sexta-feira, 9 de março de 2012

A lúcida estratégia de Aécio:: Alberto Carlos Almeida

Aécio é o que qualquer pessoa imagina ser um político típico. A socialização primária de Fernando Henrique foi mais intelectual do que política, a de Lula foi uma socialização básica de líder de movimentos sociais, em particular do movimento sindical, Dilma foi socializada como tecnocrata. Aécio, por sua vez, foi inteiramente socializado dentro da arte de fazer política, aliás, fazer política em Minas Gerais. As diferenças entre esses grandes personagens de nossa história política recente são responsáveis pelo espanto com que alguns setores formadores de opinião estão encarando o desempenho de Aécio na oposição. Esses setores estão desacostumados a ver um político típico em atuação.

A forma como cada um de nós é socializado explica uma importante parte de nossas visões de mundo e comportamento. Aprendi com meus pais nordestinos a gostar do Carnaval, de festa junina, de praia, da cozinha tipicamente nordestina e também de comer frutos do mar. Criado no Rio de Janeiro, tive a chance de aprender a ver o Brasil como uma ex-capital, isto é, a ver o Brasil como um tudo, a compreender e considerar legítimo o interesse de todas as regiões do Brasil. Tão importante quanto isso, escolhi o Fluminense como time e aprendi a gostar de samba, esse gênero musical que, por meio de letras e melodias, tão bem retrata os dramas de nossa sociedade.

Casado que sou com uma catarinense oriunda do Vale do Itajaí, aprendi a reconhecer na prática o que tinha visto ao menos em parte nos livros de Max Weber: a ética do trabalho. Tendo me transferido para São Paulo, fui socializado, muito mais do que no Rio de Janeiro, a considerar a opinião do cliente a coisa mais importante que existe. Convivendo com funcionários de minha empresa, oriundos de cidades como Ribeirão Preto, Bebedouro e Flórida Paulista, aprendi a reconhecer de longe o espírito empreendedor e o desejo de melhorar de vida.

Aécio é filho de político por parte de pai e é neto de nada mais nada menos do que Tancredo Neves por parte de mãe. Seu avô paterno chamava-se Tristão Ferreira da Cunha. Tristão foi político, advogado e professor, exerceu o cargo de secretário da Agricultura, Indústria e Comércio quando Juscelino Kubitschek foi governador de Minas Gerais, entre 1951 e 1955. Aécio Cunha, filho de Tristão e pai de Aécio Neves, foi deputado estadual entre 1955 e 1963 e deputado federal entre 1963 e 1987. Tancredo, no MDB, era adversário de Aécio Cunha, da Arena, mas os dois dividiram por 18 anos um apartamento em Brasília.

Quem teve a chance de, como eu, ler as atas das reuniões de gabinete do curto período dos anos 1960 quando o Brasil adotou o parlamentarismo e Tancredo foi primeiro-ministro, pode atestar a enorme habilidade política do avô de Aécio. Tancredo coordenava as reuniões sem assumir uma posição entre as diferentes visões de seus ministros. No decorrer da reunião, ele coordenava a discussão de tal maneira a atingir um consenso, era o líder em ação. A palavra final era de Tancredo, ao definir qual seria a decisão do gabinete. Em geral, essa decisão seguia o caminho de menor resistência, o caminho consensual, aquele em que todos ganhariam e perderiam um pouco, em que ninguém sairia totalmente vencedor ou totalmente derrotado. Aécio foi socializado na política dessa maneira.

O Aécio de 2012 é um político que faz oposição ao PT e ao governo Dilma de maneira moderada e por isso tem sido duramente criticado por um pequeno grupo de formadores de opinião de São Paulo que se orientam, quando o assunto é politica, de forma quase inteiramente intelectual. Ao fazer oposição moderada a Dilma, Aécio está fazendo política. Ao ser criticado por essa elite, está sendo exigido dele que atenda a uma demanda intelectual, quase uma carência psicológica, que também seria atendida por um bom psicoterapeuta.

Não existe nada mais correto do que o que Aécio está fazendo. Ele sabe que aqueles que hoje são oposição a Dilma vão votar nele de qualquer maneira em 2014. O que o ex-governador de Minas quer é o voto daqueles que atualmente votariam em Dilma. Estamos em 2012 e muita água vai passar por debaixo da ponte até 2014. O líder dos tucanos não deseja que o atual eleitorado de Dilma se afaste dele. A melhor maneira de evitar isso é não bater muito forte no governo da presidente.

O raciocínio político, e não exclusivamente intelectual, é simples. Analisando-se os resultados das últimas eleições, vê-se que a oposição tem 33% dos votos válidos em primeiro turno. Foi o que Serra teve em 2010. Naquele ano, as eleições ocorreram nas piores condições possíveis para Serra, com uma aprovação de 80% para Lula. O único que achava que poderia derrotar Dilma naquela situação era Serra. Além disso, ele é um político desagregador e sem carisma. Pode-se, inclusive, parafrasear Nelson Rodrigues para defini-lo como político: a pior forma de solidão é a companhia de José Serra. Ainda assim, ele teve 37% de votos no primeiro turno. É óbvio que Aécio terá mais do que isso. Esses votos já estão garantidos. Aécio não precisa bater duro em Dilma para conquistá-los. É preciso lembrar que Serra colocou Lula de maneira elogiosa em sua propaganda política na TV (será que fará o mesmo em 2012, caso seja candidato a prefeito?).

Se Aécio caminha para ter mais do que 37% de votos válidos em primeiro turno em 2014, o que ele precisa é construir o caminho para conquistar os votos que hoje estão mais próximos de Dilma do que dele. A maneira de fazer isso é por meio de uma oposição moderada, exatamente o que tem sido criticado pela elite intelectual do eixo Jardins - Itaim. Essa elite quer que Aécio bata duro em Dilma porque não conhece o Brasil tanto quanto Aécio conhece. Ela não é capaz, por exemplo, de se colocar na perspectiva de um nordestino que vem votando no PT e considera o partido responsável por ele ter melhorado de vida. Muitas pessoas que formam essa elite nunca pularam Carnaval, não sabem jogar futebol, não gostam de samba e nas férias de janeiro, em vez de irem para uma praia do Nordeste, entram em um avião rumo a Paris, Londres ou Nova York. Nada contra o roteiro Helena Rubinstein, mas não no verão brasileiro.

Obviamente, Aécio não deve dar ouvidos a essa elite ou a qualquer um que hoje exija dele uma oposição dura ao governo do PT. Aécio, como um político típico, como neto de Tancredo, quer agregar. Ele está buscando o caminho de menor resistência junto ao mundo político. Esse caminho é o da oposição moderada. Os atuais críticos de Aécio não gostam nem um pouco do governo Dilma. Isso significa que votarão em Aécio de qualquer maneira em 2014. O que o senador mineiro quer é o voto de milhões de nordestinos socializados bem longe do eixo Jardins - Itaim, pessoas que vêm aprovando o PT, mas que podem estar dispostas a votar em um opositor, desde que ele deixe claro que manterá, para o Nordeste, os benefícios trazidos por Lula e Dilma. Isso não se faz somente com palavras, isso se faz com uma imagem cuidadosamente construída. A decisão de construir uma imagem desse tipo não é feita com base em um raciocínio intelectual, mas sim em uma maneira de pensar política.

A comparação entre Brasil e Reino Unido mostra que nem sempre a socialização neste ou naquele contexto resulta nos efeitos esperados. O excelente filme sobre Margareth Thatcher, "A Dama de Ferro", mostra isso. Ela era filha de quitandeiro e soube aproveitar essa experiência em sua vida política. Ter sido filha de quitandeiro foi fundamental para que Thatcher construísse um discurso genuinamente popular, baseado na defesa da iniciativa individual e no pequeno negócio. Ter sido filha de quitandeiro deu a ela a fibra e a coragem que faltavam a seus pares do Partido Conservador para enfrentar as dificuldades em que o Reino Unido estava mergulhado nos anos 1970. Ela governou seu país por quase 12 anos, um sucesso absoluto.

Cada país tem o filho de quitandeiro que merece. Serra foi derrotado duas vezes para presidente - na segunda vez, para uma candidata que nunca havia disputado uma eleição. Pior do que isso, ele nunca teve um discurso genuinamente popular, apesar de ter origem humilde. Na campanha presidencial (e não para prefeito) de 2010, sua mais memorável promessa foi a de promover mutirões de cirurgias de próstata, varizes e catarata. Claramente, ao contrário de Thatcher, ele não incorporou o que havia de melhor em sua socialização.

O Brasil precisa de políticos típicos. Aécio foi socializado na boa forma mineira de se fazer política. Essa afirmação causa horror a muitos intelectuais do eixo Jardins - Itaim, mas será graças a isso que o PSDB se fortalecerá no futuro próximo.

Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de "A Cabeça do Brasileiro" e "O Dedo na Ferida: Menos Imposto, Mais Consumo".

FONTE: VALOR ECONÔMICO

PIBinho de Dilma :: Roberto Freire

Depois de passar todo o ano passado sustentando que o Produto Interno Bruto (PIB) cresceria em torno de 5%, o ministro Mantega finalmente anuncia seu efetivo crescimento, 2,7%. Entre a fantasia de um crescimento robusto e a realidade de um crescimento pífio, uma miríade de explicações, a última das quais, da lavra da própria presidente Dilma, culpando as nações europeias pelo "tsunami de dólares" jogados na economia mundial, impactando negativamente os países "emergentes".

Nada mais longe da verdade! A queda do nosso PIB deve ser buscada, fundamentalmente, nas causas internas que têm obstaculizado um processo de desenvolvimento econômico sustentado.

A começar pelo baixíssimo nível de investimento registrado no ano passado. O investimento cresceu 4,7% em 2011, muito abaixo da alta de 21,3% em 2010. A verdade é que houve uma importante desaceleração dos investimentos ao longo de 2011, saindo de 8,8% no primeiro trimestre (comparado a igual período do ano anterior) para 2% no quarto.

Outro aspecto sempre salientado pela ampla maioria dos economistas refere-se a nossa taxa de juro, uma das maiores do planeta, que encarece os investimentos produtivos, alimenta a especulação por conta da rolagem dos títulos da dívida do governo, e alimenta nossa desvantagem cambial, frente as outras economias, mormente as mais desenvolvidas, cuja taxa de juro flutua em torno de zero a dois por cento.

Uma das consequências nefastas mais visíveis desse fato pode ser constatada no desempenho de nossa indústria, que cresceu apenas 1,6% em 2011. Pior ainda, a indústria da transformação (que exclui a mineração e os serviços de utilidade pública) ficou parada, com expansão de apenas 0,1% em 2011, pior desempenho entre os 13 subsetores do PIB. Ou seja, segundo dados do IBG, por esses números a indústria da transformação ainda está no mesmo nível de produção do terceiro trimestre de 2007.

A performance de nossa indústria foi particularmente ruim no último trimestre, com queda de 2,5% ante o anterior, na série dessazonalizada, e de 3,1% ante o último trimestre de 2010.
Foram os piores resultados desde 2009. Nesta semana também foi divulgada nova queda na produção industrial de 2,1% em janeiro de 2012 em relação a dezembro de 2011, ou seja, a tendência de queda se mantém.

Não fosse o agronegócio, que cresceu consistentes 3,9%, com destaques para algodão, fumo, arroz, soja e mandioca, com alta na produção e na produtividade, o resultado do PIB seria ainda pior. Os serviços, que representam 67% da economia, cresceram 2,7% em 2011, expansão idêntica à do PIB.

Fica claro, então, sem desconhecer a profundidade da crise financeira internacional, mormente na zona do euro, nossos reais problemas dizem respeito ao "custo Brasil", que paulatinamente tem deixado nossa indústria cada vez menos competitiva, ante os demais países emergentes, e ao atraso das reformas estruturais, que tanto o governo de Lula, como o de Dilma mostram-se incapazes de fazê-las, presos que estão na política rala dos compromissos do varejo, junto aos partidos de sua base de sustentação.

Roberto Freire, deputado federal (SP) e presidente do PPS

FONTE: BRASIL ECONÔMICO

Crescimento da economia em 2011:: Luiz Carlos Mendonça de Barros

Medidas agressivas adotadas agora podem criar grandes dissabores no campo da inflação em 2013

A divulgação dos números da economia brasileira em 2011 provocou um pequeno terremoto. No governo, o crescimento do PIB abaixo das previsões otimistas mantidas ao longo do ano deixou a clara sensação de frustração.

Esse gosto amargo ampliou-se à medida que as críticas ao desempenho da economia chegaram à imprensa. "Pibinho", escreveram uns; "PIB raquítico", qualificaram outros analistas, enquanto a oposição chamou a atenção para o fracasso do governo Dilma em seu primeiro ano gerindo a economia brasileira.

A comparação com um crescimento de mais de 7% em 2010, último ano do período Lula, foi usada como prova do insucesso do novo governo. Segundo a imprensa, a presidente Dilma cobrou de seus ministros medidas mais agressivas para que a decepção de agora não se repita em 2013, quando os resultados do PIB deste ano forem divulgados.

Na imprensa especializada, as análises se concentraram nas entranhas da economia no ano passado, ressaltando o desempenho pífio da indústria de manufaturas, na queda dos investimentos ao longo do ano e na medíocre taxa de poupança da sociedade. Como sempre, foram fartos os ensinamentos de como fazer para se retomar o crescimento em 2012 usando mecanismos administrativos como taxas de juros do Copom e medidas adicionais para enfraquecer nossa moeda.

Vejo os números divulgados pelo IBGE sob outra perspectiva. Para mim, eles representam uma realidade que foi sendo construída ao longo do ano devido a fenômenos intrínsecos à nossa economia e a acontecimentos que se deram fora do Brasil. Para quem -como eu- fez do acompanhamento da economia sua profissão, os números desta semana não causaram, portanto, nenhuma surpresa.

O primeiro deles foi o incrível choque de oferta que ocorreu na virada de 2010 nos mercados de produtos agrícolas. Os preços chegaram a subir 30% em dólares, impactando diretamente a inflação no Brasil.

Duas consequências dessa alta de preços se deram ainda no início do segundo trimestre do ano e nos levaram a um PIB mais fraco em 2011: os salários foram corroídos pela inflação de alimentos, e o Banco Central pisou no frio monetário, subindo os juros e restringindo o crédito ao consumo.

E a economia começou a desacelerar pelo canal do consumo das famílias, que, no Brasil, representa mais de dois terços do PIB.

Pouco mais à frente, com o agravamento da crise das dívidas soberanas na Europa, um choque negativo das expectativas atingiu os empresários no Brasil e reduziu seu apetite para correr riscos. A reação -normal nesses momentos- foi a de pisar no freio dos investimentos.

No início da segunda metade do ano, esse quadro começou a mudar, com a queda dos preços dos alimentos no exterior e a natural redução da inflação. O poder de compra dos trabalhadores voltou a crescer e o Banco Central iniciou uma política de afrouxamento das condições monetárias, fazendo com que o consumo das famílias fosse estimulado.

Mas já era tarde para 2011, e a aceleração do crescimento econômico -já contratado- deve ficar para este ano. Ele será puxado pelo consumo e reforçado, a partir do meio do ano, pela volta mais agressiva dos investimentos privados. Na passagem de 2012 para 2013, o "Pibinho" de agora deve se transformar em um "Pibão" de mais de 5% ao ano.

Essa minha leitura da economia para os próximos meses me obriga a uma nota de cautela em relação à aceleração da queda dos juros por parte do Banco Central, decidida na mais recente reunião do Copom.

Um excesso de estímulo monetário agora só chegará à economia no último trimestre do ano, quando -se eu estiver certo- estaremos trabalhando acima da capacidade da economia e criando condições para uma aceleração perigosa da inflação.

O governo deveria ter mantido a calma e esperar que os tempos melhores, que certamente virão, resgatem a economia.

Perdendo a calma e tomando medidas agressivas agora, o governo pode criar grandes dissabores no campo da inflação em 2013.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, 69, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Nova lógica:: Míriam Leitão

O Banco Central do governo Dilma é, definitivamente, bem diferente do BC da era Lula. É menos autônomo, aceita mais interferência, as comunicações têm novo estilo. Os últimos dois meses mostraram isso. A queda dos juros agora, no entanto, são, na visão do professor Luiz Roberto Cunha, uma chance bem aproveitada. O IPCA que será divulgado hoje, que pode ficar em 0,4%, vai confirmar a tendência de queda da inflação.

Cunha acha que a inflação continuará caindo até maio, quando deve encostar em 5% em 12 meses, numa curva inteiramente oposta à do ano passado. Só que as taxas de junho, julho e agosto do ano passado foram muito baixas, perto de zero, o que significa que qualquer elevação este ano pode realimentar a inflação em 12 meses.

Ele acha que neste cenário o país pode chegar ao fim do ano com a economia embalada, crescendo em ritmo anualizado de 4%, e com a inflação em 12 meses em 5%.

- Temos um Banco Central com um duplo mandato, que está visando também o emprego, e, principalmente, o emprego industrial. A indústria é afetada pelo câmbio, e o BC está claramente tentando afetar as expectativas cambiais do mercado. Um bom sinal foi dado pelos juros futuros de 360 dias, que caíram. Seria muito ruim se tivessem subido - disse Luiz Roberto Cunha, professor da PUC-Rio.

A redução da taxa de juros se explica em parte por esse cenário de inflação em queda, pelos maus números da economia - principalmente da indústria - e também pelo quadro internacional de muita liquidez. Baseado nisso o BC tomou sua decisão.

Mas há várias esquisitices no meio do caminho. Uma delas é o fato de que até o assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia, informou de véspera que os juros seriam reduzidos. Esse Banco Central é tolerante às interferências e cede a algumas delas, ainda que depois revista a sua decisão com argumentos econômicos.

O BC acertou ao prever a piora do quadro internacional no final do ano passado. Aconteceu exatamente o previsto pelo órgão. Mas não há nenhuma novidade neste momento que justifique a aceleração da queda dos juros. As previsões são de novas quedas, que levem a taxa para 8,5% ou 8,75%. Será excelente isso, se não houver uma realimentação da inflação que torne necessária nova alta dos juros. Essa volatilidade da taxa básica acaba afetando a taxa de risco embutida em todas as operações de crédito e torna o dinheiro mais caro.

Luiz Roberto Cunha acha que algumas mudanças no padrão de comportamento do Banco Central se justificam pelo contexto internacional:

- Temos que entender que o BC está em um contexto internacional muito confuso, em um ambiente de extrema flexibilidade monetária. O Fed disse claramente que vai manter os juros em zero até 2014. Foi isso que fez o Banco Central introduzir na última ata o parágrafo sobre juros de um dígito. Em um ambiente de extrema complexidade no mundo, o BC brasileiro também está confuso. Para ele, trazer a inflação para 4,5% agora não é prioridade; ele prefere olhar para o ritmo do crescimento.

Todo mandato de um Banco Central é duplo: tem que manter a inflação na meta ao menor custo do produto. Então ele tem mesmo que olhar o ritmo de crescimento, para preservar o que for possível. Mas sua prioridade só pode ser o seu mandato explícito: as metas de inflação. Se o BC achar que cabe a ele restaurar a confiança da indústria e depreciar a moeda para incentivar as exportações vai ficar perdido num cipoal. Há mais coisas que o governo pode fazer pela indústria que não estão na alçada do Banco Central.

Os economistas começam a apostar em novo corte de 0,75%. Ótimo, se houver espaço para isso. Mas o BC não pode agir achando que faz isso para ajudar a recuperação industrial. Tem que ser por não haver risco inflacionário, e assim colher como consequência uma melhora no ritmo da economia. É uma sutil diferença, mas é aquela que separa um Banco Central técnico de um que tenta agradar os seus críticos no governo. Esse é um campo minado no regime de metas de inflação.

O economista Luis Otávio Leal concorda que temos um Banco Central diferente do que era anteriormente:

- Tínhamos um BC mais independente do governo. Hoje ele é mais alinhado com os objetivos da Fazenda, incorporou as decisões da área econômica. É um BC que ajuda a atingir as metas do governo. Pode ser bom, por não ficar batendo cabeça com a Fazenda; pode ser ruim, dependendo da política econômica. O órgão está assumindo mais riscos; se der errado, pode perder as expectativas para o ano que vem. Mas seria precipitado dizer que ele vai errar.

Outros economistas estão convencidos de que o BC quer testar novas mínimas. Ninguém acredita que a inflação ficará na meta nem este ano nem no ano que vem. A inflação está caindo, mas a meta está se deslocando para um outro patamar, o que é ruim num país cuja meta já é em si bem alta para os padrões internacionais.

Para Luiz Roberto, o governo deu um bom sinal do ponto de vista fiscal ao aprovar o Fundo de Previdência Complementar. O Fundo está em tramitação ainda e só vai fazer diferença nas contas no longo prazo, mas é um sinal de que o governo não abandonou completamente a agenda de reformas.

Hoje, quando o mercado faz previsões de queda mais forte de juros mesmo com inflação acima da meta é porque sabe que o Banco Central não está buscando de forma rígida o centro da meta. Negocia no seu entorno. Aceita números maiores se isso evitar atritos dentro do governo.

FONTE: O GLOBO

Faltou explicação:: Celso Ming

A derrubada mais acentuada dos juros básicos (Selic) pode ter sido correta.

Mas não está claro qual é ou qual passou a ser o objetivo do Banco Central, presidido por Alexandre Tombini (foto). O discurso oficial é o de que persegue o centro da meta de inflação, de 4,5%. A decisão de quarta-feira, que derrubou os juros em 0,75 ponto porcentual, precisa de explicação - que a nota oficial, emitida após a reunião, deliberadamente escondeu.

Há quem diga que as coisas mudaram, que estamos no meio de uma grande crise global e que é preciso executar a partitura dos grandes bancos centrais. No entanto, para todos os efeitos, este ainda é o sistema de metas de inflação, que obriga o Banco Central a calibrar os juros ao nível necessário para empurrar a inflação para dentro da meta. Ou, se essa estratégia não é adequada para o momento, então é preciso avisar o que mudou e porque mudou - para que uns poucos não tirem proveito próprio do clima de incertezas.

Há ainda quatro argumentos que vêm servindo para justificar a política do Banco Central. O primeiro é o de que a atividade econômica está estrangulada e necessita de mais combustível para garantir a retomada. Não é verdade. O consumo cresce a 5% ao ano, como mostram estatísticas recentes. O que emperrou foi a produção industrial, por fatores que nada têm a ver com a política de juros. Mais frouxidão monetária não desemperrará a indústria. Num ambiente de aumento da massa salarial e queda histórica do desemprego, haverá mais demanda, acionará ainda mais as importações - se não gerar ainda mais inflação.

Também não é adequado combater o tsunami monetário (abundância de recursos) provocado pelos grandes bancos centrais com quedas mais aceleradas dos juros. Seria, se houvesse entrada especulativa de recursos. Mas tanto as autoridades do Banco Central como o ministro da Fazenda negam esse jogo.

A velha afirmação de que os juros devem cair por estarem altos demais também não faz sentido. A regra do jogo não é a de que o Banco Central deve operar com juros baixos, mas a de que precisa colocá-los no nível - alto ou baixo, não importa - necessário para controlar a inflação.

É claro que os juros continuam escorchantes no Brasil e são grave componente do elevado custo de produção. Portanto, precisam ser derrubados. Mas, para isso, é necessário antes domar a inflação com uma política fiscal mais firme, com as tais medidas macroprudenciais ou com outros mecanismos disponíveis.

Ainda sobra para o Banco Central a saída de dizer que passou a ver um panorama bem mais benéfico para a inflação e que, por isso, pode aliviar mais os juros. Mas não é o que pensam os agentes da economia, os mesmos que se encarregam de botar preços nas mercadorias e serviços. Essa gente vê riscos de que a inflação se encaminhe para além dos 6,0% ao ano. E, lá dentro do Copom, dois entre os sete diretores divergiram abertamente da decisão tomada na quarta-feira.

A Ata do Copom, a ser divulgada na próxima quinta-feira, tem muito o que explicar. Se não explicar, entenda-se que a relação entre Banco Central e o resto do Brasil - que, presume-se, deve ser transparente - terá se tornado brincadeira de esconde-esconde.

CONFIRA

O gráfico mostra o comportamento das últimas 4 safras agrícolas no País e as projeções para a atual.

‘Inquestionável sucesso’. A presidente Dilma Rousseff, que vem denunciando como nocivo o tsunami monetário dos grandes bancos centrais, não pode ter concordado com o que declarou nesta quinta-feira o presidente do Banco Central Europeu, o italiano Mario Draghi. Para ele, as duas operações que injetaram 1 trilhão de euros em financiamentos de três anos para as instituições financeiras tiveram “inquestionável sucesso” e contribuíram fortemente para a estabilização da economia.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

A profecia: a nova bolha:: Vinicius Torres Freire

"Analistas" da banca global escarnecem das políticas anticrise no mundo rico e reanunciam fim dos tempos

É comum ler economistas de bancos espinafrar bancos, bancos centrais e observar como a política econômica é sequestrada pelos patrões deles -isso é comum no exterior, explique-se. Ao vivo, em conversa informal, alguns desses tipos mais divertidos e/ou inteligentes são ainda mais descarados na ironia ou no sarcasmo amargos, em especial depois do desastre de 2008.

Um desses tipos mais "pop" (na imprensa e TV financeiras) é Bob Janjuah, pessimista crônico ("bear"), analista ("chefe de alocação tática de ativos") do Nomura, bancão e corretora etc. do Japão.

Vale citar um relatório de Janjuah, de fim de fevereiro, a respeito do presente desarranjo financeiro mundial, uma opinião, aliás, nada rara entre seus colegas.

Grécia e eurozona: "As políticas parecem centradas na proteção e na preservação de interesses particulares, com pouca consideração pelas terríveis condições em que o povo da Grécia e outros "periféricos" são forçados a viver. No entanto, os líderes europeus estão para colocar [e colocaram] ainda mais dinheiro no buraco sem fundo que é a Grécia, principalmente a fim de ajudar os bancos da Europa, ao custo talvez de uma década de sofrimento da populaça grega".

Sobre a troca forçada de governos na Itália e na Grécia, em 2011, que Janjuah chama de "totalitarismo": "Esse não é só um fenômeno da eurozona, mas é evidente que a remoção de governos eleitos para dar lugar a tecnocratas bem enturmados que simplesmente servem aos interesses da elite tornou-se uma especialidade da Europa".

O poder da banca: "Os bancos seriam tão poderosos que nós todos estaríamos presos a eles e ao maior dos "nonsenses", o de que calotes ["defaults"] nunca deveriam acontecer (a menos que sejam triviais e muito insignificantes)?".

Janjuah espezinha as políticas de Mario Draghi e Ben Bernanke (presidentes do Banco Central Europeu e dos EUA, o Fed, respectivamente). Diz que os bancos centrais ajudaram a criar a crise que estourou de vez em 2008, pois mantiveram os juros muito baixos por muito tempo, o que provocou péssima alocação de capital e, enfim, bolhas. Draghi e Bernanke estariam agora repetindo e aumentando a dose, com "impressão" maciça de dinheiro.

"Tais bolhas servem para criar a ilusão de que estamos "mais ricos" [devido ao aumento do preço de ações e outros ativos financeiros, o que pode criar uma confiança artificial e despesas excessivas]."

Bolha: "Admitindo que estamos de novo em outra disparada [nas Bolsas etc.] movida a liquidez [dinheiro dos BCs], cortesia de Draghi e Bernanke, então precisamos lembrar de umas coisas. Primeiro, tais disparadas podem durar dias, semanas, meses, talvez até 2013... Segundo, quando procurar onde as bolhas estão, pense o seguinte: elas estão em todo lugar. Terceiro, quando essa bolha estourar, não vai haver saída fácil. Quem virá com o dinheiro de socorro [Janjuah diz que governos já estão superendividados, e os BC, lotados de empréstimos]?".

Sinal dos tempos: "O fim da bolha será sinalizado pela anarquia monetária, que vai criar mais inflação na economia real, ou pelo colapso deflacionário do crédito...".

Por fim: Janjuah não é um esquerdista infeliz a soldo da banca. É um economista padrão, "liberal".

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Fatia da industria no PIB retorna ao nível dos anos 50

Participação do setor caiu para 14,6%, a menor desde 1956, primeiro ano do governo Juscelino Kubitschek

A participação da indústria brasileira no PIB (Produto Interno Bruto) do ano passado recuou ao patamar de 1956, ano em que o presidente Juscelino Kubitschek lançou o plano de metas "50 anos em 5" – exatamente para estimular o crescimento industrial do país.
No ano passado, o setor representou apenas 14,6% do PIB. O auge da contribuição foi em 1985, com 27,2%. Desde então, tem caído.

A alta das importações, a falta de competitividade e o avanço de outros setores são os principais fatores que levaram o recuo industrial.

Participação da indústria no PIB recua aos anos JK

Fatia caiu para 14,6%, pouco acima do nível observado em 1956, primeiro ano do governo Juscelino Kubitschek

Ministério aponta "desintegração de elos da cadeia industrial" e diz que câmbio mina medidas de apoio

Agnaldo Brito

SÃO PAULO - A participação da indústria no PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro recuou aos níveis de 1956, ano em que o presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976) deu impulso à industrialização do país ao lançar seu Plano de Metas, que prometia fazer o Brasil avançar "50 anos em 5".

Desde então, jamais a fatia da indústria manufatureira do país na formação do PIB havia alcançado nível tão baixo quanto o apurado em 2011.

No ano passado, a indústria de transformação -que compreende a longa cadeia industrial que transforma matéria-prima em bens de consumo ou em itens usados por outras indústrias- representou apenas 14,6% do PIB.

Patamar menor só em 1956, quando a indústria respondeu por 13,8% do PIB. De lá para cá, a indústria se diversificou, mas seu peso relativo diminuiu. O auge da contribuição da indústria para a geração de riquezas no país ocorreu em 1985: 27,2% do PIB. Desde então, tem caído.

"Temos energia cara, spreads bancários dos maiores do mundo, câmbio valorizado, custo tributário enorme e uma importação maciça. A queda da indústria no PIB é a prova do processo de desindustrialização", afirmou Paulo Skaf, presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

André Macedo, gerente da Pesquisa Industrial Mensal do IBGE, aponta dois fatores que explicam o declínio da indústria na formação do PIB: o avanço dos serviços e da agricultura; e o crescimento das importações.

"A importação pode modernizar o país, mas dependendo do que se importa prejudica a indústria. E esse setor é importante por ofertar boa parte dos empregos mais qualificados", disse.

Alerta

O governo diz que tem monitorado o comportamento da indústria, e reconhece que há um processo de "desintegração de alguns elos" da cadeia industrial, mas evita falar em desindustrialização.

Heloísa Menezes, secretária do Desenvolvimento da Produção do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, acha que o Programa Brasil Maior, -lançado pelo governo Dilma no ano passado para socorrer alguns setores da indústria- pode ajudar as empresas a enfrentar a valorização do real em relação ao dólar, que favorece os importados.

"A atual taxa de câmbio, de fato, atua no sentido contrário ao nosso esforço de dar condições de competição à indústria", disse.

Samuel Pessoa, sócio da consultoria Tendências e pesquisador da FGV, avalia que a situação da indústria piorou a partir de 2008, fundamentalmente devido à crise internacional -que expandiu a oferta de produtos manufaturados para o Brasil- e a boa demanda internacional de produtos primários vendidos pelo Brasil. "A taxa de câmbio só está refletindo essa situação", afirmou.

Para a Abece (Associação Brasileira de Empresas de Comércio Exterior), é um erro imputar às importações a queda da indústria no PIB. "A importação brasileira é saudável. A perda de participação da indústria no PIB ocorre pela falta de competitividade do setor, não por causa da importação", disse o presidente, Ivan Ramalho.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Paulinho da Viola - Foi Demais

Procura da poesia:: Carlos Drummond de Andrade

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia Internacional da Mulher

Empoderar as mulheres rurais:: Michelle Bachelet

No campo, elas trabalham muitas horas e recebem pouca ou nenhuma remuneração, mas produzem grande parte dos alimentos colhidos no mundo

Neste Dia Internacional da Mulher, solidarizo-me com as mulheres do mundo todo pelos direitos humanos, pela a dignidade e pela a igualdade, um sentimento que milhões de pessoas compartilham.

Neste primeiro aniversário da ONU Mulheres, saúdo a todas as pessoas, governos e organizações que trabalham pelo empoderamento das mulheres e pela igualdade de gênero.

A criação da ONU Mulheres coincidiu com profundas mudanças no mundo, que vão desde os crescentes protestos contra a desigualdade até as mobilizações pela liberdade e a democracia no mundo árabe.

Tais eventos reafirmaram nossa convicção de que um futuro sustentável só poderá ser alcançado por mulheres, homens e jovens que desfrutem da igualdade plena.

Desde os governos que modificam leis até empresas que oferecem empregos decentes e remunerações iguais, passando por pais e mães que ensinam seus filhos e filhas que todos os seres humanos têm que ser tratados do mesmo modo, a igualdade depende de cada um de nós.

No século passado, desde que se começou a celebrar o Dia Internacional da Mulher, testemunhamos transformações nos direitos legais, bem como avanços na educação e na participação das mulheres na vida pública. Atualmente, há mais mulheres liderando na política e nos negócios, mais meninas frequentando a escola, mais mulheres sobrevivendo aos partos e podendo planejar suas famílias.

No entanto, apesar dos enormes avanços, nenhum país pode se declarar totalmente livre da discriminação de gênero. Essa desigualdade manifesta-se em persistentes hiatos de gênero nos salários e oportunidades, na baixa representação de mulheres nos postos de liderança, nos casamentos precoces e na violência contínua contra as mulheres, em todas as suas formas.

Em nenhum contexto as disparidades e obstáculos são mais importantes para as mulheres e meninas do que nas áreas rurais. Trabalham muitas horas com pouca ou nenhuma remuneração e produzem uma grande parte dos alimentos colhidos. São agricultoras, empresárias e líderes. Suas contribuições mantêm famílias, comunidades, países e todos nós.

Apesar disto, elas enfrentam algumas das piores desigualdades no acesso aos serviços sociais, à terra e a outros bens de produção. Isso impede a elas e ao mundo o desenvolvimento do seu potencial pleno, o que me leva ao tema principal desde Dia Internacional da Mulher.

Nenhuma solução duradoura será encontrada para as principais mudanças que enfrentamos -desde mudanças climáticas até a instabilidade política e econômica- sem o pleno empoderamento e sem a participação das mulheres do mundo todo.

Sua participação plena na esfera política e econômica é fundamental para a democracia e a justiça. A igualdade de direitos e oportunidades é a base das economias e sociedades saudáveis.

Dar às agricultoras o mesmo acesso aos recursos oferecido aos homens tiraria da fome entre 100 e 150 milhões de pessoas.

Se dessem renda, direito à terra e crédito às mulheres, haveria menos meninas e meninos desnutridos. Estudos demonstram que os maiores níveis de igualdade de gênero guardam uma correlação positiva com números mais elevados de Produto Interno Bruto per capita. Abrir as oportunidades econômicas às mulheres incrementaria o crescimento econômico e reduziria consideravelmente a pobreza.

Hoje, Dia Internacional da Mulher, reafirmemos nosso compromisso com os direitos das mulheres e caminhemos em direção ao futuro com coragem e determinação. Defendamos os direitos humanos, a dignidade e o valor inerente a todas as pessoas, bem como os mesmos direitos para homens e mulheres.

Michelle Bachelet, 60, é diretora-executiva da ONU Mulheres. Foi presidente do Chile (2006-2010)

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

OPINIÃO DO DIA - Floriano Pesaro: mentiras

"Em vez de espalhar mentiras sobre Serra, Chalita poderia escrever um livro explicando as peripécias de passar por três partidos em apenas três anos. Seria um best-seller."

Floriano Pesaro do líder do PSDB na câmara paulistana, Folha de S. Paulo, 8/3/2012

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
Sob pressão, BC corta juros além do previsto
Rio tem 949 com contas rejeitadas
Dinheiro do FGTS engorda superávit fiscal
Senado derruba indicação de Dilma

FOLHA DE S. PAULO
BC acelera corte de juros após tombo da indústria
Protesto acaba, mas postos continuam sem gasolina
Rebelado, PMDB veta indicado de Dilma para área dos transportes
Palocci vai ajudar Haddad a arrecadar verba de campanha
Empreiteiros viram réus por suspeitas em dez aeroportos
Em SP, 58% sabem menos matemática do que deveriam

O ESTADO DE S. PAULO
Dilma promete verba, mas base rejeita diretor de agência
Apesar de multa, desabastecimento se agrava
Um dia após PIB, Copom reduz juro em 0,75 ponto
Planalto cobra plano contra real forte
Dinheiro para habitação infla balanço do PAC
Fifa agora não fala em Valcke no País

VALOR ECONÔMICO
Obras de R$ 166 bi do PAC têm atraso de até 4 anos
Petrobras quer mais térmicas
O risco do protecionismo
Copom reduz taxa de juro para 9,75%
Em rebelião, base derruba diretor da ANTT

CORREIO BRAZILIENSE
Senado votará, enfim, a extinção do 14º e 15º
Racha: BC corta juro, mas pressão abre crise
PMDB impõe derrota a Dilma
As terras suspeitas de Cachoeira no DF

ESTADO DE MINAS
Copom corta juros para 9,75%
Tecnologia usada no tablet ainda é sonho no Brasil
Regalia de BH não existe em outras capitais

ZERO HORA (RS)
Juro básico retorna a um dígito para animar economia e frear real
Brasil à frente no ranking da felicidade

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Aposentadoria do Estado segue mudança nacional
Exército na luta contra a dengue
PIB de Pernambuco cresceu 4,5% e ficou acima da média nacional
Selic cai para 9,75% e volta a ter um só dígito após quase dois anos

O que pensa a mídia - editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Menos marketing, mais qualidade :: José Serra

Ao fim de nove anos de governo do PT, a política educacional brasileira resultou numa verdadeira sopa de pedras. Não tem consistência e as iniciativas desconexas se vão sucedendo - pedras jogadas na panela aquecida por vultosos recursos públicos produzindo pouca substância. Os Estados e os municípios cuidam da pré-escola, do ensino fundamental e médio. Mas a esfera federal detém capacidade legislativa e normativa, além de recursos em grande escala, para atuar no setor. No ensino superior público, o grande agente é o Ministério da Educação (MEC), com a exceção de uns poucos Estados que têm grandes universidades.

O mais recente exemplo dessa inconsistência é o Plano Nacional de Educação 2011-2020, resumido no Senado pelo novo titular da Educação, Aloizio Mercadante. A superficialidade e a confusão das falas do ministro afligem aqueles que consideram a educação o principal desafio brasileiro neste século.

Nem no plano nem nas falas há nenhuma pista para enfrentar o fato de que o ensino superior público no Brasil, na era petista, foi além da estagnação. Acredite se quiser: em 2010 formou menos 24 mil estudantes do que em 2004, segundo estimativa de Carlos Brito, da Fapesp, destoando da fase de forte expansão no governo Fernando Henrique Cardoso e do ministro Paulo Renato.

No momento, a pedra mais vistosa atirada na sopa são os tablets, a serem distribuídos de graça. Ninguém responsável pode rejeitar a chegada das modernas tecnologias às salas de aula. Mas não passa de mistificação barata - ou muito cara, a depender de como se faça - essa história de que a educação só melhora se cada aluno e cada professor tiverem nas mãos um iPad, como promete o ministro. Rejeitar a adoção de modernas tecnologias seria o mesmo que combater a luz elétrica e a água encanada. Mas um professor mal preparado o será em qualquer circunstância. Um aluno que mal sabe escrever e multiplicar não será redimido por um tablet. A distribuição de material eletrônico sem bons guias curriculares e programas de formação e qualificação dos professores é dessas firulas atrás de manchetes. O governo Lula fez isso em 2005 com laptops - "Um Computador por Aluno", lembram? O fracasso foi retumbante.

Como noticiou este jornal, 3,8 milhões de crianças e jovens não estão na escola; na faixa dos 15 aos 17 anos, nos oito anos de FHC e Paulo Renato, o porcentual fora da escola caiu de 33% para 18%. Depois disso a inclusão se desacelerou e 14% ainda não frequentam nenhuma instituição de ensino. Acredite se quiser: em 2010 houve menos concluintes do ensino médio do que em 2003, com um decréscimo anual de 0,5% ao ano.

Com ou sem tablets - eles são uma ferramenta, não uma política pública em si -, o governo federal deveria empenhar-se em pôr na escola essa imensa fatia da juventude e elevar o padrão de ensino, em especial expandindo o ensino profissionalizante. Não é o que se vê. Tome-se o Pronatec, programa copiado do Protec, proposta nossa durante a campanha de 2010, tão combatida pelos petistas. Além do atraso para dar início ao programa, foram excluídas as bolsas em escolas técnicas particulares, precisamente as que atendem jovens mais pobres. Isso exclui cerca de 50% dos alunos dessas escolas.

Em São Paulo, em 11 anos, foram criadas 104 escolas técnicas de nível médio, abrindo 150 mil vagas adicionais. É preciso pensar mais no estudante e menos nas manchetes, mais em dar uma resposta aos problemas reais dos alunos e de suas famílias e menos em soluções marcadas pela publicidade e pelo açodamento. A improvisação é tanta que a capacitação técnica de professores e o método pedagógico que deveriam orientar a utilização dos milhões de tablets prometidos só estão previstos para depois da chegada dos aparelhos!

Outra pedra atirada na sopa da educação petista foi a tentativa de transformar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) numa prova de acesso à universidade. Sob o pretexto de pôr fim ao vestibular nas universidades federais, criou-se o maior vestibular do mundo ocidental. Assistiu-se a um festival de trapalhadas, injustiças, arbitrariedade, subjetivismo e falta de critério na correção das provas. No fim, o aluno nem sabe direito por que tirou essa ou aquela nota. Pior: as críticas corretas e sensatas foram consideradas tentativas de sabotagem. A incompetência flerta frequentemente com o autoritarismo.

Ao abordar as dificuldades do Enem como "vestibulão", o novo ministro produziu mais uma pérola, dizendo que os problemas decorrem do fato de o Brasil ser muito grande, e alegou que isso não é culpa do MEC. Será que o PT vai esperar que o País encolha para começar a governá-lo com competência? Ou, quem sabe, seus ministros possam candidatar-se ao cargo de gestor na Escandinávia, cujos países são bem menores que o Brasil e solicitam menos dos homens públicos, pois muitas das condições que ainda infelicitam o nosso povo já estão resolvidas por lá. É sempre bom lembrar que o Brasil, afinal de contas, já tinha esse tamanho antes de o PT chegar ao poder.

Em 2009, 65 nações participaram do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), que verifica o conhecimento de estudantes de 15 anos em Matemática, leitura e Ciências. O resultado é vexaminoso: o Brasil obteve o 54.º lugar, junto com Panamá e Azerbaijão, atrás de países como Bulgária, Romênia, México, Chile e Uruguai.

O que nos falta? Tablets? Sem uma política pública consequente de valorização e qualificação do professor eles são inúteis. Servem à propaganda, não aos estudantes; servem à demagogia, não à elevação das sofríveis condições de ensino no País.

É possível, sim, mudar essa realidade, desde que se façam as escolhas certas. As autoridades nacionais da área educacional precisam perseguir menos a publicidade e mais a qualidade. Se o fizerem, as notícias fatalmente os alcançarão.

Ex-governador, ex-prefeito de São Paulo

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Dilma promete verba, mas base rejeita diretor de agência

Pressionada pelos partidos da base, incluindo o PMDB, a presidente Dilma Rousseff mandou liberar verbas na tentativa de agradar a aliados insatisfeitos com o controle sobre gastos dos ministérios e com o aperto imposto à liberação de emendas dos parlamentares. O movimento não foi capaz de abafar a rebelião e impôs a primeira derrota de Dilma neste ano no Congresso. O Senado rejeitou a recondução de Bernardo Figueiredo à presidência da Agência Nacional de Transportes Terrestres. Figueiredo era avaliado pela presidente por ser um petista que coordena o projeto do trem-bala. Ela pretende agora entrar pessoalmente em ação, para se reafirmar como interlocutora da base

Dilma decide abrir cofre para conter base, mas sofre revés no Congresso

Christiane Samarco, Tania Monteiro, João Domingos

BRASÍLIA – Pressionada pelos partidos da base, a presidente Dilma Rousseff mandou abrir o cofre na tentativa de pacificar os aliados insatisfeitos com o controle sobre os gastos dos ministérios e com o arrocho imposto à liberação das emendas dos parlamentares em ano eleitoral. O movimento veio tarde e não foi capaz de abafar a rebelião da base, sobretudo do PMDB. O maior sinal do forte desgaste na relação com o Planalto foi a rejeição ontem à tarde da recondução de Bernardo Figueiredo para a presidência da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

Figueiredo era avalizado pela presidente por ser um petista que coordena o projeto do trem-bala, prioridade do Planalto (leia texto abaixo). Irritada com a derrota, Dilma recuou e mandou segurar, na noite de ontem, a negociação para liberação das emendas.

"Foi um posicionamento político de pessoas que estão insatisfeitas. Existem insatisfações em vários partidos manifestadas no voto secreto. A gente tem que entender o recado, aprofundar as relações políticas e acabar com as defecções", disse o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), a respeito da rejeição ao indicado da presidente da República. "Foram vários recados, do PMDB principalmente", completou o senador Lindbergh Farias (PT-RJ).

O primeiro gesto de pacificação da base dado pela presidente Dilma foi determinar à ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, que se reunisse ontem à tarde com a colega do Planejamento, Miriam Belchior, para tratar da liberação de recursos para emendas orçamentárias de parlamentares que têm pressa de atender as bases eleitorais.

A presidente também pretende entrar pessoalmente em ação, para se reafirmar como interlocutora da base - papel que até então evitava assumir -, e não apenas do PT. Dilma vai participar mais regularmente de reuniões com parlamentares.

Em campo. A decisão de entrar em campo e abrir negociação para pacificar os partidos rebelados veio no embalo do manifesto do PMDB contra o tratamento "privilegiado" do conjunto do governo ao PT, o que, para peemedebistas, põe em risco a eleição de prefeitos da sigla.

Na véspera, em reunião com o vice-presidente da República, Michel Temer, descontentes do PMDB das cinco regiões do País queixaram-se da "falta de instrumentos e autonomia" dos ministérios para atender as bases.

"O pagamento das emendas não é favor: é direito nosso e está na lei orçamentária", protestou o líder peemedebista na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN). "O que o partido vai dizer na sua base? Em outubro houve um acordo com o governo para a liberação das emendas. Mas nada disso aconteceu. Pelo contrário, contingenciaram tudo."

Segundo Henrique Alves, os ministérios não cumpriram de 30% a 40% dos empenhos autorizados pela própria presidente. Agora, Dilma determinou que sejam refeitos os cálculos para que as emendas sejam liberadas.

Coube ao PMDB aparecer como o pai da rebelião. Mas há insatisfação em todos os partidos da base, até mesmo do PT. Prova disso é que na reunião de líderes governistas, ontem, o apoio ao manifesto do PMDB foi geral. "Todos os líderes da base disseram que queriam assinar o documento", assegurou Alves.

É diante deste cenário que Temer e os líderes peemedebistas deverão participar de uma reunião, ainda hoje com o Planalto.

Henrique Alves admite que a queixa geral na bancada é de que ministros do PMDB não têm autonomia para liberar um centavo. "Estamos discutindo a relação com o governo e queremos tratamento equânime: o que derem ao PT, tem que ser dado ao PMDB", protesta o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

BC acelera corte de juros após tombo da indústria

Horas após a divulgação do resultado ruim da indústria em janeiro deste ano e um dia depois da notícia do PIB fraco de 2011, o Banco Central decidiu acelerar o corte dos juros, reduzindo a taxa em 0,75 ponto.

A Selic, agora em 9,75% ao ano, não ficava abaixo de dois dígitos desde 2010.
Em janeiro, a indústria caiu 2,1%, pior resultado em três anos.

BC acelera corte dos juros para reanimar a economia

Banco Central reduz taxa básica para 9,75% e atende à expectativa de Dilma

PIB fraco em 2011 e tombo da indústria no início do ano ampliam pressão para adoção de estímulo doméstico

Sheila D’Amorim e Valdo cruz

BRASÍLIA - O Banco Central decidiu acelerar a redução dos juros para estimular a retomada da atividade econômica, que perdeu o fôlego no fim do ano e continua sofrendo com a crise mundial e a valorização do real em relação ao dólar.

O BC reduziu a taxa básica de juros da economia de 10,5% para 9,75% ao ano. Foi o quinto corte consecutivo desde agosto, quando o BC começou a diminuir os juros para reerguer a economia.

A decisão de cortar 0,75 ponto porcentual, e não 0,5 ponto como nas outras vezes, foi aprovada por 5 dos 7 diretores do BC que integram o Copom (Comitê de Política Monetária). Os outros dois votaram por 0,5 ponto.

O resultado atendeu às expectativas da presidente Dilma Rousseff, que contava com uma ação mais ousada do Banco Central diante da série de notícias ruins sobre a conjuntura econômica divulgadas nos últimos dias.

Na terça-feira, o IBGE informou que a economia brasileira cresceu apenas 2,7% no ano passado. Ontem, o instituto revelou que a produção da indústria nacional despencou 2,1% em janeiro.

O BC acredita que o cenário internacional permite manter a inflação sob controle mesmo com os estímulos ao mercado doméstico, que devem ser combinados com reduções de tributos e outras medidas prometidas pelo governo para o setor produtivo.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou ontem que o governo adotará medidas "toda semana" para estimular o crescimento, a indústria e as exportações.

"As dificuldades para a economia vão continuar, o que exige de nossa parte empenho maior e medidas mais amplas", disse. "Toda semana vamos tomando medidas para calibrar a economia."

O BC começou a reduzir os juros em agosto do ano passado, quando surpreendeu o mercado ao decidir cortar a taxa básica mesmo com a inflação muito acima da meta estabelecida pelo governo.

A inflação atingiu no ano passado 6,5%, limite superior da meta oficial. O BC promete reaproximá-la neste ano para o centro da meta, de 4,5%, mas a maioria dos analistas do mercado financeiro acha que ela deve chegar ao fim do ano mais perto de 5%.

Na lógica dos diretores do BC, se for preciso ajustar mais adiante o ritmo de crescimento para evitar pressões inflacionárias, será possível usar instrumentos alternativos como medidas de caráter regulatório para restringir a oferta de crédito nos bancos.

Isso permitiria conter a inflação sem precisar interromper a redução dos juros e abrindo caminho para que as taxas continuem caindo.

O fraco resultado do PIB em 2011 reforçou a percepção no governo de que a equipe econômica está no caminho certo por vários motivos.

O mais importante é que a redução dos juros ajuda a manter em alta o consumo das famílias, principal motor da atividade econômica nos últimos meses.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Sob pressão, BC corta juros além do previsto

Um dia após a divulgação de que a economia brasileira cresceu só 2,7% em 2011, o Comitê de Política Monetária (Copom) aprovou uma redução de 0,75 ponto percentual na taxa básica de juros, que ficou agora em 9,75%. Mas a decisão não foi unânime. A medida foi aprovada por cinco votos a dois. Os dissidentes queriam cortar apenas 0,5 ponto, como apostava a maior parte dos analistas econômicos. Apesar do anúncio – importante para impulsionar a retomada econômica em 2012 -, o Brasil continua com o maior juro real (descontada a inflação) do mundo. Além do corte nos juros, o governo prepara medidas para estimular a indústria a conter a valorização do real, considerada um empecilho para elevar as exportações do país. Ontem, o IBGE divulgou retração de 2,1% na indústria em janeiro. Foi o maior tombo desde dezembro de 2008

BC aperta o passo

Dividida, diretoria do Banco Central reduz juros a 9,75% para estimular a economia

Gabriela Valente

DO PIBÃO AO PIBINHO

Um dia após a divulgação do resultado do Produto Interno Bruto (PIB) de 2011 - que cresceu apenas 2,7% - o Comitê de Política Monetária (Copom) cortou em 0,75 ponto percentual a taxa básica de juros (Selic), que caiu de 10,5% para 9,75% ao ano, mudando o plano de voo que mantinha desde meados do ano passado, com cortes seguidos de 0,5 ponto. A decisão tem o objetivo claro de estimular um crescimento mais robusto da economia. A queda dos juros barateia o crédito e amplia o consumo das famílias.

Com o corte anunciado ontem, o BC antecipou o cumprimento da promessa, feita em janeiro, de que o país teria taxa de um dígito. Mas a decisão não foi unânime. Cinco diretores da instituição defenderam um corte mais agressivo, enquanto os dois com votos vencidos pela maioria queriam manter um ritmo de corte de 0,5 ponto. Com a redução, a Selic atinge o menor percentual desde junho de 2010.

A reunião foi um pouco mais demorada do que o usual. No entanto, foi o comunicado que mais chamou a atenção: foi o mais seco da gestão do presidente Alexandre Tombini e não deu dicas dos próximos passos.

"Dando seguimento ao processo de ajuste das condições monetárias, o Copom decidiu reduzir a Taxa Selic para 9,75% ao ano, sem viés, por cinco votos a favor e dois votos pela redução da Taxa Selic em 0,5 ponto percentual", diz a nota divulgada após o encontro.

De acordo com economista do Banco Votorantim, Leonardo Sapienza, isso foi uma estratégia para não gerar ruídos no mercado, que vai demorar para digerir a decisão.

Nos últimos dias cresceram as apostas no mercado financeiro de um corte maior na taxa. Alguns analistas falavam em até em um ponto percentual. No mercado de juros futuros, porém, os contratos mais importantes foram sendo negociados com uma aposta de corte de 0,75 ponto percentual. Essas perspectivas de corte mais agressivo ganharam força nas últimas semanas.

Inflação ainda gera temor

Os argumentos a favor de uma "radicalização" imediata surgiram por causa do apelidado "tsunami monetária", ou seja, a vultosa quantia de dólares que sobra no mundo e vem para o Brasil lucrar com os juros mais altos do planeta. Mesmo com a redução de ontem, o Brasil se mantém no topo do ranking mundial de juros reais (descontada a inflação). À frente de Rússia, Indonésia, China e Colômbia, com 4,2% anuais, o país só deixaria a primeira colocação se o corte tivesse sido de 1,75 ponto. Reforçou o discurso dos defensores de um corte maior o crescimento aquém do que previa o governo em 2011.

A rapidez no cumprimento da promessa de juros de um dígito surpreendeu, embora os sinais emitidos pelo BC nos últimos dias tenham sido nessa linha. Uma pesquisa da autarquia mostrou que os diretores enxergavam espaço para uma queda da taxa, sem afetar a inflação. Na semana passada, Tombini afirmou que neste momento de crise vários países trabalham com juros num patamar menor do que o recomendado para estimular suas economias e sair da crise.

- Com certeza, o maior motivo da decisão é a entrada de dólares no país - diz Sapienza.

No entanto, vários economistas dizem que, mesmo com tantas razões para o Copom apertar o passo, o BC errou, porque começam a surgir sinais de que a inflação poderá sair do controle no ano que vem.

Os economistas do banco Santander lembram que o trabalho do BC de controlar a inflação ainda tem uma ajuda com a mudança do cálculo do índice. Com novos pesos para os gastos, a tendência é que o IPCA fique menor.

Já o economista da NGO Corretorra, Sidney Nehme, apostava em um corte mais audacioso, de até um ponto percentual, por ser a melhor forma de desestimular o ingresso de capitais estrangeiros especulativos, combater a crise - que em sua opinião deve se agravar - e estimular a economia.

- Os efeitos da crise internacional, acreditamos, repercutirão na nossa economia de forma efetiva neste ano de 2012, quando não há muito espaço para reerguermos a indústria no campo das exportações. O fato é que o Brasil precisará mais do que substantivo corte na taxa de juros para construir um PIB melhor em 2012 - diz.

Para o analista da Cruzeiro do Sul Corretora, Jason Vieira, autor do trabalho, ainda é cedo para comemorar o corte de ontem, já que a economia mal começa a sentir os efeitos dos primeiros cortes iniciados em agosto do ano passado.

- Ainda não dá para comemorar. É preciso ponderar e esperar o que vai acontecer no futuro próximo, quando esses cortes forem assimilados pela economia - afirmou.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou nota após o anúncio da decisão considerando o corte indispensável para enfrentar o baixo desempenho da economia e o enfraquecimento da indústria. Já a Fiesp, que reúne as indústrias paulistas, considerou o corte "tardio e insuficiente" e, também em nota, cobrou "um conjunto de medidas que seja capaz de mudar a situação de competitividade do Brasil".

Colaborou Lino Rodrigues

O GLOBO

É um condor? Uma águia? Não: é a galinha do PT

Eduardo Graeff,07/3/2012

O mundo começa a se desiludir com as perspectivas de crescimento do Brasil de Lula e Dilma Rousseff.

Traduzo o Financial Times de hoje:

Enquanto o crescimento econômico da China segue o padrão de um condor, alçando-se a grandes altitudes nas correntes ascendentes mesmo ao passar pelo que se considera uma desaceleração, o do Brasil nos últimos anos parece o vôo interrompido de uma galinha.

Justamente quando a economia do Brasil parece prestes a decolar, ela despenca novamente na medida em que o superaquecimento obriga o banco central a acionar os freios.

Isso é o que mostram os números do PIB de 2011. No fim de 2010, a economia brasileira estava crescente a uma taxa anualisada de 7,5%. O crescimento era alimentado por medidas de estímulo tomadas pelo governo em 2009 para se contrapor à recessão da crise financeira global. A isso se seguiu a prodigalidade política em 2010, ano de eleições presidenciais.

Mas com o crescimento veio a inflação. O banco central foi obrigado a jogar os juros para cima rapidamente, somente para descobrir, no meio do ano, que a economia, que parecia tão forte há apenas seis meses, de repente estava perdendo sustentação. A interrupção abrupta do crescimento decorreu de uma mistura de altas taxas de juros, taxa de câmbio apreciada em relação ao dólar que derrubava a indústria local ao estimular importações baratas, e o sentimento negativo da crise do euro.

A galinha, que começara a parecer quase confiante em vôo em 2010, mergulhou no terceiro trimestre de 2011, quando a economia se contraiu ligeiramente.

A Goldman Sachs, citada pelo FT, não aposta na recuperação esperada por Dilma Rousseff e o PT em 2012. Acaba de reduzir sua previsão de crescimento do PIB brasileiro de 3,5% para 3,1%.

A galinha pode um dia virar condor, ou pelo menos uma águia? A resposta é não - pelo menos por enquanto. As ineficiências do Brasil, como seu orçamento público inchado que não consegue investir apesar de todo o gasto, impedirão o país de crescer a taxas mais altas até que alguém comece a pensar em reformas.

Em resumo, burocracia e impostos vão manter as asas da galinha cortadas.

Desgraça das desgraças: ultimamente, o PT e seu governo nem ao menos conseguem cacarejar tão bem…

ECONOMIA•BRASIL, CHINA, CRESCIMENTO

FONTE: Blog eAgorabr

A celebração do fiasco – Editorial: O Estado de S. Paulo

O governo fez um balanço triunfal de mais um fiasco - o primeiro ano do PAC 2 - e reiterou o compromisso de elevar o investimento e conduzir a economia a uma expansão de 4,5% neste ano. A exibição de otimismo contrastou com mais uma notícia ruim divulgada poucas horas antes: em janeiro, a indústria produziu 2,1% menos que em dezembro. O grande assunto do dia anterior havia sido o pífio desempenho da economia nacional no ano passado. Mas tudo será melhor a partir de agora, apesar da crise internacional, garantiram os ministros da Fazenda, Guido Mantega, e do Planejamento, Miriam Belchior.

Foram feitos investimentos de R$ 204,4 bilhões em 2011, primeiro ano da segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento. Esse é o total das operações realizadas pelos envolvidos no PAC 2 - administração direta, estatais e setor privado. Esse valor corresponde a 21% do previsto para os anos de 2011 a 2014. Mas, como em todo balanço desse programa, o bolo apresentado como investimento é um tanto inflado. Uma parcela de R$ 75,1 bilhões - 36,7% do total - corresponde a financiamentos para habitação. Além disso, a maior parte do dinheiro investido pelas estatais foi aplicada, como em outros anos, por um único grupo - o da Petrobrás.

O chamado PAC orçamentário, incluído no Orçamento-Geral da União e financiado diretamente pelo Tesouro, ficou, de novo, longe da meta fixada para o período. O desembolso, de R$ 28 bilhões, foi maior que o de 2010, mas correspondeu a apenas 69,3% da verba autorizada para o ano, de R$ 40,4 bilhões.

Nenhum ministro deu atenção a esse detalhe nem se dispôs a discutir a enorme parcela de restos a pagar incluída nos desembolsos de cada ano. No ano passado, por exemplo, os restos corresponderam a R$ 18,6 bilhões, dois terços dos R$ 28 bilhões desembolsados. A maior parte da verba aplicada em 2011 destinou-se, portanto, a liquidar compromissos do PAC 1. Para este ano foram transferidos R$ 39,6 bilhões de compromissos assumidos e não quitados.

Apesar da execução medíocre, o PAC 2 foi apresentado no balanço como barreira protetora contra os impactos da crise internacional. É um evidente exagero, até porque, em 2011, o investimento das estatais da União, responsáveis pela maior parte do PAC, foi menor que em 2010.

Mas os dois ministros mantiveram quase sem mudança o discurso otimista e as promessas do ano passado. O Brasil, segundo o ministro da Fazenda, terá condições para um crescimento econômico bem maior que o de 2011. O governo dispõe de meios para enfrentar a enorme onda monetária criada nos países desenvolvidos e assim evitar a valorização excessiva do real. Essa valorização é nociva para a economia nacional porque torna os produtos brasileiros muito caros em moeda estrangeira. O ministro prometeu ficar atento e pronto, o tempo todo, para tomar as medidas necessárias para defender a indústria e animar a economia. Até esse ponto, nenhuma novidade.

Mas ele anunciou, na mesma cerimônia, a redução de uma das metas fixadas para 2012 - um volume de investimento produtivo equivalente a 20,8% do Produto Interno Bruto (PIB). O alvo foi baixado para 20,4%, porque a proporção alcançada em 2011 ficou em 19,3%, segundo as contas divulgadas no dia anterior. O governo havia estimado uns 19,6% ou 19,7%. A nova meta, explicou o ministro, foi calculada sobre uma base mais baixa que a anterior.

Muito mais importante que esse palavrório é o problema real. O Brasil investe muito menos que o necessário para sustentar um crescimento igual ou superior a 5% por vários anos. Para isso seria preciso investir uns 24% do PIB.

Para investir aqueles 24%, seria preciso elevar a poupança nacional. Isso depende, em primeiro lugar, de uma gestão pública mais eficiente e de uma ampla desoneração do setor privado. Mas o governo continua apostando em benefícios fiscais paliativos, programas oficiais de baixo grau de execução e financiamentos especiais aos beneficiários de sempre - um número pequeno de grandes grupos. O fracasso dessa estratégia está mais que provado. Juros menores podem ajudar, segundo o ministro, mas juros dependem também do gasto público.

Palocci vai ajudar Haddad a arrecadar verba de campanha

O ex-ministro Antonio Palocci foi escalado para atuar, informalmente, na arrecadação da campanha de Fernando Haddad (PT) à Prefeitura de São Paulo. Ficará encarregado de "abrir portas" com os financiadores.

Para ajudar, o prefeito de Osasco (SP), Emidio de Souza, aliado de Palocci, foi convidado para assumir formalmente o cargo.

Palocci atuará como tesoureiro informal de Haddad em SP

Ex-ministro terá a missão de "abrir portas" para doadores; prefeito de Osasco seria o coordenador formal das finanças

Emidio de Souza tem bom relacionamento com Palocci e com o tesoureiro nacional do PT, João Vaccari Neto

Catia Seabra

BRASÍLIA - O ex-ministro da Casa Civil Antonio Palocci foi escalado para atuar, informalmente, na arrecadação da campanha de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo.

Segundo integrantes da coordenação do petista, Palocci irá "abrir portas" com os potenciais colaboradores.

Para ajudar na participação do ex-ministro, o prefeito de Osasco (SP), Emidio de Souza, foi convidado para assumir a coordenação de finanças do comitê eleitoral.

O convite foi formalizado pelo presidente estadual do PT, Edinho Silva, anteontem.

A afinidade com Palocci pesou para a escolha de Emidio. A ideia é que o ex-titular da Casa Civil aborde possíveis doadores e recomende Emidio como representante formal.

Além de Palocci, Emidio tem bom relacionamento com o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, que deve contribuir com Haddad. Em 2010, Emidio exerceu papel de interlocutor com o empresariado na campanha de Aloizio Mercadante ao governo paulista.

Segundo petistas, Emidio ainda não foi oficialmente convidado por Haddad, mas já admitiu que não poderia recusar um pedido de Lula.

Antes dele, Vaccari e o deputado José de Fillipi foram sondados. Fillipi queria trabalhar no programa, e Vaccari achou difícil compatibilizar essa função com a de tesoureiro do PT, segundo petistas.

Coordenador da campanha de Dilma, Palocci deixou o cargo após a Folha revelar sua evolução patrimonial.

Haddad

Em evento em São Paulo, Haddad alfinetou o ex-governador José Serra (PSDB): "Os políticos tradicionais são de dois tipos: aqueles que procuram fugir de compromissos e aqueles que assumem e não os cumprem". Em 2004, Serra assinou compromisso de que ficaria na Prefeitura de SP por todo o mandato.

Colaborou Uirá machado

FONTE: FOLHA DE S. PAULO