Correio Braziliense
As sabatinas não definirão o
resultado da eleição, apesar da enorme repercussão. Foram apenas os primeiros
compassos de uma campanha sujeita a denúncias, erros, improvisações e mudanças
de andamento
A frase “não existem notas erradas; algumas são apenas mais certas do que
outras — tudo depende da que vem depois”, também atribuída ao trompetista Miles
Davis, traduz com precisão a estética de Thelonious Monk, um dos grandes gênios
do jazz e autor de Round Midnight, Straight, No Chaser, Epistrophy, Blue Monk e
Misterioso, entre outros clássicos do gênero.
Em termos musicais, significa que uma nota não pode ser julgada isoladamente.
Uma dissonância aparentemente equivocada pode adquirir sentido conforme a frase
prossegue. A nota seguinte pode resolvê-la, reafirmá-la ou transformar o choque
inicial numa tensão deliberada. No jazz, sobretudo na improvisação, o valor de
cada som depende de sua relação com o acorde, o ritmo, o silêncio e as notas
que vêm antes e depois.
Dissonâncias
As entrevistas mostraram que escândalos, segurança e crise institucional ocupam
mais espaço no debate eleitoral do que os programas de governo. Cada candidato
precisou lidar com suas notas dissonantes e tentar resolvê-las. Lula foi
confrontado com o escândalo do INSS, as suspeitas envolvendo o filho Fábio Luís
e as relações do governo com o Congresso. Negou conhecer Roberta Luchsinger,
embora fotografias indiquem contatos anteriores.
Na economia, minimizou a dívida pública e apostou no crescimento do PIB.
Descartou privatizar os Correios e prometeu zerar a fila do INSS. Mostrou experiência
e o domínio sobre governo e políticas sociais. A fraqueza surgiu ao explicar
suspeitas que alcançam seu círculo familiar e político. Demonstrou irritação
com o pouco espaço para proposta e esteve muito perto de um desastre, porém sua
experiência evitou o pior.
Flávio Bolsonaro enfrentou uma sabatina igualmente defensiva. O ponto mais
delicado foi o financiamento do filme Dark Horse, sobre o pai, pelo banqueiro
Daniel Vorcaro. Tratou o financiamento como negócio privado, negou
contrapartidas e recusou-se a apresentar contratos, gastos e investidores. A
falta de transparência manteve aberta uma vulnerabilidade importante. Também
foi questionado sobre rachadinhas, milícias, urnas e tentativa de golpe.
Prometeu buscar a anistia de Jair Bolsonaro caso seja eleito. Na economia,
ajuste fiscal sem reduzir aposentadorias nem alterar a valorização do
salário-mínimo. Falou em cortar ministérios, cargos, desperdícios e fraudes,
além de renegociar as dívidas das famílias. Ao indicar Claudio Lottenberg para a
Saúde, tentou se afastar dos erros do pai durante a pandemia. Flávio foi
disciplinado e saiu-se melhor do que Lula no confronto com os entrevistadores.
Evitou explosões e respostas agressivas, mas não apresentou um projeto próprio
convincente.
O formato da Globo acabou favorecendo os demais concorrentes, menos
pressionados por escândalos de grande repercussão. Ronaldo Caiado procurou
ocupar o espaço da direita institucional, experiente e comprometida com a
ordem. Romeu Zema reiterou o discurso liberal de redução do Estado, combate aos
privilégios e endurecimento contra o crime.
Renan Santos foi o mais contundente e, também, o mais temerário. Ao defender a
fabricação de armas nucleares, apesar das restrições constitucionais e dos
compromissos internacionais do Brasil, transformou a busca por visibilidade
numa dissonância difícil de resolver. Escrevo antes da entrevista de Augusto
Cury, que vem mantendo o discurso moderado em defesa do moderno e procura se
apresentar como alternativa à polarização e ao radicalismo, ao contrário de
Renan.
Essas sabatinas não definirão o resultado da eleição, apesar da enorme
repercussão. Foram apenas os primeiros compassos de uma campanha sujeita a
denúncias, erros, improvisações e mudanças de andamento. Na política, como no
piano de Monk, uma declaração infeliz ou ação errada pode até ser fatal, mas
depende do que ainda virá depois. Numa campanha eleitoral, a diferença entre o
erro fatal e a improvisação bem-sucedida está na capacidade de reconhecer a
dissonância, administrar suas consequências e mesmo assim convencer o eleitor
de que, apesar de tudo, se é o melhor.

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