.

E erguem-se as lápides frias,
Saltam bradando os heróis:
"Quem ousa da eternidade
Roubar-nos o sono a nós?"
Responde o espectro: "A desgraça!
Que a realeza, que passa,
Com o sangue de vossa raça,
Cospe lodo sobre vós!..."

Fugi, fantasmas augustos!
Caveiras que coram mais
Do que essas faces vermelhas
Dos infames pariás!...
Fugi do solo maldito...
Embuçai-vos no infinito!
E eu por detrás do granito
Dos montes ocidentais...

Eu também fujo... Eu fugindo!...
Mentira desses vilões!...
Não foge a nuvem trevosa
Quando em asas de tufões,
Sobe dos céus à esplanada,
Para tomar emprestada
De raios uma outra espada,
À luz das constelações!...

Como o tigre na caverna
Afia as garras no chão,
Como em Elba amola a espada
Nas pedras — Napoleão,
Tal eu — vaga encapelada,
Recuo de uma passada,
P'ra levar de derribada
Rochedos, reis, multidões... !

III

"Pernambuco! Um dia eu vi-te
Dormido imenso ao luar,
Com os olhos quase cerrados,
Com os lábios — quase a falar
Do braço o clarim suspenso,
— O punho no sabre extenso
De pedra — recife imenso,
Que rasga o peito do mar...

E eu disse: Silêncio, ventos!
Cala a boca, furacão!
No sonho daquele sono
Perpassa a Revolução!
Este olhar que não se move
"Stá fito em — Oitenta e Nove —
Lê Homero — escuta Jove...
— Robespierre — Dantão.

Naquele crânio entra em ondas
O verbo de Mirabeau...
Pernambuco sonha a escada
Que também sonhou Jacó;
Cisma a República alçada,
E pega os copos da espada,
Enquanto em su'alma brada:
"Somos irmãos, Vergniaud."

Então repeti ao povo:
— Desperta do sono teu!
Sansão — derroca as colunas!
Quebra os ferros — Prometeu!
Vesúvio curvo — não pares,
lgnea coma solta aos ares,
Em lavas inunda os mares,
Mergulha o gládio no céu.

República!... Vôo ousado
Do homem feito condor!
Raio de aurora inda oculta
Que beija a fronte ao Tabor!
Deus! Por qu'enquanto que o monte
Bebe a luz desse horizonte,
Deixas vagar tanta fronte,
No vale envolto em negror?!..
.Inda me lembro... Era, há pouco,
A luta! Horror!... Confusão!...
A morte voa rugindo
Da garganta do canhão!...
O bravo a fileira cerra!...
Em sangue ensopa-se a terra!...
E o fumo — o corvo da guerra —
Com as asas cobre a amplidão...

Cheguei!... Como nuvens tontas,
Ao bater no monte — além,
Topam, rasgam-se, recuam...
Tais a meus pés vi também
Hostes mil na luta inglória...
...Da pirâmide da glória
São degraus... Marcha a vitória,

Porque este braço a sustém.

Foi uma luta de bravos,
Como a luta do jaguar,
De sangue enrubesce a terra,
— De fogo enrubesce o ar!...
... Oh!... mas quem faz que eu não vença?
— O acaso... — avalanche imensa,
Da mão do Eterno suspensa,
Que a idéia esmaga ao tombar!...

Não importa! A liberdade
É como a hidra, o Anteu.
Se no chão rola sem forças,
Mais forte do chão se ergueu...
São os seus ossos sangrentos
Gládios terríveis, sedentos...
E da cinza solta aos ventos
Mais um Graco apareceu!...
.....................................................

Dorme, cidade maldita!
Teu sono de escravidão!
Porém no vasto sacrário
Do templo do coração,
Ateia o lume das lampas,
Talvez que um dia dos pampas
Eu surgindo quebre as campas
Onde te colam no chão.

Adeus! Vou por ti maldito
Vagar nos ermos pauis.
Tu ficas morta, na sombra,
Sem vida, sem fé, sem luz!...
Mas quando o povo acordado
Te erguer do tredo valado,
Virá livre, grande, ousado,
De pranto banhar-me a cruz!... "

IV

Assim falara o vulto errante e negro,
Como a estátua sombria do revés,
Uiva o tufão nas dobras de seu manto,
Como um cão do senhor ulula aos pés...
Inda um momento esteve solitário
Da tempestade semelhante ao deus,
Trocando frases com os trovões no espaço
Raios com os astros nos sombrios céus...

Depois sumiu-se dentre as brumas densas
Da negra noite — de su'alma irmã...
E longe... longe... no horizonte imenso
Ressonava a cidade cortesã!...

Vai!... Do sertão esperam-te as Termópilas
A liberdade ainda pulula ali...
Lá não vão vermes perseguir as águias
,Não vão escravos perseguir a ti!

Vai!... Que o teu manto de mil balas roto
É uma bandeira, que não tem rival.
— Desse suor é que Deus faz os astros...
Tens uma espada, que não foi punhal.

Vai, tu que vestes do bandido as roupas,
Mas não te cobres de uma vil libré
Se te renega teu país ingrato
O mundo, a glória tua pátria é!...
....................................................................

E foi-se... E inda hoje nas horas errantes,
Que os cedros farfalham, que ruge o tufão,
E os lábios da noite murmuram nas selvas
E a onça vagueia no vasto sertão.

Se passa o tropeiro nas ermas devesas,
Caminha medroso, figura-lhe ouvir
O infrene galope d'Espectra soberbo,
Com um grito de glória na boca a rugir.

Que importa se o túm'lo ninguém lhe conhece?
Nem tem epitáfio, nem leito, nem cruz?...
Seu túmulo é o peito do vasto universo,
Do espaço — por cúpula — as conchas azuis! ...

... Mas contam que um dia rolara o oceano
Seu corpo na praia, que a vida lhe deu...
Enquanto que a glória rolava sua alma
Nas margens da história, na areia do céu!...


(Do livro Espumas Flutuantes)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Reflexão do dia - Fernando Henrique Cardoso

Infelizmente, nem em todas as áreas é assim. Sob pretexto de combater o neoliberalismo, joga-se no mesmo balaio toda política que não seja de idolatria ao "capitalismo de Estado", como se essa fosse a melhor maneira de servir ao interesse nacional e popular. Tal atitude revela um horror à forma liberal de capitalismo e à competição. Prefere-se substituir as empresas por repartições públicas e manter por trás delas um partido. No lugar do empresário ou da empresa a quem se poderia responsabilizar por seus atos e erros, coloca-se a burocracia como agente principal do desenvolvimento econômico, tendo o Estado como escudo. Supõe-se que Estado e povo, partido e povo, ou mesmo burocracia e povo têm interesses coincidentes. Outra coisa não faziam os partidos totalitários na Europa, os populistas na América Latina e as ditaduras militares.


(Fernando Henrique Cardoso, no artigo,
Construir sem demagogia , publicado, ontem, em vários jornais)

Direito, democracia e república:: Luiz Werneck Vianna

DEU NO VALOR ECONÔMICO

A presença do Direito e de suas instituições na vida social e política contemporânea consiste em uma marca que, independente de juízo de valor quanto ao fato, se impõe ao observador. A bibliografia sobre o assunto é abundante e não para de crescer, girando, em boa parte, em torno da controversa questão que trata da chamada judicialização da política e das relações sociais. No Brasil, quando da sua recente despedida da presidência do Supremo Tribunal Federal, o juiz Gilmar Mendes, apresentando, em tom alarmado, estatísticas sobre a expansão da litigação no país - hoje, em torno de 80 milhões de ações em andamento - avançou o diagnóstico de que "a sociedade brasileira se tornou dependente do Judiciário". A ressalva a ser feita é a de que tal fenômeno não nos é singular, pois afeta, em maior ou menor medida, as sociedades ocidentais desenvolvidas. Antoine Garapon, reputado especialista francês no assunto, fixou em termos lapidares a natureza desse processo ao escrever que o Judiciário se teria tornado um moderno muro das lamentações.

A avaliação crítica desse fato, deplorado por uns como um sintoma de patologia da política contemporânea, visto como um sinal de vitalidade da democracia por outros, tem, no entanto, um registro comum: a invasão da vida social pelo Direito seria uma resposta ao esvaziamento da república, dos seus ideais e instituições, muito especialmente a partir dos anos 1970, quando a emergência triunfante do neoliberalismo, com suas concepções de um mercado autorregulado, importou o derruimento da arquitetura do Estado de Bem-Estar Social.

Esse tipo de Estado - não importam, aqui, considerações sobre o seu anacronismo na realidade de hoje -, em razão da sua forma específica, estava sustentado na organização política e sindical das diferentes partes da sociedade, cada qual identificada com seus interesses e projetos de uma vida boa, tal como expressos em seus partidos e sindicatos. O parlamento era uma de suas arenas, e, outra, não menos relevante, a das suas corporações e das disputas entre elas realizadas no interior do Estado e sob sua arbitragem, daí devendo resultar um "capitalismo organizado" orientado para o bem comum. Nesse sentido, o "Welfare State" foi republicano e se assentou sobre as suas principais instituições.

A imposição do neoliberalismo provocou a diluição das formas de solidariedade social que, de algum modo, o "Welfare" induzia, levando a uma intensa fragmentação da vida social, à desregulamentação de direitos, ao esvaziamento de partidos e sindicatos, que, ao lado de outros processos societais relevantes, foram fatores decisivos para que o Judiciário viesse a se converter em um novo lugar não só para a defesa de direitos, como também para sua aquisição.

O próprio legislador, consciente do quanto a sociedade se tinha tornado vulnerável diante do Estado e das empresas, vai fortalecer esse movimento a fim de lhe fornecer recursos de defesa, dando partida, assim, ao que se denominou a revolução processual do Direito, cujo marco mais representativo foi a criação da ação civil pública e, mais à frente, a institucionalização de códigos do consumidor, passando a admitir ações por parte de entes coletivos. No caso, uma das intenções implícitas do legislador foi a de tentar reanimar a vida republicana em cenários alternativos aos da representação política. Nesse novo registro, a república passa a ser tensionada por pressões de sentido democratizador que visam a conquista de novos direitos - o da infância, o da mulher, o do deficiente físico, o da cidade, o do ambiente, etc -, que são postos sob a tutela do poder judicial.

O caso brasileiro se alinha a essas tendências que mantêm sob tensão as relações entre república e democracia, mas certamente é singular. Em primeiro lugar, porque a república, aqui, nasce sem participação popular, filha que é da elite oligárquica de senhores de terras, refratária, ao longo de três décadas à incorporação dos seres sociais que emergiam do mundo urbano-industrial. A incorporação deles começa com a Revolução de 1930, quando se cria um sistema de direitos sociais em favor dos assalariados urbanos - não extensivo aos trabalhadores do campo -, mas que, em contrapartida, suprime a autonomia das suas associações e as põe sob tutela estatal .

Vale dizer, a república se "amplia", mas não se democratiza, persistindo como assunto de poucos.

A democratização da vida social é fato recente entre nós, e segue seu curso de modo cada vez mais intenso. Contudo, o problema agora se inverte: se temos democracia, estamos longe da república. Não há república sem vida ativa da cidadania na esfera de uma livre sociedade civil, protegida das políticas de cooptação do Estado e do poder do dinheiro. O constituinte de 1988 foi um bom intérprete da nossa realidade político-social ao dotar a sociedade de meios, inclusive judiciais, para a defesa da sua república, entre os quais o ministério público e a justiça eleitoral. O legislador não menos, quando criou a lei de Responsabilidade Fiscal.

A democracia de massas não pode abdicar da república, uma vez que, sem ela, é presa fácil para intervenções messiânicas, quando a decisão de um pode se justificar em nome do interesse geral de que ele seria o intérprete privilegiado. As eleições que se avizinham, mais uma vez, vão confrontar programas dos candidatos em torno de questões substantivas de relevância indiscutível, como educação, saúde, emprego e renda, mas a eles não pode faltar mais, como nas eleições anteriores, o tema da república e da auto-organização da cidadania. Já são décadas de modernização, chegou a hora do moderno.

Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador do Iuperj. Escreve às segundas-feiras.

Protesto e festa no 1º de Maio:: Fernando de Barros e Silva

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - Houve muito protesto e pancadaria no 1º de Maio grego. Manifestantes e policiais se enfrentaram em batalhas campais em Atenas, a capital, e em Tessalônica, norte do país. Jovens apedrejaram bancos e lojas. Carros e caixas eletrônicos foram destruídos. A polícia reagiu com bombas e gás lacrimogêneo. Baixou o cassetete nos descendentes de Sócrates.

As imagens exibidas pela TV eram fortes, mas a Grécia, que vive à beira de um colapso econômico, esteve longe de ser um caso isolado de insatisfação. Na Espanha, onde a taxa de desemprego superou os 20%, milhares de pessoas protestaram contra as políticas do governo.

Na França, os sindicatos ocuparam as ruas para fazer barulho contra a reforma do sistema previdenciário. Na Alemanha, a polícia teve que usar a força e prender muita gente para evitar cenas já tradicionais de confronto entre manifestantes de esquerda e neonazistas.

Houve protestos em Portugal, na Áustria, na Suíça. O Dia do Trabalhador na Europa foi marcado pela reação aos efeitos da crise econômica. Apesar de tudo, ainda são sociedades organizadas. Em geral, o governo está de um lado e os manifestantes estão do outro.

O contraste com o Brasil não poderia ser maior. Aqui, a festa das centrais sindicais, todas a favor do governo, contou com o apoio financeiro de empresas estatais. Não houve protestos.

Foi só alegria.

Quem desafia a lei no 1º de Maio brasileiro é o presidente da República. A oposição esperneia, mas no fundo ninguém liga. A infração cordial da norma é a nossa verdadeira ordem. E o que atraí a multidão aos palcos do peleguismo não é a pregação político-eleitoral, mas o ambiente de auditório. A massa vibra com o sorteio de carros e se esbalda ouvindo KLB, Lincon & Luan...

Com seu carisma, pulando de evento em evento, Lula parece ser uma espécie de Getúlio pós-moderno. Brinca de inflamar as plateias, mas no fundo celebra a comunhão nacional de um país cujos conflitos só ele sabe anestesiar.

Pobre Dilma!:: Ricardo Noblat

DEU EM O GLOBO

"Não vou atacar Lula. Não ataquei nem quando ele não tinha toda essa popularidade"

(José Serra , o lulista número um )

Dilma Rousseff apanhou feio ao visitar Minas Gerais e acenar com a possibilidade de os eleitores ali votarem nela para presidente da República e em Antônio Anastasia, o vice de Aécio Neves (PSDB) que assumiu o governo do Estado e é candidato à reeleição. A seu modo meio sem graça sugeriu o voto “Dilmásia”, que mais parece nome de remédio.

Alto lá, esperneou o senador Hélio Costa, aspirante a candidato do PMDB à sucessão de Aécio, que conta com o apoio do PT para ganhar. A ser assim, ele não se importaria com o voto do PMDB mineiro em seu nome e no nome de Serra. A suposta derrapada de Dilma produziu um barulho danado. Que coisa feia! E logo onde o PT aposta na falta de entusiasmo do PSDB pela candidatura de Serra.

Curioso. Anastasia não foi sequer censurado ao dizer outro dia “que não haverá retaliação” contra prefeitos aliados do PSDB que preferirem apoiar Dilma a José Serra. Justificou-se: “Veja bem, a política em Minas Gerais é uma política feita sempre com base no entendimento e no convencimento com as ideias”. Sei como é... Minas é diferente de outros Estados. Sei...

Dilma ainda representará uma perspectiva de poder por mais que se torne favorita tão logo Lula ponha a cara na TV e peça votos para ela. Anastasia, não. Está no poder há quase oito anos. Jamais foi um vice decorativo. Se ela errou do ponto de vista dos que zelam pela pureza da política, convenhamos: ele errou tanto ou mais. E não apanhou por causa isso.

Na vida real os dois não erraram. Por acaso Aécio recusou o apoio dos mineiros que votaram duas vezes nele para governador e duas vezes em Lula? Serra recusará o apoio dos cearenses que pretendam votar nele e no governador Cid Gomes (PSB), candidato à reeleição e aliado de Dilma? Voto não tem cheiro. E coerência na política é um produto escasso em jovens democracias.

Ganha eleição quem erra menos. Dilma está em fase de intenso treinamento. Sente falta do padrinho ao seu lado. E da bem azeitada estrutura do Palácio do Planalto que a amparava nos apertos. Sua equipe de campanha mal foi montada – ou foi montada mal. Há muito bate-cabeça, fora a luta surda para ver quem influencia mais a candidata. Isso passa, gente! Ou piora.

O período mais difícil para os pré-candidatos é mesmo esse que se arrasta entre a data de uma eventual renúncia a cargo executivo e o início da campanha no rádio e na televisão em meados de agosto. De fato, eles não têm muito que fazer por enquanto – salvo a montagem de palanques e a produção de fatos capazes de alimentar o apetite dos jornalistas. E é aqui, na maioria das vezes, que mora o perigo.

Foi infeliz o uso de uma foto da atriz Norma Bengell no meio de uma galeria de fotos de Dilma. Pior: ao invés de se desculparem pelo erro, seus responsáveis o atribuíram à visão equivocada das pessoas. Quer dizer: não foram eles que erraram ao engendrar uma farsa boba. Fomos nós ao detectar o que deveria ter passado despercebido. O episódio “Dilma Bengell” acabou virando piada.

Todas as mancadas da candidata e de sua equipe serão relegadas a um passado distante quando Lula entrar em campo. Serra leva a vantagem de ter disputado várias eleições. Essa é a primeira de Dilma. Lula perdeu três eleições presidenciais para conseguir vencer a quarta. A primeira para ele mesmo. A segunda e a terceira para o Plano Real, que manietou a inflação. A propósito: segura, peão, do contrário ela volta!

Entre outras razões, Lula está tentando impor Dilma ao País para sentir o gostinho de na prática disputar sua quinta eleição. É fissurado em eleição. De 1950 para cá somente um presidente fez seu sucessor – o general Ernesto Geisel, que ungiu o general João Figueiredo, aquele do “prendo e arrebento”. Não prendeu os colegas contrários à abertura política. Saiu do Palácio do Planalto pelas portas do fundo. Um desastrado! Vença quem vencer não há desastre à vista.

PAULINHO DA VIOLA - Argumento ( ao vivo)

Serra e Aécio convocam jovens

DEU NO ZERO HORA

Tendo como mote o término do prazo para que novos eleitores se cadastrem e possam votar em outubro, o PSDB lançou a campanha “Vota 16!”, voltada para os jovens.

No canal “amigosdoserra” no portal YouTube, foram postados três vídeos, um com José Serra, pré-candidato do partido à Presidência, outro com Aécio Neves, ex-governador de Minas, e um terceiro em que as falas dos dois foram juntadas.

Para quem tem 16 e 17 anos, o voto é facultativo.

Jarbas antecipa anúncio de decisão para a quinta

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Senador deve antecipar em um dia o anúncio se aceita ou não ser candidato ao governo do Estado para evitar a “concorrência” com o presidente Lula, que na sexta-feira participará de evento em Suape

O fim do mistério em torno da disposição do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB) em disputar pela quarta vez o governo do Estado tende a ser antecipado em um dia. O peemedebista havia remarcado a data para a próxima sexta-feira (7), mas para que não coincida com a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Pernambuco para o lançamento do primeiro navio ao mar pelo Estaleiro Atlântico Sul, no Porto de Suape, planeja agora fazer o anúncio na quinta-feira (6).
A antecipação em um dia pode parecer pouco, mas para os oposicionistas no Estado, principalmente os pré-candidatos, serão 24 horas a menos de angústia e curiosidade.

O senador viaja hoje para Brasília e retorna na quarta-feira, dia da final do Campeonato Pernambucano entre Sport e Náutico. Rubro-negro, ele vai assistir ao jogo na Ilha do Retiro. Por isso, pessoas próximas ao senador que admitem a possibilidade de antecedência apontam a quinta-feira como o dia mais provável. “Quanto mais cedo, melhor. Já que chegamos a esse nível de indefinição, todos aprovariam que a decisão fosse antecipada”, disse um parlamentar da oposição, em reserva, que prefere não opinar se o senador será ou não candidato. “Não faço a mínima ideia. O que sei é que ele não comentou nem com as pessoas mais próximas”.

Para os oposicionistas, as declarações mais recentes do senador Sérgio Guerra (PSDB) – outro que vive um dilema sobre ser candidato à reeleição numa disputa acirrada ou garantir uma cadeira na Câmara dos Deputados com mais facilidade – apontam para um Jarbas candidato.
“Jarbas decidiu ajudar José Serra (à Presidência da República) e está sinceramente empenhado nisso, de forma real e concreta”, disse o tucano ao jornal O Estado de S.Paulo, no sábado (1º). De acordo com a reportagem, o peemedebista teria sido convencido a concorrer ao ouvir de Serra, num encontro no dia 20 de abril, que sua candidatura era “fundamental” para o projeto de derrotar a petista Dilma Roussef.

Guerra vem sendo pressionado a concorrer ao Senado, sob pena de fragilizar ainda mais a oposição. Para evitar tal avaliação, demonstrou sintonia com Jarbas. “Combinei com Jarbas que não tomaria nenhuma decisão que não fosse nossa, minha e dele (...) Muitas questões precisam ser resolvidas e ambos estamos dispostos a encarar essas questões”, disse, na mesma matéria.
Nos bastidores, uma das exigências do peemedebista para enfrentar o governador Eduardo Campos (PSB) é a presença de Guerra e do senador Marco Maciel (DEM) completando a chapa majoritária.

Serra e Dilma são esperados em encontro de ruralistas em Uberaba

DEU EM O GLOBO

Abertura de evento deve se transformar em ato contra os sem terra

Jailton de Carvalho

UBERABA (MG). Os pré-candidatos à Presidência da República José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) vão fazer hoje um teste de popularidade entre grandes criadores de gado, um dos segmentos mais organizados do eleitorado nacional. Os dois devem participar da abertura da 76ª ExpoZebu, em Uberaba, uma das principais passarelas do mundo rural brasileiro.

O presidente da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ), José Olavo, não declara voto, mas a festa de abertura da feira pode se transformar num ato contra o Movimento dos Sem Terra (MST). A pedido de Olavo, a senadora Kátia Abreu (DEM-TO) entregará a Serra e a Dilma uma lista de reivindicações dos produtores e, entre elas, está o pedido de mais firmeza do governo federal contra o que chamam de "insegurança jurídica no campo".

Olavo elogia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, mas entende que nenhum teve força suficiente para conter invasões patrocinadas pelo MST. Ele reclama especialmente da versão do Plano Nacional de Direitos Humanos, lançado pelo governo federal em 2009:

- É uma barbaridade. O direito de propriedade é sagrado. Se alguém entra na sua casa, você primeiro terá que dialogar e, só depois, pedir à Justiça para tirar. Não faz sentido. Esse plano poderia ter sido melhor.

Na exposição, a ABCZ fará uma homenagem ao ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes. O ministro caiu nas graças dos produtores rurais pelas críticas que fez às invasões de terra do MST, em São Paulo, e à suposta leniência do governo federal em lidar com a questão.

Os fazendeiros também vão fazer duras críticas ao Código Florestal. Para eles, o conceito de reserva legal do código tem sido uma trava ao desenvolvimento da agropecuária. Os produtores reivindicam redução do percentual de reserva legal obrigatória, sobretudo nas áreas de terras mais férteis.

- Não podemos deixar terras mais férteis, como aquelas de Ribeirão Preto, paradas. Também não se pode desmatar na Amazônia. O percentual de reserva legal teria que ser refeito - disse Olavo.

1º de Maio: PSDB prepara ação contra Lula

DEU EM O GLOBO

Tucanos criticam uso de verba púbica

Luiza Damé e Adriana Vasconcelos

BRASÍLIA. Depois de acompanhar os eventos das centrais sindicais no Dia do Trabalho, patrocinados com dinheiro público, a assessoria jurídica do PSDB prepara mais uma representação contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Desta vez, além de campanha eleitoral antecipada, o PSDB vai argumentar que houve uso de recursos públicos. A nova ação deverá ser protocolada nesta segunda-feira, junto com uma outra questionando o uso eleitoral do pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV convocado por Lula na última quinta-feira.

- Estamos de novo chocados. Após ser multado duas vezes, agora ainda há o agravante do patrocínio com dinheiro público. O dinheiro público não aguenta mais desaforos - disse Ricardo Penteado, advogado do PSDB.

Para o presidente nacional do partido, senador Sérgio Guerra (PE), o governo tem ignorado a legislação eleitoral recorrentemente e "sem cerimônia":

- Todos têm a convicção de que o limite da lei deve ser respeitado. Se a seis meses da eleição já fazem isso, imagine até onde podem chegar.

O ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, disse que as ações da oposição não vão impedir Lula de participar da campanha. Mas afirmou que Lula respeitará a legislação:

- Essas ações não vão calar o presidente Lula e não vão impedi-lo de participar do processo eleitoral, respeitando as leis.

Padilha afirmou estranhar as críticas serem à participação do presidente nos atos das centrais, mas nunca à sua presença em eventos de empresários:

- Poucos presidentes teriam coragem de ir a um ato das centrais. O presidente foi, e foi também a eventos de empresários, inclusive de meios de comunicação, independentemente de terem ou não patrocínio oficial.

Na opinião do presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Demóstenes Torres (DEM-GO), está na hora de o Ministério Público agir também:

- Mais uma vez estamos assistindo ao uso do dinheiro público para promover a pré-campanha de Dilma.

Governo reage e oposição faz coro com FH

DEU EM O GLOBO

ELEIÇÕES 2010: Em artigo, ex-presidente diz que petistas usufruem das conquistas tucanas e não dão crédito

Segundo o ministro Alexandre Padilha, tucanos ainda não digeriram o bom desempenho de Lula: "É difícil ver o sucesso"

Luiza Damé e Geralda Doca

BRASÍLIA. As críticas ao governo Lula, feitas em artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, publicado ontem no GLOBO, acenderam a discussão entre oposição e governo. O ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, disse que o artigo - no qual FH acusa a administração petista de usufruir de conquistas da gestão tucana - demonstra que a oposição ainda não digeriu o bom desempenho do governo Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo Padilha, depois de criticar ações do governo, como a ampliação do Bolsa Família e a vinculação do aumento do salário mínimo à variação do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país), agora a oposição reconhece essas medidas.

- É muito difícil para o Fernando Henrique, que é convencido de que seu governo foi muito bom, ver o governo Lula fazendo sucesso - disse Padilha.

Os aliados fizeram coro com FH, para quem o PT surfa no capitalismo implementado por ele no país, a despeito das críticas esbravejadas no passado.

- Eles (Lula e o PT) estão há oito anos e nada mudaram. Tentaram devolver para a estrutura política as agências reguladoras, que são estruturas de Estado. Fazem o discurso do Estado que trabalha para a sociedade e pregam em nós a pecha de Estado mínimo - afirmou o presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ).

O líder do DEM no Senado, José Agripino Maia (RN), disse que o texto de Fernando Henrique deveria ser intitulado "a farsa do PT passada a limpo":

- O PT usufruiu de um modelo que ele mesmo renega. Com argumentos de qualidade e fatos recentes, o artigo de Fernando Henrique deixa o PT nu. Eles também são privatizadores, porque se aproveitaram dos resultados das privatizações.

Para o economista da USP Joaquim Elói Cirne de Toledo, as diferenças entre os dois últimos governos são muito maiores no discurso do que na prática. Ele destacou que as partes vão trocando de posição de acordo com a conveniência do momento. Por exemplo, lembrou, o PT foi contra as privatizações, mas fez o mesmo com as rodovias.

Ricardo Antunes: "Lula levou getulismo ao extremo"

DEU NO VALOR ECONÔMICO

João Villaverde, de São Paulo

O repasse de R$ 146,5 milhões do governo à seis centrais sindicais reconhecidas pelo Ministério do Trabalho, desde 2008, completou o ciclo de sujeição do sindicalismo ao Estado, iniciado por Getúlio Vargas. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que termina em dezembro após oito anos, levou o getulismo ao "limite extremo". Essa é a avaliação de Ricardo Antunes, professor de sociologia do trabalho da Unicamp. Para Antunes, os trabalhadores sindicalizados perderam uma oportunidade "monumental" de elevar ganhos reais e fortalecer sindicatos e representação social.

O pesquisador avalia que não cabe ao Supremo Tribunal Federal (STF) julgar se o repasse é constitucional ou não, por entender que trata-se de uma questão política. "É o Estado transferindo recursos às centrais. O erro está em os sindicalistas aceitarem", diz. Para ele, é simbólico que a ação impetrada no STF contra o repasse do imposto sindical tenha sido feita pelo DEM.

Abaixo, os principais trechos da entrevista de Antunes ao Valor:

Valor: As centrais advogam que o repasse do imposto sindical serviu para "reconhecê-las" como integrantes do movimento. Qual o impacto desse repasse?

Ricardo Antunes: O imposto sindical foi criado na primeira fase do governo Getúlio Vargas [em 1934, antes da ditadura do Estado Novo], como instrumento de controle dos sindicatos. Até a chegada de Getúlio ao poder, os sindicatos tinham autonomia, tanto política quanto financeira, dependendo exclusivamente dos associados. O varguismo criou o imposto não para beneficiar os sindicatos, mas para estabelecer uma linha direta com eles. Os sindicatos passam a depender do Estado, perdendo a autonomia e a capacidade de convencer seus associados de que é preciso se manter com recursos próprios. Ao ficar prisioneiro do imposto sindical, o caminho de servidão ao Estado se realizou com sindicatos, federações e confederações. O mais grave dos últimos dois anos é que o repasse foi estendido às centrais.

Valor: As celebrações do 1º de maio das centrais tiveram participação de Lula e de sua candidata. Foi a primeira vez que isso ocorreu. O imposto sindical atrelou as centrais ao Estado?

Antunes: Dos anos 1940 até 2008, nenhuma central dependeu do imposto sindical. Mais que isso: as centrais não pediram alvará do governo para existir, elas simplesmente foram fundadas. As festas do 1º de maio se converteram em pão e circo. Nos anos 80 e parte da década de 1990, a CUT promovia atos majestosos, sem imposto sindical e com massas que participavam e se sentiam reconhecidas pela luta no trabalho. Hoje é tudo festa. Há sorteios de automóveis e apartamentos, shows de cantores populares. As centrais se tornaram protagonistas deste pão e circo, financiadas pelo Estado.

Valor: A votação pelo fim do repasse às centrais está empatada no Supremo. O sr. antevê o resultado?

Antunes: Não cabe ao Supremo dizer se o repasse fere ou não a Constituição, que originalmente não previa a repartição às centrais. Esta é uma questão política. Tanto é que quem entrou com pedido contra o repasse foi o DEM. É o Estado transferindo recursos às centrais. O erro está no fato de sindicalistas aceitarem. Sou contra o imposto sindical, mas não é este o papel do STF. Me parece óbvio se tratar de uma questão política, não constitucional.

Valor: Qual é o balanço do governo de Lula na questão sindical?

Antunes: O lulismo recuperou o getulismo sindical e o levou ao limite extremo. Lula completou o processo de sujeição dos sindicatos ao Estado, iniciado por Getúlio. Faltava as centrais para fechar a estatização. Os trabalhadores perderam uma oportunidade monumental de conseguir ganhos e de ampliarem sua representação social. Os ganhos são de pequena monta, e mesmo assim ocorrem por um preço alto, de servidão ao Estado. Não vejo, nas centrais que recebem dinheiro do governo, nenhuma possibilidade de florescimento do novo. Elas, eventualmente, apoiam greves de sindicatos filiados. Mas não fazem por ideologia ou por luta sindical, mas porque, se não fizerem, alguma outra o fará e, com isso, atrairá aquele sindicato. Como a representação conta para ganhar fatia maior do imposto, as centrais esforçam-se para manter e ampliar a base de filiados. É uma luta por dinheiro, não sindical.

Valor: Esta "servidão" ao Estado vai se perpetuar no pós-Lula?

Antunes: Se Geraldo Alckmin (PSDB) tivesse sido eleito em 2006, o repasse do imposto sindical certamente não teria passado. Seria um governo pior para os trabalhadores, certamente, mas, com isso, provocaria um movimento contrário muito forte no movimento sindical. O sindicalismo se desorganizou nos últimos vinte anos, aliando-se ao poder e se tornando pelego. A hora de recomeçar é agora e o primeiro passo seria se desvincular do Estado para recuperar autonomia.

PT mineiro ignora apelo de Lula, faz prévias e atrapalha palanque de Dilma

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Eduardo Kattah de Belo Horizonte, Vera Rosa de Brasília

Dispostos a adiar ao máximo a definição do candidato da base aliada ao governo de Minas, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, e o ex-ministro do Desenvolvimento Social Patrus Ananias, disputaram ontem uma prévia no PT e endureceram o tom contra o PMDB. Patrus criticou a política da "moeda de troca" e Pimentel rejeitou "ultimatos".

O novo enfrentamento irritou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Contrariado, Lula mandou avisar os dois de que quer o impasse resolvido até o fim deste mês. Para ele, a "novela" em Minas já começa a atrapalhar a campanha da petista Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto.

A prévia foi convocada pelo PT para a escolha do candidato ao Palácio da Liberdade. Para garantir o apoio do PMDB a Dilma, porém, Lula concordou em ceder à principal reivindicação do partido, que pede a cabeça da chapa para o senador Hélio Costa. Na composição desejada pelo Planalto, o PT fica com uma vaga ao Senado, além da vice.

"Na história do Brasil e do PT, Minas Gerais nunca foi tratada como moeda de troca", desafiou Patrus, que largou na frente. Na primeira apuração parcial dos votos, contabilizadas as urnas de 97 dos 605 municípios, Patrus liderava a consulta com 51,60% (3.026 votos). Pimentel tinha 48,40% (2.835 votos).

O esforço do Planalto para o acordo em Minas tem fator adicional: trata-se do segundo colégio eleitoral do País, hoje administrado pelo PSDB. Detalhe: o candidato do PSDB, José Serra, está bem à frente de Dilma na região Sudeste.

Amigo de Dilma e um dos principais coordenadores de sua campanha, Pimentel disse não haver motivos para preocupação e garantiu que a petista terá "palanque único" no Estado.

Lula já deu sinal verde para o Diretório Nacional do PT intervir na seção mineira, caso o partido não se entenda com Costa. Quer solução rápida porque o PMDB promoverá um megaencontro no próximo dia 15 para anunciar o aval a Dilma e apresentar o presidente da Câmara, Michel Temer (SP), como vice da chapa. O governo está de olho no tempo de TV do PMDB.

"O meu querido amigo Hélio Costa não tem condições de dar ultimato ao PT", provocou Pimentel. "Ele sabe que não pode fazer isso e não o fará."

O nome do vencedor da prévia sairá hoje, mas terá de passar pelo crivo do encontro estadual do PT, de 21 a 23 deste mês. A ideia, porém, é ganhar tempo e empurrar a definição do candidato até junho para cansar o PMDB e fazer o partido desistir do plano de eleger Costa à cadeira ocupada por Antonio Anastasia (PSDB).

"Fixar prazo, em política, empobrece a discussão", insistiu Pimentel. "O prazo legal de registro da chapa é 3 de julho."

O ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, não escondeu o desconforto do governo com o impasse. "A nossa expectativa é de que o PT de Minas encerre logo essa disputa e sente com os aliados para que possamos montar o palanque único e começar a campanha da Dilma no Estado", afirmou Padilha. "Não existe candidato que saia sozinho." Pelos cálculos do PT mineiro, o quórum da prévia foi baixo: dos 108 mil filiados aptos a votar, o comparecimento às urnas não ultrapassou 30 mil.

Sinal amarelo nos Estados

Outros problemas para os petistas

Maranhão

Lula entrou em campo para obrigar o PT do Maranhão a apoiar a candidatura da governadora Roseana Sarney (PMDB). Antigo adversário da família Sarney, o PT decidiu se aliar ao deputado Flávio Dino (PC do B). Mas uma ala do partido, com cargos na equipe de Roseana, promete rever a decisão.

Pará

Para apoiar a reeleição da governadora Ana Júlia Carepa (PT), o deputado Jader Barbalho (PMDB) quer reconquistar cargos estratégicos. Em rota de colisão com Ana Julia, Jader flerta com os tucanos e ameaça lançar seu sobrinho, José Priante, ao governo, garantindo um lugar na chapa para o Senado.

Rio

Candidato a um segundo mandato, o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), prometeu aval a Dilma, mas não admite que ela pise no palanque de seu adversário, Anthony Garotinho (PR). O PT não sabe como administrar o problema, pois Garotinho também espera retribuição por aderir à campanha de Dilma.

Paraná

O PT pode perder o apoio do senador Osmar Dias (PDT), candidato ao governo. Ele está aborrecido com a insistência do PT em lançar Gleise Hoffmann ao Senado porque quer que ela seja vice na chapa. Alega que o PT está atrapalhando as negociações com o PP e flerta com o PSDB de Beto Richa.

Rio Grande do Sul

O PMDB está em cima do muro. O ex-prefeito de Porto Alegre, José Fogaça, não declarou apoio ao tucano José Serra, nem fechou com Dilma. A base aliada está dividida: o PT lançou Tarso Genro, o PSB apresentou Beto Albuquerque e o PP ameaça fechar aliança com a governadora Yeda Crusius (PSDB).

Bahia

São cada vez mais fortes as estocadas entre o governador Jaques Wagner (PT), candidato à reeleição, e o ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB). Os partidos governistas estão divididos e o PR aderiu a Geddel.

Saída de Ciro põe irmão em saia justa no Ceará

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Cid Gomes terá de escolher entre apoio do PT, que tirou deputado da corrida presidencial, e o de Tasso Jereissati

Carmen Pompeu

FORTALEZA - Após descarte pelo PSB nacional da pré-candidatura do deputado Ciro Gomes à Presidência, as alianças dominam o debate no Estado. Irmão de Ciro, o governador Cid Gomes, candidato à reeleição, está diante de uma "escolha de Sofia": fechar aliança com o PT, que forçou a saída de Ciro, ou com o velho aliado, mas adversário de Lula, o senador tucano Tasso Jereissati.

Tasso acredita que somente no final deste mês haverá uma definição. Na sua avaliação, o impacto causado pela saída de Ciro Gomes da corrida presidencial "foi muito grande" e deixou "um vazio" no Ceará. "A gente tinha de deixar a poeira baixar para conversar agora", diz.

O PSDB cearense não sabe se deve apoiar, mesmo que informalmente, a reeleição de Cid ou lançar candidato próprio ao governo. O certo é que com o amigo Ciro fora do jogo, ficará mais fácil para Tasso fazer o que não fez em 2002: entrar de corpo e alma na campanha para eleger Serra presidente.

Naquele ano, os tucanos cearenses ficaram divididos entre Ciro, cuja raiz política é a mesma de Tasso, e Serra. O próprio Tasso foi acusado de fazer corpo mole e lavar as mãos diante da candidatura Serra por ter sido ele próprio preterido pelos tucanos.

Desta vez, Tasso mostra-se disposto a batalhar pelo candidato a presidente de seu partido, assim como fez com Geraldo Alckmin nas eleições passadas. "O palanque do Serra no Ceará sou eu. Sou candidato a senador. Vou rodar o Estado inteiro, seja qual for a aliança que vou ter. Aonde eu for, vou pedindo e fazendo campanha para o Serra", garante Tasso.

Ex-mulher de Ciro, a senadora Patrícia Saboya (PDT) também demonstra o desejo de montar com Tasso um palanque independente, sem candidato a governador, repetindo a dobradinha que os elegeu em 2002. Ela acredita na formação desse palanque independente, que apoie a reeleição de Cid, mas não a petista Dilma Rousseff. Para isso, terá de esperar qual rumo o PDT tomará nacionalmente.

"Rasteira". O deputado estadual Ivo Gomes, caçula de Cid e Ciro, não esconde a mágoa deixada na família com a decisão do PSB. Para ele, Ciro "levou uma rasteira", mas não será vingativo nem apoiará Serra. "Ciro seguirá a orientação do PSB nacional."

Ex-chefe de gabinete do irmão governador, Ivo é o articulador político dos Gomes. Com relação às alianças que a família pretende fazer para reeleger Cid, ele diz que vai aguardar o anúncio oficial de apoio do PSB à pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff.

Ivo critica o que chama de monopólio da região sudeste - leia-se PT e PSDB de São Paulo - nas decisões políticas nacionais. E diz esperar que a pré-candidata do PV, Marina Silva, cumpra o papel de evitar que a campanha presidencial não seja "burra". Papel este, diz, que seria de Ciro.

Outro obstáculo à aliança de Cid com o PT, que o elegeu em 2006, são divergências com a prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins, presidente do PT cearense. O partido quer duas vagas ao Senado, além de indicar o vice. Os Gomes também não engoliram o fato de Luizianne ter levado Dilma a Fortaleza, nos dia 12 e 13, sem avisá-los. Apesar de tudo isso, há entre petistas quem ainda acredite que a saída de Ciro reunirá PSB e PT na disputa pelo governo estadual.

O nível da taxa de juros:: Luiz Carlos Bresser-Pereira

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Em geral, e, em particular, no momento atual, o Banco Central tem mudado a taxa de juros no momento certo

COMO SE esperava, depois de haver mantido a taxa de juros estável por um bom tempo, o Banco Central a aumentou na última quarta-feira. Respondeu, assim, ao evidente aquecimento da demanda interna. Pode-se, portanto, concluir que o Banco Central agiu corretamente?

Não é essa a política que se espera de uma autoridade monetária quando a inflação está um pouco acima da meta? A resposta, entretanto, não é um mero "sim", não obstante a boa teoria econômica sugir a tal resposta para a segunda pergunta.

Na verdade, as duas questões configuram uma armadilha que me leva sempre a recusar responder a jornalistas que querem saber minha opinião sobre a próxima ou a última alteração da taxa de juros realizada pelo BC.

A posição que tenho adotado em relação à política de juros do Banco Central desde o Plano Real tem sido sempre de desacordo. A discordância, porém, não é em relação a esta ou àquela decisão de aumentar ou de deixar de baixar a taxa Selic.

Embora também nesse ponto o Banco Central algumas vezes erre de forma clamorosa, na maioria dos casos acerta. O último erro óbvio foi o de haver continuado a aumentar a taxa de juros depois do desencadear da crise, em outubro de 2008.

Já existe pelo menos um bom estudo (de José Luís Oreiro e associados) demonstrando, Em termos teóricos e econométricos, esse fato.Mas, em geral, e, em particular, no momento atual, o Banco Central tem mudado a taxa de juros no momento correto.

A razão da minha discordância em relação à política "ortodoxa" (na verdade, "rentista") do BC em relação à taxa de juros não é contra a direção nem contra o momento das mudanças de taxa,mas em relação a seu nível.

Ainda que o tenha baixado através dos anos, esse nível continua alto e se constitui em entrave ao investimento e ao desenvolvimento e em uma forma de concentrar renda nas mãos dos rentistas.
Mas teria sido possível baixar mais o nível da taxa de juros? Não resultaria em mais inflação? De forma nenhuma, desde que a baixa dos juros ocorresse quando a economia estivesse desaquecida e se aproveitasse para reduzir a taxa para um nível baixo-de 1% a 2% (um nível ainda mais alto do que o praticado pelos países ricos nessas ocasiões).

Já vimos que nesses momentos o Banco Central baixa sua taxa de juros, mas sua baixa é sempre tímida, a conta-gotas. Dessa maneira, quando a economia volta a dar qualquer sinal de restabelecimento, a baixa é interrompida em um nível ainda alto da taxa de juros.

Se a redução fosse mais determinada, o Brasil estaria há muito convivendo com uma taxa de juros em um nível civilizado. Os brasileiros não compreendem esse fato. Ficaram estigmatizados coma alta inflação e, por isso, continuam a acreditar que a política de juros é necessária para manter a inflação sob controle.Dessa forma, legitimam a grande transferência de renda das pequenas e médias empresas e de seus trabalhadores para o setor que vive de juros.

Entretanto, desde que,há cerca de nove anos, teve início a luta sistemática dos macroeconomistas keynesianos contra essa política, houve avanços. Seus custos ficaram mais claros, as alternativas ganharam legitimidade, enquanto a ortodoxia se desmoralizava no plano internacional.

A hemorragia representada pela política de juros não foi estancada, mas foi reduzida. No começo da década, a ortodoxia falava em uma taxa "natural" real de juros de 9%; hoje, a taxa de juros real continua a maior do mundo, mas está em torno de 4,5%. Houve progresso.

Luiz Carlos Bresser-Pereira, 75, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Globalização e Competição".