Meninas de bicicleta
Que fagueiras pedalais
Quero ser vosso poeta!
Ó transitórias estátuas
Esfuziantes de azul
Louras com peles mulatas
Princesas da zona sul:
As vossas jovens figuras
Retesadas nos selins
Me prendem, com serem puras
Em redondilhas afins.
Que lindas são vossas quilhas
Quando as praias abordais!
E as nervosas panturrilhas
Na rotação dos pedais:
Que douradas maravilhas!
Bicicletai, meninada
Aos ventos do Arpoador
Solta a flâmula agitada
Das cabeleiras em flor
Uma correndo à gandaia
Outra com jeito de séria
Mostrando as pernas sem saia
Feitas da mesma matéria.
Permanecei! vós que sois
O que o mundo não tem mais
Juventude de maiôs
Sobre máquinas da paz
Enxames de namoradas
Ao sol de Copacabana
Centauresas transpiradas
Que o leque do mar abana!
A vós o canto que inflama
Os meus trint'anos, meninas
Velozes massas em chama
Explodindo em vitaminas.
Bem haja a vossa saúde
À humanidade inquieta
Vós cuja ardente virtude
Preservais muito amiúde
Com um selim de bicicleta
Vós que levais tantas raças
Nos corpos firmes e crus:
Meninas, soltai as alças
Bicicletai seios nus!
No vosso rastro persiste
O mesmo eterno poeta
Um poeta - essa coisa triste
Escravizada à beleza
Que em vosso rastro persiste,
Levando a sua tristeza
No quadro da bicicleta.
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
sábado, 28 de dezembro de 2019
sexta-feira, 27 de dezembro de 2019
Opinião do dia: Luís Roberto Barroso* - 'democracia iliberal'
“Os retrocessos democráticos, no mundo atual, não decorrem mais de golpes de estado com o uso das armas. Ao contrário, as maiores ameaças à democracia e ao constitucionalismo são resultado de alterações normativas pontuais, aparentemente válidas do ponto de vista formal, que, se examinadas isoladamente, deixam dúvidas quanto à sua inconstitucionalidade. Porém, em seu conjunto, expressam a adoção de medidas que vão progressivamente corroendo a tutela de direitos e o regime democrático.
Esse fenômeno tem recebido, na ordem internacional, diversas denominações, entre as quais: 'constitucionalismo abusivo', 'legalismo autocrático' e 'democracia iliberal.”
*Luís Roberto Barroso, ministro do STF em liminar que restabelece o mandato de antigos conselheiros do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente e outras medidas. Jornal Nacional, 23/12/2019
Risco à democracia marca bolsonarismo: “Crescimento pode favorecer projeto autoritário”, diz Fausto
Cientista político alerta que eventual retomada do crescimento embute o risco de favorecer um projeto autoritário
Por Cristian Klein / Valor Econômico — Do Rio
Mesmo dando certo, com a recuperação econômica, o governo Bolsonaro pode dar errado, pelo que mostrou no primeiro ano, quando a gestão em áreas como política externa, educação e meio ambiente foi “absolutamente ruinosa”. O alerta é do cientista político e diretor-geral da Fundação Fernando Henrique Cardoso, Sergio Fausto, 57 anos, para quem a eventual retomada do crescimento embute um risco: o de favorecer um projeto autoritário do bolsonarismo. Fausto afirma que as instituições reagiram bem aos ataques feitos pelo presidente e seus aliados contra, entre outros, o Congresso, o Supremo Tribunal Federal e a imprensa. Mas teme pela capacidade de resistência institucional, sobretudo se a economia fortalecer o presidente. “Esse teste de estresse você aguenta por quatro anos. Aguentará por mais tempo?”, questiona.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Valor: Que balanço faz deste primeiro ano de gestão de Bolsonaro?
Sergio Fausto: A descoberta retumbante é que quem manda no governo é o Bolsonaro, ao contrário de algumas fantasias que se fizeram no inicio do mandato, de que, a rigor, haveria um dispositivo militar e outros setores mais pragmáticos que dariam o tom da banda governamental. Não. Quem dá o tom é o presidente e o seu núcleo ideológico. Aparentemente, os militares recuaram para uma posição de trincheira para proteger a corporação dos ímpetos politizantes do bolsonarismo. Sergio Moro também frustra expectativas de quem imaginava que ele pudesse ser uma espécie de contrapeso legalista que se espera de um ministro da Justiça que vem do Poder Judiciário. Não é isso. Ele reconhece o mando político de Bolsonaro e dança conforme a música cujo tom é dado pelo presidente.
Valor: Há exceção?
Fausto: É o ‘posto Ipiranga’. O ministro Paulo Guedes [Economia] conseguiu uma esfera de autonomia maior e isso se estende a alguns outros setores ligados à área econômica, como Infraestrutura e Minas e Energia. São espécies de reservas de racionalidade dentro do governo. Paulo Guedes encontrou no Congresso uma liderança disposta a fazer avançar uma agenda reformista, personificada no [presidente da Câmara] Rodrigo Maia. A dobradinha Rodrigo Maia e Rogério Marinho - o secretário de Previdência, que é o principal negociador, não é o ministro da Economia - produziu resultados. Isso fez com que a recuperação cíclica da economia fosse favorecida neste último trimestre do ano por uma percepção de que existe uma agenda sobretudo na área fiscal que vai ganhando musculatura. Tem o caso da Previdência, já aprovada, e iniciativas de reformas semelhantes também nos Estados. Tem política de governo nessa área.
Risco à democracia marca bolsonarismo: “Estamos em uma batalha de narrativas”, diz Lilia
Para antropóloga e historiadores, intelectuais devem sair a campo e encarar o debate público
Por Malu Delgado / Valor Econômico — De São Paulo
Um governo que produz as próprias verdades sem compromisso com a história e com a ciência. A avaliação da antropóloga e historiadora, Lilia Schwarcz, sobre o primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro não é suave. Disposta a deixar o hermetismo da academia e se lançar nas redes sociais, a professora da USP acha que num momento de disputa de narrativas históricas como o atual, os intelectuais devem sair a campo e encarar o debate público. Governos deste tipo, afirma, atuam “no sequestro social”.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Valor: Que balanço faz deste primeiro ano de gestão de Bolsonaro?
Lilia Schwarz: Democracia é um regime, por definição, inconcluso. É preciso conquistar a cada dia nossos direitos. Nos últimos 30 anos, os brasileiros conviveram com uma democracia, senão absoluta, pelo menos plena: as instituições funcionaram de maneira autônoma e você não tinha uma imposição do Executivo sobre o Legislativo e Judiciário, e vice-versa. Os brasileiros viveram um momento forte de consolidação de pautas minoritárias e de uma agenda mais ampla, plural e inclusiva. São pautas que hoje, neste governo, estão sob ameaça.
Valor: Ameaças a direitos constitucionais, são a postura mais preocupante deste governo?
Lilia: Nos 28 anos em que nosso presidente foi deputado não primou por defender essas pautas. Hostilizou-as. Eu não tenho problema nenhum com o pensamento conservador. Ao contrário. Acho que a democracia funciona muito melhor quando lida com a diferença. Mas neste caso é regresso democrático. Não é a única pauta em regresso.
Se prestarmos atenção nos ataques à academia e à ciência, veremos que é um governo que claramente produz suas próprias verdades e não tem muito apego a fatos e informações. Há o ataque forte à ciência e ao jornalismo. Mais que uma mentira isolada, conforma um sistema de mentiras que alimenta certo grupo de brasileiros.
Merval Pereira - Apoio à impunidade
- O Globo
Não é de hoje que a classe política, aliada a empresários e outros agentes privados, tenta minar a Lava-Jato
Foi a mais grave derrota do ministro Sérgio Moro, mas foi mais que isso. Foi a confirmação de que a luta contra a corrupção nunca foi um objetivo do presidente Bolsonaro, apenas uma desfaçatez eleitoreira que não resistiu a um ano de investigações sobre sua família.
Ao que indicam os fatos, essa relação perigosa da família Bolsonaro com pessoas e atos à margem da lei vem de longo tempo, mas somente agora se tornaram visíveis à opinião pública.
As diversas restrições que a lei impõe ao combate à corrupção, especialmente a do colarinho branco, encontraram no presidente que se dizia íntegro defensor de seu combate um aliado a favor da impunidade.
As diversas alterações feitas na proposta do ministro Sérgio Moro saíram da Câmara, onde grande parte de seus componentes têm contas a ajustar com a Justiça, ou teme vir a ter. A intenção das várias inserções é evidente, como a implantação imediata do juiz de garantias.
A esquerda festeja muito justamente, porque sua aprovação, com a sanção presidencial, é uma crítica direta ao ex-juiz Moro, uma aceitação das denúncias de que ele exorbitou de seu poder nos processos da Lava Jato.
Esse tema surgiu justamente devido à revelação do The Intercept Brasil de conversas entre procuradores de Curitiba e o juiz Moro, fruto de roubo cibernético ainda não completamente esclarecido. A idéia em si, já em prática em vários países europeus, e até mesmo em certos setores da justiça de São Paulo, não é desprezível, nem em si mesma errada.
Bernardo Mello Franco - A tortura e seus defensores
- O Globo
Em 2019, políticos que desprezam os direitos humanos passaram das palavras à ação. Bolsonaro desmontou o Mecanismo Nacional de Combate e Prevenção à Tortura
“Existem, e não são poucos, os que defendem as torturas”. A frase parece atual, mas foi publicada em dezembro de 1969. Assim começava uma célebre reportagem da revista “Veja” sobre os maus-tratos a presos políticos na ditadura militar.
No texto, dois delegados defendiam a prática de espancar suspeitos para obter confissões. “É preciso muito pau em cima deles. Acho que a polícia está certa em agir assim”, afirmou Waldo Fraga. “O que se condena é a dosagem em excesso dessa violência”, disse Eldes Mesquita.
Os repórteres contaram as histórias de duas vítimas da violência oficial. Chael Schreier, estudante de medicina, militava na luta armada. Preso no Rio, levou tantos golpes na barriga que sofreu uma hemorragia interna e morreu na Vila Militar, aos 23 anos. “Ele apanhou como um cavalo”, contou um primo que viu o corpo no cemitério.
Pedro Doria - Flávio: o que há num nome?
- O Globo
A maior polêmica da semana se concentrou em como a imprensa cobriu os achados, pelo Ministério Público, de indícios de desvio e lavagem de dinheiro no gabinete do então deputado estadual do Rio Flávio Bolsonaro
Poderão as democracias sobreviver quando são as crenças pessoais, e não os fatos, que sustentam nossa visão de mundo? Esta é a pergunta que deverá marcar não apenas 2020, mas também os anos seguintes. É uma pergunta não só para o Brasil. É um drama de direita e esquerda.
A maior polêmica da semana centrou em como a imprensa cobriu os achados, pelo Ministério Público, de fortes indícios de desvio e lavagem de dinheiro no gabinete do então deputado estadual do Rio Flávio Bolsonaro. O filho Zero Um do presidente, hoje senador. Desde o primeiro momento, ainda antes de Jair Bolsonaro vestir a faixa presidencial, jornalistas profissionais estão em cima do caso. Tudo o que veio a público até agora foi através da imprensa.
Em algum momento, alguém percebeu que alguns veículos utilizavam em seus títulos apenas o prenome do senador. Flávio — ao invés de Flávio Bolsonaro. De presto um naco das redes chegou à conclusão de que jornais, revistas e sites estavam, com isso, tentando proteger o presidente. Não usar ‘Bolsonaro’ no título, de alguma forma, serve a um estratagema que protege a imagem daquele que ora ocupa o Planalto.
Míriam Leitão - O que fazer se um banco quebrar
- O Globo
Patrimônio dos banqueiros precisa entrar no roteiro de salvamento de bancos proposto pelo BC, que prevê até uso de dinheiro público em última instância
Nem mesmo no Banco Central se consegue uma boa explicação para o fato de o projeto de lei sobre o resgate dos bancos em dificuldade ter sido anunciado num dia meio morto em Brasília: 23 de dezembro no fim da tarde. Salvar bancos grandes com dinheiro público é proposta que deveria causar ojeriza a liberais, mas no governo o que se ouve é que é preciso ser “pragmático”. Uma grande instituição, se quebrar, pode causar uma enorme perda do PIB e prejuízos generalizados.
Chovia em Brasília, algumas quadras da capital estavam sem luz, quando o Projeto de Lei foi enviado a um Congresso vazio na véspera de Natal. O assunto é controverso, mas a questão está mais adiantada do que se pensa: os bancos já estão constituindo o Fundo de Resolução que foi criado pelo projeto.
O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) continuará existindo. Ele garante os depósitos dos clientes. Se o banco quebrar, o cliente consegue pegar seu dinheiro até um determinado valor por causa do FGC. O dinheiro sai de um percentual dos depósitos. Os bancos dizem que o fundo é privado e são eles que contribuem, mas o valor sempre foi diluído nas altas taxas de juros cobradas dos clientes.
Agora haverá também o Fundo de Resolução que é destinado a socorrer os bancos. Perguntei a um dirigente do BC se isso sairia mesmo da indústria bancária ou seria cobrado indiretamente do cliente, e ele me disse que uma parte deve ser repassada aos clientes.
Humberto Saccomandi - Utopia ambientalista é novo polo político
- Valor Econômico
Ascensão de um polo político ambiental terá enorme impacto
Ainda é comum ouvir no Brasil que a reação europeia aos problemas ambientais brasileiros é protecionismo disfarçado ou neocolonialismo. Isso é miopia, pois perde de vista o ponto principal, que é o aparente surgimento de um novo polo na política ocidental: a utopia ambientalista. Essa deve ser uma megatendência deste século, que afetará vários aspectos de nossas vidas: o modo como produzimos, consumimos, nos alimentamos. A ativista sueca Greta Thunberg deu uma cara ao movimento.
Há mais de dois séculos a política no Ocidente é dominada por uma contraposição entre a utopia da liberdade e a utopia da igualdade, que deram origem à maioria dos modernos partidos de direita e de esquerda, respectivamente. Essas ideias são centrais no Iluminismo e irromperam violentamente na Revolução Francesa, de 1789. São resumidas no primeiro artigo da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, daquele mesmo ano: “Os homens nascem e são livres e iguais em direitos”.
Desde então discute-se o que é ser livre e ser igual, mas essas duas utopias formam a base da política ocidental, que o Brasil herdou. É importante lembrar que esses conceitos nunca penetraram totalmente em sistemas políticos não ocidentais. Frequentemente tentamos ver o restante do mundo sob a ótica dessa dicotomia direita x esquerda. Isso é um equívoco.
A história do Ocidente sugere que os países que souberam equilibrar ou combinar melhor as utopias da liberdade e da igualdade são os que mais prosperaram. Possivelmente, com o tempo, a concorrência entre elas foi refinando esses dois polos, que competem, porém também colaboram entre si e se influenciam. Assim, querer eliminar o outro lado é contraproducente.
Nilson Teixeira* - Maior otimismo no início do ano é usual
- Valor Econômico
A baixa criação de empregos na indústria torna a aceleração da economia nos próximos meses mais incerta
O recuo da inflação nos últimos anos é atribuído a vários fatores, entre os quais a forte recessão de 2015 a 2016 e o esforço do governo de evitar a deterioração fiscal. A crise contribuiu para a redução do peso de vários canais de transmissão inflacionária, bem como para o fortalecimento do canal de demanda, da potência da política monetária e da ancoragem da inflação. O cenário para a inflação tende a continuar favorável, em linha com a projeção para 2020 abaixo do centro da meta e expectativas para os anos seguintes ancoradas a suas respectivas metas.
O comportamento benigno da inflação foi abalado neste trimestre. A projeção do Banco Central, por exemplo, aumentou de 3,4% em setembro para 4%. Essa surpresa deveu-se, principalmente, à forte alta dos preços das carnes - causada pelo choque de demanda originado pela disseminação da gripe suína na China e o abate de grande parte do seu rebanho.
O recente declínio dos preços das carnes no atacado reforçou a expectativa de transmissão desse recuo para o varejo no início de 2020. Isso explicou a pouca alteração das previsões de inflação para 2020, mesmo com o expressivo desvio neste trimestre. A reversão de parte da alta dos preços das carnes já no próximo trimestre foi incorporada às projeções. Do contrário, a memória inflacionária estimada nos modelos elevaria as previsões de 2020, em particular do início do ano. Os resultados seriam ainda maiores caso se assumissem repasse cambial similar ao de anos atrás e depreciação de R$ 4,05/US$ para R$ 4,20/US$ entre as reuniões de outubro e dezembro do Copom.
Claudia Safatle - O peso da inflação dos preços controlados
- Valor Econômico
De 1999 para cá serviços de saúde aumentaram 374%
Superada a herança inflacionária e com os preços sob controle, pouco se fala hoje da inflação acumulada ao longo dos anos e dos seus vilões. Em duas décadas, de 1999 a 2019, porém, os preços tiveram aumento de 240% e os setores que apresentaram os maiores aumentos reais foram justamente os administrados, regulados e de segmentos onde há baixa competição.
Estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) intitulado “Inflação Brasileira nas Últimas Duas Décadas” aponta que foram os preços controlados, a exemplo das áreas de saúde e educação, transportes e energia elétrica, os que mais cresceram.
A formação de preços nesses setores não obedece aos ditames da oferta e da demanda. Falhas de mercado justificariam intervenções do governo. Além do que são serviços não expostos ao comércio internacional (“nontradables”). Esse conjunto de fatores faz com que não haja um regime de competição, dando ao mercado características de oligopólio.
O estudo foi feito com base em uma longa série de dados do IPCA, que começa em agosto de 1999 - quando foram disponibilizados os preços de itens como celulares e microcomputadores - e termina em março de 2019, perfazendo 19 anos e nove meses.
O campeão de aumento de preços no Brasil, no período citado, foi a área de serviços médicos e hospitalares, setor com demanda inelástica no qual o aumento foi de 374%. Nesses, o maior controle é sobre a permissão profissional do médico, que restringe a oferta do serviço. A inovação tecnológica aumentou a competitividade das grandes empresas mas também intensificou-se a barreira de entrada de empresas de menor porte, dificultando a competição.
Bruno Boghossian - Revival petista
- Folha de S. Paulo
Acenos a Marta e Benedita são sinais de que petista tenta recuperar imagem da sigla
Nas últimas eleições municipais, o PT perdeu mais de metade de suas prefeituras. Dos 638 postos de 2012, o partido ficou com 254 em 2016. O fracasso foi, em parte, um efeito da onda que derrubou Dilma Rousseff. No ano que vem, a temperatura do antipetismo, que marcou o cenário político desde o impeachment, será testada novamente.
O cenário permanece nebuloso, com o poder de decisão concentrado nas mãos de Lula. O ex-presidente, aliás, tem dado sinais contraditórios. Já apontou que deve apoiar candidatos de outras legendas em cidades estratégicas para oxigenar os quadros da esquerda, mas também passou a estimular veteranos do PT, associados a esses nomes.
Apesar de ter dado palanque para a ascensão de nomes como Fernando Haddad e o governador baiano Rui Costa, o partido tropeçou em seus planos de renovação interna. Basta ver a dificuldade dos petistas em encontrar um candidato óbvio para a Prefeitura de São Paulo.
Hélio Schwartsman - Populismo universitário
- Folha de S. Paulo
Atual processo de escolha de reitores em universidades federais favorece o corporativismo
O modo beligerante, autoritário e açodado pelo qual atua o governo Bolsonaro faz com que ele perca a razão até quando seu caso tem “fumus boni iuris” (fumaça de bom direito). Foi o que aconteceu com a medida provisória que altera o processo de escolha de reitores em universidades federais.
A atual sistemática não é boa. Embora existam regulamentos que em tese disciplinam a matéria, grande parte das instituições os ignora e promove uma eleição informal, na qual os votos de professores, alunos e servidores têm o mesmo peso. O resultado dessa consulta costuma ser chancelado automaticamente pelos conselhos universitários, convertendo-se na lista tríplice de nomes que é encaminhada ao Executivo para escolha pelo presidente. Em governos anteriores, a praxe era nomear sem questionamentos o mais votado.
Vinicius Torres Freire - Empresas ainda têm medo na 'nova era'
- Folha de S. Paulo
Euforia da finança não contagia executivos de comércio, indústria e serviços
A Bolsa de São Paulo está animadíssima. Vai às alturas mesmo sem os “estrangeiros” (não residentes), que tiraram dinheiro daqui desde a eleição de 2018, na prática.
Não é bem o caso do comércio e dos serviços, indica a pesquisa de confiança dos empresários de dezembro, da FGV. Recuperam-se do desânimo profundo de maio, mas ainda estão menos confiantes do que no início do ano, no surto que durou da eleição até fevereiro. A Bovespa, por sua vez, subiu mais de 20% desde então.
“À nossa frente, o horizonte está limpo e aberto. Os preparos necessários já foram feitos e, agora, estamos na cabeceira da pista, prontos para decolar. Esse é o Brasil de 2020”, diz a apresentação de um cenário da XP Investimentos.
“É o início de uma nova Era [sic]: confiantes com o futuro, de cintos afivelados e, finalmente, prontos para decolar”, diz o texto da empresa financeira. Na “nova Era”, a economia cresce 2,3% em 2020, mais ou menos o que chuta a mediana dos economistas de “o mercado”. Não parece lá uma aurora dourada, mas passemos.
Fernando Gabeira* - Um ano meio maluco
- O Estado de S.Paulo
Resta-me descobrir os pontos em que a loucura mundial se entrelaça com a brasileira
No último artigo do ano, não queria fazer uma resenha. Apenas me ater a uns traços mais gerais para explicar como chegamos até aqui e para onde, possivelmente, estamos nos dirigindo.
Tentei a forma clássica de explicar o que vejo aqui pesquisando os analistas mais amplos que tentam entender o mundo, os fenômenos que repercutem em muitos lugares, inclusive no Brasil.
Ao ler um deles, o sociólogo Ulrich Beck, autor de A Metamorfose do Mundo, deparei-me com o seguinte argumento que considera o ritmo das mudanças atuais muito mais rápido que os efeitos, por exemplo, da Revolução Francesa: A metamorfose do mundo ocorre com uma velocidade realmente inconcebível: em consequência, está ultrapassando e esmagando não apenas pessoas, mas instituições. É por isso que a metamorfose que acontece nesse momento, diante de nossos olhos, está quase fora da conceituação da teoria social. Por isso que muitas pessoas têm a impressão de que o mundo está louco.
Modestamente, o que me resta é descobrir alguns pontos em que a loucura mundial se entrelaça com a brasileira e que tipo de iguana nasce desse cruzamento.
A novidade do ano de 2019 foi a mudança de governo, início de uma nova etapa. Ela apresentou inúmeros pontos de contato com os Estados Unidos, expressando um divórcio quase hostil entre as pessoas comuns e os intelectuais e acadêmicos. Elas parecem cansadas de ter alguém pensando por elas, indicando caminhos, dizendo o que pode ou não ser feito.
A frustração econômica e o desencanto com a política estenderam-se também à elite intelectual, considerada uma parte do sistema.
Arminio Fraga: ‘Não é justo governar só para economia formal’
Ex-presidente do BC cobra investimentos em educação e capacitação do trabalhador para reduzir a desigualdade
Douglas Gavras | O Estado de S. Paulo
“O governo atual parece não ter esse tema (o combate à pobreza) como prioridade, eles parecem comprar uma ideia mais antiga de que tem de fazer crescer o bolo antes de distribuí-lo. Ou que o crescimento por si só vai resolver o problema.”
Para Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, a reversão do avanço da desigualdade de renda e da pobreza passa pela retomada do crescimento mais robusto da economia com investimentos, de longo prazo, em educação e formação do trabalhador. “Não é justo governar só para os que estão na economia formal”, afirma. Para ele, é preciso olhar para a informalidade.
A necessidade de reverter o avanço da desigualdade de renda e da pobreza nos últimos anos, a partir da recessão de 2014 a 2016, passa pela retomada do crescimento mais robusto da economia e, no longo prazo, pelos investimentos em educação e formação do trabalhador, afirma o economista Arminio Fraga.
Ex-presidente do Banco Central e sócio da Gávea Investimentos, ele diz que é preciso prestar atenção ao aumento do trabalho informal, geralmente de pior qualidade e de remuneração mais baixa, e garantir que ele não seja um outro vetor de aumento da desigualdade.
A seguir, os principais trechos da entrevista.
• O que pode ser feito para reverter o aumento da desigualdade?
O País está há décadas crescendo pouco e houve um descaso histórico com áreas importantíssimas, que têm ligação com qualidade de vida e desigualdade: educação e saneamento, por exemplo. A piora dos últimos anos tem a ver com a profunda recessão que ainda nos assola. Aqui, o Banco Central vem agindo dentro do seu mandato, reduzindo bastante os juros. Essa seria a resposta mais direta e mais natural, pois o Brasil não é um país que está em uma armadilha de liquidez. Além da política monetária, o BC vem perseguindo uma relevante agenda de redução dos juros para as pessoas e empresas, ainda altos na maioria dos casos. E algumas reformas feitas nos anos recentes, como a trabalhista, devem contribuir para um aumento do emprego.
O que a mídia pensa – Editoriais
O ‘clamor da sociedade’ – Editorial | O Estado de S. Paulo
O ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, sugeriu há algum tempo, em entrevista ao Estado, que o pacote de medidas de segurança pública encaminhado ao Congresso pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro, não avançou como o governo gostaria porque os parlamentares não levaram em conta o “clamor da sociedade”.
Subentende-se da declaração que, para o ministro Ramos, o Congresso teria aprovado o pacote do ministro Moro se estivesse mais atento às demandas dos cidadãos em relação à segurança pública. De fato, o problema da criminalidade e da sensação de violência nas grandes cidades tem frequentado o topo das preocupações da maior parte dos brasileiros, e é certo que providências devem ser adotadas com urgência para enfrentá-lo com firmeza. A questão é que o governo do presidente Jair Bolsonaro parece acreditar que tudo o que sai de sua lavra deve ser aprovado o mais rapidamente possível pelo Congresso, de preferência sem mudanças que desfigurem o projeto original. Afinal, conforme a lógica expressa na declaração do ministro Ramos, o que emana do governo é, em si, manifestação inequívoca do “clamor popular”, cuja fonte de legitimidade seriam os quase 58 milhões de votos obtidos por Jair Bolsonaro ao se eleger presidente.
Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Aparição amorosa
Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.
Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.
Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? a massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma idéia platônica no espaço?
O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.
Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.
Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.
Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? a massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma idéia platônica no espaço?
O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.
Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.
quinta-feira, 26 de dezembro de 2019
Opinião do dia: Sérgio Abranches – Transgressões à democracia
• O que achou das declarações de Eduardo Bolsonaro e Paulo Guedes sobre AI-5?
"As menções ao AI-5 são feitas como ameaça. Nos dois casos referiam-se aos protestos do Chile e prometiam o AI-5 se ocorresse algo assim por aqui. Por outro lado, mostra que eles têm medo das ruas.
O mais importante são as muitas transgressões à democracia que o governo vem fazendo ou estimulado seus simpatizantes a fazer, como perseguições aos que pensam diferente, ameaças a professores que dão tópicos que eles consideram “ideológicos”; aparelhamento do estado para desmontar mecanismos de fomento à cultura e às artes; censura, que chamam de “filtragem” nas concessões para áreas de pesquisa; ameaças a funcionários que querem cumprir o seu dever, no Ibama e, no ICBMBio.
O ministro da Educação promete deixar as áreas de filosofia e ciências humanas sem apoio. Há muita vingança e retaliação por parte de membros do governo contra instituições nas quais não conseguiram entrar ou progredir por mérito. São inúmeras as ameaças à liberdade de expressão e à liberdade de cátedra. A tentativa de Bolsonaro de tirar a "Folha de S. Paulo" da licitação para renovar assinaturas, os ataques à TV Globo. Estão fazendo o país escorregar para o autoritarismo. Há risco institucional e, até agora, pouca reação articulada a essas ameaças."
José Serra* - Presidencialismo de colisão x parlamentarismo
- O Estado de S.Paulo
Precisamos alcançar, nos termos da Constituição, caminhos para enfrentar crises conjunturais
Os recorrentes embates entre o Executivo e o Congresso representam uma generosa fonte de incentivos para a reflexão sobre a mudança do sistema de governo em nosso país. Os exemplos desses embates são numerosos e não estão circunscritos aos mandatos atuais.
Tudo começa com a falta de entendimento entre o Executivo e os parlamentares que apresentam proposições para a solução de problemas nas mais diferentes áreas, que acabam sendo atropeladas por recursos que o governo utiliza heterodoxamente com o propósito de formar maioria. É esta maioria que lhe permite dar curso a seus projetos ou amenizar a fiscalização que poderia e deveria sofrer.
Nesse contexto, as saídas propostas pela sociedade (impeachment, por exemplo) para contornar as ondas de perda de credibilidade que recaem sobre o presidente tendem a transformar o nosso sistema de governo num verdadeiro presidencialismo de colisão. Penalizando o País, como trava ao nosso desenvolvimento.
Para a opinião pública, passamos a impressão de que nos dedicamos mais a aparar as arestas políticas do dia a dia do que a dar retorno positivo aos que depositaram em nós a confiança para resolver as dificuldades econômicas e sociais.
O parlamentarismo é uma convicção que carrego desde a época da Constituinte, partindo de um argumento fundamental: a necessidade de participação mais efetiva e responsável do Congresso na definição, implantação e controle das políticas governamentais. O presidencialismo favorece a situação oposta: a grande concentração do poder de decisão nas mãos do Executivo leva o Parlamento a sentir-se pouco comprometido, flertando constantemente com a polarização.
William Waack - A oportunidade
- O Estado de S.Paulo
Uma onda política sem precedentes abriu uma janela histórica
A década foi curta, parafraseando título famoso de livro de Eric Hobsbawm. Começou com a vitória do “dedaço” de Lula em 2010 (a primeira eleição de Dilma) e terminou com a onda disruptiva de 2018. Destaco essa onda, e seu resultado eleitoral, como o principal fato do período, sabendo muito bem que é impossível tomá-lo de forma isolada (mas nosso editor de Política, o Eduardo Kattah, disse que os colunistas só poderiam destacar um fato).
Ela alterou os rumos da política, destruiu figuras consolidadas, encerrou um período de capitalismo de Estado que produziu resultados catastróficos do ponto de vista econômico – mas, sobretudo, moral –, destruiu por período ainda imprevisível o chamado “centro” do eleitorado político, alterou o funcionamento do sistema de governo (com o Legislativo encurtando as prerrogativas do Executivo). Por último, expôs à sociedade o severo desafio que uma geração (a partir de 1988) não conseguiu enfrentar de forma satisfatória: o de diminuir a desigualdade, aumentar a prosperidade e encurtar a diferença que separa o País das economias mais avançadas.
José Pastore* - A classe média está espremida
- O Estado de S. Paulo
As tecnologias modernas têm criado no mundo poucos espaços para a ascensão dos profissionais na pirâmide social
Nos últimos anos, além de substituir os trabalhos mais simples (de rotina), as novas tecnologias começaram a realizar muitas tarefas dos profissionais de classe média. Para eles, a educação convencional deixou de ser um passaporte para a ascensão social. Apesar de escolarizados, eles passaram a descer na escala social por não conseguirem entrar nas poucas e concorridas profissões sofisticadas de status mais alto.
O resultado final desse processo é a polarização do mercado de trabalho. As tecnologias modernas abrem espaços para poucas pessoas subirem na pirâmide social e fazem encolher as profissões de classe média. Ao fim, muitos profissionais são forçados a descer.
Nos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 1 em cada 6 profissionais de classe média está tendo a sua profissão eliminada pelas novas tecnologias. É um fenômeno que atinge liberais, técnicos em várias áreas, chefes, supervisores e outros. A maioria desce na escala social. Os que ainda resistem correm o risco de descer nos próximos anos (OECD, Under pressure: the squeezed middle class, Paris: OECD, 2019).
Zeina Latif* - Será que desta vez será diferente?
- O Estado de S. Paulo
A julgar pelo nosso passado, o risco a ser combatido é a complacência
Os anos 2010 se vão sem deixar saudades. O PIB per capita cresceu tímidos 0,5% ao ano – muito pouco para um País onde 60% dos trabalhadores ganham até 1 salário mínimo –, em meio ao aumento da pobreza e à piora da distribuição de renda.
As medidas demasiadas e equivocadas de estímulo já davam sinais de exaustão em 2010, pela inflação teimosa acima da meta e pela rápida deterioração das contas externas. Ajustes eram necessários para que a fartura não virasse indigestão. Além disso, a expectativa era de o País avançar nas reformas estruturais pró-crescimento. O que se assistiu, no entanto, foram retrocessos. Prometeu-se muito e entregou-se uma grave crise.
Dilma preferiu ignorar os “sinais vitais” da economia e dobrou irresponsavelmente a aposta, em meio a muito intervencionismo estatal e ingerência em órgãos e empresas públicas. Para citar alguns dos equívocos, os bancos públicos, menos eficientes e sujeitos a pressão política, tornaram-se mais importantes na concessão de crédito do que os bancos privados e políticas setoriais equivocadas foram feitas aos montes. Os resultados foram investimentos economicamente inviáveis e a rápida deterioração das contas públicas, mascarada por truques contábeis.
Ricardo Noblat - O amargo presente de Natal que Bolsonaro deu a Sérgio Moro
- Blog do Noblat | Veja
Caberá ao Supremo Tribunal Federal validar ou não a criação da figura do juiz das garantias
O presidente Jair Bolsonaro ainda não se recuperou da pancada na cabeça que levou ao cair no banheiro do Palácio da Alvorada. Sancionou a emenda do deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) ao pacote anticrime do ministro Sérgio Moro que criou a figura do juiz das garantias. A oposição ao governo no Congresso comemora.
Pergunta que desde ontem teima em ser feita: a criação da figura do juiz das garantias poderá de um modo ou de outro beneficiar o senador Flávio Bolsonaro, o Zero UM, encrencado com a Justiça desde que o Ministério Público do Rio descobriu que funcionários do seu antigo gabinete de deputado devolviam parte dos salários?
Por duas vezes em um período de menos de 12 horas, Moro registrou sua contrariedade com o ato de Bolsonaro. Da segunda vez foi mais direto:
– Sancionado hoje o projeto anticrime. Não é o projeto dos sonhos, mas contém avanços. Sempre me posicionei contra algumas inserções feitas pela Câmara no texto originário, como o juiz de garantias. Apesar disso, vamos em frente.
Caberá ao Supremo Tribunal Federal validar ou não a criação da figura do juiz das garantias
O presidente Jair Bolsonaro ainda não se recuperou da pancada na cabeça que levou ao cair no banheiro do Palácio da Alvorada. Sancionou a emenda do deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) ao pacote anticrime do ministro Sérgio Moro que criou a figura do juiz das garantias. A oposição ao governo no Congresso comemora.
Pergunta que desde ontem teima em ser feita: a criação da figura do juiz das garantias poderá de um modo ou de outro beneficiar o senador Flávio Bolsonaro, o Zero UM, encrencado com a Justiça desde que o Ministério Público do Rio descobriu que funcionários do seu antigo gabinete de deputado devolviam parte dos salários?
Por duas vezes em um período de menos de 12 horas, Moro registrou sua contrariedade com o ato de Bolsonaro. Da segunda vez foi mais direto:
– Sancionado hoje o projeto anticrime. Não é o projeto dos sonhos, mas contém avanços. Sempre me posicionei contra algumas inserções feitas pela Câmara no texto originário, como o juiz de garantias. Apesar disso, vamos em frente.
Maria Cristina Fernandes - Contra a polarização, surge um roteiro torto
- Valor Econômico
Para a maior aposta da terceira via, a corrupção é um defeito de fábrica do brasileiro
A soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva reacendeu, no maior partido de oposição, a expectativa de que seria capaz de dar sobrevida à polarização. Para consumo público, o #LulaLivre foi trocado pelo #VoltaLula. Entre quatro paredes, os petistas reconhecem que as condenações e processos judiciais que o ex-presidente enfrenta dificilmente lhe deixarão ser candidato em 2020, mas exibem a certeza de que Lula será capaz de pautar a agenda da oposição e ungir o nome petista para a sucessão. A maratona jurídica que o ex-presidente tem pela frente, porém, é apenas um dos fatores que concorrem para tirar o fôlego da polarização.
A existência de um segundo turno favoreceu a que as oito eleições presidenciais desde a redemocratização tenham levado a disputas finais entre PT e anti-PT. Na primeira delas, em 1989, o conjunto de alternativas, liderado por Leonel Brizola (PDT), somou metade dos votos válidos no primeiro turno. No outro extremo, em 2006, a reeleição de Lula levou ao ápice da polarização. As demais candidaturas amealharam menos de 10% dos votos válidos.
De lá para cá, a aposta numa terceira via só cresceu. E, em 2018, atingiu um quarto dos votos válidos. Uma parte vem do antipetismo recalcitrante. Outra, do próprio PT. Se a centralidade de Lula parece incontornável, o discurso não o é. Hoje a estratégia do partido parece focada na associação do presidente Jair Bolsonaro, ora às milícias, ora às ameaças à democracia. Não é preciso acreditar que Fabrício Queiroz, ex-assessor do presidente, seja um vendedor de carros usados de sucesso, ou que os Bolsonaro tenham a Constituição como descanso de tela para constatar que a estratégia tem fôlego curto.
Fabio Graner - Salário mínimo, um dilema para Guedes
- Valor Econômico
Com base em argumentos principalmente fiscais, aumento real do piso salarial oficial do país encontra forte resistência na área econômica do governo
Em recente entrevista, o ministro da Economia, Paulo Guedes, aparentou flertar com a ideia de dar aumento real para o salário mínimo em 2020. Diante dos jornalistas, chegou a pedir para o secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, fazer a conta de quanto seria o impacto adicional de subir 1% acima da inflação. Um tanto constrangido, Waldery informou: R$ 4,5 bilhões. Guedes evitou se comprometer, mas disse que tomaria uma decisão até o próximo dia 31.
Apesar do aceno do ministro, nos bastidores da área econômica há forte resistência à ideia, o que dificulta seu avanço. As preocupações maiores são de natureza fiscal, pelo impacto direto na Previdência e outras despesas indexadas. Mas os interlocutores do governo ouvidos pelo Valor também levantaram questionamentos sobre se essa seria a melhor política distributiva e para o mercado de trabalho.
“Aumento do salário mínimo tem impacto relevante nas contas públicas, devido ao fato de haver várias despesas indexadas. Na atual restrição fiscal, qualquer aumento de despesa implica maior dificuldade para estabilizar a dívida, bem como a necessidade de reduzir alguma outra despesa para reequilibrar o orçamento”, comenta uma fonte. “Geralmente será necessário reduzir investimentos ou outras despesas discricionárias, com impacto negativo na oferta de serviços públicos”, completa.
Outro interlocutor aponta que o salário mínimo no Brasil seria relativamente alto, considerando o universo de pobreza do país. “Se colocássemos cem brasileiros enfileirados, aquele que recebe o salário mínimo estaria na posição 72 ou 73, mais perto dos mais ricos”, explica a fonte. Esse mesmo integrante do governo lembra que quando começou a era Lula, em 2003, estava abaixo de 40% da “renda mediana”.
Merval Pereira - Em causa própria
- O Globo
Se indulto visa a atender base eleitoral, sanção de pacote anticrime pode beneficiar Flávio Bolsonaro
As surpresas natalinas que Bolsonaro deu aos brasileiros, ao assinar indulto que, por vias tortuosas, coloca em vigor o excludente de ilicitude para os agentes de segurança, que fora barrado pelo Congresso, e também permitir a instalação do juiz de garantias que o ministro Sergio Moro havia pedido que vetasse, dão bem a dimensão pessoal com que o presidente lida com questões de Estado.
Ele também sancionou a limitação da delação premiada ao caso em investigação, restringindo, assim, sua abrangência. Não é à toa que ontem a hashtag Bolsonaro traidor foi das mais comentadas.
O indulto a policiais e agentes de segurança condenados por homicídio culposo, isto é, sem intenção de matar, e a soldados que, participando de ações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), tenham tido o mesmo fim, é uma maneira que o presidente Bolsonaro encontrou de suplantar a vontade expressa do Congresso, que rejeitou o excludente de ilicitude no pacote proposto pelo ministro Sergio Moro.
O subprocurador-geral da República, Domingos Sávio da Silveira, coordenador da Câmara de Controle Externo da Atividade Policial da Procuradoria-Geral da República (PGR), considera que este é um dos pontos inconstitucionais do indulto, que classificou, em declaração ao GLOBO, de um “ornitorrinco jurídico”, um “excesso de poder” por parte do presidente.
Para o subprocurador, Bolsonaro confundiu a clemência com o indulto individual, que é o instrumento da graça, previsto na Constituição. O presidente cogitou usá-lo para beneficiar os policiais condenados pelos massacres do Carandiru e de Eldorado dos Carajás, mas foi desaconselhado.
Bernardo Mello Franco - A maior derrota de Sergio Moro
- O Globo
A criação do juiz de garantias foi uma resposta direta à atuação de Sergio Moro na Lava-Jato. A novidade “acaba com o jeito Moro de julgar”, diz o petista Paulo Teixeira
A criação do juiz de garantias é a maior derrota imposta a Sergio Moro desde que ele abandonou a toga para entrar na política. O ministro da Justiça já havia sido contrariado outras vezes pelo Congresso e pelo próprio chefe. Mas a nova figura jurídica, sancionada na véspera do Natal, é uma resposta direta à sua atuação na Lava-Jato.
“É uma grande ironia. No chamado pacote Moro, foi aprovada uma medida que acaba com o jeito Moro de julgar”, diz o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), um dos autores da proposta sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro. “Muitas vezes, o juiz que determina as medidas cautelares perde a imparcialidade e contamina sua atuação. Foi o que aconteceu na Lava-Jato”, afirma o petista.
Ascânio Seleme - Ataque à inclusão
- O Globo
Luta do ‘good doctor’ é igual à de milhões de pessoas
Quem já viu episódios da série “The good doctor”, em cartaz na TV Globo e no Globoplay, sabe que a famosa frase “de onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo” é mais falsa do que nota de três reais. O autor da frase, Apparício Torelly, o conhecido Barão de Itararé, não conheceu o médico residente Shaun Murphy, personagem que dá título ao seriado. Shaun é autista, não é capaz de responder a qualquer pergunta feita diretamente a ele, mas consegue manter alguns diálogos. Todos muito difíceis e tortuosos. À primeira vista, não se pode mesmo esperar nada dele.
Ocorre que, conforme a severidade do transtorno, autistas conseguem desenvolver diversas habilidades. A condição comportamental e neurológica do portador do transtorno é caracterizada pela dificuldade em interagir socialmente, sobretudo em razão da sua reduzida capacidade de comunicação verbal. Ele desenvolve também manias restritivas e repetitivas, que muitas vezes geram obsessão. Obviamente, os portadores desse transtorno não são pessoas fáceis de lidar, mas nem por isso são incapazes. Em alguns casos, podem até ser melhores no exercício de uma atividade por ter foco absoluto nela.
Luis Fernando Veríssimo - Obrigado, Joana
- O Globo / O Estado de S. Paulo
Greta está fazendo história e barulho com seu ativismo idealista
Greta Thunberg é a pessoa do ano para a revista “Time”. A ambientalista sueca é uma das poucas adolescentes a sair na capa da revista que todos os anos destaca uma personalidade mundial notável por fazer história ou apenas fazer barulho. Tempos atrás, uma capa com Greta ou similar seria impensável. Para começar, a escolha era sempre do Homem do Ano, nunca a Mulher do Ano, muito menos uma mulher com 16 anos. E os editores responsáveis pela escolha da personalidade para botar na capa anual tinham que convencer leitores de que “personalidade” não queria, necessariamente, dizer herói e notável não significava aprovado. Osama Bin Laden foi capa da “Time”. E os editores não precisavam de outro exemplo: o Homem do Ano da “Time” em 1938 foi Adolf Hitler.
Míriam Leitão - Riscos ambientais atravessam o ano
- O Globo
Dados mostram que pode ter novo aumento do desmatamento em 2020. Maior risco dos desatinos da agenda contra o meio ambiente recai nos indígenas
Foram tantos desatinos ambientais ao longo de 2019 que é difícil esperar boas novas para o ano que vem nesta área. As estatísticas de desmatamento dos quatro meses de agosto a novembro já pertencem a 2020. E nesses meses a destruição aumentou 100%. Há para o ano que vem um enorme risco de novo desastre. “O Brasil entrou pequeno na COP 25 e saiu minúsculo”, diz um participante da Conferência. O ano ambiental do Brasil superou as piores expectativas, porque acreditava-se que o bom senso iria se impor num país que depende da boa imagem para ter mercados para o seu agronegócio.
No início do ano havia previsão de que a retórica agressiva e atrasada iria ceder, nem que fosse por cálculo. Não cedeu. Houve queimadas, aumento do desmatamento, fake news divulgadas pelo próprio governo, inação diante do desastre do petróleo nas praias, demissão injusta no INPE, briga com a ciência, incentivo a garimpeiros, leis generosas com grileiros, desmonte do Fundo Amazônia, morte de líderes indígenas e o país assumindo o papel de vilão na COP, que fora inicialmente prevista para ser realizada no Brasil.
A bancada ruralista comemorou o bom ano em que teve dois ministros da Agricultura e nenhum do Meio Ambiente. Em que liberou-se um volume de agrotóxico recorde, e várias leis aprovadas o beneficiaram. É vitória de curta duração e de visão estreita. O consumidor está mudando mais rapidamente do que se previa. Conversei com pessoas que foram a Madri e que são veteranas em conferências do clima. O que eles disseram é que a vibração e a mobilização da sociedade ficou muito mais intensa desta vez. Não é onda passageira, por causa do encontro, tanto que a expressão “emergência climática” foi um dos termos mais usados em 2019.
Maria Hermínia Tavares* - Por que Moro é popular
- Folha de S. Paulo
Ex-juiz tem respostas simples, e erradas, para a corrupção política e a segurança dos cidadãos
O ministro da Justiça, Sergio Moro, é a mais bem avaliada figura pública entre aquelas que a pesquisa XP-Ipespe acompanha periodicamente. Numa escala de 0 a 10, os entrevistados lhe atribuíram nota média 6,2, superior a de seu chefe Jair Bolsonaro, com 5,4, e do principal inimigo de ambos, Luiz Inácio Lula da Silva, com 4,9.
Seu prestígio resistiu às devastadoras revelações do site The Intercept sobre o facciosismo com que agiu, não raro na contramão da lei, como juiz da Operação Lava Jato. Resistiu também à sua apagada atuação como ministro submisso aos devaneios autoritários do presidente, e à derrota que lhe impôs o Congresso, ao desmanchar boa parte de seu pacote anticrime.
A popularidade de Moro resulta das suas respostas simples —e erradas— a dois problemas que tocam fundo os brasileiros comuns e para aos quais nem os passados governos progressistas nem as forças de centro e esquerda deram atenção devida, incapazes de formular discursos críveis e soluções compatíveis com o respeito mínimo aos direitos individuais. Tais problemas, como se sabe, são a corrupção política e a segurança dos cidadãos.
Vinicius Torres Freire - Bolsonaro e a nova questão religiosa
- Folha de S. Paulo
Em um país com mais conflitos de religião, presidente leva assunto para o Planalto
A União, os estados, o Distrito Federal e os municípios não podem “estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança”, diz o artigo 19 da Constituição.
No seu pronunciamento de Natal, em cadeia de rádio e televisão, Jair Bolsonaro (sem partido) disse que acredita em Deus, afirmação em si inócua. Discursou ao lado da mulher, que usava uma camiseta com a inscrição “Jesus”. Michelle Bolsonaro não exerce função pública remunerada, mas preside o Conselho do Programa Nacional de Incentivo ao Voluntariado, o “Pátria Voluntária”, criado por decreto presidencial em julho deste ano e vinculado ao Ministério da Cidadania.
A Carta de 1988 não trata da relação da pessoa do presidente com religiões, nem está explícito se ou quais atos do presidente podem implicar “relações de dependência ou aliança” da União com cultos religiosos e igrejas.
Roberto Dias - Bandeira vermelha
- Folha de S. Paulo
Praias do país registram maior incidência de sujeira dos últimos quatro verões
É incrível a mudança de percepção sobre o litoral no imaginário humano ao longo da história.
A praia era antes um lugar amedrontador, como narra Alain Corbin em “The Lure of the Sea: The Discovery of the Seaside in Western World” (“O Fascínio do Mar: a Descoberta do Litoral no Mundo Ocidental”, em tradução livre). Tornou-se uma atração a partir do século 18 —as elites europeias começavam a ter preocupações com saúde e atividades ao ar livre.
Hoje em dia, o encanto da água salgada ignora fronteiras culturais ou de hemisférios. Prova disso são as imagens de chineses lotando pedaços de areia ou a estreia do surfe como esporte olímpico no Japão, no ano que vem. Poucos hábitos são tão universais quanto aproveitar a praia.
Bruno Boghossian – Os brasileiros
- Folha de S. Paulo
Retomada do PIB e distribuição de renda agem como vetores diferentes sobre eleitor
Steve Werner já votou no Partido Democrata, mas fez campanha para Donald Trump em 2016. Ele era um dos trabalhadores que, diante de dificuldades econômicas, entraram em greve numa fábrica de caminhões da Pensilvânia, em outubro.
Sem ligar para os dados que indicavam um aumento da desigualdade nos EUA, o operário estava convencido de que era preciso dar mais quatro anos para o presidente americano. Ele disse aos repórteres Marina Dias e Lalo de Almeida que, num segundo mandato de Trump, todos os americanos começariam a sentir os benefícios da melhora da economia.
Personagens da série “Os Americanos”, da Folha, mostram que o crescimento econômico e a distribuição de renda agem como vetores diferentes em determinados grupos do eleitorado. Num Brasil em recuperação, esses elementos também estarão no centro do debate político.
A oposição fez sua aposta. Lula e outros líderes de esquerda sabem que Jair Bolsonaro deve ser favorecido pela melhora gradual no PIB. Eles investem, então, na ponta da distribuição desse crescimento.
Mariliz Pereira Jorge - Mais três anos
- Folha de S. Paulo
Já se passou um ano deste governo ignóbil, mas ainda restam três
Ótima notícia sobre 2019: já se passou um ano deste governo ignóbil. A ruim: ainda restam três. Mais três anos que a mamata acabou, menos o filé mignon das crianças. Um Gabinete do Ódio pro filho do meio, alguma bocadinha pro Dudu, uma opressãozinha no Ministério Público pro primogênito. Tudo pelo Bolso Família.
Teremos mais três anos de um presidente terrivelmente reacionário, homofóbico e machista. Haverá comemoração do golpe de 1964, exaltação da ditadura, ameaça a todos os tipos de ativismos, discursos violentos contra minorias e deve sobrar para índios, árvores e mães. Ele ganhou, porra!
Mais três anos em que a Constituição que garante um país laico será pisoteada. Deus, ou seja lá quem, nos salve do Estado Evangélico. Faz a conta. Três anos de um governo que tem como método intimidação, linchamentos virtuais, assassinatos de reputação contra críticos, adversários e imprensa. Três anos de fake news com cara de nota oficial.
O que a mídia pensa – Editoriais
Diplomacia da camaradagem – Editorial | O Estado de S. Paulo
Quase todas as decisões adotadas pelo presidente Jair Bolsonaro na condução da política externa deram em nada ou impuseram severos prejuízos, sejam os de ordem econômica, sejam os danos à imagem do Brasil no exterior.
O fiasco da diplomacia brasileira observado neste ano era totalmente previsível porque o presidente da República erra no básico e não emite qualquer sinal de que está disposto a aprender com seus erros. Jair Bolsonaro crê que a relação entre as nações se estabelece por meio da afinidade pessoal e ideológica entre chefes de Estado, e não pela concertação dos interesses em jogo em uma complexa trama comercial e geopolítica. Ou seja, o presidente Bolsonaro trata o que é um mero facilitador na aproximação entre lideranças internacionais como princípio orientador de suas ações.
A opção pelo alinhamento praticamente automático ao presidente norte-americano, Donald Trump, parece ser a linha mestra da política externa do governo Bolsonaro. Na visão do presidente, isso implicaria resultados que nenhum outro governo antes dele conseguiu produzir, como o ingresso do Brasil na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a abertura do comércio entre os dois países. De fato, Donald Trump apoiou a entrada do Brasil no chamado “clube dos ricos”, mas tratou-se de um apoio vago, sem a definição de prazo ou condições para que o pleito do País fosse de fato analisado. Na verdade, Trump optou por dar preferência aos interesses argentinos no âmbito da OCDE, em detrimento dos brasileiros.
Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Amor é bicho instruído
Amor é bicho instruído
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
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