segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Por que o PT pode amargar a mesma sina do PSDB? - Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A visibilidade alcançada em escândalos de corrupção ajuda no declínio

Os resultados eleitorais pífios do PT exigem uma reflexão mais ampla sobre seu significado. Uma das razões da perplexidade diz respeito ao chamado "efeito incumbência", que foi praticamente nulo nas eleições. O que, registre-se, não aconteceu com o PSDB, em sua trajetória de declínio terminal. O número de prefeituras conquistada pelo PT é irrisório; 4/5 delas estão em pequenos municípios no Nordeste. Um município —Fortaleza— responde pela maior parte da população a ser governada, mas o prefeito eleito se filiou ao partido em 2023, após três mandatos pelo PDT. O fato de que Lula foi eleito em 2022 obscureceu o brutal enfraquecimento do partido no Congresso e na sociedade em geral.

O declínio do PT e do PSDB interessa não só porque vertebraram a competição política por duas décadas: trata-se dos únicos partidos programáticos "presidenciáveis" do país. O percentual de votos combinados das duas siglas no primeiro turno foi de 44% (1989), 85% (1994 e 1998), 70% (2002), 90% (2006) e 80% (2010) e 75% (2014). Até 1998 ganharam centralidade no sistema partidário, que ganhava musculatura. Entre 1989 e 1998, os três maiores partidos expandiram sua participação no total das cadeiras de 46% a 56% do total; mas a partir deste ano cai monotonicamente: 48% (2002), 46% (2006), 42% (2010), 37%(2014) e 28% (2018).

Eleições americanas e o Brasil - André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Se Trump for eleito, uma das primeiras ações será anistiar os responsáveis pela invasão do Congresso. No Brasil, esse ato será compreendido como incentivo para anistiar o pessoal que invadiu as sedes dos Três Poderes

A eleição nos Estados Unidos não é nacional. O processo resulta de várias eleições estaduais, cada uma com a própria característica. Em cada estado, a cédula de votação, que pode ser de papel ou eletrônica, oferece diversas opções ao eleitor que vota no presidente e nas várias escolhas que ocorrem no mesmo dia, uma terça-feira. Até temas comunitários aparecem nas cédulas. Por essa razão, fazer pesquisa eleitoral nos Estados Unidos é algo muito perigoso. Os institutos já erraram muito. 

Na eleição de Donald Trump, o país dormiu achando que Hillary Clinton tinha sido eleita, mas seu opositor conseguiu vencer nos estados com maior número de delegados. Ele perdeu no voto popular, mas venceu no Colégio Eleitoral. Trump perdeu, mas ganhou. Difícil de explicar, mas o jogo é esse. Agora, ocorre o mesmo fenômeno. Kamala Harris tem um ou dois pontos de vantagem sobre Donald Trump, mas isso não significa nada. A vantagem é ganhar nos estados que elegem o maior número de delegados. Quem ganha, leva todos os votos do estado. Califórnia e Nova Iorque, que possuem grande número de delegados, são francamente favoráveis aos democratas. 

Poesia | Mundo Grande, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Simone - Deixa eu te amar

 

domingo, 3 de novembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O significado da disputa entre Kamala e Trump

O Globo

A eleição americana definirá o futuro não apenas da maior potência militar e econômica, mas de todo o planeta

Kamala Harris, vice-presidente dos Estados Unidos e candidata democrata à Presidência, fez o discurso culminante de sua campanha eleitoral na semana passada, no mesmo local em Washington de onde seu rival republicano, o ex-presidente Donald Trump, incitou a multidão que invadiu o Capitólio tentando reverter o resultado das eleições no fatídico 6 de janeiro de 2021. “Será provavelmente o voto mais importante que vocês jamais darão”, disse ela. “Esta eleição é mais que uma escolha entre dois partidos e dois candidatos diferentes. É uma escolha a respeito de o país ser enraizado na liberdade para todo americano ou governado pelo caos e pela divisão.”

É fato. Poucas eleições na História foram tão determinantes para o futuro dos Estados Unidos. Nesta, não está em jogo apenas a maior potência econômica e militar da Terra, mas o planeta todo. Kamala e Trump representam visões antagônicas em temas críticos como mudanças climáticas, criminalidade, direitos de minorias, aborto ou imigração. E as pesquisas não permitem arriscar quem vencerá. Em razão do convoluto sistema eleitoral, a decisão estará nas mãos de um punhado de eleitores de poucos distritos decisivos em seis ou sete estados. Para todos os efeitos, os dois têm chances equivalentes.

À deriva – Dorrit Harazim

O Globo

Difícil para Kamala tocar uma campanha convencional contra um adversário propositalmente desvairado

Onze horas da manhã em Nova York. Dias atrás, numa escola pública da Rua 56, entre a Segunda e Terceira avenidas de Manhattan, as aulas seguiam seu curso normal. Os alunos em aula nem sequer levantavam a cabeça para observar, através da porta envidraçada, as idas e vindas de estranhos em direção à quadra da esportes. Eram na maioria mulheres indo votar antecipadamente. Do portão de entrada até o local das urnas, dezenas de voluntários — novamente mulheres, na maioria — agradeciam o comparecimento de quem chegava e forneciam a absurda cédula em papel, trilíngue (inglês, espanhol, chinês), que mais parece um cardápio de vinho metido a chique. Tudo na maior calmaria, pontuado por discretos acenos de cabeça indicando esperança na sororidade pró-Kamala Harris.

Não longe dali, a livraria Barnes & Noble da Quinta Avenida expunha em espaço nobre um best-seller que fez barulho sete anos atrás: “On tyranny”, do historiador Timothy Snyder. Nele, o professor de Yale e Prêmio Hannah Arendt elenca 20 lições sobre tirania no século XX a ser aprendidas em tempos presentes. Escrito pouco depois da traumática vitória de Donald Trump à Presidência em 2016, a obra voltou a ganhar urgência e relevância. Ensinamento do primeiro capítulo desse chamamento à razão e guia de preservação de liberdades em tempos de incerteza: “Não obedeça antecipadamente”.

O pesadelo americano - Míriam Leitão

O Globo

O resultado das eleições americanas é incerto, assim como o futuro da democracia do país, caso Donald Trump vença

A democracia americana foi durante muito tempo um modelo de solidez. Não é mais. As regras da economia americana sempre foram vistas como símbolo liberal. Não são mais. O país sempre cultuou o “sonho americano”, um lugar onde um imigrante, um pobre, poderia construir, com seu trabalho, a prosperidade. Não é mais bem assim. Está às portas da Casa Branca um homem que não reconheceu a derrota eleitoral, mandou seus seguidores invadirem o Congresso, promete fechar a economia, se faz acompanhar de um empresário que distribui dinheiro a eleitores, ameaça cassar concessões de televisão e promete deportação em massa de imigrantes. Esse pesadelo pode se tornar realidade a partir de terça-feira.

Trump avisou - Bernardo Mello Franco

O Globo

Chamado de fascista por seu ex-chefe de gabinete, republicano ameaça usar o aparato de Estado para perseguir e esmagar adversários políticos

Donald Trump já avisou: se voltar à Casa Branca, vai usar o aparato do Estado para perseguir e esmagar adversários políticos. Na reta final da campanha, o republicano elevou o tom das ameaças. Disse que o “inimigo interno” ofereceria mais perigo aos Estados Unidos que a Rússia ou a China.

O ex-presidente fincou sua nova candidatura numa plataforma de vingança. Quer acertar contas com políticos, militares e servidores que se opuseram a seu projeto autocrático. Nas palavras do general John Kelly, seu ex-chefe de gabinete, Trump deseja retornar com poderes de ditador. “Sem dúvida, ele se enquadra na definição geral de um fascista”, resumiu o militar da reserva.

Entre Trump e Maduro, Lula marcha para o centro - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Passada as eleições municipais, a força do governo para realizar sua agenda está diretamente relacionada à expectativa de poder em 2026.

Placas tectônicas são pedaços da crosta terrestre, a litosfera, que flutuam sobre o magma; acima delas, estão os continentes e oceanos; eventualmente, se movimentam e se encaixam como peças de um quebra-cabeça. No jargão da política, essa analogia geológica serve para sinalizar aproximações ou afastamentos entre seus protagonistas, como estão acontecendo na geopolítica política internacional e no ambiente político interno.

Esses movimentos podem ser convergentes, quando se movem uma contra a outra, ou divergente, quando se afastam, ou transformadores, quando se movem vertical ou paralelamente. As consequências são os vulcões, terremotos e tsunamis; ou a formação dos continentes, mares e cadeias de montanhas.

União pela segurança - Merval Pereira

O Globo

Os governadores que são contra a proposta de emenda constitucional (PEC) têm medo de uma ingerência do governo federal nas polícias. É uma visão conspiratória

A PEC da Segurança é uma iniciativa importante do governo. Gostei da posição do presidente Lula, que assumiu pela primeira vez enfaticamente o papel do governo central de coordenar as ações nacionais de segurança pública. O sistema de informação Integrada no Brasil inteiro é fundamental para combater o crime organizado, que está cada vez mais nacionalizado. O Rio, por exemplo, virou lugar de proteção de bandidos procurados de outros estados. E nós temos que ter também uma relação nacional de segurança e informação, ou vamos perder cada vez mais territórios para o crime organizado.

Os governadores que são contra a proposta de emenda constitucional (PEC) têm medo de uma ingerência do governo federal nas polícias. É uma visão conspiratória de que Lula está fazendo isso para ter controle das polícias e do país. Não creio que seja isso, acho que afinal caiu a ficha de que a situação é muito ruim. E é possível regulamentar a questão da ingerência, colocando limites; o que não pode é cada estado ficar se defendendo, ou não se defendendo, por conta própria , de um esquema que já é até internacional.

O governo tem condições de montar um esquema de informação em que os estados transfiram e troquem informações com o centro de operações, para um combate mais efetivo. O sistema único de segurança pública, criado quando Raul Jungman era ministro da Segurança Pública no governo Temer, foi muito bem pensado e planejado, para fazer combate ao crime de maneira mais firme e mais ampla. Agora precisamos dar um passo adiante, regulamentando essa PEC. O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, colocou novamente o tema em debate, quando ressaltou que o modelo de segurança previsto pela Constituição se alterou diante das novas dinâmicas do crime, e não é mais possível manter a compartimentalização de atribuições entre os diferentes níveis da Federação.

Lula faz uma reunião inútil - Elio Gaspari

O Globo

Presidente organizou encontro com governadores para encaminhar seu projeto de reforma da política nacional de segurança pública

Lula organizou na quinta-feira uma reunião com governadores para encaminhar seu projeto de reforma da política nacional de segurança pública. Para seu gosto, foi um êxito, pois adora reuniões, e todos os presidentes que gostam de eventos, sonham com pactos. Foi uma solene inutilidade.

A proposta do ministro Lewandowski tem um lado positivo em tese, e outro discutível na prática. Em tese, a unificação dos sistemas de informação é uma boa ideia. Vale lembrar que outra boa ideia, a do cartão nacional de saúde do SUS, com os dados pessoais e médicos das pessoas, veio do século passado e só agora ficou de pé. No caminho, aconteceu de tudo em outros governos, inclusive a compra de equipamentos que não saíram das caixas.

Hora da decisão - Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Eleitores mulheres, negros e latinos podem fazer falta a Kamala na eleição deste ano

Pesquisas não indicam favoritismo na eleição dos EUA. A rejeição a Donald Trump é maior do que a de Kamala Harris, que tem arrecadado mais doações. Indicadores menos visíveis favorecem Trump: o registro de eleitores e a distribuição dos votos antecipados, além da impopularidade de Joe Biden.

As doações são um termômetro do humor do eleitorado e um impulso para comerciais de TV. Kamala arrecadou US$ 1,2 bilhão e Trump, US$ 700 milhões. Os Estados realizaram uma checagem de integridade nas listas de eleitores registrados, para eliminar inconsistências, que resultou na redução de 121 para 118 milhões de habilitados a votar. Os democratas perderam 3,5 milhões de eleitores registrados; os republicanos ganharam 141 mil.

Na Pensilvânia, que detém o maior número de cadeiras no colégio eleitoral entre os Estados-chave, 19, desde a última eleição presidencial o número de democratas registrados caiu 320 mil, enquanto o de republicanos diminuiu apenas 1.400.

Bolsonaro que se cuide! - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

De olho em 2026, governadores de direita viram as costas até para debate de segurança

Na mesma semana, ou melhor, no mesmo dia, os dois assassinos de Marielle Franco e Anderson Gomes foram condenados por júri popular, no Rio, e o presidente Lula e representantes do Judiciário e do Legislativo se reuniram com governadores, em Brasília, para discutir um pacote antiviolência, tão fundamental para um País com legislação ultrapassada e mergulhado numa séria crise de segurança pública.

Apenas quatro dias das eleições municipais, porém, a polarização nacional voltou com tudo. Nada justifica que governadores de oposição a Lula tenham se negado a participar de um debate que não é partidário e ideológico, mas de interesse do Brasil, dos Estados e da população pela qual eles são responsáveis. O crime organizado é nacional, até transnacional.

Governança Democrática e Sustentabilidade Municipal - George Gurgel de Oliveira

Passadas as eleições, prefeitos e vereadores eleitos, agora é hora de governar. O que seria, atualmente, uma Governança Democrática Municipal no Brasil?

O conceito de Governança Democrática aqui se relaciona com a política e a gestão pública na perspectiva da sustentabilidade municipal e regional. Uma análise da política e da gestão pública dos municípios brasileiros em geral deve considerar a realidade econômica, social e ambiental desses territórios.

Atualmente, o Brasil possui 5.570 municípios distribuídos, de acordo com o IBGE, pelos 26 estados da Federação: são 1.793 no Nordeste, 1.668 no Sudeste, 1.191 no Sul e 467 no Centro-Oeste. As regiões Sul e Sudeste, as menores do País, têm juntas mais de 51% dos municípios. Minas Gerais concentra o maior número deles (853), seguida de São Paulo (645). No outro extremo, os estados localizados na região norte são os que possuem o menor número deles, apesar da grande extensão territorial: Amazonas (62), Rondônia (52), Acre (22), Amapá (16) e Roraima (15). O mais populoso é São Paulo com mais de 11 milhões de pessoas e o de menor população é Serra da Saudade, em Minas Gerais, com apenas 831 habitantes.

A maioria dos municípios brasileiros enfrentam problemas de custeio e contam apenas com as cotas constitucionais, insuficientes para sua existência. As administrações municipais não conseguem atender às expectativas de suas populações, excluídas dos seus direitos constitucionais básicos, a saber: moradia, educação, saúde, saneamento, segurança, mobilidade, trabalho e renda.

O que dizem (e não dizem) as eleições municipais? - Elimar Nascimento*

Revista Será? 

A ideia de que as eleições municipais indicam o caminho das eleições nacionais é falsa, pelo menos parcialmente. O MDB e o PFL controlaram por muitos anos, principalmente o primeiro, as prefeituras do país sem jamais alçarem-se à presidência. O segundo partido chegou à presidência como resultado do acidente com o presidente eleito Tancredo Neves, em 1985. O primeiro chegou à Presidência graças ao impeachment que sofreu a presidente eleita, Dilma Rousseff, em 2016. Por isso, PSD e MDB, que foram os grandes vencedores eleitorais, se não tiverem uma liderança nacional relevante (e aparentemente não têm), ocuparão lugar de destaque, mas na segunda fila.

A lógica que rege a motivação eleitoral no nível local é muito distinta daquela que caracteriza as eleições estaduais ou nacionais. E, por vezes, o poder ou engajamento dos prefeitos nessas eleições pesa muito pouco.

A vitória da direita e do centro-direita, formada por PSD, MDB, União Brasil, Republicanos, entre outros, é insofismável. A extrema-direita, composta pelo PL, Novo e PP (que se afasta devagarinho de Bolsonaro), cresceu, mas menos do que se esperava. O partido que mais cresceu foi, de longe, o PL, mas ocupa o quinto lugar em municípios e o terceiro em eleitores.

Vida brutal de Trump ou império de Kamala – Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Republicano estimularia fragmentação e conflito global; democrata é mais do mesmo

Democratas do mundo inteiro torcem em desespero pela vitória de Kamala Harris. Se eleita, a candidata do Partido Democrata não vai reverter esta onda longa de degradação social e política, fora do controle até do poder de um império mais benevolente. Mas manteria no poder o establishment imperial mais comedido e racional, de resto com 10% de desconto social, o Partido Democrata e seus aliados na finança, na universidade ou na ciência em geral e em boa parte das "big" ("techs", "pharma" e outros gigantes tecno). De certo modo, é coalizão que vem desde Bill Clinton (1992-2001), em especial desde Barack Obama (2009-2017), com qualificações.

As consequências de Donald Trump são incertas, até se ele perder. Haveria guerra jurídica e tumulto na rua? Vitorioso, vai implementar seu programa? Plutocratas menos lunáticos do entorno de Trump dizem que não; pode haver revolta política; talvez o Congresso barre o pior.

O Mauro Cid de Trump sabe o que o chefe quer – Bruno Boghossian

Folha de S. Paulo

Plano de expurgo e concentração de poder é peça-chave para republicano governar como um autocrata

John McEntee chegou à Casa Branca em 2017 como o sujeito que carregava a pasta de Donald Trump. Tinha a confiança do presidente e uma mesa na antessala do Salão Oval. Era uma versão civil e turbinada de Mauro Cid, o notório ajudante de Jair Bolsonaro. Guardava segredos e seguia as ordens do chefe.

O auxiliar foi ganhando influência. Segundo a revista The Atlantic, McEntee fazia reuniões com advogados que trabalhavam para melar as eleições de 2020, coisa que alguns assessores se recusavam a fazer. Às vésperas da invasão do Capitólio, ele enviou ao gabinete do vice-presidente um documento que o incentivava a declarar a vitória de Trump —um tipo de minuta do golpe.

O tamanho do buraco identitário - Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

A racialização é um engano histórico, científico e cultural

Paris, fins do século 19, num conto de Guy de Maupassant, um lixeiro de origem camponesa se apaixona pela servente africana de um bistrô. Propõe-lhe casamento, que depende de aprovação dos pais, por isso ambos viajam ao campo. A mãe do noivo fica encantada com a futura nora, bonita além de prendada nas artes domésticas. Para apresentá-la à aldeia, passeiam de mãos dadas. Mas os vizinhos se assustam, as janelas se fecham. A matriarca nega ao filho o consentimento. Sempre apaixonado, ele se lamenta tempos depois, perguntando à mãe se o obstáculo tinha sido a cor da jovem. Responde a camponesa: "Não porque ela fosse negra, meu filho, mas era negra demais".

Autocracia S.A. - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro sustenta que dirigentes autoritários de diferentes países colaboram uns com os outros como se fossem um aglomerado empresarial

Não é que exista uma sala do mal, onde tiranos inspirados em vilões de filmes de James Bond se reúnem para conspirar contra o mundo livre, mas líderes autocratas estão se organizando e colaborando uns com os outros num modelo próximo do de aglomerados empresariais. Essa é a tese de "Autocracia S.A.", de Anne Applebaum.

Sobe e desce, desce e sobe – Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Alguns filmes e diretores melhoraram com o tempo; outros pioraram. É possível isso?

Uma olhada de relance pelas reportagens que anunciam mostras e retrospectivas de cinema, e constato o que sempre suspeitei: certos filmes e diretores "melhoram" com o tempo e se tornam xodós; outros "pioram" e vão perdendo prestígio e se evaporam até de museus e cinematecas. Acredito que isso não tenha a ver com a genialidade dos diretores ou com a qualidade de seus filmes. Eles continuam a ser o que sempre foram —quem muda somos nós, melhoramos ou pioramos.

'Vote para acabar com a era Trump', diz The New York Times em novo editorial

Folha de S. Paulo

Jornal americano volta a se manifestar sobre eleição nos EUA, após Washington Post anunciar que não endossaria nomes

O tradicional jornal americano The New York Times publicou neste sábado (2) mais um editorial em que defende o voto contra o ex-presidente Donald Trump na corrida pela Casa Branca.

Em um curto texto intitulado "Vote para acabar com a era Trump", o conselho editorial do jornal afirma que Trump não é adequado para liderar o país e é uma ameaça à democracia.

O texto está repleto de links que direcionam para outros artigos de opinião do mesmo jornal que criticam o ex-presidente. Um trecho, por exemplo, chama os eleitores a "ouvir aqueles que melhor conhecem ele [Trump]" e contém uma ligação que leva a um artigo que lista os ex-assessores do republicano que já fizeram declarações públicas contra ele.

"A corrupção e a ilegalidade de Trump vão além das eleições: é todo o seu éthos. Ele mente sem limites. Se for reeleito, o Partido Republicano não o conterá. Trump usará o governo para atacar opositores. Ele perseguirá uma política cruel de deportações em massa. Ele causará estragos nos pobres, na classe média e nos empregadores. Outro mandato de Trump prejudicará o clima, destruirá alianças e fortalecerá autocratas. Os americanos devem exigir mais. Vote", diz o texto do Times.

Poesia | Diálogo de todo o dia, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Roberta Sá - Amanhã é sábado

 

sábado, 2 de novembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Pente-fino no BPC é fundamental para desmascarar fraudes

O Globo

Apesar de tardia, é bem-vinda ideia de integrar programa a cadastro de benefícios sociais e ampliar exigências

Depois da descoberta de fraudes no auxílio-doença pago pelo INSS, o alvo do pente-fino que o governo tem passado sobre os gastos sociais agora é o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que paga um salário mínimo mensal a deficientes e idosos de baixa renda. Não é preciso ter contribuído à Previdência para receber o BPC, corrigido pelas mesmas regras generosas do salário mínimo.

Apenas neste ano, o BPC representará uma despesa de R$ 111,5 bilhões, um aumento de 20,3% sobre o gasto de 2023. No primeiro semestre, ele custou R$ 44,1 bilhões, alta de 19,8% em relação ao período em 2023. Os novos benefícios somaram 1,1 milhão nos primeiros seis meses de 2024, 40% acima do verificado no ano passado. Não há fila de espera que justifique o salto.

O terror do ataque ao Capitólio - Fareed Zakaria

O Estado de S. Paulo

Instituições americanas podem não resistir a uma nova tentativa de golpe

O pior do 6 de Janeiro foi ver o voto de 139 republicanos contra a certificação da eleição

Conforme a eleição se aproxima e as pessoas consideram os prós e os contras dos dois candidatos, tenho de confessar: para mim, um evento se destaca em luzes brilhantes, um acontecimento que não consigo esquecer: o dia 6 de janeiro de 2021. Não estou pensando muito na violência que eclodiu naquele dia, por mais terrível que tenha sido. Essas ações foram rapidamente condenadas por pessoas de todo o espectro político. Pelos democratas, é claro, mas também pelos republicanos, como o então líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, o senador Ted Cruz, a ex-governadora da Carolina do Sul Nikki Haley e o senador Lindsey Graham.

Para mim, o aspecto mais assustador do que aconteceu no 6 de Janeiro não foi o evento fora do Capitólio, mas o que aconteceu dentro dele – depois que a ordem foi restaurada. A Câmara se reuniu novamente naquela noite para certificar os resultados das eleições enviados pelos Estados. Lembre-se, isso foi depois que dezenas de objeções em muitos Estados foram consideradas e rejeitadas e dezenas de processos judiciais foram arquivados e rejeitados. Depois que todos esses procedimentos legais foram seguidos, após um ataque violento ao Capitólio, Donald Trump e seus aliados ainda instaram seus apoiadores a rejeitar os resultados, rejeitar o colégio eleitoral e, na prática, anular a eleição. E a maioria dos republicanos da Câmara – 139 deles – prontamente consentiu e votou contra a certificação da eleição. Se tivessem votos suficientes, bem, não sabemos o que teria acontecido.

Trump, fascista? – Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Discurso de ex-presidente configura desafio existencial à democracia americana

Na reta final, diante de uma coleção de pesquisas assustadoras, Kamala Harris reverteu aos sombrios alertas de Biden, desistindo da linha de reduzir Trump a uma figura "esquisita", "bizarra", quase risível. Nasceu daí a decisão de classificá-lo como "fascista" e, na sequência, através de terceiras vozes, a de traçar paralelos hiperbólicos entre o comício do rival no Madison Square Garden e a manifestação nazista, no mesmo local, em 1939, que exibiu no palco um retrato de George Washington emoldurado por suásticas.

Erro tático, concluíram analistas independentes e mesmo alguns estrategistas democratas. A radicalização retórica presta desserviço à imagem de candidata "unificadora" que Harris tenta projetar e a seu intento de persuadir eleitores indecisos. No fim, ela estaria submetendo-se às regras do jogo de um rival que aposta na desqualificação e no insulto. Mas, de fato, independente das conveniências da disputa por votos, seria verdadeiro o adjetivo? Trump deve ser, objetivamente, definido como fascista?

A primeira classe também cai - Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

O quadro infesto, praticamente sinônimo de estagnação, já deveria ser suficiente para meter medo, não fora toda a tragédia que ele oculta

A tortura de quem escreve para o público é a véspera, quando bate o fantasma da repetição. Desde anos atrás, toda a imprensa do mundo discorreu sobre um confuso conceito de “populismo” todos os dias do ano. Nomes como Nicolás Maduro (Venezuela), Daniel Ortega (Nicarágua), Viktor Orbán (Hungria), Recep Erdogan (Turquia) e Narendra Modi (Índia) se espicharam nos sofás de nossas salas e nada faz crer que tão cedo consigamos apontar-lhes o caminho da rua. A tentativa russa de massacrar a Ucrânia e a guerra de Israel contra os grupos terroristas mantidos pelo Irã vieram complementar e elevar à enésima potência a tortura do “populismo”.

A política dos parlamentares - Miguel Reale Júnior

O Estado de S. Paulo

Ao contrário da política dos governadores, hoje com o Centrão 2.0 e as emendas parlamentares realça-se o Legislativo e enfraquece-se o Executivo

As recentes eleições municipais consolidam a “política dos parlamentares”, uma inversão da “política dos governadores”, predominante na República Velha, de 1899 a 1930, mas ambas imbuídas do mesmo espírito: o fisiologismo.

Com Campos Salles, presidente eleito no final de 1898, instituiu-se a “harmonia” entre os Poderes e as forças sociais dominantes, em uma troca vantajosa e segura para todos os partícipes da trama política. O governo federal assegurava apoio aos governos estaduais e aos chefes oligárquicos – os “coronéis” – que, em contrapartida, garantiam o controle da eleição de deputados que seriam fiéis correligionários do presidente.

Haddad viaja - Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Fernando Haddad viaja. O corte de gastos fica. O ministro vai à Europa. O pacote espera. Na hipótese de que (já) exista, talvez – otimismo – decante. O chá revelação maturando.

Haddad já dissera que não haveria prazo para divulgar o conjunto. O chá revelação sem agenda. O mercado reagiu mal. Fazenda e Planejamento puseram influente blitz de comunicação na pista, prometeram o troço com urgência – e nada. Donde o mau humor. O chá revelação azedado.

Veio, então, a conversa de convergência. Para (tentar) aliviar. O papo de harmonia com a Casa Civil – um advento. Rui Costa, a antessala de Lula, de súbito fechado com o programa do – perdão pelo oximoro – fiscalismo petista. Alinhamento de astros que fez (ao menos vendeu) a luz. Havendo concordância, ora, a lista de medidas seria apresentada na semana que vem.

O chá revelação marcado. Seria, pois, sem Haddad. É improvável. O chá revelação no telhado.

Falta base política para o ajuste – Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Não se faz corte sem afetar programas sociais, coisa que o presidente Lula não quer. Daí as incertezas

Considerem o MDB, um dos vencedores nas eleições municipais. Uma ala do partido, pessoal do Norte e Nordeste, acha que o resultado dá o lugar de vice na chapa de Lula em 2026. Outra ala considera uma candidatura de centro. Uma terceira, caminhando pela direita, acaba de derrotar o PT de Lula em capitais importantes como São Paulo e Porto Alegre. Por que não continuar por aí?

Considerem o PSD, mais conhecido como partido do Kassab, outro vencedor nas últimas eleições. Como o MDB, tem três ministérios no governo Lula. E Kassab como um dos principais articuladores do governador paulista, Tarcísio de Freitas. Como no MDB, uma ala do PSD também acha que tem vaga na vice de Lula. Desde já, os dois partidos entendem que merecem ministérios mais robustos, com mais dinheiro para gastar.

A necessidade do caos – Pablo Ortellado

O Globo

Eles compartilham rumores e informações falsas pelo simples desejo de ver o circo pegar fogo

Um artigo acadêmico publicado no ano passado na prestigiosa revista de ciência política American Political Science Review causou grande alvoroço entre os estudiosos da polarização política e do extremismo. Uma equipe liderada pelo professor Michael Petersen, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, demonstrou que uma parcela pequena, mas relevante, da população americana tem o que o estudo chamou de “necessidade de caos”, um impulso de destruição da sociedade causado pela combinação de disposição agressiva e sentimento de perda de status. Esse impulso leva 5% dos adultos, algo como 10 milhões de americanos, a compartilhar rumores e informações falsas pelo simples desejo de ver o circo pegar fogo. Não se sabe exatamente que outras consequências políticas são capazes de advir dessa necessidade de caos, mas muitos suspeitam que ela pode ser um componente relevante da atual crise das democracias liberais.

A arte de perder (II) – Eduardo Affonso

O Globo

O ponto de partida é ignorar que o candidato precise ter um mínimo de empatia e conexão com o eleitorado

A arte de ganhar uma eleição não é nenhum mistério: basta convencer a maioria dos eleitores de que seu candidato seja a pessoa certa para o cargo. Perder uma eleição é mais complicado: requer empenho, prática e habilidade.

Como no caso dos aviões — que têm o hábito de não permitir que um erro sozinho os derrube —, candidaturas só se esborracham nas urnas por uma combinação de fatores. Alguns podem parecer aleatórios, mas a maioria é cultivada com afinco — não apenas, de forma ostensiva, durante a campanha, mas também na surdina, na trégua entre um pleito e outro.

Combate ao crime organizado é questão de Estado – Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Sem paz não haverá prosperidade nem democracia

Debelar o crime organizado constitui hoje o principal desafio da democracia brasileira. Muitos dirão que temos desafios mais importantes. O fato, porém, é que dificilmente conseguiremos êxito em outras frentes sem que a criminalidade organizada seja contida.

A expansão da criminalidade organizada vem submetendo parcelas cada vez maiores da população brasileira à brutalidade e à exploração econômica. Estima-se que 23 milhões de brasileiros vivam hoje em áreas dominadas por milícias e facções. Nessas áreas não há lei nem direitos. A regra são a violência e o arbítrio.

É um erro acreditar que o crime organizado se interesse apenas por atividades ilegais altamente lucrativas, como o narcotráfico, o garimpo ilegal, a grilagem, o desmatamento criminoso, o tráfico de seres humanos ou a prostituição. O crime tem expandido suas ações para a distribuição de combustíveis —e mesmo a produção de álcool—, o mercado imobiliário, de transporte coletivo e de apostas e a lavagem de dinheiro, para ficar apenas nos exemplos mais evidentes.

Suicídio democrático - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Anistia a Bolsonaro seria um convite para futuros governantes autoritários atropelarem regras do Estado de Direito

Uma pauta que irá animar o noticiário político pelos próximos tempos é a anistia aos golpistas do 8 de janeiro e, por extensão ampliada, a Jair Bolsonaro, hoje considerado inelegível pelo TSE por crimes eleitorais.

Não é exagero afirmar que essa será uma definição fundamental para o futuro político do país. Os pleitos municipais mostraram que Bolsonaro é menos forte do que se julga, mas está longe de ser uma figura sem influência eleitoral relevante.

Há três cenários para 2026. Bolsonaro poderá estar preso, poderá estar solto mas sem direito de concorrer à Presidência ou terá sido anistiado e poderá candidatar-se. Cada um deles traz implicações muito diferentes para o campo da direita e, por conseguinte, para o processo eleitoral como um todo. Nenhum dos principais candidatos a candidato da direita deverá se colocar no jogo sem saber se o ex-presidente estará no páreo.

Jogo do bicho pode virar atração turística - Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Império de Castor de Andrade sofre com novos tempos e guerra territorial

Aquele Pinguim não dava a mínima para Gotham City. Seu território era a Glória, onde gerenciava a banca do bicho. Com sapatos de bico fino bicolores que lhe apertavam os calos, equilibrava-se com dificuldade —daí o apelido. Apesar de receber todo o dinheiro do movimento de apostas, não andava armado. Às terças, como se cumprisse um ritual, entrava no botequim e, com voz baixa, pedia: "Uma Caracu e dois ovos no liquidificador". Combustível para o encontro, à tarde, com a amante novinha.

Eram os anos 1970, quando o negócio estava nas mãos de Castor de Andrade, capo di tutti i capi, que tinha, em sua fortaleza em Bangu, uma linha direta com a cúpula do regime militar.

O tabuleiro partidário para 2026 - Marcus Pestana

Muita tinta já foi gasta para decifrar o suposto “recado das urnas” em 2024 e suas consequências para a sucessão presidencial em 2026. Já expus aqui, com base na reflexão teórica, mas sobretudo, na experiência política concreta, que há baixíssima conexão entre os resultados das eleições locais intermediárias e os cenários para o futuro no plano nacional. Vivemos sob um presidencialismo bastante peculiar e um sistema político, partidário e eleitoral “sui generis”. Os partidos, em sua esmagadora maioria, não têm identidade ideológica clara, organicidade, democracia interna, unidade nacional, e se norteiam por excessivo pragmatismo. As bancadas no Congresso dividem-se ao meio em votações cruciais. Prefeitos e vereadores não obrigatoriamente seguem a orientação partidária nas eleições presidenciais.

O desequilíbrio perfeito - Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

Se os modelos fazem previsões precisas e o mercado futuro teima em não acreditar, há algo de podre no reino da teoria econômica

Os preços teimam em ser desobedientes, irrequietos, inconformados. Flutuam impiedosamente a toda hora. Teimam muitas vezes em subir e cair. Flutuam. Provocam neuroses e cardiopatias nos economistas, que teimam em controlar a realidade, mas são desmentidos todo dia. Viva a incerteza de não saber para onde vão no futuro!

Derivativos são instrumentos financeiros que permitem a transferência do risco entre os participantes do mercado. Refere-se ao risco de mercado, ou seja, aquele que envolve oscilações de preços.

Nos modelos Dinâmicos Estocásticos de Equilíbrio Geral a moeda é neutra, apenas unidade de conta e meio de troca. Os mercados financeiros, avaliadores da riqueza e definidores de sua distribuição entre as várias “oportunidades” da economia monetária, estão submetidos às amarras da Eficiência invocada por ­Eugene Fama.

Lições de uma tragédia - Cristovam Buarque

Revista Veja

O desastre de Mariana evoca outra catástrofe, a da educação

Na semana passada, governos e empresas firmaram um acordo de 170 bilhões de reais para indenizar vítimas do desastre em Mariana. Na ocasião, o presidente Lula afirmou que tal custo seria muito menor se as companhias envolvidas tivessem dado mais atenção à prevenção, cuidando da represa para evitar seu rompimento. O cálculo seria ainda mais enfático ao levar em conta o intenso sofrimento dos sobreviventes — e mais pertinente se o governante se lembrasse do silencioso desastre decorrente da negação de educação à maioria dos brasileiros. O descuido com o ensino asfixia socialmente ao longo da vida por falta de conhecimento, oxigênio necessário para facilitar a busca da felicidade pessoal e para ajudar a construir o país que desejamos. Soterra socialmente os 10 milhões a 12 milhões de adultos no analfabetismo pleno e asfixia entre 35 milhões e 40 milhões de crianças em idade escolar, que chegarão à vida adulta despreparadas para as necessidades do mundo contemporâneo.

Poesia | Elegia a um tucano morto, de Calos Drummond de Andrade

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Música | Chico Buarque e João Bosco - Sinhá