segunda-feira, 28 de julho de 2008

O QUE PENSA A MÍDIA
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
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DEU NO JORNAL DO BRASIL


PÃO E CIRCOS
Wilson Figueiredo
Jornalista


Que não foi Lula quem fez do Brasil o que se vê, não resta dúvida. Mas o resto é com ele mesmo. Já há públicos para todos os espetáculos nos quais o presidente da companhia tanto é empresário, quanto faz o papel do artista em caso de necessidade, doença ou impedimento. Depois de emocionar principalmente os que pela primeira vez foram ao circo ver os saltos presidenciais de um trapézio para outro, sem a rede de segurança embaixo, Lula entrou na jaula para se defrontar com as feras nacionais. Foi uma revelação. Partiu de chicote na mão ao encontro do mensalão, de cuja existência nem suspeitara, apresentado pela oposição com a pompa das comissões parlamentares de inquérito e as circunstâncias dos grandes golpes.

O presidente não demorou a esclarecer que eram costumes antigos de que a memória recente não podia saber. A indireta acertou o peito oposicionista. Nada de novo, como lembraria Salomão. A platéia caiu em si, mas se segurou bem na arquibancada. Enquanto por um lado o governo, inspirado na máxima da velha Roma, distribuía pão, por outro a oposição cuidou de montar o circo para o povão. O fato foi que Lula & companhia colecionaram aplausos sob a forma de pesquisas que ressaltaram a popularidade presidencial em alta e, dadas as condições, preocupante. Estávamos no fim do primeiro mandato. O Ibope, traduzido para o dialeto político, dizia que os cidadãos queriam mais espetáculos e, portanto, faziam questão de Lula por mais uma temporada. O novo contrato de prestação de serviço foi aprovado sem maiores dificuldades. Tinha precedente ilustre.

Mas a repetição já não teve, por exemplo, o globo da morte. O segundo contrato (ou mandato, com o preferem os mais exigentes) não acrescentou novidade, nem teve feras dignas de adjetivos fortes. Circo e política esgotaram seus truques e se limitam a repetir o repertório que data do tempo dos nossos avós. Quem prefere chorar é o eleitor. A novidade desta temporada ia ser o veto aos candidatos com antecedentes perfeitamente dispensáveis ao exercício dos mandatos de prefeito e vereador, mas bastou anunciar a providência elementar de limpeza urbana para se fazer ouvir o apelo em defesa do direito do candidato ficha suja a se explicar, depois de eleito (se não for, estará dispensado, e, se for, também). O coro da hipocrisia nacional saiu em defesa da moral relativa. O candidato de ficha suja ficou para a próxima eleição. A que vem por aí foi ressalvada como a última grande exibição dos que sujaram o currículo com grandes ou pequenos furtos (não é questão de tamanho).

Feliz ou infelizmente, depende do ponto de vista, era tarde quando se verificou que só depois de interessar o público se descobriu que, sem os artistas, não haveria espetáculo. Os áulicos, outrora chamados de amarra-cachorro, levantaram a lebre: já era hora de assinar o contrato para a terceira temporada, e não pode ser mediante simples aditamento. Outro mandato, o terceiro, cabe numa cláusula do contrato atual. Iam bem as sondagens aqui e ali, principalmente ali, na arquibancada onde se localiza a opinião pública.

Quem não gostou foi o próprio empresário Luiz Inácio Lula da Silva, cansado de substituir artistas que caem doente ou cuidam de seus interesses, tanto no trapézio (com rede embaixo) quanto na jaula ou no globo da morte. Declarou-se cansado de turnês e anunciou uma temporada longe do picadeiro, para voltar quatro anos depois, dependendo da situação nacional. Estava a questão circense nesse ponto, quando deu na telha de Lula convocar uma reunião dos seus para inverter a ordem dos fatores sem alterar o produto: primeiro a reforma do regulamento, depois a eleição. Ou seja, a reforma da companhia deve preceder a temporada de espetáculos, com a Polícia Federal programada para editar cenas cinematográficas de algemas cujo uso deixou de ser privilégio de quem não tem onde cair morto. Certa confusão pode ser útil à passagem da reforma política à frente da sucessão presidencial. A conferir.

DEU EM O GLOBO


TSE ABRE DEBATE SOBRE FORÇA-TAREFA PARA O RIO
Adriana Vasconcelos e Maria Lima

Jungmann apresenta hoje a Ayres Britto proposta de convocação da PF e até do Exército para conter violência e intimidação


BRASÍLIA. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Carlos Ayres Britto, discutirá hoje com o presidente da Comissão de Segurança Pública da Câmara, deputado Raul Jungmann (PPS-PE), a proposta de criação de uma força-tarefa - com o envolvimento da Polícia Federal e, se necessário, até do Exército - para identificar e punir os candidatos às eleições do Rio vinculados a milícias e traficantes, que estariam estimulando ou, no mínimo, sendo coniventes com as ameaças dirigidas a seus adversários e, agora, também a jornalistas neste início de campanha eleitoral.

O ministro da Justiça, Tarso Genro, antecipou ontem que a estrutura do ministério está à disposição do TSE, mas ressaltou que a PF só poderá ser acionada para integrar qualquer ação no Rio se houver um pedido formal do governo do estado.

Jungmann: cidade caminha para estado de exceção

Ayres Britto condenou a intimidação dos jornalistas por representantes do tráfico na Vila Cruzeiro, e disse que discutirá com Jungmann, hoje, a proposta de que o Tribunal lidere um movimento de reação ao crime organizado durante a campanha, no Rio.

- O Rio está caminhando para um estado de exceção, onde o poder que vai emergir das urnas é conivente ou condicionado ao crime organizado. Por isso é fundamental que o TSE comande uma ação, acione a Polícia Federal e até o Exército, se necessário, para identificar e punir os candidatos das milícias e do tráfico. Isso foi feito na Colômbia. A situação exige uma mobilização das três esferas de poder no estado e um pacto de todos os políticos que atuam lá para resguardar os direitos e liberdade dos cidadãos do Rio - propõe Jungmann.

O deputado deverá cobrar providências, não só do TSE, como também do Ministério Público Federal para que sejam tomadas medidas efetivas que assegurem a todos os candidatos a vereador e prefeito do Rio o direito de fazer campanha no município, sem sofrer pressão ou ameaças de milícias ou traficantes.

No encontro que terá hoje com o ministro Ayres Britto e o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, Jungmann pedirá garantias ainda para que não se repitam episódios como o registrado no último sábado na Vila Cruzeiro, no Complexo do Alemão, onde repórteres do GLOBO, "Jornal do Brasil" e "O Dia" que acompanhavam uma caminhada do senador Marcelo Crivella (PRB), candidato a prefeito, foram cercados por traficantes armados com fuzis e os fotógrafos se viram obrigados a apagar todas as fotos registradas na cobertura.

Ayres Britto preferiu ontem não antecipar sua posição sobre a proposta de Jungmann para que o TSE comande uma força-tarefa no Rio para resguardar os direitos e liberdades dos cidadãos do estado. O ministro condenou, porém, a violência sofrida pelos jornalistas no último sábado.

- Lamento profundamente o ocorrido, que outra coisa não significa que uma absurda ausência do Estado e a conseqüente ocupação do espaço por um segmento fora da lei. No caso, abatendo de morte dois excelsos valores constitucionais: primeiro, a liberdade do exercício da profissão de jornalista e, segundo, a liberdade de um candidato de fazer sua campanha eleitoral, com o que a liberdade de imprensa e a democracia representativa resultam ultrajadas - disse o ministro.

Embora também tenha considerado lamentável o episódio ocorrido com os jornalistas que acompanhavam o senador Crivella, Tarso Genro limitou-se a declarar, por intermédio de sua assessoria, que o Ministério da Justiça tem limites para atuar nesse caso.

- O Ministério da Justiça e todas as suas áreas estão à disposição do TSE e do estado, mas não podemos tomar qualquer iniciativa, porque seria inconstitucional - disse.

"É preciso ter postura rigorosa", diz Marco Aurélio

O presidente nacional da OAB, Cezar Brito, apóia a criação da força-tarefa para, como disse, dar um basta à ausência do Estado e a conivência com o crime organizado nos morros do Rio de Janeiro, e garantir que a comunidade possa exercer a soberania democrática de escolher seus representantes.

- O Estado brasileiro não pode permitir que a comunidade desses morros, que já é vitima desse tipo de organização criminosa, também fique ausente da decisão política, como se disséssemos que a democracia não pode ser exercida em determinados espaços do Brasil. É como se houvesse um pacto oculto e cruel do Estado brasileiro com o crime organizado do tipo: eu não me faço presente na sua área e em troca a população local não dá problemas ao Estado porque não participa da escolha democrática - criticou Cezar Brito.

Para Marco Aurélio Mello, ex-presidente do TSE e ministro do Supremo Tribunal Federal, é preciso uma ação rigorosa do Estado brasileiro para coibir esse tipo de intimidação do crime organizado no Rio de Janeiro.

- O tráfico hoje não se avexa de até mesmo intimidar a imprensa. É um alerta para as autoridades constituídas de que não dá mais para tergiversar e ficar nos paliativos. É preciso ter uma postura rigorosa e dizer que não estamos vivendo sob a lei do mais forte naquele local, mas num estado de direito. O Estado está devendo á população uma resposta - observou.

Sobre a proibição da entrada de jornalistas e candidatos nas favelas e morros, Marco Aurélio disse que é uma situação terrível, que não pode ser suportada em pleno século XXI.

- Esses currais do tráfico no Rio colocam sob suspeita os votos da comunidade, que vai votar intimidada. Se perguntarem se isso é consentâneo com o século XXI, com certeza a resposta é negativa. Todos os órgãos envolvidos têm de buscar com seriedade uma correção de rumos.

DEU EM O GLOBO


VIOLÊNCIA VIRA O TEMA PRINCIPAL DA CAMPANHA
João Pimentel


Ameaças e intimidações fazem com que a segurança pública ocupe grande parte do discurso de candidatos a prefeito

Uma semana marcada por incidentes com candidatos em campanha em favelas dominadas por traficantes fez com que a violência no Rio passasse a ser o principal assunto da disputa pela prefeitura. Após a ameaça de traficantes da Vila Cruzeiro, na Penha, sábado, a jornalistas que acompanhavam a caminhada do candidato Marcello Crivella (PRB), o candidato Fernando Gabeira (PV, PSDB e PPS), por exemplo, tirou a tarde de ontem para uma reunião com seus colaboradores, na qual pretendia avaliar os casos recentes e aprofundar seu discurso sobre o tema.
- Não podemos aceitar restrições. A violência se tornou sim o tema mais importante das eleições do Rio. Na ditadura militar, os direitos humanos eram desrespeitados pelo governo. Hoje, são desrespeitados pelo crime organizado. É necessária a saída desses grupos armados e a presença e permanência da polícia nas comunidades.
Gabeira critica declarações de Marcello Crivella
Gabeira, que no início da tarde de ontem fez campanha entre a Praia do Pepê e o Quebra-Mar, na Barra, defendeu uma reforma política urgente no Rio:
- Está difícil, mas de alguma forma essa reforma está sendo feita na porrada, como no caso de Jerominho, Natalino - disse, em referência ao vereador Jerônimo Guimarães, do PMDB, e seu irmão, o deputado estadual Natalino Guimarães, do DEM, presos sob acusação de comandar uma milícia na Zona Oeste.

Classificando de "inaceitável e escandaloso" o incidente, Eduardo Paes, candidato do PMDB, partido do governador Sérgio Cabral, disse que seguirá a campanha normalmente.

- Imagina ao que essa população não é submetida todo dia. Isso (a ameaça aos jornalistas) mostra mais uma vez que é fundamental a autonomia do Estado sobre essas áreas. Isso coloca em risco a própria democracia. Não dá para ceder. Vou continuar entrando em qualquer lugar o tempo todo. Não aviso miliciano ou traficante. Não vou me subjugar à bandidagem.
Um "pacto democrático contra os feudos eleitorais" é a proposta que Chico Alencar (PSOL) apresentará aos candidatos majoritários hoje. Sua idéia é que todos assinem um compromisso de sustar no TRE os registros dos candidatos a vereador que, comprovadamente, estejam envolvidos com criminosos.

- Denunciamos esses poderes paralelos e despóticos que "adotam" candidaturas e criam currais onde só elas podem transitar. A sociedade não deve aceitar os expedientes espúrios da aliança com a truculência e do crime de captação do sufrágio. Queremos que as polícias investiguem a promiscuidade entre banditismo e campanhas.
Já Paulo Ramos (PDT) classificou de "armação" o incidente ocorrido sábado.
- Isso é armação para justificar o modelo de segurança pública do atual governo, que massacra, exclui e criminaliza os pobres. Não vou com grandes aparatos por respeito às comunidades. São sempre os mesmos (candidatos) que criam os factóides por não ter receptividade e quererem mais repercussão.
Jandira diz que só repressão não combate violência

Para a candidata do PCdoB, Jandira Feghali, o prefeito do Rio não pode fazer de conta que não está vendo a situação de violência. Ela diz que a política de segurança é um tripé, formado por inteligência, repressão e prevenção, e que só um dos lados está funcionando, o do confronto:

- O prefeito não pode dizer simplesmente que a polícia não é sua. A prefeitura precisa ter políticas públicas inclusivas, dar oportunidades aos jovens e a suas famílias, ter uma Guarda Municipal com foco na cidadania. E a prevenção é um lado desse tripé de grande responsabilidade da prefeitura.

Criticando a falta de iluminação nas ruas do Rio, a candidata defendeu a necessidade de melhorar a ordem urbana:

- A cidade está escura e precisamos ocupar o espaço público. O carioca não tem medo de praça cheia, tem medo de praça vazia.

Dois dos incidentes envolvendo política e segurança ocorridos semana passada se passaram na Rocinha. A candidata a vereadora do PT Ingrid Geromilich precisou pedir auxílio da Secretaria de Segurança para fazer campanha na região. Depois, a polícia encontrou uma ata de reunião do chefe do tráfico da favela, Antônio Bomfim Lopes, o Nem, em que ele impõe apoio a um único candidato, embora sem citar nome. O presidente da associação de moradores, Luiz Cláudio de Oliveira, o Claudinho da Academia, concorre a uma vaga na Câmara pelo PSDC, e diz ter apoio de "cem líderes" locais.

DEU NO VALOR ECONÔMICO


NOSSO QUINHÃO DE RUINDADES
Fábio Wanderley Reis


O noticiário do período recente, em particular o relativo à operação Satiagraha da Polícia Federal, tem exibido de modo especialmente agudo várias faces sombrias da vida brasileira e os grandes desafios correspondentes. A desigualdade social e suas ramificações no plano da cultura; a penetração das instituições em geral pelas consequências negativas da desigualdade, incluídos os órgãos da aparelhagem política do Estado e mesmo os da Justiça (note-se o impacto, registrado por todos, do fato de que se prendam banqueiros ou os "homens de qualidade" de sempre); a questão das reformas político-institucionais em geral: em primeiro lugar, serão realmente necessárias ou, como querem alguns, estaremos apenas, parafraseando Drummond, provando, entre ruindades, as que nos foram legadas - vale dizer, experimentando, como todo mundo em diferentes momentos, nosso quinhão de dificuldades no processo de construção institucional? Em segundo lugar, na suposição de que reformas sejam necessárias, ou de que seja necessário agir, como obter reformas institucionais efetivas? Será possível alcançá-las com "meras" mudanças em dispositivos legais ou será preciso antes alguma mudança de sentido "estrutural" e cultural mais profundo?

Reformas, desigualdade e valores culturais

Seja como for, são nítidos os reflexos institucionais gerais da desigualdade e da cultura da desigualdade. É provavelmente irrelevante, por exemplo, a celeuma em torno das "fichas sujas" com relação a um Congresso em que, para começar, um país de educação precária se faz representar, de maneira amplamente predominante, por gente de educação universitária. Quanto à Justiça, cabe assinalar o que Beatriz Magaloni (citada em M. Taylor, "Judging Policy", 2008) apontou há pouco quanto à operação da Justiça na América Latina em geral, a saber, a tendência ao divórcio entre a (eficiente) dimensão "madisoniana" relativa ao equilíbrio e ao controle recíproco entre os poderes, por um lado, e, por outro, a (deficiente) dimensão "hobbesiana" relativa à garantia de direitos básicos na vida cotidiana dos cidadãos. No caso brasileiro, é patente que aos integrantes do "povão" (para usar a distinção a que recorri na semana passada) se abrem duas possibilidades nas relações com a Justiça: ou a de aparecerem como vítimas ou autores e réus de crimes violentos ou, quando se trata da Justiça atenta aos direitos civis do cidadão, a de surgirem como pano de fundo ou como meros figurantes, como acontece com os "nativos" em certos filmes americanos, a contrastar com a relevância e a qualidade de gente real dos protagonistas hollywoodianos - o equivalente da parcela dos brasileiros assimilável à condição de "povo" soberano. Já quanto aos meios de comunicação, por seu turno, apesar da abundância relativa do noticiário negativo que envolve todas as categorias sociais, é bem claro que a cobertura ampla e de repercussão vai também para os eventos protagonizados pelos "mais iguais". Naturalmente, o que vimos agora deixa transparecer o lado transformador disso justamente ao destacar os "mais iguais" (os homens de qualidade) como delinquentes presumíveis às voltas com a Justiça. Mas não é de estranhar que, como Maria Inês Nassif assinalava no Valor de 24 de julho e como costuma repetir-se, o foco inicial em Daniel Dantas como acusado tenha logo se deslocado para a própria Polícia Federal, o Ministério Público e o Governo, em consonância com o Judiciário como eficiente contrapeso madisoniano.

É preciso reconhecer que o aspecto cultural da realidade que vivemos não mudará sem mudança profunda no substrato de desigualdade material e intelectual, além do componente racial do legado escravista. Apesar de indícios preciosos da emergência de certa "inclusividade" que torna "incorreta" a face cultural mais odiosamente rombuda da desigualdade, a possibilidade de contemplar a superação mais efetiva do quadro geral negativo, em suas várias dimensões, certamente requer -- além de que se conte com a sorte - uma perspectiva de longo prazo.

Quanto à conexão entre as mudanças que caberia desejar e a ação no plano político, é sem dúvida necessário denunciar, como tenho às vezes salientado, a distorção da postura radical inclinada a rechaçar a ação que busca avanços tópicos em qualquer campo em nome da necessidade de fazer "tudo", ou muito mais. Mas é preciso superar também a passividade a que induziria a perspectiva de "nosso quinhão de ruindades" acima mencionada. Entre os cientistas políticos brasileiros, por exemplo, essa perspectiva tem levado, às vezes, a uma combativa disposição anti-reformas. No entanto, em alguns dos melhores trabalhos de pesquisa relevantes para o problema geral, como os de Argelina Figueiredo e Fernando Limongi, um ânimo que resulta simpático ao anti-reformismo se tem combinado, de modo inconsistente, com resultados em que se revelam justamente os avanços (quanto a problemas como a disciplina do comportamento partidário nas votações do Congresso, ou a dinâmica mais proveitosa no plano da política orçamentária) permitidos por alterações nos mecanismos legais pertinentes, seja ao nível dos dispositivos constitucionais ou de meras resoluções administrativas do próprio Congresso Nacional, por exemplo.

Não é preciso confundir a busca de melhorias e reformas com a torta visão negativa da política como tal. E, além da pressão direta de dispositivos legais apropriados sobre os interesses de atores supostamente guiados por interesses estreitos, cabe contar com algo de maior alcance: a possibilidade de que a alteração gradual das expectativas que tais dispositivos promovam venha talvez a ajudar no processo de amadurecimento de mudanças consistentes e duradouras no plano dos próprios valores e da cultura em sentido pleno.

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

DEU NA FOLHA DE S. PAULO


ITAMARATY TIRA PRIORIDADE DO SUL
Clóvis Rossi


AO ACEITAR a proposta de acordo apresentada pela direção da OMC, o governo brasileiro jogou fora, numa noite, a política pró-Sul que adotou com vigor nos cinco anos e meio do governo Lula.

Não se trata nem de julgar se essa política era a correta ou se seria melhor a que pregava o contrário (aproximar-se mais e mais do mundo rico). Há bons argumentos em favor de uma e outra linha. O importante, no caso, é a perseverança em uma dada direção ou, em caso de mudança de rumo, uma razão forte o suficiente para ser facilmente compreendida pelo público e os parceiros externos.

Não foi o que ocorreu. O Brasil passou os últimos cinco anos, desde a criação do G20 em 2003, defendendo a tese de que a Rodada Doha era, centralmente, uma questão de liberalizar a agricultura dos países ricos em benefício dos pobres. Nem a competente dialética dos diplomatas brasileiros em geral e, em particular, do chanceler Celso Amorim será capaz de convencer quem quer que seja que houve, na noite de quinta para sexta-feira passadas, concessões dos países ricos que ao menos se aproximassem do defendido há cinco anos.

Qual era o nó agrícola mais saliente nas negociações da semana passada? O volume de subsídios que os EUA dão a seus agricultores. O G20 passou cinco anos defendendo um teto de US$ 13 bilhões. Os EUA ofereceram inicialmente US$ 15 bilhões, rejeitados pelo G20. Aí, surgiu a proposta de Pascal Lamy, o diretor-geral da OMC, de US$ 14,5 bilhões, uma redução microscópica e, ainda assim, o dobro do que vem sendo efetivamente concedido aos agricultores dos EUA nestes tempos de elevados preços de commodities agrícolas.

O Brasil aceitou, o que leva a uma de duas suposições: ou todo o empenho por um teto menor era jogo de cena ou, agora, o rumo da diplomacia mudou para agradar os ricos em vez de solidarizar-se com o Sul. Trocar de linha por uma diferença de US$ 500 milhões não parece uma justificativa convincente.

Pior, no entanto, é a punhalada pelas costas na Argentina. Vejamos: o Brasil estava perfeitamente confortável com o nível de proteção a sua indústria previsto no documento prévio às reuniões da semana passada. Só o rejeitou para defender o Mercosul ou, mais exatamente, a Argentina, que reclamava um grau maior de proteção.

Defender o Mercosul tornou-se um dos principais cavalos de batalha da diplomacia brasileira, como disse à Folha, em Roma, no mês passado, o próprio Lamy. De repente, de novo em uma única noite, o Itamaraty dá as costas ao seu aliado mais importante na região prioritária para a diplomacia brasileira (o Mercosul e a América do Sul) sem que tenha havido qualquer contrapartida significativa dos ricos. Pior: colhe o governo de Cristina Kirchner em seu pior momento interno. A oposição certamente usará a punhalada como sinal de que o governo Kirchner está isolado externamente.

Por fim, debilita outro projeto prioritário, o Ibas (Índia/ Brasil/África do Sul), típica aliança do Sul. Os dois parceiros rejeitaram energicamente a proposta que o Brasil aceitou gostosamente.Se todos esses danos colaterais tivessem ocorrido em troca de ganhos formidáveis no comércio global -que, afinal, é o que domina o jogo diplomático de países, como o Brasil, que não têm força militar ou econômica para outros jogos-, seria fácil de entender. Mas ante resultados tão modestos, fica a impressão de que a diplomacia brasileira quis apenas mostrar-se bem comportada com os ricos. Exatamente o que vinham pedindo os setores políticos e diplomáticos que eram ironizados até então pelo governismo como subservientes ao Norte e preconceituosos com o Sul.

DEU NA FOLHA DE S. PAULO


A QUEM SERVE A GLOBALIZAÇÃO?
Luiz Carlos Bresser-Pereira


Países da América Latina perderam o controle de suas taxas de câmbio e ficaram para trás

NOS ANOS 1990, a globalização era a "bête noire" da esquerda e dos países em desenvolvimento -para muitos significava abertura econômica prematura. Na atual década, deixou de ser bandeira ideológica do neoliberalismo para se transformar no fantasma perseguindo os países ricos que, aos poucos, abandonam o discurso neoliberal e se preparam para levantar mais barreiras protecionistas. Nos EUA, o discurso dos dois candidatos à presidência é protecionista. Na Europa, a rejeição aos imigrantes pobres porque eles pressionam para baixo os salários médios aumenta a cada dia, ao mesmo tempo em que leis contra os imigrantes violando direitos humanos são aprovadas pelo parlamento europeu, como bem demonstraram Ricardo Seitenfus e Deisy Ventura nesta Folha (25.7.08).

Como explicar esse fato? Afinal, a quem serve a globalização? A globalização é a denominação para o estágio atual do capitalismo; é abertura comercial combinada à formação de uma sociedade global. No plano econômico, a globalização significa abertura de todos os mercados: abertura comercial, necessariamente, porque é parte da própria definição de globalização; abertura financeira -dos fluxos de capital-, perfeitamente evitável, já que aumenta a instabilidade financeira mundial ao tirar dos países em desenvolvimento o controle de suas taxas de câmbio.

Nos anos 1990, a globalização contou com o apoio dos países do Norte, que partiam do pressuposto que, na competição global, teriam vantagem. Isso, entretanto, só era verdadeiro em relação à abertura financeira, porque esta, ao impedir os países em desenvolvimento de administrar sua taxa de câmbio, deixava livre a tendência à sobreapreciação da sua taxa de câmbio.

Não era verdade em relação à abertura comercial, porque, desde que os países em desenvolvimento neutralizassem aquela tendência, sua mão-de-obra mais barata lhes garantiria êxito na competição global sem necessidade de proteção.

Para que isso ocorresse o país em desenvolvimento deveria preencher três condições: (1) ser um país de renda média (que já passou pelo estágio da indústria infante), (2) manter o equilíbrio fiscal e (3) contar com uma estratégia de desenvolvimento que implicasse a determinação nacional de neutralizar a tendência à sobreapreciação da taxa de câmbio -uma tendência existente em todos os países em desenvolvimento devido à doença holandesa e à atração que as economias desses países exercem sobre os capitais abundantes e relativamente mal-remunerados do Norte. Os países asiáticos dinâmicos hoje capitaneados pela China satisfizeram essas condições; mantiveram tanto as finanças do Estado quanto do Estado-Nação sadias graças ao estrito controle orçamentário e à administração da taxa de câmbio para mantê-la sempre competitiva -e cresceram muito mais do que os países ricos.

Outra, porém, foi a sorte dos países latino-americanos. Subordinaram-se à ortodoxia convencional; aceitaram, além da globalização comercial, a financeira; passaram a receber capitais de que não têm necessidade; perderam o controle de suas taxas de câmbio; deixaram-se se apreciar até a beira da crise de balanço de pagamentos; e ficaram para trás. A globalização, que lhes poderia ter sido tão favorável, afinal não os beneficiou, porque, embora tivessem as condições para competir mundialmente, suas elites não têm a autonomia para poder aproveitar a oportunidade.


LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA, 73, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".

domingo, 27 de julho de 2008

O QUE PENSA A MÍDIA
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1039&portal=

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


CLIENTELISMO, PÓ E VOTO
Luiz Carlos Azedo


O “pai” do Bolsa Família e do PAC precisa tomar providências enérgicas para evitar a associação do clientelismo ao banditismo nas áreas onde o governo federal tem intervenção direta

O cientista político Luiz Werneck Viana, professor do Iuperj, em entrevista ao jornal carioca O Globo, foi na bucha: “A cidade está toda feudalizada. Nos setores subalternos, pela milícia, pelo tráfico. No mundo urbano, igualmente está feudalizada. Cada pequeno lugar, cada esquina, onde há possibilidade de uma vida mercantil qualquer”. Referia-se ao Rio de Janeiro, é claro, mas o fenômeno não é isolado. Conexões entre a economia informal e o banditismo, sejam por meio dos traficantes e ou das milícias e “mineiras”, alimentam os indicadores de violência das grandes cidades. O problema existe em São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Salvador e no entorno de Brasília. O impacto na qualidade da política e dos políticos já é visível a olho nu. A topografia e o dinamismo econômico de cada região metropolitana se encarregam das diferenças, mas o rumo é o mesmo: o carioca.

Banditismo

Werneck denuncia que o Rio de Janeiro foi dividido em feudos eleitorais, tanto nas áreas urbanas quanto nas comunidades carentes. “A orla marítima é um exemplo. A cidade está toda ela repartida em territórios, e cada território entregue a donatários. A diferença é que, nas favelas, o território não é livre. Na praia e em outras áreas urbanas, os candidatos podem circular”, explica. Segundo ele, por causa disso, o voto de opinião — que sempre foi uma das características das eleições no Rio de Janeiro — está sendo sufocado pelo voto de clientela, que hoje dita as regras das eleições dos vereadores da cidade. Resultado: 10% dos integrantes da Câmara do Rio estão envolvidos com o tráfico, as milícias ou a contravenção.

Nas favelas, a coisa é mais grave. Os currais eleitorais estão sendo controlados pelos traficantes, que escolhem seus representantes e pressionam comunidades inteiras a votarem nos “candidatos do pó”. Mesmo os candidatos majoritários, que antes circulavam nessas áreas, agora estão sendo impedidos. É a falência do Estado naquilo que poderia gerar a energia capaz de fazê-lo reagir: o voto popular em áreas controladas pelo tráfico. As milícias também passaram a lançar candidatos e financiá-los. Na semana passada, um deputado estadual fluminense foi preso em flagrante quando a Polícia Federal “estourou” o quartel-general de uma milícia carioca. Houve até troca de tiros.

Clientelismo


No vale-tudo para influenciar o resultado das eleições municipais, o governo federal ampliou a escala do clientelismo nas comunidades carentes. A prática era sobretudo municipal e também estadual, mas agora virou federal. Graças ao programa Bolsa Família e às obras de saneamento e urbanização do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O governo federal acaba de anunciar que 1,4 milhão de famílias do Bolsa Família irão receber em suas casas uma carta do governo federal comunicando que poderão disputar uma vaga num plano de qualificação profissional na área da construção civil. Estão localizadas em cerca de 280 municípios, de 20 regiões metropolitanas do país.

Essa é uma boa notícia, mas tem propósitos nitidamente eleitorais. E que podem ter conseqüências lastimáveis. O presidente da Comissão de Segurança da Câmara, deputado Raul Jungmann (PPS-PE), denuncia que chefes do tráfico se associaram a líderes políticos da Rocinha e do Complexo do Alemão para controlar a contratação de peões nas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) nas favelas. Segundo Jungmann, o grupo se associou para pressionar eleitores a votar em candidatos indicados pelos chefes locais. “É chocante. Meio milhão de pessoas sem poder votar livremente. É a ditadura do narcotráfico em plena democracia”, dispara.

Ninguém pode responsabilizar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por esse tipo de parceria, mas o “pai” do Bolsa Familia e do PAC precisa tomar providências enérgicas para evitar a associação do clientelismo ao banditismo nas áreas onde o governo federal tem intervenção direta. Já basta o lamentável episódio do Morro da Providência, no centro do Rio, onde o Exército guarnecia as obras de um projeto eleitoreiro do governo federal — “Cimento Social — para favorecer o senador Marcelo Crivella (PRB), candidato a prefeito do Rio que Lula apóia por baixo dos panos. Um tenente entregou a traficantes rivais três jovens que o haviam desacatado, inconformado com o fato de seu comandante soltá-los. Os três rapazes foram executados. --> --

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO / ALIÁS


A PONTE QUE RESTA ENTRE MORRO E ASFALTO
ENTREVISTA: Zuenir Ventura


No Rio de parlamentares milicianos, traficantes sádicos e polícia sangrenta, a salvação virá pela cultura popular. Já aconteceu uma vez, diz o escritor e jornalista


Pedro Doria - O Estado de S.Paulo

Durante mais de um século, o carioca do asfalto olhou para cima e secretamente fantasiou a remoção da pobreza nos altos e nas encostas. O Morro do Castelo foi abaixo por volta de 1900. Nos anos 60 Carlos Lacerda removeu favelas. Mesmo quando algum governo, como o de Leonel Brizola, tratou com simpatia o morro, não procurou integrá-lo à cidade. Brizola abandonou-o ao tráfico que nascia. A rejeição social se instalou, como se o morro fosse um corpo estranho, e não parte do todo.


Zuenir Ventura lançou o livro Cidade Partida em 1994, fruto de um olhar atento sobre as favelas. Desde então, tudo piorou. O carioca das classes médias persiste, intimamente, no sonho que o jornalista chama de "solução final". Sonha com o Exército que sobe, a polícia que atira e o confronto que consumará o fim. "Não é por maldade ou patologia", diz Zuenir. "É por medo e insegurança."


Foi num dos períodos de maior insegurança na cidade, quando tudo parecia perdido em princípios do século 20, que ali pelo centro, entre os marginais, nasceu o samba. O samba integrou morro e asfalto. Hoje, jovens de classe média vencem medos e sobem os morros em busca do funk. Não querem drogas, querem a dança. Numa cidade cada vez mais agressiva, uma "verdadeira necrópole", Zuenir vê na cultura o último fio de esperança, o traço que ainda pode unir a cidade partida. Mas não há solução a curto prazo, como argumenta nesta entrevista exclusiva ao Aliás.

Políticos presos como chefes de milícias, traficantes comandando currais eleitorais, polícia corrupta, medo na população. Ainda que vários fatores possam sugerir que o Rio não tem solução, Zuenir aposta o contrário, apoiado numa premissa básica: "O povo não é suicida".

O que mudou desde a publicação de ?Cidade Partida??

Passei o ano de 1993 visitando constantemente Vigário Geral. Naquela época, o líder do tráfico era um rapaz chamado Flávio Negão. Ele havia sido criado lá, tinha uma relação afetuosa com a comunidade. As senhoras davam bronca nele. Ele se preocupava com melhorias, asfalto, iluminação. As instituições eram respeitadas. Ninguém tocava em jornalista, por exemplo. Na última vez em que conversamos ele me mostrou um fuzil que tinha adquirido. Era uma arma que podia atingir helicópteros. "Mas você vai usar isso?", perguntei. "Não, Deus me livre, se usar a polícia invade o morro no dia seguinte." Ele gostava de dizer que seus soldados não cheiravam nem fumavam, tinha a consciência de que comandava um comércio e não queria guerra com a polícia pois atrapalharia os negócios. Lá conheci o Elias Maluco, que comandou o assassinato de Tim Lopes. Era um dos soldados menores do Negão. Essa é a mudança. Os jovens traficantes, gerações depois, são viciados e não têm nenhuma responsabilidade. Já foram tantas invasões das várias facções nos diversos morros que não sobrou ligação afetiva. São loucos. Cheiram e saem matando com crueldade inominável. O traficante Robin Hood acabou. Quinze anos atrás, eu passava a noite numa favela. Não dá mais.

Foi só o tráfico que mudou?

A polícia continua com a mesma política de tratar a situação como guerra. Quando governou o Rio, Marcello Alencar criou um instrumento chamado "gratificação faroeste", que premiava com dinheiro os policiais que matavam mais. A gratificação caiu, mas o espírito persiste. A atual cúpula de segurança parece honesta. Mas ela acredita que deve subir o morro dando tiros e alega que os danos colaterais - a morte de crianças e inocentes - fazem parte da guerra. Quando você começa a acreditar que a polícia serve não para evitar a morte, mas para matar, esse é o resultado. O combate às drogas, hoje, mata mais do que as próprias drogas, uma incoerência. É claro que é preciso enfrentar. Mas deve se fazer isso com informação. Se tem gente inocente morrendo, está errado. O Elias Maluco foi preso sem que a polícia desse um tiro, porque houve apoio da inteligência. A atual polícia sai matando. É ela que decide quem é bandido, sem julgamento, sem nada. A última ação de grande repercussão foi a invasão do Morro do Alemão, no ano passado, que terminou com 19 mortos. Fui ver o resultado depois de a polícia sair. Havia marcas de bala para todo lado, mas o chefe do tráfico continuava no cume do morro. Se escondeu uns dias, voltou. Segundo as pesquisas, 90% da sociedade apoiou a iniciativa policial. É porque há a ilusão de que o enfrentamento funciona. Não muda nada. Dias depois, estava tudo igual.

A polícia do Rio é a que mais mata. Não é também a que mais morre?

A polícia do Rio mata quatro vezes mais do que a dos Estados Unidos. E morre muito. Morrem, nesses confrontos, mais de cem pessoas por mês. E não tem eficácia. Mata e morre sem nenhum resultado. O Rio está se transformando numa necrópole povoada por vítimas mortais. E a vocação do Rio não é esta - é a festa, a alegria, o congraçamento.

Qual é a solução?


Nos anos 80, durante o primeiro governo de Leonel Brizola, até por causa dos abusos da ditadura ele implantou um populismo de respeito aos direitos humanos. A polícia não subia em favela. As coisas, no Rio, acabam sendo oito ou oitenta. O que aconteceu? Os traficantes acharam uma maravilha, ocuparam e consolidaram seu território. Foi um período de total conivência com o crime, que acabou desmoralizando os direitos humanos. Conversei muito sobre isso com o sociólogo Hugo Acero, que foi subsecretário de segurança de Bogotá. Em 1993, a Colômbia tinha um índice de homicídios de 80 para cada 100 mil habitantes. Caiu para 18. Como fizeram? Houve enfrentamento, mas a polícia não pode entrar no domínio do tráfico e depois sair. Tem que continuar. A ocupação não pode ser apenas policial. Tem que levar escola, posto de saúde. No governo Brizola a polícia não subia, mas o Estado também não. Uma vez, vi a cena de um menino de 2 anos que teve desidratação. O traficante chegou e o levou para o hospital. Vai explicar para a mãe do menino que ele é um malfeitor... Esse vácuo do poder público, naquele primeiro momento, foi ocupado pelo tráfico. Hoje, a situação piorou muito.

Essa semana, um deputado estadual foi preso, acusado de comandar uma milícia. Seu irmão, um vereador, está na cadeia desde dezembro. De onde vem a promiscuidade entre política e crime no Rio?

Temos uma cultura de promiscuidade no Rio. Por um lado, ela se manifesta na informalidade carioca. Por outro, é o desrespeito. É uma cidade ilegal na qual todos desobedecemos às leis. Alguns meses atrás, o deputado estadual Álvaro Lins (PMDB), que dirigiu a Polícia Civil no governo de Rosinha Garotinho, foi preso - mas seus colegas na Assembléia Legislativa o soltaram. Agora é a vez do deputado Natalino Guimarães e seu irmão. A filha de um deles já é candidata a vereadora e provavelmente será eleita, porque eles comandam um território cativo, em Campo Grande, no qual controlam os votos. Segundo a polícia, comandam uma milícia que tem nas suas contas centenas de mortos. Mas lembremos do passado. Quando o líder dos bicheiros, Castor de Andrade, ia para a avenida assistir aos desfiles de carnaval, recebia em seu camarote toda a sociedade carioca. Todos achavam muito natural ser convidado do "doutor Castor de Andrade". Essa miscigenação que existe no Rio é uma mistura alegre de classes que a praia facilita, mas tem esse reverso que é a promiscuidade. É um terreno pantanoso, muito próprio da cidade.

As milícias fazem tráfico?

Não, não fazem.

Então a violência do Rio já independe do narcotráfico?

Essa é uma tendência evidente. Agora, sobre as milícias, a gente sabe muito pouco - não sabemos sequer a extensão desses grupos. Dizem que de cada cinco favelas, elas dominam uma. As milícias descobriram que poderiam faturar muito, de uma maneira mais tranqüila, taxando serviços e instituindo uma máfia. Controlam as vans, a entrega do gás, a televisão via o "gato" da Net. Faturam talvez mais do que o tráfico e sem o estigma. Já ouvi depoimentos de gente que mora perto da favela de Rio das Pedras dizendo "agora dá para dormir com as janelas abertas". Você imagina o que é isso para o morador daquele lugar. Antes, quando nem todo o mal das milícias tinha vindo a público, elas foram tratadas como alguma coisa que estava pondo ordem na casa - podiam até ser meio exterminadoras, mas não eram corruptas. Essas milícias organizam até a recepção do nordestino que chega para morar na favela. Conseguem para ele o primeiro emprego, às vezes até uma casa. E ele terá que pagar por isso, evidentemente. Vai ficar sob o domínio dessa organização.


Mas as milícias são tão violentas quanto os traficantes?


Em Campo Grande, na região da milícia liderada supostamente pelo deputado Natalino Guimarães, a taxa de homicídio caiu em quase 30% após a prisão dele. São violentíssimas. Agora, se esse pessoal é capaz de entrar na favela, ocupar o espaço e expulsar o tráfico, por que o Estado não fez isso antes? É uma pergunta que se coloca. Por que isso nunca foi tentado? Por que não se faz uma ocupação gradual de cidadania, aquilo de que o Betinho falava?

Há quem argumente que tudo poderia ter sido evitado se a política de remoção de favelas do governo Carlos Lacerda, nos anos 60, tivesse sido levada adiante. Você concorda?

É preciso lembrar que aquela política, que criou bairros populares para a transferência dos moradores, como a Cidade de Deus, não levou emprego para aquela região nem implantou uma rede de transporte público que servisse à população. Grande parte daqueles chefes de família transferidos para longe continuaram trabalhando na zona sul, e constituíram novas famílias. Foi uma política desagregadora. Talvez porque previsse em que a expansão das favelas ia dar, o governo Lacerda foi corajoso. Mas não deu condições de fixação daquele novo morador e nenhum dos governos seguintes deu continuidade ao processo de remoção corrigindo os problemas iniciais.

Os mesmos críticos argumentam que, quando permitiu o uso de alvenaria nos morros, Leonel Brizola contribuiu para a fixação definitiva das favelas.

Essa fixação seria inevitável. O problema foi a falta de planejamento. Já que os barracos precários seriam substituídos por construções de cimento e tijolo, deveria ter havido um plano de urbanização. Mesmo quando os governos têm a melhor das intenções, olham para a favela como algo que não faz parte da cidade. Nós todos fazemos isso: achamos que aquilo é um corpo estranho. Não percebemos que a favela também é Rio. Naquela época, deram material de construção e disseram para os moradores, "se virem". Isso nunca aconteceria em Ipanema.


O carioca sonha com o dia em que se livrará da favela?

As favelas do Rio começaram com duas migrações, no início do século 20. Uma foi a dos soldados que derrotaram Canudos e, trazidos para o Rio, não tinham onde ficar. Ocuparam um morro. A outra foram os moradores pobres do Morro do Castelo, removidos dali quando foi posto abaixo pela urbanização impetrada pelo prefeito Francisco Pereira Passos. Há muito que se tenta tirar gente pobre de onde mora. Abriram as avenidas, mas, como não tinham para onde mover aquela gente de segunda categoria, transferiram para outro morro. A ironia da história é que, ao levar para os morros, eles estavam dando para o narcotráfico do futuro a melhor posição de tiro. Jamais houve política de regularizar o uso do solo nos morros. Sempre se encarou a favela como problema. Nunca se quis transformar a favela num bairro, como Alfama, em Lisboa. Alfama era isso. A população da favela, quem é? É a população de serviço da cidade. A classe média olha com desconfiança para o morro, mas esquece que o ascensorista, o motorista, a empregada doméstica, faxineiros, todos vêm das favelas. Essa integração entre o morro e o asfalto nunca foi feita. Ela só acontece do ponto de vista cultural. A cultura do Rio é uma de inclusão. A cultura tenta unir o que a economia separa.

Nunca houve tentativa de integrar morro e asfalto?

Sim. O projeto Favela-Bairro, durante a primeira passagem de Cesar Maia pela prefeitura, teve boas intenções e alguns bons resultados de urbanização. Mas não resolveu o problema do tráfico. Chegamos ao absurdo de achar que a população da favela é conivente. Não. O que acontece é que ela está inteiramente subjugada por uma tirania que detém o poder econômico, político e militar.

Existe um desejo de extermínio por parte da classe média?

Existe. Mas veja, isso não é por maldade ou crueldade. Não é uma patologia. É o medo que leva a isso. Vivemos uma situação de paranóia em que a morte daquele que se considera o inimigo vem pelo desejo de segurança. A questão é que a morte não resolve. Leva a mais morte, mais crime, mais medo. E persiste essa fantasia da "solução final", de resolver tudo de uma vez com o extermínio.

Como o morador da favela lida com essa rejeição do asfalto?

Ele rejeita na mesma proporção. O favelado tem orgulho de onde mora. Ao contrário do que pensamos, ele tem muito amor por aquilo lá. O ator principal de Era uma Vez (novo filme de Breno Silveira), que inclusive tem como subtítulo Uma História de Amor numa Cidade Partida, mora no Morro do Vidigal e diz que, mesmo depois do filme, vai continuar lá.

A irreverência do Rio é sempre celebrada. Mas ela não tem um outro lado? Essa constante quebra de regras e flerte com a infração não torna o carioca agressivo?

O Rio sempre foi uma cidade muito anárquica, no sentido de ser muito irreverente, indisciplinada. Isso, levado às últimas conseqüências, denota uma cidade que não quer se sujeitar às leis e às regras. É o lugar em que o motorista de táxi sugere "doutor, vamos fazer uma bandalhazinha aqui, a gente pega essa contramão..." E você, que quer chegar na hora, diz: "Tá ótimo, pode fazer". Claro que isso leva à indisciplina urbana, à permanente desobediência cívica. Claro que a conseqüência é agressividade, as pessoas simplesmente se sentem no direito de transgredir. Outro dia, vi um sujeito buzinar atrás de uma senhora que esperava o sinal abrir. Ele pôs a cabeça para fora e gritou: "Você não está na Suécia, não, ô perua!" Há uma degradação do convívio. Mas o Rio sempre foi uma cidade amena, cordial. E ela se degrada unicamente por causa da impunidade. Só por isso. Não acho que o motorista carioca seja menos educado do que o de Paris ou Nova York. Lá, o sujeito paga multa pela infração. Mas o Rio tem momentos de euforia e de baixo astral. Por isso é tão difícil analisá-lo com maniqueísmo. Um colega francês que esteve aqui para o réveillon, estranhou: "Aqui não é a cidade da violência? Então como vocês fazem uma festa com 2 milhões de pessoas e não há nenhum incidente?" Afinal, o Rio é cordial ou violento? É as duas coisas, e para o francês cartesiano é difícil entender.

O Rio está culturalmente decadente?

Não. A cidade tem uma capacidade de dar a volta por cima, que se manifesta ao longo de sua história. Na virada do século 19 para o 20, a decadência era muito pior do que hoje. Os navios passavam a 40 milhas de distância porque havia surtos de febre amarela, tifo, todas as epidemias. A cidade estava decomposta. Mas enquanto isso, na Praça Onze, um grupo de pessoas perseguidas pela polícia estava gestando uma das manifestações culturais mais ricas do mundo, que é o samba. Em 1993, fui com o DJ Marlboro, então desconhecido, a alguns bailes funk. Na minha primeira vez, fiquei horrorizado com a violência - uma violência que é muito mais coreográfica do que real. O Marlboro me disse assim: "Olha, o funk vai tomar conta do Rio". Eu ri dele. Pensava: "Ele acha que uma manifestação dessa vai passar na televisão". Pois bem, anos depois isso aconteceu.


Mas o funk não é como o samba, é?

Os meninos de classe média que sobem o morro não para cheirar, mas para ir ao baile, adoram. O Marlboro brinca comigo: "O funk está soldando a cidade partida".

E você acha que está?

De certa forma, sim. Do ponto de vista cultural, sobretudo musical, não tem apartheid. O samba já tinha feito isso. Agora é o funk. A influência da moda hip hop, do sujeito com o boné virado, o cofrinho da menina aparecendo na calça - isso fez a periferia entrar no centro. No meio universitário sua música está entre as preferidas. A cultura, no Rio, sempre fez a ponte entre morro e asfalto.

Você acha que leva quanto tempo para resolver o problema?A longo prazo, sou otimista. Não o otimista babaca. Mas a própria sociedade, embora alienada, já sentiu na carne o problema da bala perdida. A solução não é a segregação. A sociedade pode ser insensível, mas não é suicida. Fatalmente chegará à conclusão de que é preciso incluir. Ninguém pensa mais em remover favelas. As alternativas de apartheid estão esgotadas. Como a saída não é o aniquilamento nem a guerra, de partida só há uma solução - unir e ceder à vocação do Rio: o encontro, o congraçamento, a festa.

Você escreveu sobre 1968 e voltou ao tema noutro livro. Escreveu sobre Chico Mendes e voltou à questão. Voltaria à cidade partida?

Só quando a cidade deixar de ser partida. Recontar a mesma história, só que piorada, não dá ânimo.

DEU EM O GLOBO


O MUNDO REAL
Merval Pereira


NOVA YORK. Esse mundo novo multipolar de que o candidato democrata à da República dos Estados Unidos Barack Obama falou para a multidão européia, onde a solidariedade entre os antigos e novos aliados derrubaria os muros de preconceitos, é que está em jogo nas negociações da Rodada de Doha em Genebra, onde o mundo tenta encontrar meios de avançar na liberação comercial para enfrentar a crise econômica e de alimentos que o afeta. Nesse ponto, o partido de Obama tem mais dificuldades que os republicanos, tradicionalmente mais abertos comercialmente. No discurso de Berlim, por exemplo, Obama defendeu o livre comércio, mas apenas se os acordos forem "livres e justos para todos".

McCain já votou contra os subsídios ao milho para fazer o etanol americano, e teve coragem de dizer isso ainda nas primárias em Iowa, terra dos grandes produtores. E o partido republicano apóia o programa de etanol brasileiro, com um acordo assinado entre os governos Bush e Lula. Obama, ao contrário, votou a favor dos subsídios e coloca o etanol produzido com milho como uma das opções para o programa americano de combustíveis alternativos.

Mesmo que se chegue a um acordo em Genebra, nas negociações da Organização Mundial do Comércio, o Congresso americano dominado pelos democratas pode vetá-lo, pois reduziria os subsídios já aprovados. Até mesmo com relação à Europa existem divergências sérias em termos de subsídios, seja na agricultura seja nas disputas industriais entre grandes consórcios, especialmente na área de aviação.

O fim do mundo unipolar dominado pelos Estados Unidos foi descrito por Richard N. Haas em recente artigo da revista "Foreign Affairs". Presidente do Council on Foreign Relations - que edita a revista -, uma entidade não-partidária com sede em Nova York, considerada uma das mais influentes em matéria de relações internacionais nos Estados Unidos, ele entende que o momento hegemônico dos Estados Unidos está superado e o século XXI será marcado por um poder mais difuso, e a influência dos Estados-nação declinará em função do aumento da influência de atores não-estatais.

Esse novo mundo vai exigir do futuro presidente americano uma capacidade de dividir o cenário internacional com "dezenas de atores possuindo e exercendo poderes de diversas maneiras, inúmeros centros com poderes específicos importantes", entre eles ONGs, organismos internacionais e países emergentes. Por enquanto, no entanto, o governo americano parece não estar disposto a abrir mão desse poder todo, e nem há sinais de que o futuro presidente, seja ele quem for, o faça.

Na recente reunião do G-8 no Japão, Estados Unidos e Itália se uniram para vetar sua ampliação, com a inclusão de países como o Brasil, África do Sul, Coréia do Sul e Índia, proposta pela França.

O candidato republicano John McCain, em recente entrevista ao "Estado de S. Paulo", deu um passo à frente e se disse favorável à entrada do Brasil e outros países no G-8, mas vetou a ampliação do Conselho de Segurança da ONU.

O professor de História da Universidade de Nova York Tony Judt, autor do recém-lançado no Brasil "Pós-Guerra", falando à coluna disse que a Itália sob Berlusconi "não pode ser levada a sério, infelizmente". A explicação para o veto seria que "a Itália vem a ser o "big boy" do G-8, situação que seria desfeita se outros entrassem. E já que a Itália não é player considerável em outros organismos, o país prefere manter o G-8 exclusivo".

Mas ele adverte: "Não tenhamos ilusão com relação a Sarkozy: a França é opositora ferrenha de abrir espaço no Conselho de Segurança da ONU para países como o Brasil e Índia, já que isso reduziria o espaço da Europa como apenas um lugar no Conselho".

Por outro lado, lembra Judt, "a administração Bush já é um "lame duck" ("pato manco"), expressão em inglês que identifica um governante enfraquecido) e reluta em tomar posições difíceis; talvez a exceção seja se Israel bombadear o Irã". Ele acha que também Obama não se oporá a uma expansão do G-8, mas considera que "trazer Índia e Brasil para dentro do Conselho de Segurança da ONU não terá o seu esforço".

Para o historiador Tony Judt, o republicano McCain "é menos sofisticado do que aparenta, e a área econômica é sua maior fraqueza. Duvido que ele tenha pelo menos pensado no G-8. Seus comentários sobre "Guerra de cem anos" no Iraque e a confusão que fez entre sunitas e xiitas sugerem um homem que pode ser mais simpático ao multilateralismo do que Bush, mas não entende realmente isso".

Na avaliação de Judt, "vai levar um longo tempo para que essa idéia de multilateralismo prevaleça, e desde que Rússia e China têm razões próprias para se comportar mal em temas como o Sudão ou Zimbábue, os conservadores na Europa e nos EUA continuarão a argumentar que quanto menos países poderosos tivermos, melhor".

Ele considera que "o Brasil e talvez a Índia são mais bem vistos como potenciais aliados do que as oligarquias autoritárias da Russia ou da China, mas vai levar um longo tempo para os Sarkozys do mundo aceitarem isso. Ele, por exemplo, não consegue ainda nem perceber como é autodestrutivo forçar a Turquia para fora da Europa".

Também Richard Haas, do Council of Foreign Relations, falando à coluna, diz não acreditar na ampliação do Conselho de Segurança da ONU, embora considere que seria uma medida necessária. "Acredito que Brasil e outras nações como Índia, África do Sul, Coréia do Sul, Japão, devem ser mais incluídas nas discussões internacionais. Mas não sou otimista com relação ao Conselho de Segurança da ONU, que considero quase impossível por causa da política". Para ele, "é mais fácil abrir o G-8, ou criar novas instituições. Precisaríamos ser criativos, flexíveis".

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


PESQUISAS DE AGORA
Marcos Coimbra
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi


"Veja-se o caso das eleições deste ano na cidade de São Paulo. Tomando como base a mais recente pesquisa do Ibope, os quatro principais candidatos reúnem 84% das intenções de voto. Isso vai mudar? Até que ponto?"

Todo mundo sabe que pesquisas de intenção de voto, em eleições municipais, só são capazes de antecipar resultados quando feitas perto do pleito. Temos, já, uma boa experiência com esse tipo de eleição, no Brasil de hoje em dia, e poucos se esquecem disso quando vêem resultados como os que agora estão saindo. O que nem todos se lembram é por quê.

Trata-se de uma regra que comporta exceções, que nos ajudam a entendê-la melhor. Ou seja, embora prevaleçam os casos de pesquisas pouco conclusivas, temos aqueles em que elas conseguem prever o que as urnas vão mostrar, meses depois.

É o que acontece em eleições onde os principais candidatos são bem conhecidos. Nessas, há pouca margem de crescimento para qualquer um, pois as imagens que os eleitores fazem a respeito deles estão formadas e consolidadas. Não há, portanto, lugar para “surpresas”, salvo, é claro, se fatos novos de grande impacto ocorrerem.

Veja-se o caso das eleições deste ano na cidade de São Paulo. Tomando como base a mais recente pesquisa do Ibope, os quatro principais candidatos reúnem 84% das intenções de voto. Isso vai mudar?

Até que ponto?

O que, por exemplo, faria com que uma parte grande dos 34% que pensam votar em Marta trocasse de candidato? Quem tem essa intenção não sabe quem ela é? Não ouviu já as críticas de seus adversários e suas respostas? E será que os 66% que preferem outros nomes não sabem que ela é do PT e que Lula a apóia?

Quanto aos que pretendem votar em Alckmin, por acaso ignoram quem sã o seus oponentes? Falta-lhes alguma informação sobre o ex-governador?

Com Kassab não é a mesma coisa? E Maluf, com seus fiéis 9%, que resistem a tudo que contra ele foi dito? Há alguma denúncia “nova” que os possa escandalizar?

Casos como esse são excepcionais, no entanto. O prefeito atual, dois ex-prefeitos e dois ex-governadores, se enfrentando na mesma eleição, só em São Paulo. Na maior parte das vezes, acontece o inverso, disputas que adquirem suas cores definitivas apenas quando se chega perto do dia da votação.

Alguns casos de pesquisas feitas pela Vox Populi em 2004, de Norte a Sul do país, mostram isso com clareza. São apenas exemplos, parecidos com vários outros.

À mesma distância que estamos hoje da eleição, na segunda quinzena de julho, tínhamos o candidato do PT com grande vantagem em Porto Alegre. Nas pesquisas, Raul Pont chegava a 36%, sendo que nenhum dos outros atingia 10%. No primeiro turno, Pont obteve 35%, mas Fogaça recebeu 27% dos votos. No segundo turno, deu Fogaça.

Algo semelhante ocorreu em Manaus, onde Amazonino Mendes tinha 58% e Serafim Correa, 14%, que se transformaram em 41% e 27%, respectivamente, na eleição. Ao invés de vencer no primeiro turno, Amazonino perdeu no segundo.

Em Belo Horizonte, quem liderava em julho era João Leite, com 35 %, contra Fernando Pimentel, com 28% das intenções estimuladas. Na urna, Pimentel foi a 60% e o candidato do PSDB retrocedeu a 20%.

Tudo isso acontece por uma razão primordial: a quantidade e a intensidade de mídia que nossa legislação concede aos candidatos a prefeito, nas cidades onde existe televisão e rádio. Eles, sozinhos, dividem o precioso tempo de inserções, a única mídia que atinge o universo do eleitorado (pois só assiste ao horário eleitoral quem quer). O mesmo tempo que os candidatos a presidente, governador, senador, deputado federal e estadual têm que compartilhar nas eleições gerais.

Isso muda completamente o quadro de informações do eleitorado, que pode ser apresentado e atraído por nomes novos, que desconhecia poucas semanas antes. Quem tem o que dizer, fala muito e fala rápido. Assim se fazem as “surpresas”.

Podemos ter certeza que, este ano, as teremos de novo. Quem tem juízo, olha com cautela as pesquisas de agora.

DEU NA FOLHA DE S. PAULO


É CEDO PARA APOSTAR
Eliane Cantanhêde


BRASÍLIA - As campanhas estão em fase de aquecimento, e não convém ainda fazer apostas. Em São Paulo, Rio, Porto Alegre, Recife e Salvador, tudo pode acontecer. Em Curitiba, o favorito de hoje tem tudo para ganhar mesmo amanhã, mas o segundo lugar ainda vai dar muito trabalho e o que falar.

São Paulo polarizou entre Marta (PT) e Alckmin (PSDB), e qualquer aposta tem que pular o primeiro turno e focar no segundo. Tudo depende da profundidade e das conseqüências do racha tucano. No Rio, Marcelo Crivella (PRB) está em primeiro, mas 24% não dão segurança para ninguém. Jandira Feghali (PC do B) está logo ali, com 16%, e Eduardo Paes, 13%, não é só a novidade em ascensão como tem o governador Sérgio Cabral.

Em Porto Alegre, como previsto, o prefeito José Fogaça (PMDB) lidera, mas Maria do Rosário (PT), 20%, e Manuela D"Ávila (PC do B), 18%, formam uma maioria feminina e de esquerda que pode ser decisiva no segundo turno. O DEM joga suas poucas cartadas em Recife, com Mendonça Filho, e em Salvador, com ACM Neto. Mas Cadoca (PSC) e João da Costa (PT), ambos com 22%, estão na jogada na capital pernambucana. E, na baiana, há um empate técnico com o tucano Antônio Imbassahy. Entre sete capitais, Curitiba é a única com chance real de fechar a eleição em primeiro turno: o prefeito Beto Richa (PSDB) tem 72%. Mas a petista Gleisi Hoffmann, 12%, teve um desempenho meteórico na última eleição e conta com uma aguerrida militância petista.


As duas curiosidades são a dianteira de Jô Moraes em Belo Horizonte e o PC do B entre os três primeiros no Rio, em Porto Alegre e na própria BH. Mulher, paraibana, comunista e de uma sigla pequena, Jô Moraes dá um nó nos poderosos Aécio Neves e Fernando Pimentel.Pelo menos até o início da propaganda na TV e as divisões de Napoleão chegarem à Rússia. É aí que o jogo (bruto) começa para valer.

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)


NA REPÚBLICA DOS BACHARÉIS
Alberto Dines


Em francês, rififi. Em vernáculo, há opções mais numerosas e sonoras: angu, auê, baralhada, babilônia, bochinche, fuzué, frege, lambança, sarilho, sururu, zorra. Começamos em sânscrito, na esfera mística da verdade absoluta para acabar em latim vulgar no pantanal dos paradoxos jurídicos, não muito longe do calão da malandragem.

O último lance da Operação Satiagraha foi propiciada por um cidadão carioca, motorista profissional, ex-aluno de direito – quem não é nesta terra? – que quinta passada entrou com uma ação popular para obter uma liminar que determine o retorno do delegado Protógenes Queiroz à chefia do inquérito que colocou Daniel Dantas na cadeia.

Wellington Borges da Silva Lúcio, ao que parece, não pretende apenas alçar o delegado da PF à condição de Elliot Ness (o intocável agente do FBI), quer confrontar a presidência da República que, aparentemente, forçou o afastamento do delegado Protógenes do comando das investigações.

Enquanto as cortes não se manifestam, a jurisprudência vacila e os autores divergem, o delegado Protógenes entregou (conforme prometera) o relatório final ao Ministério Público. Mais "enxuto", com menos 93 páginas, concentra-se mais no crime de gestão fraudulenta, exclui todos os jornalistas do relatório parcial, porém mantém as acusações à repórter da Folha de S. Paulo que antecipou, meses antes, as investigações da PF.

Curiosidades bacharelescas: como é que a imprensa soube dos detalhes a respeito do novo relatório? Inspiração divina, leitura labial ou funcionou novamente o velho e enferrujado cano dos vazamentos?

Não adianta esconder: o vazamento é a questão que deveria comandar o debate penal, não as algemas. Para isso seria indispensável uma dose menor de bacharelismo e mais atenção ao jornalismo, à imprensa (que, aliás, acaba de completar 200 anos sem qualquer comemoração). Como a PF tinha pressa e não dispunha de todos os elementos para incriminar definitivamente os acusados recorreu a uma imprensa que não resiste à tentação de publicar imediatamente, sem qualquer investigação, qualquer coisa que pareça sigilosa.

O primeiro vazamento para os jornais, há duas semanas, era altamente explosivo com nítido teor político e envolvia matéria remotamente ligada a questões financeiras, mas foi considerado estratégico para sobrepor-se ao entra-e-sai de Daniel Dantas do xilindró. Para a PF era imperioso fazer barulho, para a imprensa mostrar sua eficiência, quanto mais barulho, melhor.

Como o ministro Tarso Genro, não pode manter-se calado diante de um imbróglio tão retumbante, nesta mesma quinta-feira em evento da OAB fluminense aconselhou o cidadão brasileiro a acostumar-se com a idéia de que suas conversas telefônicas estão sendo grampeadas. A advertência não se referia à prodigalidade da justiça em autorizar gravações (são 33 mil ao mês, segundo levantamento do Globo), nem ao fato de que cada grampo é uma potencial mina de vazamentos. O ministro apenas compartilhava com a sociedade sua preocupação diante da infinita capacidade da "parafernália eletrônica" para invadir a privacidade de qualquer cidadão. O avalista do Estado de Direito não se incomoda em capitular publicamente ao Estado Big Brother, inquisidor e totalitário. Talvez tenha razão. Em questões de Direito, todos têm razão.

Então entram em campo corporações de magistrados e membros do Ministério Público apelando ao presidente da República para vetar o projeto que torna invioláveis os escritórios de advocacia. Alegam os meritíssimos e excelências que a blindagem legal impedirá decretos de busca e apreensão em escritórios de causídicos que defendem criminosos. Por acaso o veto impediria que estes advogados trabalhem em seus domicílios, garantidos pela inviolabilidade prevista na Constituição?

Com protagonistas devidamente togados, os duelos jurídicos são fascinantes: cada texto legal comporta interpretações diametralmente opostas, cada argumento contém a sua negação. Mas convenhamos: viver esta dialética só aumenta o forrobodó que impera na República.

» Alberto Dines é jornalista.

sábado, 26 de julho de 2008

O QUE PENSA A MÍDIA
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1038&portal=

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


GRANDES E PEQUENOS PARTIDOS
Marco Aurélio Nogueira

Aberto formal e efetivamente o processo eleitoral, algumas antigas e já bastante discutidas questões voltam a intrigar analistas e eleitores. Como explicar a facilidade com que adversários incondicionais e muitas vezes furiosos no plano nacional se coligam em várias cidades do País, numa demonstração de elasticidade que beira a irresponsabilidade? Como entender que aliados históricos, afinadíssimos no combate ao governo federal, não consigam caminhar juntos em alguns municípios e cheguem mesmo, como ocorre em São Paulo com o PSDB e o DEM, a se converter em adversários e facilitar as coisas para candidatos de partidos contra os quais se batem por toda parte?

Partidos amigos no plano nacional se convertem em inimigos no plano municipal e emprestam apoio a chapas que não se coadunam com os propósitos proclamados nos estatutos e documentos partidários. A “esquerda” alia-se sem muito pejo com a “direita”, dando origem a blocos desprovidos de coerência profunda. As disputas regionais são mais fortes que as nacionais e praticamente proíbem que os candidatos se declarem fiéis ou leais ao que quer que seja. Não é por acaso que os políticos não lidam bem com a fidelidade partidária e vivem tentando flexibilizá-la ou burlá-la, quase sempre em nome de uma necessária dose de “liberdade de pensamento e ação” ou da alegação de que o quadro partidário é jovem demais para ser racionalmente estruturado. Muitos dos atritos entre o Poder Judiciário e a política passam por aí. Boa parte das decepções do cidadão, também.

Dado o caráter do federalismo brasileiro e do próprio regime presidencial instalado por aqui, as eleições municipais têm enorme valor estratégico. Desempenham papel determinante tanto na sustentação dos governos estaduais e federal quanto na dinâmica das eleições para governadores e presidente da República. Deste ponto de vista, 2008 é a ante-sala de 2010. E quase tudo o que é feito hoje tem um olho depositado no que será feito daqui a dois anos.

O eleitor tem motivos de sobra para se sentir perdido e ludibriado. Dada a incoerência com que se depara, é como estivesse abandonado pelos políticos e pelos partidos.

E o que dizer, então, da força que ganham as pequenas legendas? Muitas vezes, os grandes partidos, ou os candidatos mais fortes, entregam-se a uma luta insana para obter o apoio dos pequenos. Fazem de tudo para integrá-los a suas coalizões, prometendo-lhes mundos e fundos e os anunciando como fatores decisivos, verdadeiros fiéis da balança. Quase sempre a operação é feita simplesmente para prejudicar os adversários, na linha da máxima “o inimigo de meu inimigo é meu amigo”, ou seja, com o objetivo mais de atrapalhar que de somar ou agregar. É a sedução usada como mero artifício de campanha, sem muita sinceridade ou rigor.

São, evidentemente, operações legítimas, sancionadas por qualquer bom manual de estratégia política. É impossível criticar os partidos por desejarem mais apoio para suas chapas ou por pretenderem embaçar a vista e embaralhar os passos dos adversários. Apoios, em política, são como o sal da terra. Sempre têm alguma tradução prática e muito valor simbólico.

Coligações eleitorais pesam em termos contábeis. Fornecem aos partidos recursos de campanha, material de divulgação, minutos importantes na propaganda eleitoral, tribunas alternativas em certos setores, áreas ou regiões, além da possibilidade de ampliar os apoios pela via da multiplicação do número de candidatos comprometidos com o vértice da coligação.

Ao serem buscados e concretizados, os apoios funcionam como atestados de flexibilidade, desprendimento e largueza de visão, prova de que os candidatos não querem tudo, estão abertos a compartilhar os frutos da vitória desejada, como se desejassem demonstrar uma generosidade que a disputa pelo poder tende a ofuscar ou impedir. Há alianças que simbolizam um compromisso com o futuro, outras que espelham a nova face de um partido, outras ainda que são um esforço para revalidar identidades ou sugerir caminhos alternativos. Pode ser extraordinário, por exemplo, o efeito simbólico da inclusão no mesmo palanque de pessoas que pensam diferentemente ou de antigos adversários, figuras dotadas de carisma específico, heróis de batalhas passadas, ícones da nacionalidade.

Mas os grandes partidos não costumam ser muito generosos quando se trata de decidir quem ocupará a “cabeça da chapa”. Nestes casos, o desprendimento é bastante relativo, e muitas vezes não passa de dissimulação e jogo de cena.

Partidos são seres de duas almas: a conquista do poder e a organização dos interesses e opiniões. A primeira exige visão tática e estratégica, é fria e obstinada, não mede esforços para se completar. A segunda depende de cultura, ideologia, teoria social, empuxo programático, marcas de identidade. Alianças sem outro critério que não o de viabilizar o acesso ao poder, ainda que legítimas, não ajudam à alma substantiva dos partidos e podem até mesmo feri-la, apequená-la ou descaracterizá-la. Justificam-se no curto e médio prazos, mas podem ser letais no longo prazo se, por exemplo, chamuscarem a identidade e a coerência doutrinária dos partidos.

Não se trata de uma escolha de Sofia. As duas almas são indispensáveis para o partido político. Há momentos em que simplesmente não há como escolher, os fatos empurram as decisões. Mas o ideal seria sempre manter as almas em equilíbrio e integração, até para que uma possa moderar ou chamar às falas a outra.

O problema é que hoje, nestes tempos “líquidos”, consumistas e velozes em que vivemos, a alma programática e ideológica se encontra combalida, menosprezada e sem eixo para se sustentar. Com isso a volúpia pelo poder ganha completa independência e espalha sua lógica pelo sistema político e pelos mais diferentes circuitos sociais.

Marco Aurélio Nogueira, professor de Teoria Política da Unesp, é autor dos livros Em Defesa da Política (Senac, 2001) e Um Estado para a Sociedade Civil (Cortez, 2004).

DEU NO JORNAL DO BRASIL


GOVERNO E CAMPANHA SOLTOS
Villas-Bôas Corrêa

NESTA FASE NEBULOSA em que a campanha eleitoral não encorpa e o governo cai na defensiva, com a inflação a arranhar a porta e a engolir nacos do Bolsa Família, o megaescândalo do Opportunity, a derramar o lixo para todos os lados veio mesmo a calhar a jogada um tanto constrangida do presidente Lula de recolher as velas e interromper o oba-oba das visitas às obras do Projeto de Aceleração do Crescimento, o sumido PAC, enquanto torce para que as coisas melhorem ou parem de piorar.

Na já longa militância política, iniciada nos tempos de ascensão do maior líder operário da história deste país e o salto para o degrau de fundador e candidato único do PT à Presidência em três tentativas malogradas até a vitória em dose dupla dos dois mandatos, Lula pagou o preço da inexperiência e da improvisação. Mas aprendeu com caneladas de erros e empurrões dos acertos. E mandou o recado de que não participará da campanha, com exceções de São Paulo e São Bernardo do Campo. E é de se tirar o chapéu o veto sumário e seco à participação da ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff e candidata à sua sucessão nos até agora murchos palanques da mofina campanha municipal para a eleição de prefeitos e vereadores. Para dourar a pílula, estendeu a proibição ao ministro das Relações Internacionais, José Múcio Monteiro, que deve limitar a sua área de atuação a Pernambuco.

Os demais ministros estão liberados para comícios e demais atos de campanha. O caso de Dilma já não tão poderosa, mas ainda a candidata única do governo para a sucessão de Lula em 2010, a conversa é outra. Nas primeiras avaliações cautelosas, exercícios que não vão além de palpites, esta campanha municipal está prometendo ser a mais medíocre desde o fim da ditadura do rodízio dos generais-presidente.

Ainda há tempo para a reviravolta, com a massificação da campanha com o horário de propaganda eleitoral em rede nacional das emissoras de rádio e televisão. Mas será uma grata surpresa a revelação de lideranças ­ poucas, não convém alimentar ilusões para não cair na fossa ­ no deserto em que tantos já perderam o rumo de casa. Em vez de confirmar candidaturas para a cadeira de Lula, muitas ambições apresentam escoriações e lanhos que podem ser fatais.

A sorte pode ser ingrata, mas não se mostrou tendenciosa na primeira fase de caminhada. Basta olhar o panorama com a isenção de quem busca entender o que está acontecendo. E começar cravando evidências: nem o governo e nem a oposição têm o seu candidato natural, apoiado pelos partidos da sopa aguada de siglas que confunde o eleitor. A oposição chamusca os seus candidatos nas fogueiras das intrigas e vaidades regionais, como nos exemplos de Minas e São Paulo. E o presidente Lula foi obrigado a acudir antes que a única candidata que não foi torrada na temporada de escândalos e grossa roubalheira das dezenas de denúncias que se perdem na burocracia judiciária, caia no mundéu do envolvimento nos sangangus do segundo escalão.

A ministra-candidata vai hibernar por algum tempo, até que as coisas melhorem e a poeira assente. E Lula mudou o modelo da agenda de viagens. Ampliou o roteiro para passar ao lago das áreas de turbulência e distraiu-se com o exotismo de civilizações bizarras nos cafundós da Ásia e da África, além da atenção permanente na consolidação do projeto de liderança continental. Escorado na proibição constitucional e com a ministra-candidata em quarentena, evitará as visitas às obras e lançamentos de projetos do PAC, com todas as evidências de campanha eleitoral. Mas não faltaram motivos para aborrecimentos.

Não é apenas o projeto da ministra-candidata que reclama cuidado: o PT é um manancial de amofinação. Ainda agora, o serviço de inteligência federal confirma que o ex-deputado petista, José Greenhalgh é um dos lobistas suspeitos de ligação com o banqueiro Daniel Dantas e que teria exigido US$ 260 milhões para viabilizar a fusão entre a Brasil Telecom e a OI.

Tudo poderia ser varrido para debaixo do tapete se a inflação não tivesse rompido a cerca e voltasse a ameaçar novo surto, com a elevação do preço dos gêneros de primeira necessidade da alimentação dos pobres e remediados e a ronda das maquinetas da remarcação dos preços nos mercados.

DEU EM O GLOBO


VENDENDO UTOPIAS
Merval Pereira


NOVA YORK. O mundo solidário que o candidato democrata Barack Obama profetizou poeticamente no seu já histórico discurso em Berlim não é uma realidade palpável, embora seja difícil se opor a ele. Apesar do sucesso de audiência, e a conseqüente exposição midiática que o showmício de Berlim lhe proporcionou, o candidato democrata está recebendo mais críticas do que seria de se esperar, aqui e no exterior, não apenas pelo conteúdo do pronunciamento, que teria sido histórico simbolicamente, e não em substância, mas, sobretudo, pela imagem de presunção que deixou em seu rastro. A retórica do candidato que melhor encarna uma visão multilateral do mundo pode não ajudar Obama internamente, mas pode também não passar disso, uma retórica que impressiona as multidões, especialmente os jovens, mas que não se traduzirá em mudanças concretas na política externa, mas apenas cosméticas.

O professor de História da Universidade de Nova York, Tony Judt, autor do best-seller "Pós-Guerra", recentemente lançado no Brasil, por exemplo, falando à coluna, diz que Obama pode decepcionar os estrangeiros que esperam mudança radical na política externa dos Estados Unidos:

"Ele é percebido nos Estados Unidos como fraco em política externa e temas militares, e vai querer mostrar-se capaz de firmeza e de olhar para os interesses americanos em primeiro lugar".
Embora considere que Obama "certamente entende o mundo contemporâneo melhor do que McCain", Judt diz que "na presente situação econômica, concessões generosas para fortalecer estados estrangeiros competidores teriam consideráveis resistências dentro de casa".

Passados os momentos de maior emoção, e retirada da cena política a honra patriótica de ver-se o mundo aos pés de um americano, já é possível analisar-se a fala de Obama sob dois aspectos: o da apresentação pessoal e o da representação oficial de um provável futuro presidente dos Estados Unidos.

No pessoal, o que ficou registrado para setores conservadores foi a soberba do candidato, que teria sido demonstrada em pelo menos dois momentos do discurso. Primeiro, ao abrir a apresentação, Obama fez um gracejo, dizendo que sabia que ele era diferente dos políticos americanos que ali estiveram, referindo-se indiretamente a sua cor. Parece claro que estava se referindo ao democrata John Kennedy, ou até mesmo ao republicano Ronald Reagan, ex-presidentes que fizeram discursos históricos em Berlim.

Mas, além disso, houve quem se lembrasse que tanto Colin Powell quanto Condoleezza Rice, dois negros, como secretários de Estado do governo americano, rodaram o mundo com posição política de destaque e, portanto, não era o caso de Obama destacar essa sua "diferença", muito menos ele, que diz não querer fazer da cor um motivo de campanha.

São situações distintas, claro, Obama é o primeiro negro candidato a presidente da República com chances reais de vitória, e poucos, muito menos Powell ou Rice, levariam centenas de milhares de pessoas às ruas de Berlim, a não ser que fosse para protestar contra a guerra do Iraque, como aconteceu em diversas ocasiões. Mas o registro desse pequeno sinal de soberba ficou.

John F. Cullinan, da National Review, uma publicação conservadora, anotou também uma espécie de plágio no discurso de Obama, quando ele diz: "Agora, o mundo vai ver e lembrar o que fazemos aqui, o que nós fazemos deste momento".

A frase é semelhante a outra, dita por Abrahan Lincoln no Cemitério de Gettysburg, em homenagem aos mortos da Guerra Civil: "O mundo vai notar pouco, ou não vai se lembrar por muito tempo, o que nós dissemos aqui, mas não poderá nunca esquecer o que eles, os mortos honoráveis, fizeram aqui".

Mas Cullinan não deixou de destacar o tom auto-elogiativo de Obama, em contraste com a modéstia de Lincoln. Os conservadores destacaram também a exortação de Obama a que um "estado de espírito" da Guerra Fria fosse abandonado, como coisa do passado, com críticas a uma posição que seria ingênua do candidato democrata diante das constantes mensagens ameaçadoras que estariam sendo enviadas pela Rússia, tanto em relação à energia quanto ao rearmamento militar.

Também não passou despercebido o fato de que o apelo de Obama para que os países europeus despendam mais recursos e homens para ajudar a combater o terrorismo, especialmente no Afeganistão, será vão, pois diversos países europeus continuam com forte oposição popular à guerra comandada pelos EUA.

Para o professor Tony Judt, "a Europa não tem posição unificada em política externa nas questões críticas como guerra do Iraque, Oriente Médio, Rússia, Turquia, e essa é sua mais importante, e talvez incapacitante, fraqueza".

O aspecto messiânico da atuação do candidato democrata é o que mais incomoda a parte do público - e da mídia - que não aderiu à Obamamania. Ao mesmo tempo, é difícil acreditar que Obama seja ingênuo a ponto de imaginar um mundo perfeito onde as barreiras de preconceitos serão derrubadas, e todos trabalharão em conjunto.

Ele mesmo deixou claro, em entrevista a uma televisão americana, que sua exortação a que os europeus participem mais ativamente no combate ao terrorismo mundial, enviando tropas para o Afeganistão, teria um resultado colateral positivo para os Estados Unidos, que precisariam enviar menos soldados para a guerra. Com o dinheiro poupado, seria possível investir mais internamente para contornar a crise econômica e aumentar a oferta de empregos.

Essa explicação pode até soar bem aos ouvidos dos eleitores americanos, mas não fará o menor sucesso entre os europeus, mesmo entre os obamamaníacos.


Continua amanhã

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


ILHA DE CUBA, PARA ONDE VAI?
Sergio Fausto

Em 26 de julho de 1953 ocorreu o ataque ao quartel de La Moncada, em Santiago de Cuba, episódio que, na narrativa revolucionária, marca o início do processo que levou ao triunfo de Fidel e seus liderados em janeiro de 1959. Passados 55 anos, Cuba encontra-se em reforma do modelo de organização econômica e social cujos traços fundamentais se definiram já no começo da década de 1960. Naqueles anos, a revolução vitoriosa enveredou definitivamente pelo caminho ou descaminho do socialismo, com a estatização praticamente completa da propriedade e dos meios de produção e o estabelecimento de um sistema de planejamento e controle da economia totalmente centralizado.

Dois conjuntos de perguntas resumem as muitas dúvidas sobre a evolução futura das reformas em andamento em Cuba. O primeiro diz respeito à amplitude e velocidade que poderão assumir as reformas econômicas e se elas desembocarão, mais cedo ou mais tarde, na transição para uma economia de mercado na ilha. O segundo se refere a se e quando serão adotadas reformas políticas e, nessa eventualidade, se haverá uma transição para a democracia em Cuba.

Em meio a tantas incertezas, uma coisa parece certa: as reformas iniciadas - parciais, sem dúvida, mas todas elas apontando inequivocamente na direção de mais liberdade econômica de mercado e menos centralização estatal - não deverão ter o mesmo destino das que, deflagradas em 1991, foram interrompidas ou revertidas cinco anos depois. A razão é que a “nova” liderança cubana, ao que tudo indica, está convencida de que ou muda a organização da economia e da sociedade ou perderá o controle político da ilha em não muito tempo.

Trata-se de um reconhecimento tácito de que o socialismo em Cuba é insustentável sem a ajuda externa que lhe proporcionava o mundo soviético, até o final dos anos 80. De fato, boa parte dos indicadores econômicos e sociais cubanos não se recuperou das perdas sofridas após o colapso da União Soviética, a despeito dos últimos três anos de alto crescimento, puxado pela elevação das cotações internacionais do açúcar e do níquel e facilitado pelas importações especiais de petróleo venezuelano.

A velha doutrina socialista tem apelo cada vez menor entre os mais jovens, que não viveram o período revolucionário e não vêem as suas expectativas atendidas por uma economia débil e um sistema público de serviços sociais em decadência. O próprio governo passou a reconhecer os problemas: cerca de 50% dos professores do ensino fundamental são profissionais improvisados, sem as necessárias qualificações, para substituir os professores que deixaram a carreira, alguns o próprio país, em busca de melhor remuneração. O saldo das reformas truncadas da primeira metade dos anos 90 é relativamente negativo: se, por um lado, desafogou a vida de alguns e melhorou as condições de oferta de alguns bens, por outro, criou novas desigualdades na sociedade e na economia cubanas e ampliou a informalidade, por onde penetram o crime e a delinqüência.

Além das dificuldades de uma marcha à ré, o momento é oportuno para avançar com as reformas econômicas. Existe abundância de capitais no mundo, em que pese a crise recente. Há interesses palpáveis de grupos europeus, sobretudo espanhóis, de investir na ilha, principalmente no setor de turismo. As perspectivas de desenvolvimento do etanol abrem novos horizontes para a estagnada lavoura açucareira e as possibilidades de exploração de novas reservas de petróleo no Golfo do México, em parceria com empresas estrangeiras, parecem promissoras. A eventual eleição de Barack Obama nos EUA poderá representar um alento adicional, com a suspensão prometida das restrições a viagens e remessas de dinheiro de cidadãos americanos e cubano-americanos para Cuba.

A estratégia do governo da ilha é clara: melhorar a situação econômica com reformas graduais visando, principalmente, a atração de investimentos diretos estrangeiros, sem abrir mão do poder político. Isso não elimina a possibilidade de relaxamento das restrições às liberdades civis e políticas hoje existentes, inclusive com a libertação de prisioneiros políticos, na medida em que facilitem concessões econômicas externas, mas não coloca de imediato sobre a mesa a carta da transição democrática e da alternância no poder.

No curto e médio prazos, a estratégia do governo conta com boas chances de sucesso. A prazo mais longo, as pressões por uma real democratização devem prevalecer. O relaxamento do regime político reduzirá o medo. A eventual melhoria da situação econômica diminuirá a energia gasta com a obtenção mesmo das coisas mais comezinhas. A ampliação do número de “produtores autônomos” reforçará os interesses em favor de uma economia de mercado com regras claras. A intensificação dos contatos com o exterior, sem a necessidade de abandonar o país, fortalecerá as expectativas de que “um outro mundo é possível”.

Como toda transição, os setores mais duros do regime vão resistir. Eles se concentram nos aparatos de segurança e nas empresas estatais, hoje não raro chefiadas por militares. A violência do processo dependerá, em parte, da atitude da “comunidade internacional”, a começar pelos EUA.

O Brasil tem um papel a desempenhar nesse processo. Faz bem quando a Petrobrás se apresenta para investimentos em parceria. Faz mal quando se cala diante das violações do regime cubano aos direitos humanos. Pior ainda, quando colabora com elas, como no caso recente dos boxeadores.

Pela significação política que tem, o assunto é maior que o tamanho da ilha. E o Brasil precisa ter uma política à altura, que não sacrifique, como a atual, a defesa internacional dos direitos humanos, princípio da nossa Constituição, em nome de mal disfarçadas simpatias ideológicas e puro e simples pragmatismo econômico.


Sergio Fausto, cientista político, é coordenador de estudos e debates do Instituto Fernando Henrique Cardoso e membro do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional (Gacint/USP)